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"Em 1932 era publicado o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, escrito
por Fernando de Azevedo e assinado por vários intelectuais da época, como
Hermes Lima, Carneiro Leão, Afrânio Peixoto, e, certamente, Anísio
Teixeira, grande amigo de Fernando de Azevedo. No Manifesto, o qual
representou um divisor de águas entre educadores progressistas e
conservadores, as idéias de Anísio se fizeram amplamente presentes
O nome de Anísio Teixeira
está vinculado ao campo da filosofia da educação no Brasil. Embora tenha
atuado, quase sempre como administrador público de diferentes setores da
educação brasileira, de sua obra pode ser extraída uma concepção de
educação, de homem, de sociedade e de conhecimento geradores de uma
filosofia da educação que marcou o campo educacional entre os anos 20 e
60. Ao ler Dewey e conhecer as teses do pragmatismo norte-americano,
Anísio foi absorvido pelas idéias de democracia e de ciência, as quais
apontavam a educação como o canal capaz de gerar as transformações
necessárias para um Brasil que buscava se modernizar.
Enquanto filósofo da
educação, Anísio Teixeira compreendeu criticamente o contexto econômico,
social e cultural de seu tempo. Referiu-se às transformações materiais que
já estavam ocorrendo no Brasil e que, ainda viriam a ocorrer, às mudanças
de valores e às novas perspectivas que se colocavam para a sociedade
brasileira. Seu otimismo para com a ciência, com o método científico e com
suas aplicações técnicas conduziram a um otimismo, também, em relação à
uma nova escola. Se a sociedade passava por mudanças era preciso que a
escola preparasse o novo homem, o homem moderno, para integrar-se à nova
sociedade que deveria ser essencialmente democrática. Por isso, afirmava
que seria 'fácil demonstrar como todos os pressupostos em que a escola se
baseava foram alterados pela nova ordem de coisas e pelo novo espírito de
nossa civilização' (TEIXEIRA:1968:17)1".2
Para compreender o pensamento de
Anísio Teixeira, devemos
situá-lo no movimento educacional renovador brasileiro, cujas bases
encontram-se no escolanovismo surgido em fins do século XIX, na
Europa e nos Estados Unidos. Este movimento opunha-se às práticas
pedagógicas tidas como tradicionais, visando uma educação que pudesse
integrar o indivíduo na sociedade e, ao mesmo tempo, ampliar o acesso de
todos à escola.
"O escolanovismo desenvolveu-se no Brasil no momento em que o país
sofria importantes mudanças econômicas, políticas e sociais. O acelerado
processo de urbanização e a expansão da cultura cafeeira trouxeram o
progresso industrial e econômico para o país, porém, com eles surgiram
graves conflitos de ordem política e social, acarretando assim uma
transformação significativa da mentalidade intelectual brasileira. No
cerne da expansão do pensamento liberal no Brasil, propagou-se o ideário
escolanovista" (Anita
Adas Gallo,
http://www.anped.org.br/24/P0251803934623.rtf
).
O escolanovismo brasileiro está ligado a certas concepções de John Dewey,
que acredita ser a educação o único meio realmente efetivo para a
construção de uma sociedade democrática, que respeite as características
individuais de cada pessoa, inserindo-o em seu grupo social com respeito à
sua unicidade, mas, como parte integrante e participativa de um todo.
"Anísio Teixeira, o mais importante seguidor
das idéias deweyanas no Brasil, vê a sociedade em constante transformação,
tanto social como econômica e politicamente. A escola, por sua vez,
deveria formar indivíduos aptos a refletir sobre e inserir-se nessa
sociedade, considerando sua liberdade individual e sua responsabilidade
diante do coletivo. Logo, o resultado da educação escolarizada deveria ser
o indivíduo integrado à democracia, ou seja, o cidadão democrático.
Teixeira vê a sociedade como dinâmica e em
pleno curso de transformação. Ciente do momento propício para a
consolidação de uma sociedade mais justa e igualitária - a sociedade
democrática - propõe não só a transformação dos conceitos básicos
educacionais, mas a reestruturação moral e social da sociedade.
É justamente nesse aspecto, e devido à influência
de John Dewey, que Anísio Teixeira
merece ser analisado como um pensador que se afasta daquela tendência
escolanovista racionalizadora". (Anita Adas Gallo,http://www.anped.org.br/24/P0251803934623.rtf
)
Segundo
Anísio, a escola é local propício para a construção desta consciência
social. Nela o indivíduo adquire valores; nela há condições para formar o
ser social. “Como a escola visa formar o homem para o modo de vida
democrático, toda ela deve procurar, desde o início, mostrar que o
indivíduo, em si e por si, é somente necessidades e impotências; que só
existe em função dos outros e por causa dos outros; que a sua ação é
sempre uma trans-ação com as coisas e pessoas e que saber é um conjunto de
conceitos e operações destinados a atender àquelas necessidades, pela
manipulação acertada e adequada das coisas e pela cooperação com os outros
no trabalho que, hoje é sempre de grupo, cada um dependendo de todos e
todos dependendo de cada um” (Teixeira, 1956,
p. 10) 3 . A escola deve ser agente da contínua transformação e
reconstrução social, colaboradora da constante reflexão e revisão social
frente à dinâmica e mobilidade de uma sociedade democrática: “o conceito
social de educação significa que, cuide a escola de interesses vocacionais
ou interesses especiais de qualquer sorte, ela não será educativa se não
utilizar esses interesses como meios para a participação em todos os
interesses da sociedade... Cultura ou utilitarismo serão ideais educativos
quando constituírem processo para uma plena e generosa participação na
vida social” (Teixeira, 1930b, p. 88-89)
4 .
"A concepção filosófica de educação e de sociedade que
sustentou o ideário escolanovista e, em grande parte, a filosofia da
educação de Anísio, é caracterizada por um humanismo-tecnológico, marcou
uma ruptura com a tradição filosófica humanista-cristã. A fundamentação
pragmática da educação e dos valores que deveriam ser apresentados e
vivenciados na escola foi feita a partir da filosofia de John Dewey e da
sociologia de Durkheim. As idéias destes dois autores possibilitaram aos
intelectuais e educadores renovadores compreender o processo de
modernização da sociedade brasileira e, conseqüentemente, a necessidade de
um novo ensino e de uma nova escola. À democracia, à liberdade e à ciência
como valores da sociedade moderna correspondia um estudo científico dos
problemas educacionais brasileiros, abandonados, até então, a sua própria
sorte.
A educação brasileira, para Anísio, refletia, ainda nos
anos 60, os modelos dos quais se originou. "Em linhas gerais, a filosofia
da educação dominante é a mesma que nos veio da Europa e que ali começa
agora a modificar-se sob o impacto das novas condições científicas e
sociais e das formulações mais recentes da filosofia geral contemporânea.
Também aqui, na medida em que nos fizermos autenticamente nacionais e
tomarmos plena consciência de nossa experiência, iremos elaborando a
mentalidade brasileira e com ela a nossa filosofia e a nossa educação"
(TEIXEIRA: 1968:20). Anísio acreditava ser possível a reconstrução da
educação brasileira em bases científicas, rompendo com o ensaismo e o
empirismo grosseiro que durante muito tempo dominou a reflexão sobre as
questões educacionais. Somente com um conhecimento das diferentes
realidades escolares, em todas as dimensões, seria possível uma mudança
significativa na formação dos professores. No entanto, a expressão
conhecimento da realidade escolar, como tantas outras do discurso
educacional renovador, foi aos poucos transformando-se apenas em um slogan
educacional para a maioria dos profissionais da educação brasileira.
Seja como pensador crítico, como professor ou como homem
público a serviço da educação Anísio Teixeira deu importante contribuição
ao campo da educação no Brasil. Sua luta pela reconstrução da educação
nacional, tendo como referência a democracia e a ciência, não pode ficar
esquecida sob a justificativa de sua vinculação à filosofia pragmatista
norte-americana.
Aqueles profissionais que pesquisam ou ministram aulas na área de
filosofia e história da educação podem encontrar na ação e nas idéias de
Anísio Teixeira elementos importantes para a compreensão da constituição e
afirmação do campo da filosofia da educação no Brasil, a partir dos anos
20. Antes de recusar Anísio, é preciso ler sua obra, seguindo o seu
próprio exemplo: criticamente". 5
Referências e Fontes:
1)TEIXEIRA,
Anísio: Pequena introdução à filosofia da educação: escola
progressiva ou a transformação da escola. São Paulo: Melhoramentos, 1968.
2)
http://www.ufsm.br/ce/revista/revce/2000/02/a1.htm
3)
______________ O processo democrático de educação. Revista Brasileira de
Estudos Pedagógicos, Rio de Janeiro, v. 25, n. 62, p. 3-16, abr./jun. 1956
4) ______________ A reconstrução do
programa escolar. Escola Nova, São Paulo, v. 1, n. 2, p. 86-95, nov./dez.
1930b
5)
http://www.ufsm.br/ce/revista/revce/2000/02/a1.htm |