Alfabetização em questão

Resenha da obra: “ALFABETIZAÇÃO EM QUESTÃO”,  de Sílvia M. Gasparian Colello

Por Simone Roskosz

 

       Neste livro, a autora não se propõe a dar respostas e sim lança-se a um diálogo com o leitor. Trata o tema da alfabetização situando-o no plano político, pedagógico e psicológico; contextualiza o processo, propõe-se a falar sobre o assunto.

         Quando penso em minha atuação enquanto professora, aí sim me questiono: será que vou ser diferente desta maioria que a autora cita em seu livro: professores alienados, desinteressados, abafados pelo sistema?

         Hoje percebo quão grande é a dimensão da alfabetização. Trata-se de um processo que vai além do simples decifrar letras. Ser alfabetizado é ser inserido numa sociedade de forma a poder atuar sobre ela e com ela.

         Durante tanto tempo, estivemos presos a exercícios de memorização, coordenação motora, e agora, com Vygotsky, aprendemos que “o principal obstáculo é a qualidade abstrata da escrita, e não o subdesenvolvimento de pequenos músculos ou quaisquer outros obstáculos mecânicos” (pág. 24). Ainda não havia me dado conta desta dimensão psicológica do ato de aprender. De forma ignorante, supunha que alfabetizar se restringia ao baixo letramento; não extrapolava o objeto (a escrita), chegando à sua dimensão subjetiva e abstrata.

A autora amplia os objetivos da alfabetização, colocando-os numa esfera mais formativa do que propriamente instrucional ou técnica, e nos apresenta diferentes frentes de trabalho no processo de alfabetização, que são: a formação do falante, do produtor de texto, do intérprete, do leitor, do revisor de texto, do estudante, do pesquisador, do ser pensante, do ser social. E completa: “O esforço de compreender e valorizar o momento da alfabetização, redefinindo seu significado no conjunto das conquistas infantis, é o melhor aval para combater os vícios de uma pedagogia inadequada, insuficiente e estreita.” (pág. 100).

         Enquanto prevalecerem nas escolas professores com postura autoritária, detentores de uma verdade pretensamente absoluta e inquestionável, que culpam o aluno por não se dedicar o suficiente, que desconsideram o aporte cognitivo e o interesse do aluno e não estão em sintonia com ele; enquanto a escola, por sua vez, der ênfase ao saber artificial e priorizar o produto sobre o processo, o resultado será sempre o fracasso escolar, traduzido nos altos índices auferidos de evasão, repetência, analfabetismo e semi-analfabetismo.

         Como saída - mas sem a pretensão de ser a única -, a autora nos mostra as origens e descaminhos da alfabetização construtivista, onde se deve reassumir o controle da ação educativa e enfrentar os desafios de uma pedagogia mais libertadora:

         Em primeiro lugar, devemos considerar a necessidade de melhor conhecer o aluno e seus processos cognitivos próprios, para melhor adaptar a ação pedagógica às particularidades, significados e necessidades daquele que aprende.

         Em segundo lugar, impõe-se a premência de promover um clima pedagógico facilitador do processo de aprendizagem, sobretudo pela alimentação da curiosidade característica do ser humano, que se traduz no gosto pelo saber e na busca do conhecimento.

         Finalmente, devem-se transformar os princípios abaixo em interferências práticas estimuladoras da aprendizagem, a saber:

• Professor problematizador - o saber doado cede espaço a um “saber efetivamente conquistado”;

• Lançar mão de experiências diversificadas, a fim de valorizar a ação construtiva;

• Estimular as crianças a descobrir caminhos - o professor não deve pretender ser o dono da verdade;

• Aproveitar-se da dinâmica proporcionada pela heterogeneidade do grupo;

• Rever o modo de conduzir as atividades, sua postura de educador - como um pesquisador da educação que é, ele deve ser construtivista consigo mesmo e com seu trabalho.

A Linguagem Infantil

         A maior parte das escolas nega o dialeto, a cultura, o saber popular da criança, e direciona suas atividades objetivando a linguagem escrita culta e formal. A criança se vê obrigada a abandonar seu universo em nome de algo que não conhece e com o qual não tem afinidade.

         Além de não se levar em conta o conhecimento trazido pela criança, seus comportamentos motores – uma face da linguagem – também são ignorados. Nossa cultura biparte em corpo e mente a totalidade do organismo e supervaloriza as atividades intelectuais, em detrimento das físicas. O produto de tal postura é o desprezo por aquilo que o mundo infantil tem de mais evidente e característico: a atividade, a necessidade de movimento e de vivência corporal. Este bloqueio da ação é a própria negação da cultura infantil, um verdadeiro entrave ao desenvolvimento afetivo, social e cognitivo.

         O movimento, o jogo, a ação corporal e a vivência das sensações constituem um elo entre o eu, o mundo e os outros, sendo este o primeiro plano de um fazer mental e expressivo. Durante toda a infância, atividades corporais, movimentos específicos, brincadeiras constituem meios insubstituíveis para o desenvolvimento pessoal nas esferas motora, afetiva e cognitiva.

Conclusão

       É incontestável a importância desta obra para a formação do pedagogo. A autora parte de uma análise histórica para mostrar que a língua, na verdade, foi sempre uma arma, uma imposição da elite dominante. Temos uma linguagem culta aceita por todos, e são discriminados aqueles que não a dominam.

         Numa avaliação psicológica, apresenta-nos momentos pelos quais todos passamos quando iniciamos nosso contato com a escrita, que são: a escrita pré-silábica, a silábica, a silábico-alfabética e a alfabética. Mostra-nos também que comunicação não é só linguagem verbal, e abre o leque para a comunicação que se utiliza de uma linguagem total.

         Mais adiante, a autora faz uma análise social do processo de alfabetização – processo que, afirma, não leva em conta os diferentes pontos de partida entre as crianças: suas condições sócio-econômicas, suas raízes, seus valores, seu meio e suas possibilidades sociais.

         As frentes de trabalho objetivando o ser autônomo, que não só consegue ler mas fazer uso da linguagem, se impor, ser alguém, são um dos caminhos apontados na obra para orientar todo aquele que bem quer trabalhar. Por isso, e não só por isso, é um livro maravilhoso – o conhecimento nele contido nos acende luzes sobre a seríssima questão da alfabetização.

Trabalho elaborado na disciplina Fundamentos da Alfabetização, no 3º semestre de Pedagogia da Uni Sant`Anna, sob a orientação da Profª Joana Maria Rodrigues Di Santo.

 

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atualizado/setembro/2007