|
Podemos dizer que inclusão promove subversão, uma vez que
toda a equipe escolar é levada a lidar com o imprevisto; a subverter
a ordem, a dinâmica previsível da sala de aula e possibilitar que os
demais alunos convivam com crianças com necessidades especiais e
ampliem a tolerância ao se relacionar com o diferente.
De acordo com a lei, toda e qualquer criança tem o direito
de freqüentar uma escola regular, conviver com as demais crianças,
professores e funcionários dessa comunidade, socializando-se e
aprendendo aquilo que for capaz de absorver nesse momento. Crianças
com distúrbios globais do desenvolvimento, sobretudo, são muito
beneficiadas quando freqüentam uma escola regular, onde terão
condições propícias para construir uma posição subjetiva que dê
conta da alteridade, uma vez que é função da escola colocar limites,
interditar, mostrar a lei da sociedade. E, dessa forma, estará
subsidiando melhor qualidade de vida a essas pessoas.
No entanto, com o ingresso das crianças com necessidades
especiais nas escolas, muitos professores estão tendo que se haver
com procedimentos que são novos e, da mesma forma que os pais e as
crianças, ficam ansiosos e confusos, sobretudo neste momento
inicial. Muitos declaram abertamente que não têm formação para lidar
com as diferenças em sala de aula e que também não dispõem de
preparo emocional para dar conta da classe e, concomitantemente,
atender uma criança diferente, junto com os demais, que lhe solicita
atenção a todo momento e perturba o ambiente educativo.
Mas cada caso é único e as reações de cada elemento
envolvido podem variar bastante, seja em relação às manifestações
emocionais, seja quanto ao tempo necessário para se efetivar o
processo. Há crianças que, na escola, apresentam comportamentos
distintos dos que normalmente revelam em seu ambiente familiar, como
alterações do apetite, retorno a fases anteriores do
desenvolvimento, como por exemplo, voltar a urinar na cama ou a
evacuar na roupa. Ou, ainda, podem adoecer, isolar-se dos demais e
criar dependência da chupeta, de um cobertor, de um brinquedo. Ou
agredir as pessoas da escola, sejam crianças ou adultos, muito mais
como uma defesa à nova e desconhecida situação do que com a intenção
de ferir o semelhante.
As escolas precisam ter flexibilidade diante dessas
singularidades, ajudando os pais e as crianças nestes momentos. Para
tanto, o ponto inicial deve estar na formação em serviço de seus
profissionais, que precisam compreender os novos paradigmas da
educação inclusiva. Também precisam aliar à formação o bom senso
para perceber os casos que ainda não estão “prontos” para a inclusão
na sala de aula e devem permanecer por mais um período sob cuidados
de especialistas que promovem diversas situações de inclusão social,
ao mesmo tempo em que atendem / preparam suas famílias. São sábias
as palavras de Maria Cristina Kupfer a respeito de que não se deve
promover a inclusão a qualquer custo.
Para ilustrar, citamos o caso de João. A equipe escolar da
escola púbica onde João estuda, declara que esse aluno, com
distúrbios globais do desenvolvimento, não gosta da escola, nem da
equipe escolar e que, deixar de ir às aulas seria um prêmio para
ele. Sua mãe permanece na classe, com ele, pois a equipe escolar
assim o quer e acha que, nesse momento, não tem condições de
acolhê-lo sozinho. Ele não está participando das atividades; é
agressivo: ameaça e cumpre. Por exemplo, se a mãe não estiver por
perto para contê-lo ele agride os colegas da classe: joga material
na cabeça de um aluno, chuta outro, dá soco nas pessoas sem que elas
esperem, pois é muito rápido em sua agressividade.
Se a mãe estiver ao lado dele ele participa da aula, faz as
atividades, caso contrário, ele fecha o caderno e não faz nada até
que ela volte. Ele precisa do eco das palavras da mãe para produzir.
E, dessa forma, o universo da escola é apenas um pano de fundo para
a repetição da situação familiar, pois as crianças sabem muito bem
como capturar a mãe em seu mundo. Se a mãe estiver com ele, o aluno
não tomará ninguém como figura de autoridade. Nesse caso, mãe e
aluno precisam de atendimento especializado e a equipe escolar
precisa refletir, junto com os profissionais que atendem João, se
ele está em condições, neste preciso momento, de freqüentar sozinho
as aulas, bem como, quanto tempo ele pode agüentar essa situação e,
assim, talvez resolver que ele ficará apenas uma hora diária em sala
de aula, até que demonstre que já pode ir aumentando um pouco mais,
e paulatinamente, essa carga horária. Se esta for a decisão tomada,
provavelmente João adquirirá as competências necessárias para
permanecer na escola sem prejudicar o andamento das aulas, e os
demais alunos aprenderão a conviver com as diferenças e desenvolver
a tolerância, entre outras habilidades tão necessárias na sociedade
atual.
Em outro exemplo, o diretor de uma escola pública fez uma
experiência de chamar M., um aluno de inclusão, à responsabilidade
por seus atos, levando-o sozinho à diretoria para conversar sobre o
fato de ele ficar o tempo todo falando nomes feios na escola. M.
picou todos os papéis que estavam sobre a mesa e quebrou um CD que
lá estava. Ele agrediu o diretor aos chutes, bem como a todas as
pessoas que foram ajudar.
Explicação: Ele usa de toda sua esperteza para que a mãe
fique na escola junto dele, senão ele “detona”. No entanto,
a idéia de ir à escola é uma ferramenta
terapêutica para que a criança fique longe da mãe por um tempo.
Se a mãe permanece na sala de aula este instrumento
terapêutico estará atuando, mas de forma muito incipiente, inclusive
porque revela que a mãe também não consegue autorizar a escola a
ficar num lugar de autoridade com esse menino. A mãe até entende que
a separação é boa, mas a escola não está sabendo fazer isso (e acha
que não é sua função).
Essa colagem na mãe, essa presença constante dela, acaba
destituindo a escola de sua função.
Ao freqüentar a escola a criança vivencia coisas que não
estão no universo de sua casa. Quando a escola acha necessário que a
mãe fique junto com a criança na sala de aula, a equipe escolar
percebe, também, que não há avanço em termos do que se deseja na
inclusão desse aluno, ou que o avanço é insignificante comparado às
energias empregadas.
Há que se trabalhar a mãe para que ela institua a escola
num lugar de autoridade, pois M. está colado na mãe, que determina
tudo para ele, dizendo-lhe o que é certo e o que é errado, de forma
que ninguém mais pode exercer essa função. Isso faz até pensar que
talvez haja algo de júbilo nessa mãe porque ninguém pode dar conta
dessa criança, a não ser ela. O fato é que a escola acolhe a
rebeldia dele, pois, nas entrelinhas se percebe: quem foi que disse
que a escola é o melhor para ele?
Para essa criança que está colada no outro é preciso
ajudá-la a construir uma independência, fazendo algo mais violento,
no sentido de ir marcando coisas para que ela identifique: isso
pode, isso não pode. E a escola é o local mais adequado.
No entanto, M. fica irado quando percebe que a escola o
está separando da mãe e reage com rebeldia, confundindo a equipe
escolar, que se questiona se essa operação de corte não é muito
violenta. Em reflexão conjunta sobre o caso, os psicanalistas
colocam que esta é uma função paterna. O pai tem que mostrar ao
filho que ele pode ter qualquer mulher, menos a mãe, pois essa é sua
mulher. Assim o pai interdita a ação incestuosa. (O filho perde a
mãe, mas pode ter todas as outras mulheres).
Equipe escolar fala que, nessas circunstâncias, vêm à tona
todas as questões pessoais de cada membro envolvido; suas convicções
e que, talvez, a escola encontre dificuldade porque não obteve dessa
mãe a autorização para falar desse lugar. Só é possível a escola
atuar como interditor se a mãe a autorizar a falar desse lugar. E
essa é uma mãe que não autoriza o pai a fazer nada.
Contribuindo para maior entendimento da ação que se espera
da escola, psicanalistas dizem que esta precisa informar essa mãe
que se ela não autorizar a escola, o caso fica estagnado, sem
progresso, pois na escola está se repetindo o que ocorre em casa.
Essa é uma operação psíquica; é lógica. No momento em que a
mãe de M. transferir para a escola a autoridade, ele obedecerá a
escola, uma vez que os pais “informam” os filhos de sua
desconfiança. Quando os pais matriculam seu filho na escola,
transferem para a escola a autoridade e esperam que na escola ele
aprenda muita coisa. Se ele não aprender, a escola vai desiludir os
pais que, diante da criança, destituem o professor de sua função,
deixando claro para a criança que apenas eles (ou um deles, no caso
mais comum, a mãe) conseguem que a criança obedeça e produza.
O que se apresenta como perspectiva de trabalho?
Existe algo que tem que ser trabalhado pelos especialistas
com a mãe para que ela possa se mover um pouco, mas também há algo
que a escola precisa assumir, pois essa separação vai ser dolorosa,
mas não é linear e vai passar. Essa mãe precisa adquirir confiança
na equipe escolar, acreditando que esses profissionais estão
preparados para assumir tal compromisso com ela e com seu filho. Se
a escola não estiver atenta às manobras inconscientes da mãe e
propiciar a separação de M. o aluno sairá da escola, mas deixará a
fama de que a escola não é boa. Além do mais, os profissionais
envolvidos perderão a chance de “salvar” esse garoto, conseguindo
essa descolagem e promovendo sua paulatina autonomia, a ponto de o
aluno poder dizer/mostrar à mãe que a escola é lugar dele e que a
mãe não pode invadir esse espaço.
Para o aluno a escola apresenta múltiplas oportunidades de
circulação discursiva, bem como diferentes situações organizadas
didaticamente com suas alternâncias e giro discursivo: num momento
se realiza uma atividade e, depois, outra, com diferenças de
alternância que produzem bordas, conforme esclarecimentos de
psicanalistas, que continuam o discurso dizendo que a escola
funciona como um terceiro elemento, porque a mãe e a criança estavam
colados. Com a escola, a criança começa a conviver com outras
crianças, professores e funcionários, realizando atividades
específicas.
Nos casos em que a mãe fica na sala de aula a escola
constata que não há progressos, ou que estes são mínimos, pois a
questão está fora da situação discursiva do ambiente escolar. No
entanto, a escola deve portar a lei. Um outro dentro da sala de
aula, que ajuda e que atrapalha, será que não frustra mais?
Inclusive porque os alunos da classe que recebe uma pessoa para
ajudar não se sentem responsabilizados pelo processo.
Para concluir, devemos estar atentos aos ensinamentos de
Freud, que adverte ser praticamente impossível que um mesmo método
educativo possa ser bom para todos, levando-se em conta que cada
sujeito é único e sua relação com o saber é singular. Para Freud,
educar abarca reconhecer a individualidade constitucional da
criança, inferir a partir de pequenos indícios o que está se
passando na mente imatura desta e dar-lhe a quantidade exata de amor
e, ao mesmo tempo, manter um grau eficaz de autoridade.
Referências Bibliográficas
FREUD, Sigmund.
Obras Completas. Tradução direta do alemão por Luis
Lopez-Ballesteros. Madrid: Biblioteca Nueva, 1995.
VOLTOLINI, R. (2001). Do contrato pedagógico ao ato
analítico: Contribuições à discussão da questão do mal-estar na
educação. Estilos da Clínica: Revista sobre a Infância com
Problemas, VI .
-- -------- (2004). Psicanálise e inclusão
escolar: direito ou sintoma? Estilos da Clínica: Revista da
Infância com Problemas, XVI.
Reuniões Abertas do Grupo Ponte, no Lugar de Vida –
Instituto de Psicologia da USP, com professores e demais
profissionais que trabalham com inclusão, durante os anos de 2004 e
2005.
JOANA MARIA RODRIGUES DI SANTO
é Mestre em Educação, Pedagoga, Psicopedagoga, Professora
universitária, com ampla experiência em Educação Básica,
Diretora do Centro de Referência Educacional.

|