Inglês na escola pública: uma discussão quanto à avaliação

Você é o Autor

*Carina Merkle Lingnau

E então, inglês roda?

Avaliação: uma visão geral

Quando se fala em avaliação geralmente pensamos em julgamento, algum tipo de teste, prova, algo que julgue a competência de alguém sobre determinado assunto. Na verdade, pensar na possibilidade de mensurar o conhecimento, capacidade física ou artística de alguém através de um momento que envolva uma prova, teste, concurso é admitir a imprecisão e a falha do sistema que vive para os fins e dificilmente leva em conta todo o processo, sem mencionar outros fatores que envolvem o resultado de uma determinada avaliação, como as emoções, problemas familiares, doenças, limites.

        A avaliação está presente em nossa vida desde o momento que nascemos, quando o médico avalia os sinais vitais e aí já recebemos uma nota, depois disso somos levados ao mundo do mensurável onde tudo tem um conceito, uma nota, um critério, um padrão. Mas até aí tudo certo, nossa primeira avaliação é algo individual, personalizada, nem que seja por alguns momentos antes de entrarmos para as estatísticas com mais um número.

A partir daí enquanto crianças poderemos passar por “vestibulinhos”, depois teremos nosso conhecimento testado através de provas, testes e quando finalmente chega-se à vida adulta vale-se essencialmente pelos números acumulados em contas bancárias. Então mesmo sabendo que dentro da sociedade em que vivemos a avaliação é uma constante e não deixa de ser necessária a pergunta que parece não calar é: o que podemos fazer enquanto educadores para aliviar esse processo e auxiliar no desenvolvimento de pessoas mais livres? Armstrong, especialista em avaliação escolar coloca muito bem essa questão: “... Nós sabemos que o conhecimento acumulado pela humanidade vem dobrando a cada quatro anos, em média. Isso significa que hoje não é possível prever, nem remotamente, como o mundo vai ser daqui a 15 anos, quando essa criança estiver entrando no mercado de trabalho. Apenas derramar um balde de informações na cabeça desse aluno, portanto, não faz o menor sentido. Nós deveríamos estar ensinando os estudantes a aprender como é que se aprende, aprender a analisar, aprender a pensar criticamente. E precisamos avaliá-los com tarefas nas quais eles possam demonstrar o que podem fazer – não apenas o que sabem”. (Presença Pedagógica, 2004)

Inglês na escola é um desafio?

A pergunta é necessária sim, a disciplina língua estrangeira moderna na escola é um grande desafio. Para justificar essa resposta inicialmente é preciso falar sobre a situação atual do ensino de língua estrangeira no Brasil. Conforme (PCNS Língua Estrangeira, 2002): “... o ensino de Língua Estrangeira não é visto como elemento importante na formação do aluno, como um direito que lhe deve ser assegurado. Ao contrário, freqüentemente, essa disciplina não tem lugar privilegiado no currículo... tem status de simples atividade, sem caráter de promoção ou reprovação”.

Além dessa situação um tanto marginalizada dentro do currículo, a disciplina enfrenta alguns outros desafios, principalmente em instituições públicas de ensino fundamental e médio: carga horária reduzida, falta de livro didático, indisponibilidade de impressora e máquina de xerox recorrendo-se então ao lendário uso do mimeógrafo (dificilmente todas as cópias apresentam boa qualidade), salas de aula lotadas, sem espaço para a prática de todas as habilidades lingüísticas: ler, escrever, ouvir e falar.

Para complementar o quadro, tem-se ainda o fato da má formação dos professores de língua estrangeira moderna, o que agrava ainda mais a situação da disciplina no país. Em Lessa (2001, p.6) lemos: “Achar que um profissional de letras possa ser formado nos bancos da universidade é uma ilusão, necessária ou não(Será necessária na medida em que o professor formador vai precisar dessa ilusão para dar continuidade ao seu trabalho). Possivelmente não há tempo e nem condições para isso na universidade. A formação de um verdadeiro profissional... é trabalho de muitos anos, que apenas inicia quando o aluno sai da universidade”. Lessa ainda continua refletindo sobre sugestões para amenizar o problema: “Entre as propostas que têm surgido dos pesquisadores da área, destacam-se a necessidade de educação contínua (Silva, 2000), a atualização dos professores (Bohn, 2000) e a criação de bancos de materiais nas escolas (Paiva, 1997)”.

       Partindo do pressuposto que a situação da língua estrangeira moderna na escola não é das melhores, as condições de trabalho para seu ensino também não são adequadas e a formação dos professores não é ideal, nós nos dirigimos para a “vida real” onde cada professor está fazendo o seu melhor no ensino e avaliação desta disciplina.

Objetivos e avaliação: saber o que se quer para poder avaliar

       Para que o professor possa pensar sobre sua prática avaliativa ele primeiro precisa saber o que quer que o aluno aprenda, qual é seu objetivo e o porquê da sua escolha. Pelos motivos já citados acima nós sabemos como é complicado dar conta de todas as habilidades lingüísticas nas aulas de língua estrangeira moderna. Por isso é interessante pensar em um foco, priorizar uma das habilidades para que se tenha um aprendizado mais eficaz e útil. Os PCNS de Língua Estrangeira (2002, p.20) falam sobre a justificativa social para a inclusão de língua estrangeira no ensino fundamental e sugerem a leitura como principal habilidade a ser contemplada no ensino de língua estrangeira moderna: “A inclusão de uma área no currículo deve ser determinada, entre outros fatores, pela função que desempenha na sociedade... no Brasil... somente uma pequena parcela da população tem a oportunidade de usar línguas estrangeiras como instrumentos de comunicação oral, dentro ou fora do país... Com exceção da situação específica de algumas regiões turísticas ou de algumas comunidades plurilíngües, o uso de uma língua estrangeira parece estar mais vinculado à leitura de literatura técnica ou de lazer. Note-se também que os únicos exames formais em língua estrangeira (vestibular e admissão a cursos de pós-graduação) requerem o domínio da habilidade de leitura”.

      A priorização por uma das habilidades não quer dizer deixar as outras habilidades totalmente de lado, o fato de ensinar algumas músicas, a linguagem de sala de aula, expor os alunos a vídeos ou atividades em que precisem ouvir para entender algumas informações específicas não descentraliza o foco do objeto de ensino, somente amplia a vivência lingüística dos alunos e oportuniza o encontro com as outras habilidades lingüísticas, isso não quer dizer que este grupo de alunos estará apto a usar de autonomia para com todas as habilidades lingüísticas, senão a que esteve mais imerso.

Teacher vai descontar ponto se eu errar alguma letra?

        Muitos são os envolvidos no processo de avaliação, conforme os PCNs de Língua Estrangeira: o professor, o aluno, os pais do aluno e a sociedade precisam estar acompanhando o processo de aprendizagem do aluno que se dá via avaliação, mais adiante explicita alguns fatores próprios das aulas de língua estrangeira e que nós educadores deveríamos refletir sobre:“Na aprendizagem de outra língua há de se ter em conta vários fatores que podem dificultar a aprendizagem, dependendo das características individuais dos alunos: a frustração de não-comunicação, a reação emocional que pode decorrer da percepção de traços da outra língua que parecem artificiais e até ridículos a incerteza na ativação de conhecimento adequado de mundo, a falta de um senso de orientação e de intuição para com o que é certo e o que é errado e a discrepância entre o estilo de aprendizagem do aluno e o que o professor enfatiza.” (2002, p.81)

         Assim, se pensarmos na avaliação como “um ato diagnóstico, que tem por objetivo a inclusão e não a exclusão” (Luckesi 1997, p.173) estaremos auxiliando nossos alunos de língua estrangeira no processo ensino/aprendizagem independentemente das habilidades que estaremos enfocando em nossas salas de aula. Poderemos estar fazendo da prática escolar algo menos terrível, contemplando tanto os erros como os acertos, os alunos mais e menos brilhantes aceitando o erro como instrumento necessário a realização do objetivo almejado. Ainda em Luckesi encontramos “Tanto o ”sucesso/insucesso” como o “acerto/erro” podem ser utilizados como fonte de virtude em geral e como fonte de “virtude” na aprendizagem escolar. No caso da solução bem ou malsucedida de uma busca, seja ela de investigação científica ou de solução prática de alguma necessidade, o “não-sucesso” é, em primeiro lugar, um indicador de que ainda não se chegou à solução necessária, e, em segundo lugar, a indicação de um modo de “como não se resolver” essa determinada necessidade. O fato de não se chegar à solução bem-sucedida indica, no caso, o trampolim para um novo salto” (1997, p.56).

         Armstrong também entende o erro como produtivo quando em entrevista ele é questionado pela entrevistadora: “Quando eu estudava inglês e uma prova pedia para redigir uma sentença, eu costumava tentar fazer construções mais complexas e acabava perdendo pontos por isso, ao que Armstrong responde: Sim, porque aí as chances de cometer erros são maiores. Como resolver esse tipo de problema? Como avaliar sem empurrar o trabalho do estudante para a mediocridade, sem fazer com que ele se atenha sempre ao mais rasteiro, por medo de errar? A disposição para correr riscos calculados, para aceitar desafios, é algo importante no desenvolvimento intelectual do aluno. Uma das coisas que podemos fazer é não colocar todo o peso da avaliação nas convenções da língua. Coloque mais peso nos detalhes usados, no pensamento, no conteúdo, na organização do texto, na sua capacidade de engajar o leitor. Alguns dos pontos têm que vir das convenções, mas não a maior parte deles, de forma que o aluno possa escolher o risco, possa optar por ir além da sua “zona de conforto”. Imagine um garoto na quinta série que escreve um texto fabuloso, mas cheio de erros de ortografia. Aí você repara bem e vê que as palavras que ele escreveu erradas são palavras mais sofisticadas, que só seriam usadas, normalmente, por jovens no Ensino Médio. Esse aluno deveria perder pontos por esses erros e tirar uma nota ruim? Não podemos nos fixar apenas num dos aspectos da escrita. Existem tantos que são igualmente importantes!”(Presença Pedagógica, 2004).

Considerações Finais

Muitos são os pontos ainda a serem discutidos sobre a avaliação dentro do ensino de língua estrangeira e sobre a própria situação dessa disciplina dentro da grade curricular, este texto só quis discutir alguns aspectos gerais dessa problemática.

       Teóricos, professores, alunos, pais, diretores, orientadores, ainda têm muito a dizer e a questionar. Fica a reflexão e ainda muitas lacunas a serem preenchidas nessa discussão, mas é importante estarmos repensando o papel da disciplina nas escolas, o trabalho do professor de língua estrangeira dentro destas instituições e a atual avaliação que estamos fazendo do próprio trabalho como educadores e dos alunos.

         E quanto à pergunta inicial? E então inglês roda? A Secretaria de Ensino Fundamental do Mec enviou por email a seguinte resposta: “O artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, parágrafo 5º determina que o inglês na parte diversificada do currículo será incluído, obrigatoriamente, a partir da quinta série, o ensino de pelo menos uma língua estrangeira moderna... Assim, por ser obrigatório poderá reprovar. No entanto, a mesma lei no artigo 24, inciso V traz os critérios de avaliação que deve ser contínua com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e observados ao longo do período letivo.” (Secretaria de Ensino Fundamental Mec, DPE-SEF@mec.gov.br, 2005)

         Portanto a disciplina língua estrangeira tem o mesmo valor que as outras da grade curricular. Os profissionais dessa disciplina podem ter a certeza de estarem amparados por lei para que suas participações em conselhos de classe, discussões e atividades escolares tenham a mesma importância do que as demais.

Referências Bibliográficas

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental.Parâmetros Curriculares: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua estrangeira/ Secretaria de Educação Fundamental.Brasília: MEC, 2002.

DALE, Armstrong. Entrevista: Uma visão contemporânea da avaliação. Belo Horizonte: Presença Pedagógica. Editora Dimensão, 2004.

LEFFA, V.J. Aspectos políticos da formação do professor de línguas estrangeiras. In LEFFA, Vilson J. (Org.). O professor de línguas estrangeiras; construindo a profissão. Pelotas, 2001.

LUCKESI, C.C. Avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições. São Paulo: Cortez, 1997.

 

Carina Merkle Lingnau é professora de inglês em Joinville, SC.

Email: donut1br@yahoo.com.br

Insira seus comentários: por favor não esqueça de mencionar o artigo lido!

Nome:
E-mail:
Artigo Lido:
Telefone:
Comentários:
 

Home Educação s/limites Valores Internos Uso de Ferramentas Telemáticas... Supervisor e Novas Tecnologias Relação Estado-Educação Tempos Globalizados Por trás da Progressão Continuada O Direito de Aprender Ensino/Pesquisa/Compr.Social Liberdade de Ensinar Dislexia e mau leitor: as diferenças Educação "total": superando... O Autor deve respeitar o leitor Você lê um palavrão de 46 letras? A dislexia em sala de aula O analfabetismo do meu bisa Import. da Ginástica Rítmica Desportiva Motivação infantil:sua importância ... Socorro! Está impossível... A Educação Transformadora A Prática Pedagógica à luz... A Cola como direito de Importância do convívio familiar Desenvolvendo Competências Educ. Ambiental: A experiência O papel educador do Estado O lúdico nas Interfaces das... Deficiência Visual: Avaliação Inclusão:Novo Paradigma Gestão Democrática e: O professor, sua formação... Expectativa de Qualidade Supervisão Escolar: semeando neste lugar Como entender crianças que... A formiga Efigência O desafio da mudança na educação Inglês na escola pública: uma discussão quanto à avaliação Meu Desempenho como Prof. Universitário... Gestão Democrática X Autoritarismo Como ensinar Ortografia sem palmatória Reminiscências de uma Educação que Transforma Os Pilares da Violência Considerações sobre o tratamento Fisioterápico da Dor As Tecnologias da Inteligência no Processo O Ciberespaço e a Cibereducação: Cooperatividade Inclusiva através de: Quem já não ouviu falar em Internet? Emoções e Sentimentos no processo de aprendizagem: A Educação Infantil e suas possibilidades Uma escola para o que vai nascer! Novos Currículos: ensino e pesquisa Matemática Lúdica: o uso do Tangram Educação também vem de berço Sugestões a uma professora... Corrida contra o Tempo Crianças e Adolescentes na Internet Conselho de Classe do Bloco: de quando ficamos atentos ... Fisioterapia e Qualidade de Vida

atualizado/setembro/2007