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Após as pesquisas de Emilia Ferreiro e Ana Teberosk sobre a
psicogênese da língua escrita, ficou claro que a capacidade de ler e
escrever não depende exclusivamente da habilidade que o
alfabetizando apresente de “somar pedaços de escrita”, e sim, antes
disso, de compreender como funciona a estrutura da língua e a forma
como é utilizada na sociedade.
Magda Soares diz que, num sentido amplo, o que poderíamos
chamar de acesso ao mundo da escrita é o processo de um sujeito
entrar nesse mundo, o que ocorre basicamente por duas vias: uma, por
meio do aprendizado de uma técnica, ou seja, quando o educando
aprende a ler e a escrever relacionando sons com letras, fonemas com
grafemas, para codificar e decodificar. Esta via prioriza o domínio
do código convencional da leitura e da escrita, com base na teoria
empirista, que historicamente é a que mais tem influenciado as
representações sobre o ato de ensinar e o de aprender,
expressando-se em um modelo de aprendizagem conhecido como de
“estímulo-resposta”.
Decorrentes
da proposta didática de alfabetização por meio da aquisição de uma
técnica (tradicional), estão concepções como a de que ler é aprender
a identificar letras, sílabas, palavras e frases para depois
conseguir decifrar curtos e simples textos escolares específicos;
ler, no período da alfabetização, consiste em codificar e
decodificar letras e sons; o aluno só consegue ler depois de dominar
a técnica da leitura e da escrita, quando, então, passa a ter
contato com textos reais e com a linguagem utilizada cotidianamente;
o alfabetizando precisa memorizar e fixar informações, das mais
simples para as mais complexas, que se vão sobrepondo e acumulando
na composição das palavras, que têm um fim em si mesmas; o
planejamento não precisa ser flexível, podendo o professor utilizar
o mesmo em todos os anos e em qualquer classe, que deve ser
homogênea para facilitar o trabalho do docente, detentor do
conhecimento, que corrige rigorosamente todas as atividades, a fim
de evitar que o erro seja fixado.
Isso pode ser constatado através das tradicionais
cartilhas, que na grande maioria utilizam a silabação, embora
proclamem lançar mão do método misto. Partem da memorização das
vogais, que se combinam com cada consoante, no estudo das famílias
silábicas. Tais instrumentos enfatizam uma concepção de língua
escrita como transcrição da fala, apresentando textos construídos
com a finalidade de tornar clara essa relação.
A o alfabetizar o aluno com embasamento no método
tradicional, valoriza-se o produto final do ato de ler e escrever,
entendendo-o como decorrente da aquisição de habilidades como,
aprender a técnica, desenvolver a coordenação motora, discriminação
visual, o uso de lápis, do papel, etc. , o que gera ênfase
primordial na automação da escrita para, numa segunda etapa,
voltar-se para a compreensão ou interpretação do texto, em
detrimento ao processo de construção da língua escrita pelos alunos.
É centrado no professor e valoriza a cópia, podendo conduzir muitos
alunos ao analfabetismo funcional.
Neste processo, é prioridade a mecanização e memorização da
escrita, caracterizando crianças que realizam somente a codificação
e/ou a decodificação das sílabas mais trabalhadas em sala de aula e
não são capazes de construir novas palavras a partir destas mesmas
sílabas, nem de utilizá-las em textos diversos. Tal abordagem vê a
língua como pura fonologia, apresentando à criança textos não
estruturados, que não passam de um agregado de palavras
desconectadas, sem coerência e coesão. Dessa forma, podem até
reconhecer essas sílabas e palavras-chave exaustivamente repetidas
em sala de aula, mas não conseguem formar novas palavras juntando
tais sílabas, nem escrever frases contextualizadas com essas
palavras.
Com freqüência, muitas crianças decoram todo o alfabeto,
mas não conseguem ler sílaba nem palavra; sílabas que, por ventura,
conseguiram decorar para leitura não conseguem escrever no ditado,
nem reconhecer em outros contextos; podem, até, conseguir fazer
cópias, mas não conseguem escrever as mesmas palavras quando são
ditadas.
São as crianças copistas, que sofrem muito com sua própria
situação. Há as que escrevem precariamente algumas
palavras-chave e famílias silábicas, usadas exaustivamente, mas não
lêem.
E como são muito cobradas, tendem a desenvolver baixa
auto-estima e alguns bloqueios, pois adentram à escola com muitas
expectativas, que não são correspondidas, o que pode
levá-las a se sentirem desmotivadas, principalmente em função dos
exercícios descontextualizados e da cobrança da memorização. com o
que fica-lhes muito mais difícil alfabetizar-se.
Com
o método sintético, a criança é um aprendiz que vai juntando
informações; que aprende uma família silábica após a outra se
supondo que, em dado momento no decorrer desse caminho, tenha um
insight e compreenda a relação entre todas essas sílabas, fazendo
uma síntese a partir de uma determinada quantidade de informações.
Pode aprender a escrever, porém não a expressar-se com desinibição e
espontaneidade, pois, inclusive pela falta de contextualização, sua
visão de mundo tende a limitar-se ao discurso escolar; é como se a
leitura e a escrita fossem atividades restritas ao ambiente escolar:
lêem e escrevem as palavras que o professor ensina. A criança é
levada a construir seu conhecimento da língua escrita em um sistema
gráfico de representação da linguagem oral, e faz do ato de ler e
escrever apenas uma codificação e decodificação. É uma alfabetização
artificial e mecânica dificultando a sua compreensão, pois não tem a
ver com tudo que vivencia em seu cotidiano: o educando faz cópias de
conteúdos não contextualizados e sem significado para a sua vida.
A outra via, construtivista, consiste em
desenvolver as práticas de uso da língua escrita, considerando que
não adianta aprender uma técnica e não saber usá-la. Os dois
processos devem ser simultâneos e interdependentes, pois aprender a
técnica da leitura e da escrita não é pré-requisito para utilizar
tais capacidades nas atividades cotidianas.
O alfabetizador que atua com postura construtivista
valoriza um ambiente alfabetizador, que facilite a interação
do educando com os mais diversos tipos de textos, dentro de um clima
de liberdade para participar das propostas e construir o ato de ler
e de escrever. Considera que ler é atribuir significado, o que
ocorre pelo uso de estratégias de leitura (de decodificação,
seleção, antecipação, inferência e verificação) a partir do
conhecimento prévio e dos índices fornecidos pelo texto.
Procura
trazer para a sala de aula tudo que possa motivar a criança,
despertar sua curiosidade e o desejo de ler, utilizando a
decodificação possível naquele momento, como identificar a letra
inicial, final ou as intermediárias para antecipar o significado da
escrita de, por exemplo, painéis contextualizados, receitas, rótulos
de produtos bem conhecidos, que auxiliarão na produção de textos
individuais e coletivos, pois considera que é possível ler quando
ainda não se sabe ler convencionalmente, e que é dessa forma
que se pode aprender, tratando os alunos como leitores, desde sua
entrada na escola.
Nas oportunidades de interação com textos reais, mesmo sem saber ler
convencionalmente, os alunos poderão questionar, explorar e
confrontar suas hipóteses, registrando suas próprias escritas. A
correspondência letra-som é um conteúdo fundamental, mas apenas um
dos inúmeros conteúdos que a criança precisa, necessariamente,
dominar na aquisição progressiva da linguagem escrita.
Considera-se a alfabetização uma parte constituinte
da prática da leitura e da escrita, onde, na interação com os
textos, a criança constrói o seu conhecimento, as hipóteses a
respeito da escrita e, dessa forma, progressivamente aprende a ler e
a escrever, compreendendo as relações que existem entre
fonemas e grafemas, codificando e decodificando, pois a
alfabetização acontece como resultado da reflexão sobre as
características e regularidades da escrita, sendo a palavra um meio
para isso.
O construtivismo coloca em evidência as hipóteses que
as crianças formulam, testam, reorganizam, assimilam, acomodam e
formam novas hipóteses até adquirirem a forma convencional da língua
escrita. Há uma leitura seqüencial com conteúdo
significativo, de modo que a criança vê a escrita como um objeto
social. A proposta construtivista busca uma alfabetização com
compreensão, construída pouco a pouco, respeitando a compreensão dos
meios que a criança utiliza para representar a construção do seu
conhecimento sobre a língua escrita. Deixa o aluno livre para criar
suas próprias hipóteses, valorizando-o como construtor do seu
conhecimento e sujeito de sua aprendizagem. Para tanto, o
planejamento deve ser elaborado em função de uma classe real,
necessitando de retomadas e reorganizações, não podendo ser
reutilizado na íntegra, de um ano para outro e de uma classe para
outra , pois estas devem ser heterogêneas, sendo benéfico
para os alunos interagirem com colegas de diferentes níveis de
conhecimento, o que favorece o trabalho do professor, uma vez que,
quando os alunos aprendem uns com os outros, o educador tem maior
liberação para atender os educandos mais necessitados de sua
intervenção pedagógica.
Repetindo, tais diferenças ficam evidentes, sobretudo
porque, para o método tradicional, todos aprendem da mesma forma, em
classes homogêneas, descartando os conhecimentos prévios que a
criança trouxe de seu ambiente social. Ela é ensinada
mecanicamente, utilizando-se de sua memória sem lhe dar oportunidade
de pensar sobre a escrita e construí-la. Já numa abordagem
construtivista, todo processo de elaboração é respeitado e é a
partir dele que o professor vai estimular e intervir para que o
aluno se desenvolva e se aproprie da leitura e da escrita. Nesse
processo, são apresentados à criança diversos textos que irão
auxiliá-la, e ela será capaz de produzir narrativas e demais textos
que não são apenas frases soltas, justapostas, mas que terão um
sentido e uma ligação entre si. Percebe-se que o aluno consegue
realmente escrever uma história com princípio, meio e fim, rica de
vocabulário e imaginação. Neste caso, a criança foi estimulada
diariamente em sala de aula, com textos elaborados.
O professor construtivista acredita que cada aluno
aprende no seu tempo e de acordo com suas diferenças. Isso o
estimula a ser mais dinâmico, procurando sempre diversificar sua
ação pedagógica para atender todas as diferenças. Embasado
pela teoria construtivista, o professor criará situações que
possibilitem aos alunos a vivência dos usos sociais que se faz da
escrita, possibilitando-lhes ouvir a leitura e atentar às
características dos diferentes gêneros textuais, bem como a
linguagem compatível com diferentes contextos comunicativos,
participando de situações sociais nas quais os textos reais são
utilizados, pensando sobre seus usos, características e
funcionamento, além do sistema alfabético, pelo qual a língua é
grafada.
Assim, acreditar que o que mobiliza a aprendizagem é o
esforço do sujeito com vistas a dar sentido às informações que estão
disponíveis, como fazem os construtivistas, é bem diferente de
acreditar que o educando permanece passivo introjetando as
informações que lhe são oferecidas e da maneira como são oferecidas,
de acordo com concepções empiristas.
O professor que questiona a eficácia do uso de
cartilhas, do método tradicional, dos materiais excessivamente
estruturantes utilizados, frequentemente, percebe que é preciso
fazer mudanças. Nesse momento é fundamental estar atento
para compreender que o construtivismo constitui uma teoria muito
complexa, que possibilita saber quais passos a criança, em sua
interação com a escrita, dá numa direção que lhe permite descobrir
que escrever é registrar sons e não coisas. Depois que passa pela
fase silábica, vai perceber o som do fonema, até o momento em que se
tornará alfabética. Nesse momento, a criança deverá apropriar-se do
sistema alfabético e do sistema ortográfico da escrita, que são
sistemas constituídos de regras convencionais, as quais ela tem de
aprender. E isso não ocorre de maneira espontaneísta; melhor ainda,
a intervenção do professor é determinante neste processo: ele tem
que definir e propor atividades; acompanhar o desempenho de cada
aluno, encorajando-o, explicando, interpretando a sua escrita,
auxiliando-o a perceber onde está o erro, auxiliando-o a avançar.
Cabe-lhe observar a ação dos alunos, acolher ou problematizar suas
produções, intervir a cada momento que julgar que pode colaborar
para o avanço da sua reflexão sobre a escrita, pois realmente o
alfabetizando tem que passar por um processo sistemático e
progressivo de aprendizagem desse sistema, evoluindo com a ação
compromissada e coerente do professor.
Com finalidade didática, procuramos registrar lado a lado aspectos
significativos de cada uma destas concepções de alfabetização:
|
TRADICIONAL, com silabário. |
CONSTRUTIVISTA, com textos |
|
- Valoriza o produto final do ato de ler e escrever. |
- Entende alfabetização como compreensão do modo de
construir conhecimento. |
|
- A concepção de ensino e aprendizagem pressupõe que a
alfabetização é um processo cumulativo: agregam-se
conhecimentos, passando pouco a pouco do simples (letras
e sílabas) ao complexo (palavras e texto). |
- A concepção de ensino e aprendizagem pressupõe que a
alfabetização é um processo de construção conceitual,
apoiado na reflexão sobre as características e
funcionamento da escrita: pouco a pouco o educando
compreende as regularidades que caracterizam a escrita. |
|
- Exercícios repetitivos de coordenação motora,
discriminação visual e auditiva, localização
espaço-temporal, etc. |
- Entende alfabetização como compreensão dos meios que a
criança utiliza para representar a construção do seu
conhecimento sobre a língua escrita. |
|
-O modelo de ensino apóia-se na capacidade do sujeito de
associar estímulos e respostas, repetindo, memorizando e
fixando na memória; a escrita é algo a ser decifrado. |
-O modelo de ensino apóia-se na capacidade do sujeito
refletir, inferir, estabelecer relações, processar e
compreender informações transformando-as em conhecimento
próprio.
A criança compreende a função social da escrita. |
|
- Parte-se da crença de que seja fácil para o educando
aprender primeiro, havendo falsa suposição sobre o que é
fácil e difícil de aprender. |
- Parte-se do que os alunos pensam e sabem sobre a
escrita, e isto possibilita que a aprendizagem seja
significativa |
|
- A criança é copista, não conseguindo construir um texto
elaborado, e sim com frases soltas, repetitivas. |
- O aluno elabora o texto de acordo com sua visão de
mundo, de forma criativa, expondo suas idéias. |
|
- Tudo vem pronto para ser copiado. São utilizados textos
artificiais para ensinar a ler e a escrever. |
- Os textos são desenvolvidos pelos alunos, conforme sua
linha de raciocínio. São textos reais , considerados
como o local onde se aprende a ler e escrever, bem como
se reflete sobre as regularidades da escrita. |
|
-A informação deve ser oferecida da forma mais simples
possível, uma de cada vez, para não confundir aquele que
aprende. |
- o aprendiz é um sujeito, protagonista do seu próprio
processo de aprendizagem. |
|
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É fundamental que o alfabetizador conheça cada uma
dessas vias para identificar as respectivas conseqüências, pois cada
concepção orienta práticas pedagógicas diferentes, sendo diferentes,
também, os resultados alcançados. Ao adotar a metodologia de
alfabetização, definirá também suas atitudes e posturas em sala de
aula, bem como os materiais que utilizará, priorizando as
competências e habilidades a serem construídas pelos alunos.
Embasado pelo conhecimento da teoria, o professor
atuará de forma coerente quanto à compreensão dos processos de
ensino-aprendizagem, à concepção de língua escrita por parte
de cada um de seus alunos, bem como a escolha crítica do material a
ser utilizado em sala de aula, correlacionando-o à realidade dos
alunos, num esforço para orientar sistemática e progressivamente sua
apropriação do sistema de escrita.
Para tanto, é essencial o planejamento e a organização do
trabalho em torno da alfabetização, a fim de promover situações
motivadoras e a partir delas realizar uma intervenção adequada. Sua
decisão depende de sua visão de homem, de mundo, de educação.
Assim, decidir se vai ou não utilizar a escrita socialmente,
permitindo ao aluno construir seu próprio conhecimento; que tipo de
criança quer formar: mais criativa, questionadora, com melhor
entendimento de expressão escrita e leitura, ou que simplesmente
reproduza os fonemas e grafemas ensinados?

Que a aprendizagem da escrita ocorra de modo dinâmico,
interessante, com crianças engajadas na construção do próprio
conhecimento, orientadas por um professor que lhes facilita a ação
de conhecer o mundo, ou ocorra de modo mecânico, sistemático e
previamente determinado pela cartilha?
A decisão é sua, professor!
BIBLIOGRAFIA
BRASIL, Parâmetros Curriculares nacionais. Mec/SEF, 1997.
BRASIL, Referencial Curricular Nacional para a Educação
Infantil, Vol. 3. Mec/SEF, 1998.
FERREIRO, Emília e TEBEROSKY,Ana. Psicogênese da Língua
Escrita. Porto Alegre. Artes Médicas, 1998.
SMITH, Frank. Leitura Significativa. Porto Alegre. Artes
Médicas. 1999.
SOARES, Magda. A reinvenção da alfabetização. Arigo.
WEISZ, Telma. O diálogo entre o ensino e a aprendizagem.
São Paulo. Ática, 1999.+
Joana
Maria Rodrigues Di Santo
é Psicopedagoga experiente, com atuação
significativa em Psicopedagogia Institucional, Supervisora aposentada do
Município de São Paulo, mestre em Educação, Professora
do Curso de Pedagogia da Uni'Santana, profere palestras e assessora diversas escolas.

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