Psicopedagogia

Psicopedagogia : Uma Auto-Avaliação

Iniciando nossa seção de Psicopedagogia, nossa colaboradora Joana Maria R. Di Santo, resgata em sua trajetória de vida, as percepções e as reflexões que a levaram a freqüentar, depois de tantos anos de atuação profissional, o Curso de Pós Graduação em Psicopedagogia.
   Em um depoimento de vida, traz à tona a época da realização de uma auto-avaliação em Psicopedagogia.

 

     "Já na primeira aula percebi que havia feito a escolha certa quanto ao curso, uma vez que ansiava por resgatar aspectos pedagógicos da minha vida profissional que, a partir de 1985, esteve mais voltada ao administrativo, com Diretora de Escola, Delegada Regional de Educação e Supervisora Escolar.
     Às portas da aposentadoria , passei a refletir sobre minha trajetória até então, traçando planos para o futuro, quando emergiu a necessidade de buscar respostas a questões que haviam ficado em aberto quanto à aprendizagem de alunos de classe especial__ Deficientes Mentais__ onde atuei por oito anos, no início da carreira, e me angustiei com a situação de grande parte desses alunos, que não apresentavam deficiência mental, mas bloqueio de aprendizagem, que logo era solucionado pelo atendimento mais individualizado e, aí, vinha a dificuldade de recolocá-los na classe comum, pois encontrava barreiras por parte dos professores, que só cediam após muita negociação.
    
Alguns desses alunos cheguei a acompanhar até a oitava série, pois eles retornavam à terceira série do ensino comum, tendo notícias, em 1996, de um, que cursava Direito, e de outro que fazia parte de um conjunto musical que realiza turnês pelo mundo.
     Assim, quando tomei contato com as inteligências múltiplas; que os indivíduos aprendem por diferentes canais, havendo um que se sobressai e outros que necessitam ser fortalecidos, senti que estava  achando as respostas procuradas. Isto se comprovou realmente no decorrer das aulas, tanto teóricas quanto práticas; cada experiência preenchia uma lacuna: o trabalho docente tem-se dedicado prioritária ou exclusivamente ao desenvolvimento do pensamento lógico. Com isso, os alunos cujos canais predominantes são o sentimento, a intuição ou a percepção, têm sido prejudicados no processo ensino/aprendizagem tradicional. Logo, se as estratégias forem adequadas, terão desempenho equivalente.
     Concomitantemente, passei a tentar visualizar-me, e foi muito útil perceber que devo proteger-me mais, embora não tenha ainda encontrado a melhor forma. Importa que já despertei e que estou construindo esta visão “com os pés no chão”. Surpreendo-me em muitas situações procurando valorizar a intuição, saindo do “preto e branco” para  ver as nuances , negociando alternativas, fazendo concessões. Também a percepção e o sentimento passaram a instigar-me, e a busca de equilíbrio ficou  significativa. Auxiliou-me bastante o reforço de que o certo e o errado não existem isoladamente; há situações e posturas diversas naquele momento, naquela circunstância, com aquelas pessoas. Isso trouxe alívio.
     Os exemplos de casos trabalhados na clínica, juntamente com as vivências nas aulas práticas, quando manipulamos os materiais, os exploramos, questionamos... tornaram a teoria de Piaget muito mais acessível. As fases do desenvolvimento, tão áridas no teórico, passaram a ter vida. Percebi a importância do trabalho sensorial no pré-lógico; os problemas que podem advir quando tal etapa, por exemplo, não fica bem resolvida, e, mais ainda, a colaboração de outras abordagens no sentido de resgatar a sensorialidade. Precisei, também, assimilar tais abordagens; fortalecê-las, para mobilizar energias e extrapolar o teórico.
     Valorizei bastante as estratégias utilizadas, identifiquei-me com a visão holística e percebi que os padrões antigos, aprisionantes, fragmentam e não dão opção de trabalho diferenciado. Descobri-me, a cada atividade, mais interessada e com uma enorme vontade de colocar em prática o que aprendia, principalmente quando trabalhamos com contos de fadas; momentos em que pude diferenciar as centrações e as descentrações: não adianta querer forçar atividades de descentrações se a criança/sujeito não está preparada. Vale a pena centrar e esgotar todas as possibilidades de exploração. E não é dessa forma que a maioria dos professores trabalha.
     Como diretora de escola de educação infantil, pude notar professores apresentando excessivas estimulações diferentes, descentrando exageradamente para a idade e maturidade dos alunos. Confirmei minha percepção de que isso fragmenta e contribui para a continuidade da imaturidade da criança. Confirmei, também, minha posição de defesa aos treinamentos constantes dos professores, com equipe capacitada a atualizar-lhes e enriquecer-lhes os conhecimentos, visando a implementação de um trabalho competente e comprometido.
     Voltando ao “Desenvolvimento do Raciocínio", sinto que o desenvolvimento simultâneo de teoria e prática facilita o acesso ao conhecimento indispensável ao psicopedagogo, que extrapolará o teórico, atendendo crianças ou adolescentes que necessitem de um suporte na aprendizagem, e nesse atendimento, todos os conhecimentos serão acessados, estimulando o profissional a fazer uso de todos os seus canais, na medida da necessidade, distinguindo claramente quando e quanto cabe a cada um, de acordo com a situação.
     Há que se ter segurança na atuação; escolher um caminho e seguir, tendo humildade para reconhecer quando o caminho escolhido inicialmente não foi o melhor, mas valorizá-lo, porque forneceu pistas, desvendou alguns procedimentos inadequados e possibilitou a reflexão e o replanejamento, já com novos elementos para enriquecer a tomada de decisão.
     Estou ciente de que ainda há muito a construir em termos de síntese dentro de mim, mas sei que estou caminhando satisfeita porque escolhi este percurso e tenho interesse em continuar estudando, analisando, trabalhando, refletindo sobre a prática , aperfeiçoando-a... pois este é o caminho do verdadeiro educador".


Joana Maria Rodrigues Di Santo é Psicopedagoga experiente, com atuação significativa em Psicopedagogia Institucional, Coordenadora de Ensino Médio e Fundamental, Supervisora aposentada do Município de São Paulo, Mestre em Educação, Professora Universitária,  profere palestras e assessora diversas escolas.


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atualizado/setembro/2007