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Neste livro, a autora não se propõe a dar respostas e sim lança-se a
um diálogo com o leitor. Trata o tema da alfabetização situando-o no
plano político, pedagógico e psicológico; contextualiza o processo,
propõe-se a falar sobre o assunto.
Quando penso em minha atuação enquanto professora, aí sim me
questiono: será que vou ser diferente desta maioria que a autora
cita em seu livro: professores alienados, desinteressados, abafados
pelo sistema?
Hoje
percebo quão grande é a dimensão da alfabetização. Trata-se de um
processo que vai além do simples decifrar letras. Ser alfabetizado é
ser inserido numa sociedade de forma a poder atuar sobre ela e com
ela.
Durante tanto tempo, estivemos presos a exercícios de memorização,
coordenação motora, e agora, com Vygotsky, aprendemos que “o
principal obstáculo é a qualidade abstrata da escrita, e não o
subdesenvolvimento de pequenos músculos ou quaisquer outros
obstáculos mecânicos” (pág. 24). Ainda não havia me dado conta desta
dimensão psicológica do ato de aprender. De forma ignorante, supunha
que alfabetizar se restringia ao baixo letramento; não extrapolava o
objeto (a escrita), chegando à sua dimensão subjetiva e abstrata.

A autora
amplia os objetivos da alfabetização, colocando-os numa esfera mais
formativa do que propriamente instrucional ou técnica, e nos
apresenta diferentes frentes de trabalho no processo de
alfabetização, que são: a formação do falante, do produtor de texto,
do intérprete, do leitor, do revisor de texto, do estudante, do
pesquisador, do ser pensante, do ser social. E completa: “O esforço
de compreender e valorizar o momento da alfabetização, redefinindo
seu significado no conjunto das conquistas infantis, é o melhor aval
para combater os vícios de uma pedagogia inadequada, insuficiente e
estreita.” (pág. 100).
Enquanto prevalecerem nas escolas professores com postura
autoritária, detentores de uma verdade pretensamente absoluta e
inquestionável, que culpam o aluno por não se dedicar o suficiente,
que desconsideram o aporte cognitivo e o interesse do aluno e não
estão em sintonia com ele; enquanto a escola, por sua vez, der
ênfase ao saber artificial e priorizar o produto sobre o processo, o
resultado será sempre o fracasso escolar, traduzido nos altos
índices auferidos de evasão, repetência, analfabetismo e
semi-analfabetismo.
Como
saída - mas sem a pretensão de ser a única -, a autora nos mostra as
origens e descaminhos da alfabetização construtivista, onde se deve
reassumir o controle da ação educativa e enfrentar os desafios de
uma pedagogia mais libertadora:
Em
primeiro lugar, devemos considerar a necessidade de melhor conhecer
o aluno e seus processos cognitivos próprios, para melhor adaptar a
ação pedagógica às particularidades, significados e necessidades
daquele que aprende.
Em
segundo lugar, impõe-se a premência de promover um clima pedagógico
facilitador do processo de aprendizagem, sobretudo pela alimentação
da curiosidade característica do ser humano, que se traduz no gosto
pelo saber e na busca do conhecimento.
Finalmente, devem-se transformar os princípios abaixo em
interferências práticas estimuladoras da aprendizagem, a saber:
• Professor
problematizador - o saber doado cede espaço a um “saber efetivamente
conquistado”;
• Lançar mão
de experiências diversificadas, a fim de valorizar a ação
construtiva;
• Estimular as
crianças a descobrir caminhos - o professor não deve pretender ser o
dono da verdade;
•
Aproveitar-se da dinâmica proporcionada pela heterogeneidade do
grupo;
• Rever o modo
de conduzir as atividades, sua postura de educador - como um
pesquisador da educação que é, ele deve ser construtivista consigo
mesmo e com seu trabalho.
A Linguagem
Infantil
A maior parte das escolas nega o dialeto, a cultura, o saber popular
da criança, e direciona suas atividades objetivando a linguagem
escrita culta e formal. A criança se vê obrigada a abandonar seu
universo em nome de algo que não conhece e com o qual não tem
afinidade.
Além
de não se levar em conta o conhecimento trazido pela criança, seus
comportamentos motores – uma face da linguagem – também são
ignorados. Nossa cultura biparte em corpo e mente a totalidade do
organismo e supervaloriza as atividades intelectuais, em detrimento
das físicas. O produto de tal postura é o desprezo por aquilo que o
mundo infantil tem de mais evidente e característico: a atividade, a
necessidade de movimento e de vivência corporal. Este bloqueio da
ação é a própria negação da cultura infantil, um verdadeiro entrave
ao desenvolvimento afetivo, social e cognitivo.
O
movimento, o jogo, a ação corporal e a vivência das sensações
constituem um elo entre o eu, o mundo e os outros, sendo este o
primeiro plano de um fazer mental e expressivo. Durante toda a
infância, atividades corporais, movimentos específicos, brincadeiras
constituem meios insubstituíveis para o desenvolvimento pessoal nas
esferas motora, afetiva e cognitiva.
Conclusão
É incontestável a importância desta obra para a formação do
pedagogo. A autora parte de uma análise histórica para mostrar que a
língua, na verdade, foi sempre uma arma, uma imposição da elite
dominante. Temos uma linguagem culta aceita por todos, e são
discriminados aqueles que não a dominam.
Numa
avaliação psicológica, apresenta-nos momentos pelos quais todos
passamos quando iniciamos nosso contato com a escrita, que são: a
escrita pré-silábica, a silábica, a silábico-alfabética e a
alfabética. Mostra-nos também que comunicação não é só linguagem
verbal, e abre o leque para a comunicação que se utiliza de uma
linguagem total.
Mais
adiante, a autora faz uma análise social do processo de
alfabetização – processo que, afirma, não leva em conta os
diferentes pontos de partida entre as crianças: suas condições
sócio-econômicas, suas raízes, seus valores, seu meio e suas
possibilidades sociais.
As
frentes de trabalho objetivando o ser autônomo, que não só consegue
ler mas fazer uso da linguagem, se impor, ser alguém, são um dos
caminhos apontados na obra para orientar todo aquele que bem quer
trabalhar. Por isso, e não só por isso, é um livro maravilhoso – o
conhecimento nele contido nos acende luzes sobre a seríssima questão
da alfabetização.
Trabalho elaborado na disciplina Fundamentos da Alfabetização, no 3º
semestre de Pedagogia da Uni Sant`Anna, sob a orientação da Profª
Joana Maria Rodrigues Di Santo.
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