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"Já na
primeira aula percebi que havia feito a escolha certa quanto ao curso, uma
vez que ansiava por resgatar aspectos pedagógicos da minha vida profissional
que, a partir de 1985, esteve mais voltada ao administrativo, com Diretora
de Escola, Delegada Regional de Educação e Supervisora Escolar.
Às portas da aposentadoria , passei a refletir sobre
minha trajetória até então, traçando planos para o futuro, quando emergiu a
necessidade de buscar respostas a questões que haviam ficado em aberto
quanto à aprendizagem de alunos de classe especial__ Deficientes Mentais__
onde atuei por oito anos, no início da carreira, e me angustiei com a
situação de grande parte desses alunos, que não apresentavam deficiência
mental, mas bloqueio de aprendizagem, que logo era solucionado pelo
atendimento mais individualizado e, aí, vinha a dificuldade de recolocá-los
na classe comum, pois encontrava barreiras por parte dos professores, que só
cediam após muita negociação.
Alguns desses alunos cheguei a acompanhar até a oitava série,
pois eles retornavam à terceira série do ensino comum, tendo notícias, em
1996, de um, que cursava Direito, e de outro que fazia parte de um conjunto
musical que realiza turnês pelo mundo.
Assim, quando tomei contato com as inteligências
múltiplas; que os indivíduos aprendem por diferentes canais, havendo um que
se sobressai e outros que necessitam ser fortalecidos, senti que estava
achando as respostas procuradas. Isto se comprovou realmente no decorrer das
aulas, tanto teóricas quanto práticas; cada experiência preenchia uma
lacuna: o trabalho docente tem-se dedicado prioritária ou exclusivamente ao
desenvolvimento do pensamento lógico. Com isso, os alunos cujos canais
predominantes são o sentimento, a intuição ou a percepção, têm sido
prejudicados no processo ensino/aprendizagem tradicional. Logo, se as
estratégias forem adequadas, terão desempenho equivalente.
Concomitantemente, passei a tentar visualizar-me, e foi
muito útil perceber que devo proteger-me mais, embora não tenha ainda
encontrado a melhor forma. Importa que já despertei e que estou construindo
esta visão “com os pés no chão”. Surpreendo-me em muitas situações
procurando valorizar a intuição, saindo do “preto e branco” para ver as
nuances , negociando alternativas, fazendo concessões. Também a percepção e
o sentimento passaram a instigar-me, e a busca de equilíbrio ficou
significativa. Auxiliou-me bastante o reforço de que o certo e o errado não
existem isoladamente; há situações e posturas diversas naquele momento,
naquela circunstância, com aquelas pessoas. Isso trouxe alívio.
Os exemplos de casos trabalhados na clínica, juntamente
com as vivências nas aulas práticas, quando manipulamos os materiais, os
exploramos, questionamos... tornaram a teoria de Piaget muito mais
acessível. As fases do desenvolvimento, tão áridas no teórico, passaram a
ter vida. Percebi a importância do trabalho sensorial no pré-lógico; os
problemas que podem advir quando tal etapa, por exemplo, não fica bem
resolvida, e, mais ainda, a colaboração de outras abordagens no sentido de
resgatar a sensorialidade. Precisei, também, assimilar tais abordagens;
fortalecê-las, para mobilizar energias e extrapolar o teórico.
Valorizei bastante as estratégias utilizadas,
identifiquei-me com a visão holística e percebi que os padrões antigos,
aprisionantes, fragmentam e não dão opção de trabalho diferenciado.
Descobri-me, a cada atividade, mais interessada e com uma enorme vontade de
colocar em prática o que aprendia, principalmente quando trabalhamos com
contos de fadas; momentos em que pude diferenciar as centrações e as
descentrações: não adianta querer forçar atividades de descentrações se a
criança/sujeito não está preparada. Vale a pena centrar e esgotar todas as
possibilidades de exploração. E não é dessa forma que a maioria dos
professores trabalha.
Como diretora de escola de educação infantil, pude
notar professores apresentando excessivas estimulações diferentes,
descentrando exageradamente para a idade e maturidade dos alunos. Confirmei
minha percepção de que isso fragmenta e contribui para a continuidade da
imaturidade da criança. Confirmei, também, minha posição de defesa aos
treinamentos constantes dos professores, com equipe capacitada a
atualizar-lhes e enriquecer-lhes os conhecimentos, visando a implementação
de um trabalho competente e comprometido.
Voltando ao “Desenvolvimento do Raciocínio", sinto que
o desenvolvimento simultâneo de teoria e prática facilita o acesso ao
conhecimento indispensável ao psicopedagogo, que extrapolará o teórico,
atendendo crianças ou adolescentes que necessitem de um suporte na
aprendizagem, e nesse atendimento, todos os conhecimentos serão acessados,
estimulando o profissional a fazer uso de todos os seus canais, na medida da
necessidade, distinguindo claramente quando e quanto cabe a cada um, de
acordo com a situação.
Há que se ter segurança na atuação; escolher um caminho
e seguir, tendo humildade para reconhecer quando o caminho escolhido
inicialmente não foi o melhor, mas valorizá-lo, porque forneceu pistas,
desvendou alguns procedimentos inadequados e possibilitou a reflexão e o
replanejamento, já com novos elementos para enriquecer a tomada de decisão.
Estou ciente de que ainda há muito a construir em
termos de síntese dentro de mim, mas sei que estou caminhando satisfeita
porque escolhi este percurso e tenho interesse em continuar estudando,
analisando, trabalhando, refletindo sobre a prática , aperfeiçoando-a...
pois este é o caminho do verdadeiro educador".
Joana
Maria Rodrigues Di Santo é Psicopedagoga experiente, com atuação
significativa em Psicopedagogia Institucional, Coordenadora de Ensino
Médio e Fundamental, Supervisora aposentada do Município de São Paulo,
Mestre em Educação, Professora Universitária, profere palestras e assessora diversas escolas.

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