O analfabetismo do meu bisa

 

 

 

 

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Evandro Brandão Barbosa

 

Bisa é uma maneira carinhosa de chamar o bisavô e a bisavó. "Meu bisa" e "minha bisa" são termos utilizados em Portugal e também em alguns países que são ex-colônias portuguesas. E embora o Português do Brasil tenha características específicas, o que o torna único entre os países de Língua Portuguesa, aprendi a chamar o meu bisavô de "meu bisa". Ou seja, o Português falado e escrito no Brasil é diferente do Português falado em Portugal, em Moçambique, em Angola e em todos os outros países que são ex-colônias portuguesas.

Meu bisa nasceu em 1880, no vilarejo litorâneo de Saubara, interior do Estado da Bahia. Localizado relativamente próximo à atual cidade de Santo Amaro da Purificação, onde dona Canô, a mãe dos cantores Caetano Veloso e Maria Betânia, é uma das personalidades mais ilustres da cidade.

A Saubara hoje é uma cidade, como o meu bisa vislumbrava ainda na sua adolescência, quando a Saubara era apenas um vilarejo.

Na ocasião do seu nascimento, o Brasil ainda não era República e nem os escravos eram livres. Batizado como João da Cruz, meu bisa nasceu livre. O seu pai havia sido um dos escravos que servira às tropas brasileiras  na guerra do Paraguai em 1866, tendo conseguido alforria logo após a guerra. A mãe dele era índia. Meu bisa era cafuzo.

Criado nas varandas e nos alpendres das casas grandes dos latifúndios, raramente visitando as senzalas, meu bisa não foi alfabetizado. Vivia naqueles ambientes porque os seus pais, mesmo não sendo escravos, prestavam serviços nas propriedades dos latifundiários. Puto[1] que demonstrou inteligência desde a sua infância, meu bisa prestava muita atenção às conversas das pessoas na casa grande, e logo cedo percebeu que havia diferenças entre o vocabulário corrente da senzala e aquele da casa do senhor.

Tornado analfabeto por força das circunstâncias da época, João da Cruz não sabia ler nem escrever, como ocorria a muitas pessoas naquela época. Os escravos trabalhavam de sol a sol, cerca de 14 horas por dia. E aqueles que trabalhavam no campo eram transformados em verdadeiros trapos humanos. Não tinham o direito de serem alfabetizados. Às pessoas do sexo feminino ou era negada a alfabetização ou davam-lhes apenas a educação básica. Talvez este seja um dos motivos pelo qual ainda nos dias atuais, na maior parte do mundo, o número de analfabetos do sexo feminino é sempre maior que o de analfabetos do sexo masculino.

Meu bisa contava muitas histórias aos seus bisnetos, e eu era um deles. Na época, pensávamos que eram histórias criadas por ele, em virtude do seu raciocínio rápido e inteligência aguçada, apesar da idade. Mas, à medida que íamos estudando e crescendo, descobríamos que aquelas histórias eram partes do conhecimento acumulado pelas sociedades ao longo dos anos.

Ele contava, por exemplo, que a escrita era uma invenção relativamente recente, por volta do IV milênio a. C., e fora um enorme avanço para a civilização, permitindo recompor com segurança a história. Quando um bisneto dos mais novinhos, cheio de curiosidade, perguntava ao nosso bisa o que era a escrita, ele respondia tranqüilamente - a escrita é uma maneira de colocar sinais ou desenhos no papel, nas paredes, ou mesmo no chão para representar as idéias ou as palavras das pessoas.

E assim passávamos as noites das nossas férias escolares de dezembro, lá na Saubara, onde o nosso bisa vivia. Mas ele também estava sempre querendo saber sobre as novidades que havíamos aprendido naqueles meses na escola.

Ele contava também que no início das civilizações, as pessoas transmitiam seus pensamentos, conhecimentos e tradições de modo oral às gerações seguintes.

Segundo o meu bisa, existe a escrita sintética e ideográfica, na qual um desenho ou gráfico ou um conjunto de desenhos sugere toda uma frase, utiliza um código sintético. Como cada desenho ou gráfico corresponde a apenas uma idéia, pode-se combinar os desenhos ou os gráficos de várias maneiras, as quais vão aumentando à medida que a cultura daquela sociedade se desenvolve. Há também a escrita silábica e fonética, os desenhos expressam os sons constituintes da palavra. Ele contou também que a pedra de Rosetta foi descoberta em 1799, e continha inscrições egípcias chamadas hieróglifos.

E, finalmente, meu bisa explicava sobre a escrita alfabética. E dizia: em torno de 1500 a. C., começou a formar-se no seio da cultura semita[2], provavelmente na Síria, a escrita alfabética. O método consistia na representação gráfica de sons isolados mediante sinais próprios. Foi utilizado por numerosos povos antigos, e posteriormente permitiu aos fenícios criar seu alfabeto, que disseminaram por todos os países a que levaram sua civilização. E acrescentou que o alfabeto dos fenícios só apresentavam consoantes, mas os gregos, que adotaram aquele mesmo alfabeto por volta do ano 800 a. C., acrescentaram a representação das vogais.

Quando íamos dormir, ainda ficávamos conversando sobre aquelas histórias do nosso bisa. E nós, que pensávamos que a única escrita que sempre existira no mundo era essa que aprendemos.

O meu bisa falava, e explicava com uma riqueza de detalhes e com exemplos tão práticos e claros que, dificilmente algum dos bisnetos deixava de compreender a história. Ele não sabia escrever, logo não precisava de quadro de giz ou de pincel; também não sabia ler, então não consultava livros. Possuía uma memória fabulosa, relembrava fatos e conversas de quando ainda tinha nove ou dez anos, a correr da casa grande para a senzala naquelas fazendas e nas ruas pequenas daquele vilarejo lá da Bahia.

Uma certa vez, um dos bisnetos mais velhos perguntou ao nosso bisa se ele não tivera muitas dificuldades para viver por ser analfabeto. Ao que ele respondera negativamente, explicando que o local e a sociedade da sua época não estava baseada na leitura e na escrita, e além disso, o que muitos precisavam naquele vilarejo era somente de um pedaço de chão para plantar e uns poucos materiais de caça e pesca. O resto era saber ouvir e conversar sobre os assuntos que se compreendia. Disse-nos ainda, que na nossa época já não era mais assim. Agora, ninguém pode participar plenamente da cultura moderna sem dominar a linguagem escrita, embora quase metade da humanidade se encontra nessa situação, e as campanhas de alfabetização desenvolvidas pelos governos durante o século XX não concretizaram todas as esperanças nelas depositadas. E além do mais - continuava ele - analfabeto era aquele ou aquela que não sabia ler nem escrever, mas hoje há outros tipos de analfabetismo. Um dos analfabetismos mais em voga na maioria dos países é o analfabetismo funcional, representado pelas pessoas que possuem menos de quatro séries escolares concluídas.

O meu bisa tinha consciência, por exemplo, de que as pessoas podem aprender a ler e escrever, porém serem analfabetas, por não conseguirem compreender o conteúdo das suas leituras, por não terem condições de escrever uma idéia de modo claro para que outras pessoas compreendam tais pensamentos do jeito que foram pensados. E a partir dessa consciência, meu bisa sempre dizia para termos cuidado ao classificar os analfabetos, porque uns são mais analfabetos que os outros - e depois ele sorria suavemente.

Eu não sei se as histórias do nosso bisa foram reinventadas e recriadas pelos outros bisnetos, sei apenas que a morte de João da Cruz em 1970, um pouco antes do Brasil ser tri-campeão mundial de futebol, não encerrou aquelas histórias para mim. Lembro-me claramente, de uma daquelas nossas férias, quando um dos bisnetos mais velhos levou um mapa do mundo para a Saubara, e abriu-o sobre uma mesa. Meu bisa e todos os bisnetos em volta do mapa. O bisa João olhou para o mapa, diminuiu um pouco os olhos, e disse: - minhas vistas já não são tão claras, mesmo assim percebo a imagem da terra, que é achatada em cima e em baixo. E passando a mão em movimentos circulares sobre todos os continentes, filosofou do alto dos seus oitenta e poucos anos na época: - estão a ver tudo isso aqui? Todos os povos que vivem nesse mundão ainda vão se conhecer. E não vão precisar viajar. Vão é mandar notícias, comprar e vender os produtos uns dos outros, emprestar dinheiro uns para os outros. Hoje eles ainda brigam muito, mas descobrirão que o caminho não é esse, porque todas as pessoas pertencem a uma só raça, a raça humana.

Quando a globalização começou a ser discutida no mundo, no início dos anos 80 do século XX, e também quando declararam-se para o mundo que só existe uma raça, a raça humana, as lembranças das palavras do meu bisa diante do mapa do mundo, quando eu ainda era criança, vieram-me à mente. Senti um orgulho muito grande de ser bisneto de João da Cruz. Para mim, corresponde à mesma satisfação que experimento quando leio sobre as idéias de Aristóteles, Pascal, Karl Marx, George Orwel, Gramsci e tantos outros pensadores, cujas obras nunca puderam ser lidas pelo bisa João da Cruz, mas cujos conteúdos sempre estiveram imbricados no pensar e no agir do meu bisa, revelando-nos (aos bisnetos) a universalidade dos pensamentos.

O analfabetismo não é o resultado de ações isoladas, ou é culpa dos governos, ou das instituições, ou dos próprios analfabetos ou da sociedade. O analfabetismo é uma responsabilidade social, logo, de todos os integrantes da sociedade.

Às vezes ouvíamos o nosso bisa conversando com os nossos pais, que eram seus netos. E ele dizia: o analfabetismo só existe porque não há um esforço conjunto da sociedade para erradicá-lo. É uma doença que precisa ser tratada a partir da identificação das causas, do levantamento das quantidades de pessoas analfabetas e das quantidades dos diversos tipos de analfabetismo existentes. Pois só assim, as medidas tomadas serão acertadas, e os resultados eficazes.

Em novembro de 2002, residindo em Manaus, relembrando as histórias do meu bisa, interessei-me por uma reportagem publicada no Jornal A Crítica, da mesma cidade. Na qual o Ministério da Integração Nacional constatou mediante pesquisa e publicou, que a Região do Alto Solimões (localizada no extremo noroeste do Amazonas, abrangendo uma área de 214 mil quilômetros quadrados, constituída pelos municípios de Amaturá, Atalaia do Norte, Benjamin Constant, Fonte Boa, Jutaí, Santo Antônio do Içá, São Paulo de Olivença, Tonantins e Tabatinga, com população aproximada de 200 mil habitantes em 2002. Faz fronteira com a Colômbia e o Peru, sendo delimitada pelos rios Javari e Solimões. Concentra 149 aldeias indígenas (das etnias Tikuna, Cocama, Caixana, Marubo, Matiz, Kanamari, Kulina e Mayoruna) que representam quase 20% da população da área.) no estado do Amazonas, apresenta o segundo menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) no Brasil. E entre os problemas socioeconômicos que afligem a população da região, segundo o Ministério, está o analfabetismo entre os adultos e as crianças em idade escolar.

A temática analfabetismo é bastante ampla para ser pesquisada, e requer conhecimentos específicos e tempo disponível para a pesquisa. Resolvi elaborar um projeto de pesquisa sobre as causas do analfabetismo no município de Fonte Boa-AM, na Região do Alto Solimões, e concorrer a uma vaga no processo de Seleção para o Mestrado em Educação na Universidade Federal do Amazonas. Após a aprovação em cada uma das fases seletivas, conheci os títulos dos projetos dos meus colegas de Curso e apresentei-me à minha orientadora.

O título do projeto é ANALFABETISMO DE ADULTOS E CRIANÇAS EM IDADE ESCOLAR NA ZONA URBANA DO MUNICÍPIO DE FONTE BOA-AM: um estudo das causas.

O objetivo geral do meu projeto é realizar um breve estudo da história da educação no município de Fonte Boa-AM, a fim de caracterizar o surgimento e o desenvolvimento do analfabetismo de adultos e crianças em idade escolar na zona urbana do município, para investigar as suas causas.

E como objetivo específico, pretendo estudar as causas do analfabetismo de adultos e crianças em idade escolar na zona urbana do município de Fonte Boa-AM.

O analfabetismo de adultos e crianças em idade escolar é um dos problemas socioeconômicos na vida dos habitantes de Fonte Boa, conseqüentemente um atraso para o desenvolvimento do Estado do Amazonas. Analfabetismo não combina com estratégias para um modelo de desenvolvimento econômico sustentável (conhecimento e utilização dos recursos naturais, de modo a satisfazer as necessidades da geração atual e das gerações futuras: desenvolver sem prejudicar nem destruir os recursos no presente e no futuro).

A pesquisa científica das causas do analfabetismo em Fonte Boa-AM implica na investigação da relação entre a população, a organização escolar, os recursos naturais existentes, e as políticas públicas que têm sido implementadas na área da educação; assim, pode-se identificar as causas do baixo Indice de Desenvolvimento Humano na história daquele município, para a indicação de soluções viáveis à erradicação do analfabetismo.

Soluções que contribuam com o desenvolvimento sustentável daquele município.

Identificar as causas do analfabetismo na zona urbana e indicar soluções para a erradicação do mesmo, encontra-se de acordo com a opção estratégica “3. Justiça Social e acesso aos recursos” (Amazônia 21 - Recomendações Preliminares, 2001).

Possibilitar a redução do número de analfabetos no município de Fonte Boa na Região do Alto Solimões é torná-lo integrante do universo de sustentabilidade planejado para o país, é realizar justiça social em uma das áreas com menor Índice de Desenvolvimento Humano no País.

As principais atividades econômicas da região onde o município de Fonte Boa está inserido são a pesca, a agricultura e o extrativismo vegetal, mas o nível de renda é baixo e existem poucos empregos formais. Apresenta elevado índice de analfabetismo, tanto de adultos quanto de crianças em idade escolar. É uma região que apresenta muitos problemas na área de transporte (basicamente fluvial), energia, comunicação, abastecimento de produtos e fornecimento de serviços.

Os questionamentos que têm provocado essa pesquisa são: quantos são os analfabetos entre adultos e crianças em idade escolar na área urbana do município de Fonte Boa-AM? Quais os dados históricos sobre o analfabetismo no município? Qual a representatividade do analfabetismo na história da educação do município de Fonte Boa? Existe política pública na área da educação na região? Como são utilizados os recursos naturais do município? Quais as causas dos problemas socioeconômicos que afligem os municípios do Alto Solimões? Existe projeto de desenvolvimento sustentável para a Região do Alto Solimões, e este contempla a questão da educação da população, a erradicação do analfabetismo?

Em novembro de 2002, os prefeitos dos nove municípios que compõem a região formaram um consórcio, para a busca de ações conjuntas em torno do mesmo interesse – o progresso socioeconômico de cada município, os quais atualmente contribuem com apenas 1,7% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado do Amazonas.

O município de Fonte Boa foi criado em 1891, pelo Decreto-Lei Estadual nº 92; em 1938, pelo Decreto-Lei Estadual nº 68, a sede do município é elevada à categoria de cidade.   Localiza-se à margem direita do Rio Solimões (médio Amazonas).   Distante de Manaus 680 km em linha reta e 1.033 km por via fluvial, 50 metros acima do nível do mar. Temperaturas médias de 25,9ºC, máxima de 32,8ºC e mínima de 20ºC. Área de 12.165 km2 (IBGE 1997); população de 31.472 habitantes (Preliminar IBGE 2000, taxa de crescimento anual da população igual a +9,05%).

De um modo geral, as cidades de pequeno porte apresentam alguns aspectos semelhantes, mas sei também que a região amazônica apresenta as suas especificidades, inclusive pode-se até mesmo compreender que a sociodiversidade e a multiculturalidade da região suscitam a compreensão da existência de diversas amazônias dentro de tal região. No entanto, não ficarei surpreso se, durante a minha pesquisa de campo, ao entrar numa daquelas residências onde haja adultos e crianças em idade escolar ainda analfabetos, houver um homem com mais de oitenta anos, analfabeto, porém com as mesmas simplicidade e inteligência, e cheio de bisnetos como o meu bisa João da Cruz.


[1] Substantivo comum. Designação de menino, criança, filho; termo comumente utilizado nos países de língua portuguesa.

[2] Semitas é o termo utilizado para designar um grupo de povos, entre os quais se destacam os árabes e os hebreus, que falam ou falaram línguas semíticas. A designação provêm do livro bíblico do Gênesis, que menciona povos descendentes  dos filhos de Sem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARSA, Nova Enciclopédia.  Barsa Planeta Internacional ltda. São Paulo - SP. 2000.

DELORS, Jacques. Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI.

DEMO, Pedro. Cidadania Tutelada, Cidadania Assistida. Editora Papirus.

FERREIRO, Emília. Filhos do Analfabetismo. Editora ARTMED.

GADOTTI, Moacir. Diversidade Cultural e Educação para todos. Editora GRAAL.

Evandro Brandão Barbosa é aluno do Curso de Mestrado em Educação, da Universidade Federal do Amazonas. Turma de 2003.

01 de setembro de 2003.

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