Alunos com necessidades especiais e

e a presença da mãe na sala de aula

Profª. Ms. Joana Maria Rodrigues Di Santo

 

Podemos dizer que inclusão promove subversão, uma vez que toda a equipe escolar é levada a lidar com o imprevisto; a subverter a ordem, a dinâmica previsível da sala de aula e possibilitar que os demais alunos convivam com crianças com necessidades especiais e ampliem a tolerância ao se relacionar com o diferente.

De acordo com a lei, toda e qualquer criança tem o direito de freqüentar uma escola regular, conviver com as demais crianças, professores e funcionários dessa comunidade, socializando-se e aprendendo aquilo que for capaz de absorver nesse momento. Crianças com distúrbios globais do desenvolvimento, sobretudo, são muito beneficiadas quando freqüentam uma escola regular, onde terão condições propícias para construir uma posição subjetiva que dê conta da alteridade, uma vez que é função da escola colocar limites, interditar, mostrar a lei da sociedade. E, dessa forma, estará subsidiando melhor qualidade de vida a essas pessoas.

No entanto, com o ingresso das crianças com necessidades especiais nas escolas, muitos professores estão tendo que se haver com procedimentos que são novos e, da mesma forma que os pais e as crianças, ficam ansiosos e confusos, sobretudo neste momento inicial. Muitos declaram abertamente que não têm formação para lidar com as diferenças em sala de aula e que também não dispõem de preparo emocional para dar conta da classe e, concomitantemente, atender uma criança diferente, junto com os demais, que lhe solicita atenção a todo momento e perturba o ambiente educativo.

Mas cada caso é único e as reações de cada elemento envolvido podem variar bastante, seja em relação às manifestações emocionais, seja quanto ao tempo necessário para se efetivar o processo. Há crianças que, na escola, apresentam comportamentos distintos dos que normalmente revelam em seu ambiente familiar, como alterações do apetite, retorno a fases anteriores do desenvolvimento, como por exemplo, voltar a urinar na cama ou a evacuar na roupa. Ou, ainda, podem adoecer, isolar-se dos demais e criar dependência da chupeta, de um cobertor, de um brinquedo. Ou agredir as pessoas da escola, sejam crianças ou adultos, muito mais como uma defesa à nova e desconhecida situação do que com a intenção de ferir o semelhante.

As escolas precisam ter flexibilidade diante dessas singularidades, ajudando os pais e as crianças nestes momentos. Para tanto, o ponto inicial deve estar na formação em serviço de seus profissionais, que precisam compreender os novos paradigmas da educação inclusiva. Também precisam aliar à formação o bom senso para perceber os casos que ainda não estão “prontos” para a inclusão na sala de aula e devem permanecer por mais um período sob cuidados de especialistas que promovem diversas situações de inclusão social, ao mesmo tempo em que atendem / preparam suas famílias. São sábias as palavras de Maria Cristina Kupfer a respeito de que não se deve promover a inclusão a qualquer custo.

Para ilustrar, citamos o caso de João. A equipe escolar da escola púbica onde João estuda, declara que esse aluno, com distúrbios globais do desenvolvimento, não gosta da escola, nem da equipe escolar e que, deixar de ir às aulas seria um prêmio para ele. Sua mãe permanece na classe, com ele, pois a equipe escolar assim o quer e acha que, nesse momento, não tem condições de acolhê-lo sozinho. Ele não está participando das atividades; é agressivo: ameaça e cumpre. Por exemplo, se a mãe não estiver por perto para contê-lo ele agride os colegas da classe: joga material na cabeça de um aluno, chuta outro, dá soco nas pessoas sem que elas esperem, pois é muito rápido em sua agressividade.

Se a mãe estiver ao lado dele ele participa da aula, faz as atividades, caso contrário, ele fecha o caderno e não faz nada até que ela volte. Ele precisa do eco das palavras da mãe para produzir. E, dessa forma, o universo da escola é apenas um pano de fundo para a repetição da situação familiar, pois as crianças sabem muito bem como capturar a mãe em seu mundo. Se a mãe estiver com ele, o aluno não tomará ninguém como figura de autoridade. Nesse caso, mãe e aluno precisam de atendimento especializado e a equipe escolar precisa refletir, junto com os profissionais que atendem João, se ele está em condições, neste preciso momento, de freqüentar sozinho as aulas, bem como, quanto tempo ele pode agüentar essa situação e, assim, talvez resolver que ele ficará apenas uma hora diária em sala de aula, até que demonstre que já pode ir aumentando um pouco mais, e paulatinamente, essa carga horária. Se esta for a decisão tomada, provavelmente João adquirirá as competências necessárias para permanecer na escola sem prejudicar o andamento das aulas, e os demais alunos aprenderão a conviver com as diferenças e desenvolver a tolerância, entre outras habilidades tão necessárias na sociedade atual.

Em outro exemplo, o diretor de uma escola pública fez uma experiência de chamar M., um aluno de inclusão, à responsabilidade por seus atos, levando-o sozinho à diretoria para conversar sobre o fato de ele ficar o tempo todo falando nomes feios na escola.  M. picou todos os papéis que estavam sobre a mesa e quebrou um CD que lá estava. Ele agrediu o diretor aos chutes, bem como a todas as pessoas que foram ajudar.

Explicação: Ele usa de toda sua esperteza para que a mãe fique na escola junto dele, senão ele “detona”. No entanto, a idéia de ir à escola é uma ferramenta terapêutica para que a criança fique longe da mãe por um tempo.

Se a mãe permanece na sala de aula este instrumento terapêutico estará atuando, mas de forma muito incipiente, inclusive porque revela que a mãe também não consegue autorizar a escola a ficar num lugar de autoridade com esse menino. A mãe até entende que a separação é boa, mas a escola não está sabendo fazer isso (e acha que não é sua função).

Essa colagem na mãe, essa presença constante dela, acaba destituindo a escola de sua função.

Ao freqüentar a escola a criança vivencia coisas que não estão no universo de sua casa. Quando a escola acha necessário que a mãe fique junto com a criança na sala de aula, a equipe escolar percebe, também, que não há avanço em termos do que se deseja na inclusão desse aluno, ou que o avanço é insignificante comparado às energias empregadas.

Há que se trabalhar a mãe para que ela institua a escola num lugar de autoridade, pois M. está colado na mãe, que determina tudo para ele, dizendo-lhe o que é certo e o que é errado, de forma que ninguém mais pode exercer essa função. Isso faz até pensar que talvez haja algo de júbilo nessa mãe porque ninguém pode dar conta dessa criança, a não ser ela. O fato é que a escola acolhe a rebeldia dele, pois, nas entrelinhas se percebe: quem foi que disse que a escola é o melhor para ele?

Para essa criança que está colada no outro é preciso ajudá-la a construir uma independência, fazendo algo mais violento, no sentido de ir marcando coisas para que ela identifique: isso pode, isso não pode. E a escola é o local mais adequado.

No entanto, M. fica irado quando percebe que a escola o está separando da mãe e reage com rebeldia, confundindo a equipe escolar, que se questiona se essa operação de corte não é muito violenta. Em reflexão conjunta sobre o caso, os psicanalistas colocam que esta é uma função paterna. O pai tem que mostrar ao filho que ele pode ter qualquer mulher, menos a mãe, pois essa é sua mulher. Assim o pai interdita a ação incestuosa. (O filho perde a mãe, mas pode ter todas as outras mulheres).

Equipe escolar fala que, nessas circunstâncias, vêm à tona todas as questões pessoais de cada membro envolvido; suas convicções e que, talvez, a escola encontre dificuldade porque não obteve dessa mãe a autorização para falar desse lugar. Só é possível a escola atuar como interditor se a mãe a autorizar a falar desse lugar. E essa é uma mãe que não autoriza o pai a fazer nada.

Contribuindo para maior entendimento da ação que se espera da escola, psicanalistas dizem que esta precisa informar essa mãe que se ela não autorizar a escola, o caso fica estagnado, sem progresso, pois na escola está se repetindo o que ocorre em casa.

Essa é uma operação psíquica; é lógica. No momento em que a mãe de M. transferir para a escola a autoridade, ele obedecerá a escola, uma vez que os pais “informam” os filhos de sua desconfiança. Quando os pais matriculam seu filho na escola, transferem para a escola a autoridade e esperam que na escola ele aprenda muita coisa. Se ele não aprender, a escola vai desiludir os pais que, diante da criança, destituem o professor de sua função, deixando claro para a criança que apenas eles (ou um deles, no caso mais comum, a mãe) conseguem que a criança obedeça e produza.

O que se apresenta como perspectiva de trabalho?

Existe algo que tem que ser trabalhado pelos especialistas com a mãe para que ela possa se mover um pouco, mas também há algo que a escola precisa assumir, pois essa separação vai ser dolorosa, mas não é linear e vai passar. Essa mãe precisa adquirir confiança na equipe escolar, acreditando que esses profissionais estão preparados para assumir tal compromisso com ela e com seu filho. Se a escola não estiver atenta às manobras inconscientes da mãe e propiciar a separação de M. o aluno sairá da escola, mas deixará a fama de que a escola não é boa. Além do mais, os profissionais envolvidos perderão a chance de “salvar” esse garoto, conseguindo essa descolagem e promovendo sua paulatina autonomia, a ponto de o aluno poder dizer/mostrar à mãe que a escola é lugar dele e que a mãe não pode invadir esse espaço.

Para o aluno a escola apresenta múltiplas oportunidades de circulação discursiva, bem como diferentes situações organizadas didaticamente com suas alternâncias e giro discursivo: num momento se realiza uma atividade e, depois, outra, com diferenças de alternância que produzem bordas, conforme esclarecimentos de psicanalistas, que continuam o discurso dizendo que a escola funciona como um terceiro elemento, porque a mãe e a criança estavam colados. Com a escola, a criança começa a conviver com outras crianças, professores e funcionários, realizando atividades específicas.

Nos casos em que a mãe fica na sala de aula a escola constata que não há progressos,  ou que estes são mínimos, pois a questão está fora da situação discursiva do ambiente escolar. No entanto, a escola deve portar a lei. Um outro dentro da sala de aula, que ajuda e que atrapalha, será que não frustra mais? Inclusive porque os alunos da classe que recebe uma pessoa para ajudar não se sentem responsabilizados pelo processo.

Para concluir, devemos estar atentos aos ensinamentos de Freud, que adverte ser praticamente impossível que um mesmo método educativo possa ser bom para todos, levando-se em conta que cada sujeito é único e sua relação com o saber é singular. Para Freud, educar abarca reconhecer a individualidade constitucional da criança, inferir a partir de pequenos indícios o que está se passando na mente imatura desta e dar-lhe a quantidade exata de amor e, ao mesmo tempo, manter um grau eficaz de autoridade.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. Obras Completas. Tradução direta do alemão por Luis Lopez-Ballesteros. Madrid: Biblioteca Nueva, 1995.

VOLTOLINI, R. (2001). Do contrato pedagógico ao ato analítico: Contribuições à discussão da questão do mal-estar na educação. Estilos da Clínica: Revista sobre a Infância com Problemas, VI .

-- --------   (2004).  Psicanálise e inclusão escolar: direito ou sintoma?  Estilos da Clínica: Revista da Infância com Problemas,  XVI.

Reuniões Abertas do Grupo Ponte, no Lugar de Vida – Instituto de Psicologia da USP, com professores e demais profissionais que trabalham com inclusão, durante os anos de 2004 e 2005.

JOANA MARIA RODRIGUES DI SANTO é Mestre em Educação, Pedagoga, Psicopedagoga, Professora universitária, com ampla experiência em Educação Básica, Diretora do Centro de Referência Educacional.

 

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atualizado/setembro/2007