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A autora, Maria de Lourdes Chagas Deiró
Nosella, distingue-se por basear suas análises mais na
documentação que na intuição, tendo examinado perto de vinte mil
páginas de livros didáticos, ordenando-as segundo temas
significativos que deram origem a esta obra; sua tese de mestrado
sob orientação de Dermeval Saviani, na PUC/SP, em 1978.
Empenhou-se em
voltar-se para o interior da escola, buscando compreender os
mecanismos específicos através dos quais o aparelho escolar cumpre
determinadas funções gerais. Em vez de reiterar alguma tese já
defendida, busca verificar a maneira específica pela qual se
traduzem os efeitos de sua veiculação no cotidiano da atividade
escolar.
Assim, o
raciocínio em que se baseia pode ser formulado nos seguintes termos:
se nas sociedades organizadas sobre a base de modo de produção
capitalista, escolas desempenham primordialmente, embora não
exclusivamente, a função de inculcação da ideologia dominante,
então, nessas sociedades, o livro didático é introduzido nas
escolas com a função precípua de veicular a ideologia
dominante. Como está organizada a mensagem dos livros didáticos
de modo a traduzir para efeito de consumo diário nas escolas, a
ideologia dominante? é a questão que busca equacionar, na análise da
escola primária; essencial para se entender o papel do aparelho
escolar, no seu todo, em relação à sociedade global.
Introdução e Capítulo um:
fala da origem e justificativa da pesquisa, esclarecendo que
observações assistemáticas suscitaram a constatação de que o mundo
descrito nos textos didáticos não correspondia ao real e que sentiu,
então , o desejo de explicitar, de maneira mais rigorosa e
sistemática , a defasagem entre estes dois níveis: o imaginário
(descrito pelos textos) e o real (vivido pelas crianças). Acrescenta
que o objetivo central da formação social capitalista será sempre,
essencialmente, o lucro e que , em textos que aparentemente procuram
estimular o comportamento autônomo, constata uma ação impregnada de
conteúdos ideológicos de que o aluno deve ficar passivo e obedecer,
ou seja, incentivam postura acrítica dos receptores dessas mensagens
ideológicas.
A ideologia
dominante, como maneira de conceber o mundo, não opera apenas
enquanto maneira de as pessoas representarem o mundo, mas constitui
elemento intrínseco às estruturas das crianças, ao mesmo tempo em
que atua como elemento estruturador dessa personalidade, pelos
processos de assimilação e acomodação. As crianças, submetidas à
maciça inculcação dessa ideologia, não irão apenas aprendê-la, mas
terão toda sua estrutura de pensamento impregnada por ela. E isso
numa faixa etária em que ainda não dispõem de discernimento para
poderem fazer opções baseadas em seus valores pessoais.
Objetivo da Obra:
Nosella espera que esta pesquisa possa auxiliar as equipes escolares
numa análise crítica das relações entre professores e alunos, a fim
de que adotem atitude de valorização da autonomia de todos os
envolvidos.
Formulação da hipótese:
professores atuam de forma a frear a autonomia do aluno, mantendo-o
dependente. O objetivo da ideologia subjacente a esse fato seria
didático:a manutenção do ethos capitalista que, por sua vez,
justificaria as relações de produção da sociedade vigente,
favorecendo a classe dominante.
Referencial teórico
– Pesquisa com objetivo de desmascarar os objetivos formais,
apontando para os objetivos reais das mensagens ideológicas
transmitidas aos alunos. Esse processo de mascaramento se apóia e se
justifica por um esquema teórico determinado, utilizado para
descrever a sociedade capitalista, suas características,
mecanismos, objetivos e aparelhos fundamentais. Preocupou-se com a
aplicação da teoria; a função dos textos de leitura dentro do
aparelho escolar, que é o de veicular a ideologia dominante.
A autora pôde
constatar, ao longo do estudo, um processo dialético entre a
utilização assistemática do esquema teórico e a utilização mais
rigorosa do mesmo. À medida que coletava observações assistemáticas
sobre os textos de leitura, o esquema teórico ia se delineando cada
vez mais nitidamente e se transformando no fio condutor que dirigiu
uma análise ainda mais rigorosa e profunda sobre os referidos
textos.
Nosella descreve a
sociedade capitalista como constituída de dois níveis:1- o nível da
infra-estrutura, que é a base econômica onde se desenvolve o modo de
produção dessa sociedade, e 2- o nível da superestrutura, que é
constituído pelas formas jurídico-políticas: organizações e
instituições sociais e ideológicas (ideologias religiosa, moral,
jurídica, política, etc.) e que são determinadas pela base
econômica. Fala que a reprodução das relações de produção implica
uma reprodução da submissão da força do trabalho à ideologia
dominante para os operários e uma reprodução da capacidade para
manejar bem a ideologia dominante para os agentes da exploração e da
repressão, para que assegurem também “pela palavra” a dominação da
classe dominante.
Posição do professor,
que passa ao aluno aquilo que é; se é dominado, é esse o exemplo que
passa ao aluno. Agora o aluno não quer mais seguir o exemplo do
dominado e se revolta; já percebeu que esse discurso de autonomia é
um engodo e que à força tem se sobressaído.
Os aparelhos de
Estado tentam o impedimento da oposição a essa exploração da classe
trabalhadora, que consiste da apropriação da mais-valia no sentido
de acumulação privada de capital. Se pensarmos na curvatura da vara,
está havendo grande desequilíbrio dessas forças repressoras porque
estão sendo testadas a cada momento, seja no caso da Febem, do MST,
dos presos. A violência está atingindo um índice absurdo, mas os que
pagam não são, na maioria das vezes, da classe dominante, mas os
igualmente dominados, que não têm como se defender da ira dos
revoltosos.
Professores são
atacados em escolas porque representam a perpetuação do status
quo que querem quebrar e superar; confundem violência com
autonomia.
São dois os
tipos de aparelhos que compõem o Estado:
1- Aparelho
repressivo de Estado, que objetiva garantir a exploração pela
violência física ou administrativa do governo, das prisões, dos
tribunais, do exército, da polícia.
2- Aparelhos
ideológicas de Estado, que objetivam a inculcação da ideologia
dominante pela família, pela escola, pelos sindicatos, pelos
partidos, pelos meios de comunicação cultural e outros. (Como os
meios de comunicação podem colaborar de maneira real se são pagos
por aqueles que desejam auferir vantagens?)
Os dois tipos de
aparelhos atuam de forma articulada: os repressivos, como a censura
policial, auxiliam o funcionamento dos ideológicos, como os meios de
comunicação, enquanto estes auxiliam àqueles, apresentando-os como
legítimos.
Objetivo das
lutas da classe:
obter o poder de Estado, a fim de que a classe vitoriosa utilize o
Estado, juntamente com todos os seus aparelhos, para a imposição,
defesa e reprodução das condições que garantem os seus interesses de
classe.
A necessidade de
se realizar a abstração do conceito de
ideologia em geral surge, numa primeira instância, a
partir do fato de que se aplica o termo ideologia tanto para a
classe dominante, que orienta sua ação de dominação e exploração,
como também para a da classe dominada, que orienta sua ação de
libertação. Como é usado o mesmo termo para dois posicionamentos
antitéticos, deve haver algo comum entre as duas posições, que é
preciso explicitar. O conceito de ideologia em geral é puramente
abstrato. Tal abstração torna-se indispensável não só para que se
possa realizar a abordagem exata sobre o conceito de ideologia
dominante do mundo capitalista, mas, sobretudo, para a avaliação e
utilização da ideologia como instrumento de ação libertadora do
homem no mundo. Embora o conceito de ideologia em geral seja uma
operação formal, sua abordagem faz-se necessária para que não se
transforme a ideologia num monopólio da classe dominante
Ideologia “sistema
de idéias, das representações, que domina o espírito de um homem ou
de um grupo social”. (Althusser, Louis). Tal ideologia tem por
função sustentar e justificar teoricamente a ação; trata-se de
princípios e normas que orientam a ação. Neste livro, ideologia é
entendida como uma leitura feita pela autora de uma situação
histórica num conjunto de eventos; leitura orientada pelas
exigências da ação a ser realizada. A ação exige que sempre exista
um suporte teórico (ideologia) que a justifique, e este último não
será a explicação mais exaustiva da realidade. Toda ideologia que
sustenta uma ação tem como característica a parcialidade como uma
exigência mesma da ação.
Pode-se afirmar
que a ideologia em geral jamais é exaustiva, isto é, no sentido de
ser sempre parcial, fragmentária, superável, “por isso a filosofia é
sempre necessária e a ideologia será sempre parcial, fragmentária e
superável”. (Dermeval Saviani). A ideologia será objetiva na medida
em que acompanhar o movimento dialético da História.
A partir destas
afirmações, poder-se-ia dizer que a ideologia em geral é
radicalmente ambivalente, isto é, ela poderá estar a serviço da
dialética da História, explicitando as contradições, como poderá
exercer uma função conservadora, camuflando as contradições
objetivas. No primeiro caso tem-se uma ideologia objetiva; no
segundo, uma ideologia falsa e mistificadora.
Não existe ideologia neutra, porque toda ideologia, à proporção
que é formulada, será sempre
existencialmente engajada. Enquanto definida como
princípios e normas que orientam a ação, tanto poderá orientar a
ação libertadora (dialética e objetiva) da classe dominada, como, ao
contrário, poderá orientar a ação conservadora, de manutenção do
status quo (antidialética e não-objetiva). Essa última trará em
si, naturalmente, a conotação falsa e mistificadora da ideologia da
classe dominante na sociedade capitalista. (No positivismo,
professores tinham ideologia da classe dominante e passavam isso em
suas atitudes. Agora, professores têm ideologia da classe dominada,
mas estão em dúvida, ainda, e passam isso para os alunos, que se
revoltam).
Aparelho ideológico escolar.
Quando se descortinou o que havia por trás e começou-se a “abrir os
olhos” dos docentes, uma atitude de massa por parte dos dominantes
arrasou a classe, começando pelos salários vergonhosos,
desrespeitando a categoria, tornando-a cada vez mais uma categoria
de explorados (proletários). A autora fala de relacionamentos
autoritários e que os professores deviam ter idéia do que está por
trás da acriticidade e lutar para debelá-la, ao invés de engrossar a
camada que a impulsiona.
Nosella vai
delinear a natureza e a função política da ideologia da classe
dominante numa formação capitalista. A sociedade capitalista
burguesa professa, como princípio expresso, que todos os homens são
iguais. A práxis econômica em tal formação, no entanto, discrimina o
homem dentro de uma estrutura de classes. Para alcançar os objetivos
mistificadores, a ideologia jamais poderá apresentar-se como tal:
logo, deverá apresentar-se como ciência, a fim de provocar a adesão,
mais ou menos geral, das classes dominadas.
A classe
dominante, para garantir sua hegemonia na sociedade capitalista,
utiliza-se dos aparelhos ideológicos do Estado, sendo que o escolar
assume a posição preponderante no conjunto desses aparelhos
ideológicos, devido à sua eficácia na inculcação da ideologia
dominante. Ao desempenhar tal função, submete a clientela, tanto da
classe dominante e, principalmente, da classe dominada, a uma visão
de mundo em que a estruturação da sociedade em classes e a
exploração de uma pela outra se tornam naturais. Como diz Althusser:
“...a Escola (mas também outras instituições do Estado, como a
Igreja e outros aparelhos , como o Exército) ensinam ‘saberes
práticos’, mas em moldes que asseguram a sujeição à ideologia
dominante (...) Todos os agentes da produção da exploração e da
repressão devem estar...penetrados dessa ideologia, para
desempenharem conscienciosamente a sua tarefa – quer de explorados
(os proletários), quer de exploradores (os capitalistas)...A
reprodução da força de trabalho tem pois como condição sine qua
non não só a reprodução da qualificação dessa força de trabalho,
mas também a reprodução da sua sujeição à ideologia dominante.”
A ideologia não
pode apresentar-se como tal e assume a imagem de ciência neutra.
Enquanto o positivismo dominava, os professores tinham maior
respeito da população e dos alunos; seu salário era maior e ele agia
com neutralidade. A partir do momento em que ficou evidente que não
há neutralidade e que toda ação é engajada, os professores perderam,
tanto na questão salário quanto respeito e passaram a ser cada vez
mais enfraquecidos, a fim de não conseguirem desvendar a ideologia
para os explorados, que não os respeitam como seria necessário para
possibilitar um trabalho mais eficaz.
A escola também,
conseqüentemente, pretende representar o papel de instituição com
objetivos culturais neutros, onde os mestres fazem a criança aceder
à liberdade, moralidade e responsabilidade de adultos pelo seu
próprio exemplo, pelos conhecimentos, pela literatura e pelas
virtudes libertadoras.
O aparelho
escolar, ao cumprir sua função de instrumento de inculcação da
ideologia da classe dominante à classe dominada, sendo a primeira
objetivamente antitética à segunda, comete necessariamente um ato de
violência, mesmo que simbólica, a fim de que esse ato de inculcação
se realize. A violência simbólica
reside no fato de se veicular, por meio do aparelho escolar e,
principalmente, na rede de ensino oficial, onde a maioria da
clientela pertence à classe proletária, uma visão de mundo da classe
dominante, como sendo a única verdadeira. Sugere, ainda, que outras
visões de mundo são inferiores, anticulturais. Mediante a imposição
da visão de mundo da classe dominante, impede-se que a classe
dominada tenha a possibilidade de elaborar sua própria visão de
mundo a partir das suas condições de existência e de seus
interesses.
A ação pedagógica
desenvolvida na escola obriga os alunos a interiorizarem
ensinamentos e princípios, de maneira contínua e metódica, formando
neles um habitus que permanece, mesmo quando cessa essa ação
pedagógica. Tais ensinamentos e princípios, determinando esse
habitus, geram práticas e atitudes que favorecem o modelo
sócio-econômico-político defendido pela classe dominante. Neste
trabalho, a autora aborda um dos principais elementos da ação
pedagógica responsável pela formação desse habitus: os textos
didáticos.
O trabalho é
registrado em dez capítulos,
nos quais Nosella realiza análise dos conteúdos manifestos dos
textos de leitura, explicitando os conteúdos ideológicos
subjacentes, que formam boa parte do que se chamava de “currículo
oculto”, pelo qual a criança assimila determinados comportamentos,
valores, modos de conceber a realidade etc. Para cada texto
utilizado foram feitos pequenos comentários, que dentro dos limites
da pesquisa, conseguem apontar apenas para as mensagens ideológicas
subjacentes aos textos, não tendo finalidade de esgotar a riqueza
desses mesmos aspectos ideológicos.
Família, por
exemplo, é mostrada como unida e feliz apesar de pobre, o que
significa que a necessidade de melhor distribuição de bens; maior
justiça social não são primordiais para a felicidade de seus membros
ou para a ordem e felicidade social. O objetivo ideológico não é
persuadir os que possuem a renunciarem ou concordarem com sua melhor
distribuição, e sim a de convencer os oprimidos a serem felizes
assim mesmo.
Excesso de elogios
dedicados à mãe parece ser uma forma de castração à mulher, no
sentido de obrigá-la, mediante chantagem emocional muito forte, a
permanecer desempenhando esse papel. Seria uma forma de impedir
qualquer revolta de um ser humano que está sendo explorado. Pode-se
ter certeza de que, quando o trabalho da mulher fora de casa for
economicamente interessante para a sociedade capitalista,
encontrar-se-ão todas as formas de persuasão afetiva e intelectual
para justificar o “êxodo” das mulheres de seus lares. Hoje, isso
realmente está ocorrendo.
Mães
“estereótipos’ não pertencem a uma classe social definida, nada
indicando que algumas sejam ricas e outras nem tanto. Elas
transcendem o conceito da classe. A única mãe que aparece descrita
de maneira definida é a pobre, que luta para sustentar os filhos que
lhe ficam eternamente gratos e devedores, pois essa é uma dívida
impossível de pagar. Os filhos podem amortizá-la com alguns
comportamentos exemplares, que invariavelmente são os de bons,
obedientes, estudiosos.
Fica evidenciado
que o objeto principal da ideologia desses textos é a família como
instituição e não as pessoas concretas. A simbologia animal é mais
um instrumento de inculcação de comportamentos de obediência
desejados pelos pais e que se tornam moralmente necessários até que
possam ser automáticos nos indivíduos em qualquer idade e situação
da vida adulta.
Segundo os textos
de leitura, as crianças, quando ativas, independentes, cheias de
vida, originalidade e criatividade, são más, mal educadas,
desobedientes e fazem travessuras. De forma semelhante os
professores se referem aos alunos com tais características,
valorizando aqueles que não atrapalham e não questionam e que,
também não são críticos nem criativos.
Quando a criança é
boa, estudiosa e obediente, é elogiada nos textos porque aprendeu o
comportamento que lhe foi prescrito. A desobediência é sempre muito
perigosa, pois acaba sendo castigada, não pelos pais, que são muito
bons, mas pelo destino ou por entidades como bruxas e sacis, como no
texto: A abelhinha conta uma estória, onde a menina
desobediente fugiu para a floresta sem o consentimento dos pais, deu
de cara com o saci e ficou presa na casa de uma bruxa.
Ao se valorizar
mais a obediência à autoridade constituída e a passividade diante de
comportamentos predeterminados, se está anulando toda originalidade,
criatividade e espírito crítico das crianças, impedindo que surjam
novos comportamentos mais adaptativos. O objetivo aqui é suprimir
qualquer desvio da conduta. Com essa educação, a criança se
transformará num adulto dócil e integrado na vida da sociedade.
Dessa forma, os filhos incorporarão para sempre o comportamento de
obediência e conformismo diante da autoridade de qualquer de seus
superiores.
(Refletir: as
novas gerações não estão mais assim. Será que os textos mudaram
muito? O que mudou?)
“É muito
significativo constatar que os comentários ouvidos no meio da classe
média e rica, atualmente, são justamente o contrário do que é
exposto nos textos de leitura analisados. A defasagem entre os
comentários e os textos se explica pelo fato de as contradições
sócio-econômicas explodirem e se revelarem na vida real e não serem
retratadas nos textos de leitura. As conotações paternalistas dos
textos demonstram as influências da época escravista, onde o
paternalismo era a única atitude que justificava, diante de uma
consciência burguesa, as relações entre patrão e escravo.”
Nosella afirma que
além de uma visão padronizada e estática da família, de seus membros
e do relacionamento entre eles, onde não há nenhum realismo, a
instituição família é representada pelos textos de leitura também
como ilhada do mundo. Não se percebe pelas mensagens a inserção da
família dentro da sociedade. De forma alguma se poderia esperar que
, nesses textos, a família fosse apresentada como uma célula viva,
ativa, como instrumento de renovação da sociedade em geral. É
apresentada como lugar de paz, segurança e felicidade para os seus
membros; não aparecem conflitos pessoais, nem reflexos dos conflitos
sócio-econômicos- políticos existentes na sociedade capitalista.
A família dos textos é completa, fechada,
auto-suficiente, como um mundo existente à parte, em si e para si.
No segundo capítulo,
A Escola é apontada como grande
tesouro a ser adquirido. Freqüentá-la e iniciar-se em seus ritos é
uma ideologia elaborada pela classe dominante, transmitida por meio
dos textos de leitura e, também, dos outros conteúdos administrados
pelas disciplinas escolares. A mesma ideologia é veiculada por todos
os inúmeros requisitos exigidos, e pelos comportamentos dos que
fazem parte dessa estrutura escolar, que discrimina setores da
população que não possuem escolas para freqüentar onde residem e/ou
não podem freqüentá-las porque têm que trabalhar. As crianças de
classe dominante têm vantagens de condições sociais prévias que lhes
garantem êxito escolar e serão considerados naturalmente superiores,
inteligentes, preparando-se para ocuparem os melhores empregos
oferecidos pela sociedade. Assim é criado um círculo vicioso que por
meio do conteúdo educacional e de outros aspectos da estrutura
escolar, manterá e legitimará o status quo.
Da mesma maneira
que os pais, os professores são idealizados e não descritos como
pessoas concretas, com qualidades e defeitos. É preciso que os
alunos os respeitem como autoridades, para que possam controlar a
disciplina. pelos textos didáticos; não se pode desobedecer a mãe,
que faz tantos sacrifícios, nem a professora, para a qual os alunos
são como filhos. Há uma grande identidade entre a instituição
família e a escola, pois os relacionamentos afetivos e os
disciplinadores que se instauram na família prosseguem na escola. A
autoridade familiar, que gera a disciplina na família, é reforçada e
legitimada pela autoridade escolar. O conceito de autoridade
baseia-se no respeito, obediência, passividade e não no diálogo e
busca comuns.A autoridade sempre deve ser obedecida, respeitada e
amada. Estes são os deveres das crianças como filhos e alunos. As
pessoas devem apresentar comportamentos que não incomodem, não
tragam inovações, perturbações sempre existentes em qualquer tipo de
transformação. Em geral, nos textos de leitura, são sempre as
mulheres que desempenham a função de ensinar. Os homens mencionados
desempenham a função de dirigir a escola e representam a autoridade
máxima, sendo severos, distantes,fiscalizando os estudos dos alunos
e sendo por estes respeitados.
A desvalorização
social e profissional da função de professora primária, sua baixa
remuneração, faz com que tais empregos sobrem para a mão- de- obra
feminina, de menor custo.
A identidade entre
a instituição familiar e a escolar se repete constantemente nos
textos, sugerindo a similaridade das funções de governar das
autoridades de ambas. Relacionamento entre professor e aluno é,
também, vertical, como entre pais e filhos, visto ser uma relação
entre autoridade (cultural e disciplinar) e subordinados; os alunos
obedecem, estudam, aprendem, não questionam, não criticam, não
pensam. Assim, escola e família são instituições utilizadas como
instrumentos para invalidar qualquer comportamento mais original e
irrequieto dos alunos, objetivando transformá-los em seres quietos,
passivos e uniformes, premiando as crianças pelas atitudes
exemplares. Isso deu certo por muito tempo, mas agora está sendo
bastante questionado e muitas crianças não estão se deixando
enquadrar nesses esquemas rígidos. É importante que o aluno queira
inovar, inventar e não apenas obedecer.
Toda essa
ideologia massificante difundida aos alunos, encobre inúmeros
problemas, como a importância da condição sócio-econômica do aluno
para a determinação do seu sucesso ou fracasso escolar; a
discriminação exercida pela sociedade capitalista mediante a escola,
possibilitando que restrita minoria continue seus estudos com
qualidade; problemas das desigualdades sociais são ignorados;
problema do custo do estudo dos filhos para a economia familiar; a
escola baseia-se num modelo autoritário e repressivo, onde os
métodos de aprendizagem são fundamentados na disciplina e os
relacionamentos entre professores e alunos são estáticos. Essa
uniformização e controle das crianças têm implicações
sócio-políticas, já que assim se conseguirá transformá-las em seres
obedientes e, provavelmente, cidadãos pouco criativos, conformados
diante de toda e qualquer autoridade, que só agem seguindo ordens. A
seleção social, que faz com que
alguns sejam privilegiados, é camuflada pela desculpa do
mérito individual. A escola é um
mundo fechado em si mesmo, imutável, no qual a obediência é
valorizada muito mais do que a curiosidade, o espírito crítico e a
criatividade.
No capítulo três, quatro e cinco,
Nosella diz que a impressão causada pelos textos é a de que o país
constitui uma “entidade’ com personalidade própria, independente dos
indivíduos que formam o seu povo. Tais textos pretendem inculcar nos
alunos a imagem de uma Pátria poderosa, com o objetivo de impedir
análises críticas sobre o tipo de estruturação social capitalista do
país (que gera grandes desigualdades) e o processo de atualização
histórica. (O país está sendo submetido a processo colonialista, de
dependência econômica e política de outras nações, desde o seu
descobrimento até os dias atuais). A Pátria é comparada à mãe
generosa e protetora que se deve amar e todos são responsáveis pelo
futuro da Pátria, inclusive as crianças. Os condicionamentos
ideológicos colocam as crianças em atitude receptiva, de prontidão
para seguirem sugestões que lhes forem dadas como maneiras de
participar do progresso do país.
As mensagens
ideológicas subjacentes e veiculadas por todas as instituições:
Família, Escola e Pátria condicionam as crianças a se sentirem
responsáveis, não só pelo progresso, mas pela defesa da Pátria, cuja
noção é limitada às descrições genéricas de aspectos da natureza.
Autores dos textos
de leitura, ingenuamente, ou não, conscientemente, ou não,
dificultam às crianças o conhecimento da realidade brasileira, cheia
de contradições. Tais textos, perfeitamente moldados à ideologia a
que servem, têm como objetivo instilar um alegre e ingênuo
patriotismo. Tal mensagem deforma a realidade das relações entre
indivíduos e classes sociais distintas, que objetivamente não podem
se dar as mãos. (Alunos e professores também não podem ser colocados
em situação igualitária, porque o professor vai transmitir-lhes
conhecimentos- refletir). O comportamento da classe dominante no
Brasil é um dos mais cruéis que se pode observar. Seus componentes,
formados há séculos dentro de uma ideologia capitalista-escravista,
vigente ainda hoje, consideram a grande maioria que compõe a classe
trabalhadora não só inferior, mas radicalmente “coisa” destinada a
seu uso.
Quanto aos
símbolos nacionais, a ideologia
objetiva transmitir aos brasileiros sentimentos acríticos de orgulho
patriótico, induzindo a que sigam todas as normas de comportamento
que forem ditadas para a união e progresso da nação. Os fatos
históricos e patrióticos fazem com que todos se sintam tomados por
sentimentos de glória e expressem seu amor pelo cumprimento de seus
deveres. Textos de ideologia dominante impedem que venha à tona o
questionamento do que representa concretamente o solo pátrio
(propriedade privada da classe dominante) e têm o objetivo de
condicionar crianças a colocarem o dever, isto é, o amor, a
obediência, o respeito por todas instituições acima de si próprio e
de maneira acrítica.Quando
adultos, estarão deformados em seus comportamentos, pois aprenderam
apenas a obedecer, respeitar e amar os pais, professores e outras
autoridades, pelo simples fato de serem “autoridades”.
Poemas sobre fatos
da História do Brasil relatam, de maneira abstrata, acontecimentos
históricos e políticos, sem mencionar as causas que os determinaram,
nem suas conseqüências; são idealizados, e a verdadeira História do
Brasil fica esquecida nos bastidores. Parecem cenas estanques, de
uma história estática, perfeitamente adequada aos interesses do
sistema. Cria-se uma espécie de torpor intelectual com a
conseqüência prática de as crianças acharem gloriosa toda a história
passada, o que lhes impede de desenvolver uma visão crítica da
história colonialista e neocolonialista do país.
Mensagem
ideológica dos feitos na arte e no esporte tem por objetivo mostrar
que indivíduos isolados conseguem realizar grandes feitos, baseados
em seus talentos pessoais, por mérito próprio. A ideologia
capitalista aparece nestes textos com um tipo de mensagem na qual
quem realmente tem valor triunfa independentemente de qualquer
circunstância. As normas que existem para os filhos e alunos
repetem-se para os cidadãos adultos: cumprir com seus deveres,
omitindo seus possíveis direitos. Tais textos veiculam visão
“estereotipada” da Pátria com a finalidade ideológica dominante de
mascarar uma situação social, econômica e política real; insinuam
visão de Pátria grandiosa, como entidade que tem existência em si
mesma, independente de todo o povo.
A classe
privilegiada, assim, assegura a manutenção de sua posição, já que
não são relacionados os sérios problemas sociais, políticos e
econômicos pelos quais passa o povo brasileiro com a estrutura
capitalista, num contexto nacional, e a dependência econômica e
política, no contexto mundial.
Nos textos
referentes ao ambiente, as
maneiras expostas de viver no campo e na cidade com suas
perspectivas de vida são sempre as mesmas, sendo a cidade menos
citada que o campo, quando se fala da importância do trabalho
agrícola para o desenvolvimento da nação. O homem do campo é feliz
em sua idílica vida campestre, enquanto o problema agrário do Brasil
é um dos mais sérios e com pouca probabilidade de ser solucionado
(apesar da luta engendrada atualmente pelo MST). Aqui está uma das
belas mentiras dos textos de leitura ditada pela ideologia da classe
dominante, pois nem todos que plantam colhem e nem todos que
trabalham na colheita têm.
As descrições,
tanto da zona rural quanto da urbana são abstratas, imutáveis e, por
isso, empobrecidas, pois não se referem a nenhum lugar existente. A
real interdependência sócio-econômica entre a cidade e o campo, que
não é absolutamente harmônica, mas sim conflitante, não é
mencionada. Não é analisado o êxodo rural, que gera o problema dos
aglomerados urbanos, criando o exército de reserva, que abaixa ainda
mais o custo da mão-de-obra, aumentando a exploração da classe
trabalhadora. Nas descrições da cidade se dá destaque ao consumo.
Ideologia
dominante com mensagens singelas sobre a necessidade de preservação
da árvore mascara as especulações econômicas que determinam a
devastação de florestas. Oculta, mais uma vez, os sérios problemas
sócio-econômicos do norte e nordeste do país.
Também os rios são
citados de maneira sentimental e poética, silenciando em relação à
desenfreada poluição, principalmente decorrente de resíduos químicos
das indústrias.
A natureza e seus
elementos, sua flora e sua fauna são fantásticos, poéticos e
mágicos, com absoluta irrealidade das situações, desligadas do
cotidiano e de lugares realmente existentes, com objetivo de
dissimular os sérios problemas ecológicos criados pelas relações de
produção da sociedade capitalista.
Segundo os textos
de leitura, o trabalho (e suas características) é visto como um
hobby, que dá muita alegria e satisfação. Ao trabalho é colocado que
o homem deve sua felicidade e sua saúde, considerando-o uma das
maiores virtudes que se pode possuir, pois será sempre recompensado
com a abundância e riqueza. No entanto, acreditar que o trabalho
honesto e assíduo é sempre recompensado com lucros, como está nos
textos de leitura, é distorcer toda a realidade econômica de uma
sociedade capitalista. Não se analisa a necessidade do emprego e da
acumulação de capital para que se possam obter lucros.
Com relação a
profissões, a ideologia artesanal antiga foi substituída pela
ideologia industrial-capitalista, cujo objetivo é distorcer a
realidade contemporânea, substituindo-a por outra mais abstrata e
superada., a fim de que as contradições existentes no meio urbano
industrial não aflorem e sejam analisados nos textos de leitura. Não
são mencionados problemas sócio-econômicos existentes nas relações
trabalhistas entre patrões e proletariado. A ideologia da classe
social dominante tem por objetivo transmitir imagens de um
relacionamento harmonioso. Seria necessário demonstrar a falsidade
da ideologia que sugere, nos textos, que as diferenças
sócio-econômicas, dentro da estratificação social, não são de grande
importância, pois todas as profissões são boas e úteis, logo, são
iguais.
Passando a imagem
de que quem estuda trabalha, encobre os privilégios daqueles que
além de poderem estudar, também podem não trabalhar realmente. Como
se não houvesse uma grande diferença entre o trabalho intelectual e
o braçal. Mascaram-se as verdadeiras causas, que são as diferenças
sócio-econômicas, que determinam a existência de crianças cujo único
trabalho é o estudo, e de outras que realmente trabalham, além de
estudar, e outras , ainda, que só trabalham. Os textos de leitura
jamais explicitam os reais mecanismos econômicos e sociais que regem
o mundo do trabalho. A ideologia capitalista dominante harmoniza o
mundo do trabalho, igualando as diferentes profissões.,
estereotipando as relações de trabalho, idealizando os
trabalhadores.
No capítulo seis,
Pobres e Ricos, mensagem
ideológica altamente alienante propõe que a riqueza não resolve os
problemas das pessoas nem lhes traz felicidade. Tal mensagem
pretende impedir que as crianças pertencentes a uma sociedade
capitalista questionem a posição sócio-econômica privilegiada de uma
minoria rica que, mediante a concentração de renda, está provocando
um maior aguçamento das contradições sociais, da miséria da classe
pobre, dominada e explorada do país.
É necessário
desmascarar esse tipo de mensagem ideológica, pois se houvesse uma
real igualdade entre os homens, poder-se-ia dizer que todos teriam
posições sócio-econômica iguais e, no entanto, não seriam iguais,
por existirem importantes diferenças individuais.
O capítulo sete
fala sobre as virtudes,
mensagens morais sugerindo comportamentos virtuosos, que se
encontram em quase todos os textos, entrelaçando-se com todos os
outros temas. Os textos de leitura constituem contínuas exortações
às crianças, no sentido de serem virtuosas, sugerindo sempre a
virtude adequada a ser seguida; as virtudes na família e na escola,
boas maneiras, padrões de comportamento burgueses quanto aos
relacionamentos sociais, cujo desempenho é de difícil assimilação
pelas crianças da classe social dominada que tiveram, provavelmente,
um outro tipo de socialização primária em suas famílias de origem.
Textos em geral
elitistas, discriminatórios, colocando as crianças pobres na
categoria dos inferiores e “sem educação”. Impõe-se arbitrariamente
uma cultura dominante às crianças da classe pobre, alienando-as de
considerá-la válida e não inferior, comparada com a cultura da
classe dominante.
Há textos que
utilizam o ambiente familiar para treinamento de virtudes :
econômicas (para quem tem o que economizar); ordem, obediência,
união. Trazem mensagens que abafam a iniciativa da criança de se
rebelar contra a obediência excessiva e constante, dando-lhe
oportunidade de comandar a si mesma, tornando-se menos irrequieta,
mais atenta ao estudo, ao trabalho e aos conselhos dos pais e
professores. Percebe-se um tipo de
persuasão, que pode caracterizar-se como um tipo de violência
sutil, pois obriga disfarçadamente a pessoa a incorporar
tais valores à estrutura de sua personalidade, prometendo
recompensas e não usando nenhum tipo de castigo.
A
simbologia animal é utilizada
para mostrar que o conformismo é a melhor atitude. A mensagem
ideológica da passividade continua sendo divulgada, bem como que a
violação da ordem constituída poderá ser absurda. Com isso, as
crianças passam a aceitar uma visão imutável da realidade, o que não
corresponde à verdade, pois o homem pode e deve manter relações de
transformação com a natureza e com a sociedade.
No capítulo oito,
Explicações Científicas, Nosella
percebeu textos que, com dificuldade em explicar os fenômenos
naturais, utilizam como explicações científicas uma fantasia
prodigiosa., que muitas vezes censuram atitudes de curiosidade. A
autora acredita que a descrição da realidade é mais atrativa por si
mesma que histórias fantasiosas, no entanto, a descrição da
realidade não facilita a transmissão de mensagens ideológicas e o
esforço para descrever a realidade estrutura e desenvolve a mente da
criança numa postura científica e crítica, o que não é do interesse
da classe dominante.
O capítulo nove fala
do Índio como personagem que se
mantém vivo e presente, embora, na realidade, seja uma raça em
processo de extinção. Narrações sobre o povo indígena e seu modo de
viver apresentam caráter impessoal, aparentemente sem um julgamento
de valor. No entanto, tais julgamentos, baseados na cultura branca,
estão presentes. Salientam batalhas de índios, sem fazer paralelo
com as guerras entre brancos. Os textos descrevem relacionamentos
verticais entre brancos e índios, onde os primeiros são doadores da
verdadeira cultura e os segundos, receptores ignorantes, civilizados
à medida que vão assimilando a verdadeira e superior civilização; a
branca. Apresentam falsa realidade, com o que se foge à verdade
incômoda, à práxis sócio-econômica da classe dominante.
A finalidade do capítulo dez,
Capas e Ilustrações, é
evidenciar a função ideológica que as gravuras dos livros didáticos
desempenham. É necessário observar que a mensagem visual se torna
eficiente instrumento ideológico complementar dos textos, devido à
sua força comunicativa, rapidez e impacto emotivo, muitas vezes
maior que a comunicação escrita. Nosella coloca comentários ao lado
de cada gravura com a finalidade de realçar o sentido ideológico das
ilustrações.
Nas conclusões gerais,
Nosella diz que o estudo da ideologia subjacente aos textos de
leitura mostrou que todos os temas se relacionam intimamente,
tornando-se cúmplices nas explicações e justificações de uma
determinada visão de mundo. As idéias principais de cada tema
constituem o núcleo comum de todos os temas.
O objetivo real da
ideologia subjacente aos textos de leitura é o de criar um mundo
relativamente coerente, justo e belo, no nível da imaginação, com
função de mascarar um mundo real que, contraditório e injusto, é
necessário para os interesses das classes hegemônicas.
Características
constantes desse mundo imaginário são a estereotipação e a
idealização, com a função de fixar fora do tempo e do espaço,
modelos de comportamento, de relacionamento, de valores absolutos em
si mesmos, afastando qualquer possibilidade de mudança das normas e
dos comportamentos que funcionam como fonte de lucro para a classe
dominante. Característica imutável desse mundo ilusório dos textos é
a celebração do relacionamento vertical (doador-receptor) que se
articula em todos os temas. Dentro desse esquema nota-se a relação
de autoridade de pais sobre os filhos, do homem sobre a mulher, da
Pátria sobre seus cidadãos, da natureza sobre o trabalhador, etc.
O objetivo último
desse esquema é condicionar os seres a uma atitude de passividade
diante do modelo de sociedade vigente.
Mais uma
característica invariável do mundo imaginário descrito pelos textos
analisados é a ausência de problemas na sociedade e na natureza,
Qualquer tipo de problema, quando apresentado, já traz consigo,
também, a solução.
Finalmente, a
última característica desse mundo fantástico é a valorização dada a
todo tipo de sacrifício. Evidentemente, com objetivo de suportar
melhor, no conjunto da sociedade, o peso da alienação, da dominação
e da exploração.
Comentários da
Resenhista
Ler,
refletir e analisar as conclusões específicas da autora fica a cargo
de cada leitor. Hoje, mais que nunca, o estudo atento da obra
completa de Nosella se faz necessário, principalmente pelos
educadores comprometidos com a transformação social, que somente se
dará a partir da conscientização efetiva da população, que não pode
continuar a ser enganada por textos mágicos, por “pão e circo”.
Há que se
considerar a oportunidade de uma proposta de não usar livros
prontos, mas prepará-los. A aceitação de tal desafio depende da
formação, competência e isenção dos professores. Alguns querem isso,
mas não têm preparo para assumir tal compromisso. Outros ainda não
despertaram; não perceberam a urgência da proposta e nem pensam em
deixar a comodidade de seguir literalmente o livro didático. Em seu
trabalho docente, muitas vezes não consideram a realidade dos alunos
e da sociedade em que vivem, e ingenuamente continuam querendo impor
um comportamento irrepreensível e acomodado, acrítico.
É inquestionável
que a totalidade dos professores precisa ser preparada para lidar
com situações de conflito que levam ao crescimento. Os docentes
precisam respeitar e valorizar a si mesmos e aos alunos que mais
precisam da escola, fornecendo-lhes os instrumentos da criatividade,
da crítica, da reflexão para que se apropriem dos conhecimentos e
transformem a sociedade. Contribui para isso o fato de que, hoje, os
alunos já não ficam passivos e querem mudar a relação com os
professores e com o mundo. Nesse novo cenário, os professores
precisam se adaptar às novas relações, precisam assumir seu papel,
inclusive de impor limites, e continuar contribuindo, mas de maneira
diferente, consciente, competente, despojada, autônoma, como
mediadores entre o aluno e o objeto de conhecimento.
Joana
Maria Rodrigues Di Santo é Psicopedagoga experiente, com atuação
significativa em Psicopedagogia Institucional, Supervisora aposentada do Município de São Paulo,
mestre em Educação, Professora da Uni Sant`Anna, profere palestras e assessora diversas escolas.
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