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Para todos aqueles que trabalham com
Psicopedagogia e Educação Especial é bastante comum a vivência de
situações em que é preciso estabelecer a intervenção psicopedagógica em
função das necessidades especiais da criança. Os brinquedos, jogos e
materiais pedagógicos desempenham neste momento um papel nuclear.
Este trabalho visa discutir alguns aspectos fundamentais na estruturação
do processo psicopedagógico tendo em vista a construção do conhecimento e
do saber por parte da criança através do uso de brinquedos e jogos.
Tradicionalmente, este processo tem sido abordado a partir de uma ótica
redutora que atribui a uma ou duas variáveis a responsabilidade pelo
processo de aprendizagem da criança. É bastante comum os professores se
referirem à situação familiar como a grande responsável pelos problemas
apresentados pela criança: "Os pais de fulano se separaram!". Esta postura
introduz um privilegiamento da variável psicológica, como se, através
dela, fosse possível entender o que ocorre com a criança.
A intervenção psicopedagóglca veio introduzir uma contribuição mais rica
no enfoque pedagógico. O processo de aprendizagem da criança é
compreendido como um processo pluricausal, abrangente, implicando
componentes de vários eixos de estruturação: afetivos, cognitivos,
motores, sociais, econômicos, políticos etc. A causa do processo de
aprendizagem, bem como das dificuldades de aprendizagem, deixa de ser
localizada somente no aluno e no professor e passa a ser vista como um
processo maior com inúmeras variáveis que precisam ser apreendidas com
bastante cuidado pelo professor e psicopedagogo.
Um outro problema bastante grave a ser ressaltado é uma concepção redutora
do modelo piagetiano que tem sido adotada em boa parte dos cursos de
Pedagogia, no qual são privilegiadas apenas as colocações iniciais da sua
obra. Ela tem direcionado os professores a conceberem o processo de
ensino-aprendizagem de uma maneira estática, universalista e atemporal.
Com isto ficam de fora as contribuições mais importantes de Piaget em
relação aos processos de equilibração e reequilibração das estruturas
cognitivas.
O educador já não se defronta com um
processo linear de crescimento e desenvolvimento, tanto no desenvolvimento
intrínseco como na expressão, mas com um realizar-se descontínuo no qual
fases e períodos se entrecruzam, se opõem dialeticamente, oposições de que
resulta uma nova estruturação.
PARAGENS (sic), ACELERAÇÕES, SALTOS BRUSCOS, SÃO A EXPRESSÃO FORMAL.
Isto altera completamente o panorama da pedagogia graduada: se o
desenvolvimento não é contínuo e ininterruptamente acelerado e
progressivo, como se lhe adequará uma educação regulada por grandes
períodos de desenvolvimento?
Como pretender apreender a instabilidade do desenvolvimento pela
estabilidade dum processo educativo que se mede por anos? Os fins da
pedagogia não deveriam apontar para o homem futuro, o que realmente será
permanente e atuante, e não para as etapas da idade evolutiva? (Merani,
1977: 91).
Esta visão aponta um deslocamento de uma vertente universalista atemporal
para uma vertente particularista temporal. Kohl revela alguns dos aspectos
fundamentais deste processo:
O cérebro, no entanto, não é um sistema de funções fixas e imutáveis, mas
um sistema aberto, de grande plasticidade, cuja estrutura e modos de
funcionamento são moldados ao longo da história da espécie e do
desenvolvimento individual. Dadas as imensas possibilidades de realização
humana, essa plasticidade é essencial: o cérebro pode servir a novas
funções, criadas na história do homem, sem que sejam necessárias
transformações no órgão físico. O homem transforma-se de biológico em
sócio-histórico, num processo em que a cultura é parte essencial da
constituição da natureza humana. NÃO PODEMOS PENSAR O DESENVOLVIMENTO
PSlCOLÓGlCO COMO UM PROCESSO ABSTRATO, DESCONTEXTUALIZADO, UNIVERSAL: O
FUNCIONAMENTO PSlCOLÓGlCO, PARTICULARMENTE NO QUE SE REFERE ÀS FUNÇÕES
PSICOLÓGICAS SUPERIORES, TIPICAMENTE HUMANAS, ESTÁ BASEADO FORTEMENTE NOS
MODOS CULTURALMENTE CONSTRUÍDOS DE ORDENAR O REAL (Kohl, 1993: 24).
O fundamental é perceber o aluno em toda a sua singularidade, captá-lo em
toda a sua especificidade, em um programa direcionado a atender as suas
necessidades especiais. É a percepção desta singularidade que vai comandar
o processo e não um modelo universal de desenvolvimento. Isto porque o uso
do modelo universalista camufla normalmente uma concepção preestabelecida
do processo de desenvolvimento do sujeito. Na intervenção psicopedagóglca
deve-se evitar as chamadas "profecias auto-realizadoras", isto é,
prognósticos que o professor lança a respeito do processo de
desenvolvimento de seu aluno sem levar em consideração o seu desempenho.
É preciso que o professor ou
pslcopedagogo também altere a sua forma de conceber o processo de
ensino-aprendizagem. Ele não é um processo linear e contínuo que se
encaminha numa única direção, mas, sim, multifacetado, apresentando
paradas, saltos, transformações bruscas etc. O processo de
ensino-aprendizagem inclui também a não-aprendizagem. Ou seja, a
não-aprendizagem não é uma exceção dentro do processo de
ensino-aprendizagem, mas se encontra estreitamente vinculada a ele. O
aluno (aprendente, em termos de psicopedagogia) pode se recusar a aprender
em um determinado momento. O chamado fracasso escolar não é um processo
excepcional que ocorre no sentido contrário ao processo de
ensino-aprendizagem. Constitui, sim, exatamente a outra face da mesma
moeda, o seu lado inverso. O saber e o não-saber estão estreitamente
vinculados. O não-saber se tece continuamente com o saber. Com isto
queremos dizer que o processo de ensino-aprendizagem, do ponto de vista
pslcopedagógico, apresenta sempre uma face dupla: de um lado a
aprendizagem e do outro a não-aprendizagem.
O desejo de saber faz um par dialético com o desejo de não-saber. O jogo
do saber-não saber, conhecer-desconhecer e suas diferentes articulações,
circulações e mobilidades, próprias de todo ser humano ou seus
particulares nós e travas presentes no sintoma, é o que nós tratamos de
decifrar no diagnóstico (Fernandez, 1991: 39).
O uso dos brinquedos, jogos e materiais pedagógicos e as estruturas de
alienação no saber
A Psicopedagogia, com base na Psicanálise, revela que o conhecimento e o
saber não são apreendidos pelo sujeito de forma neutra. Dentro do sujeito
há uma luta entre o desejo de saber e o desejo de não-saber. Este processo
acaba por estabelecer para o sujeito determinadas posições a priori da
assimilação e incorporação de quaisquer informações e/ou processos
formativos. Elas se refletem tanto no plano consciente quanto
inconsciente. Diante do uso de brinquedos, jogos e materiais pedagógicos o
sujeito pode se direcionar tanto para o desejo de saber quanto para o
desejo de não-saber. No primeiro caso, através do desejo de saber o
sujeito tece o saber. No segundo caso, paralisa o processo formando as
chamadas estruturas de alienação no saber (Mrech, 1989: 38). O termo foi
cunhado por Roland Barthes em O rumor da língua, para designar um fenômeno
novo que ocorreria na cultura: a meu ver, existe uma antinomia profunda e
irredutível entre a literatura como prática e a literatura como ensino.
Esta antinomia é grave porque se liga ao problema que é talvez hoje o mais
escaldante, e que é o problema da transmissão do saber; é aqui que reside
sem dúvida o problema fundamental da alienação, uma vez que, se as grandes
estruturas de alienação econômica foram postas a nu, as estruturas de
alienação no saber não o foram (Barthes, 1987: 43).
É bastante comum para todos aqueles que trabalham com Prática de Ensino e
Didática vivenciarem uma situação onde o aluno e os professores já
formados assinalam que a universidade tende a prepará-los inadequadamente
para a sua prática futura. Poderíamos pensar que se trata apenas de uma
transmissão inadequada da universidade, apenas uma questão de teoria x
prática.
Na verdade, a situação é bem mais
complexa:
Há uma espécie de "círculo cujo centro está em toda a parte e em parte
alguma". O poder simbólico é, com efeito esse poder invisível, o qual só
pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe
estão sujeitos ou mesmo que o exercem. A cultura que une (instrumento de
comunicação) é também a cultura que separa (instrumento de distinção) (Bourdieu,
1989: I I).
Os símbolos geram as estruturas do saber, podendo posteriormente se
transformar em estruturas de alienação no saber.
Os mesmos símbolos ensinados para estabelecer comunicação podem levar à
paralisação e à segmentação do saber. A mesma simbolização pode ter um
caminho tanto de aproximação quanto de afastamento do saber e das pessoas.
Tentando delimitar melhor este fenômeno em nossa tese de doutoramento,
utilizando a terminologia de Roland Barthes, resolvemos efetuar um estudo
mais aprofundado das estruturas de alienação no saber.
As estruturas de alienação no saber se apresentam tanto no plano dos
idioletos (linguagem grupal e/ou individual) como no da língua (linguagem
social). Em ambos a sua característica maior é a coisificação ou
reificação da linguagem. E estabelecido, através delas, um processo de
alienação de tal ordem que é como se o saber tivesse tomado forma e
assumisse uma vida independente do pensamento mais atualizado dos
sujeitos. No plano do idioleto, na sua família, a criança pode aprender
certas palavras, que crê sejam comuns a todos os sujeitos. Ela pode
utilizar o fonema "Bu" e a mãe entender que com isto ela está pedindo um
copo de água. No entanto, se ela o empregar para pedir água fora de casa,
dificilmente as pessoas poderão compreendê-la. Ela ficou em um idioleto,
em uma fala reificada, particularizada, que exclui outras possibilidades
de articulação e significações. O mesmo processo ocorre também no plano
social, quando a linguagem chega a adquirir uma generalização tão ampla,
que pode perder o sentido e a precisão. Assim, ao se falar que uma coisa é
superlegal pode se estar frisando o fato de que é uma coisa ótima. No
entanto, se essa palavra for freqüentemente utilizada em múltiplas
ocasiões, as pessoas poderão ficar em dúvida se o sujeito sabe o que é
realmente uma coisa super. Neste caso, a palavra super entrou no lugar do
advérbio de quantidade muito. O sentido muito legal ficou camuflado. A
palavra super, que se referia originariamente a um contexto superlativo,
perdeu o seu eixo original de inserção, tomando a aparência de um advérbio
de quantidade.
Em decorrência, pode-se dizer que nas estruturas de alienação no saber é
como se os sujeitos não se dessem conta do que estão fazendo e
funcionassem em termos de uma elaboração inconsciente, em um nível
automático de conceitualização. Pierre Bourdieu designa este processo de
"instrumentos inconscientes de construção":
Passo aos conceitos, às palavras, aos métodos que a profissão emprega para
falar do mundo social e para o pensar. A linguagem levanta um problema
particularmente dramático para o sociólogo: ela é, com efeito, um enorme
depósito de pré-construções naturalizadas, portanto, ignoradas como tal,
que funcionam como instrumentos inconscientes de construção (Bourdieu,
1987: 39).
No caso da Pedagogia e da Psicopedagogia, as estruturas de alienação no
saber, como instrumentos inconscientes de construção, atuam reificando os
lugares do discurso pedagógico: o lugar do professor e o lugar do aluno.
Ou seja, elas são guias de ação, formas prévias de conceber como o
professor e o aluno deverão agir e se comportar. Elas se encontram
fundamentalmente no âmbito da própria linguagem, sendo compostas por
hábitos, repetições, estereótipos, cláusulas obrigatórias e
palavras-chaves, estruturando o pensamento dos sujeitos.
Os símbolos introduzem no sujeito um processo de uso duplo tanto de
aproximação quanto de distanciamento das coisas e das pessoas. Os símbolos
tendem a formar dentro do sujeito verdadeiras cadeias simbólicas
alienadas: as estruturas de alienação no saber. O seu papel fundamental é
impedir um contato mais estreito entre os sujeitos ou dos sujeitos com o
saber.
Ou seja, elas são estruturas defensivas
que, em um determinado momento, são utilizadas pelo sujeito ou pela
sociedade para introduzir um distanciamento entre as pessoas ou em relação
a um saber novo. Elas revelam formas prefixadas de lidar com o
conhecimento e o saber. Formas acionadas pelo desejo de não-saber para que
o sujeito, o grupo ou a sociedade se paralisem, impedindo-se de ir para a
frente e de conhecer mais. Alícia Fernandez concebe estas estruturas como
verdadeiros "clichês", isto é, formas estereotipadas de saber:
Para pensar novas idéias temos que desarmar nossas idéias feitas e
misturar as peças, assim como um tipógrafo ver-se-á obrigado a desarmar os
clichês, se deseja imprimir um texto no novo idioma (Fernandez, 1991: 23).
As estruturas de alienação no saber se dividem em dois tipos básicos: as
estruturas sociais de alienação no saber e as estruturas individuais de
alienação no saber.
As estruturas sociais de alienação no saber são sistemas simbólicos
utilizados pela sociedade para fornecer um código geral em que os sujeitos
encontrarão sempre guias de ação predeterminados. Estas formas alienadas
não surgem ao acaso. Elas são os resíduos das estruturas de saber que, ao
longo do tempo, perderam o seu potencial gerador de conhecimento,
tornando-se formas inadequadas e preconcebidas de apreender a chamada
realidade concreta. Elas são formas de saber que perderam a capacidade de
possibilitar uma comunicação efetiva entre os sujeitos. Podemos
associá-las aos processos vinculados ao cotidiano das pessoas,
principalmente ao saber-fazer das pessoas. Por exemplo, o professor, ao
longo da sua prática pedagógica, aprendeu a dar aula de um determinado
modo. Aos poucos, este processo transformou-se em um hábito, passando a
estruturar a sua prática diária. Como Chico Buarque de Holanda costuma
cantar: "Todo dia ela faz tudo sempre igual".
As estruturas de alienação no saber são modos de ação socialmente
determinados (hábitos, repetições, estereótipos, cláusulas obrigatórias e
palavras-chave) que estruturam o que escutar, o que dizer e o que fazer em
um determinado momento. O mesmo conteúdo que o professor aprendeu na
universidade para formá-lo e informá-lo pode, em outro momento,
desinformá-lo e colidir com as suas novas necessidades de atuação docente.
Quando se assinala a importância da constante reciclagem do professor não
é porque as teorias simplesmente mudaram, mas porque os símbolos se
reificaram impedindo o professor de estabelecer um melhor contato com os
seus alunos. As estruturas de alienação no saber enquanto sistemas
simbólicos acabam por se constituir em um sistema de crenças a respeito do
que-fazer pedagógico, impregnando de forma irreversível o processo de
atuação do professor.
O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem, poder de manter a
ordem ou de a subverter, é a crença na legitimidade das palavras e daquele
que as pronuncia, crença cuja produção não é da competência das palavras.
A destruição deste poder de imposição simbólico radicado no
desconhecimento supõe a tomada de consciência. do arbitrário, quer dizer,
a revelação da verdade objetiva e o aniquilamento da crença (Bourdieu,
1987: 15).
Aquilo que o professor aprendeu durante o período em que era estudante
passará a nortear a sua forma de ação docente. Gradativamente, o que eram
guias de ação eficazes no princípio, aos poucos se transformam em formas
estereotipadas de enxergar os seus alunos. Formas que o levam a
estabelecer certos hábitos, certas repetições, certas palavras-chaves etc.
Um outro nome que caberia às estruturas sociais de alienação no saber são
as formas prefixadas do cotidiano escolar. Formas que engolem as relações
sociais tendendo a despersonalizá-las, isto é, esvaziando-as de um contato
mais aprofundado entre os sujeitos.
O mesmo processo ocorre com o aluno. Ele passa a lidar com o professor ou
com a situação escolar de uma forma preconcebida. O professor passa a ter
uma imagem fixa, estabelecida a partir da sua interação com a classe, ou
através de situações passadas. Esta forma estereotipada passa a reger todo
o contato do aluno com o professor e vice-versa.
Além do efeito deletério nas relações sociais na escola, as estruturas de
alienação no saber tendem a gerar outro tipo de processo de alienação: o
das estruturas individuais de alienação no saber. Da mesma forma que as
estruturas sociais de alienação no saber, elas são compostas por hábitos,
repetições, estereótipos, cláusulas obrigatórias e palavras-chave. Em
termos sociológicos, pode-se dizer que, enquanto as estruturas sociais de
alienação no saber se referem ao plano macroestrutural, as estruturas
individuais de alienação no saber se referem ao plano microestrutural. As
primeiras, mais abrangentes, delineiam a forma de ação; as segundas, mais
específicas e particularizadas, o conteúdo. As estruturas individuais de
alienação no saber refletem as formas estabelecidas por cada sujeito para
se defender do saber. Lacan esboça alguns destes aspectos:
Neste ensino, assim como numa análise, lidamos com resistências. As
resistências têm sempre sua sede, nos ensina a análise, no eu. O que
corresponde ao eu é o que por vezes chamo dos preconceitos que comporta
todo saber, e que cada um de nós carrega individualmente. Trata-se de algo
que inclui o que sabemos ou cremos saber - pois saber é sempre, por algum
lado, crer saber. Por isto, quando uma perspectiva nova lhes é trazida de
uma maneira descentrada com relação à experiência de vocês, sempre se
opera um movimento pelo qual vocês tentam reencontrar o equilíbrio, o
centro habitual do ponto de vista de vocês - sinal daquilo que lhes
explico, e que se chama resistência. Seria preciso, ao contrário, que se
abrissem às noções surgidas de uma experiência outra e tirassem proveito
(Lacan, 1985: 58).
As estruturas de alienação no saber chegam a atingir até certos contextos,
em que se acreditaria tradicionalmente haver apenas atuações espontâneas,
tais como o uso dos brinquedos e materiais pedagógicos. Antes mesmo de
entrar em contato com o material proposto, o aluno utiliza as chamadas
estruturas de alienação no saber. Estas têm uma origem dupla: social e
individual. No primeiro caso, refletem os sistemas simbólicos onde os
símbolos foram inicialmente cunhados: a família e a escola. No segundo
caso, as estruturas de alienação no saber refletem o próprio processo de
construção dos símbolos pelo sujeito, ou seja, os recortes que o sujeito
introduz nos conteúdos que recebeu da sua família e da sua escola.
É importante que o professor perceba que
a forma como a criança reage ao objeto não é simplesmente um produto do
processo da sua interação com o objeto no momento, mas um produto de sua
história pessoal e social. Ao ser apresentada a um material pedagógico ou
brinquedo, a criança pode bater ou jogar o material no chão, mordê-lo,
olhá-lo fixamente, perguntar a uma outra pessoa de quem é o material etc.
Isso porque as estruturas individuais de alienação no saber refletem
verdadeiros maneirismos que antecedem o próprio processo de
ensino-aprendizagem.
Com as chamadas crianças normais, este processo de transição é muito
rápido e pouco percebido. Com as chamadas crianças excepcionais, ele se
revela mais claramente, refletindo o processo duplo de implantação da
aprendizagem: a do desejo de aprender e a do desejo de não-aprender.
Por exemplo, o professor vai trabalhar com uma criança tida como autista.
No contato inicial, ele começa a desenhar algo com uma caneta em uma folha
de papel. Aos poucos, a criança se desinibe e começa a desenhar também. O
professor faz um bonequinha. O aluno diz que o bonequinha é ele (aluno).
Em seguida, dizendo que é ele outra vez, desenha o mesmo bonequinha. O
professor dá uma outra folha de papel, pedindo à criança para desenhar
outra coisa. O aluno faz outra vez o mesmo bonequinha.
Querendo mudar o comportamento do aluno muito rapidamente, o professor
introduz uma outra folha e um material novo - o, giz de cera. O aluno não
aceita o giz de cera, preferindo a caneta. O professor insiste no desenho
com o giz de cera. O aluno se retrai e se fecha, negando-se a realizar as
suas atividades. Devido à estrutura individual de alienação no saber, o
aluno continua preso ao objeto caneta e ao desenho do bonequinho, não
tendo feito a passagem para o giz de cera e para um outro assunto. Pode-se
dizer que ele ainda não se sente livre o suficiente para trabalhar sem um
modelo da atuação anterior. Volta-se para o que já sabe, tentando dar
conta do momento presente. Pára a cadela simbólica, apanhado em uma
estrutura de alienação no saber. Só consegue desempenhar a atividade se
ela for feita do modo que aprendeu inicialmente.
O professor pode acreditar que o aluno está querendo chamar a sua atenção.
No entanto, o problema é bem mais sério, o aluno foi captado em uma
estrutura de alienação no saber que comanda o seu processo de
aprendizagem, paralisando-o em um determinado ponto. Para sair desta
situação, ele precisa ser trabalhado mais aprofundadamente com o material
anterior. O professor precisa atender a esta necessidade especial do
aluno.
A Educação Especial e a Psicopedagogia propiciam esta forma mais
aprofundada de se trabalhar com o aluno. Elas levam em consideração as
necessidades específicas de cada aluno, privilegiando-se a "escuta" do que
está realmente acontecendo naquele momento. Isso porque o sistema
simbólico e imaginário do aluno é único, não se devendo lidar com ele a
partir de esquemas generalizadores.
No caso mencionado, o professor poderia analisar o processo da criança
como uma resistência a materiais novos. Na realidade, havia um eixo
estruturando esse processo aparentemente aleatório. A caneta fazia parte
de um processo de estruturação do vínculo da criança com o pai. Todas as
noites, antes de dormir, o pai ia ao seu quarto para contar uma história.
Sendo cartunista, acabava desenhando, com a caneta, uma história para o
filho.
A caneta foi o objeto transferencial que propiciou tanto o contato e o seu
oposto - o distanciamento dos sujeitos, ao se constituir em uma estrutura
de alienação no saber. A caneta não era um objeto qualquer. Retirá-lo
rapidamente era excluir o objeto que materializava afeto para a criança,
um objeto que a ligava ao pai. A caneta era o objeto gerador de afeto. A
sua retirada acabou tendo como conseqüência o fechamento posterior da
criança.
Em síntese, os objetos utilizados na aprendizagem não têm uma existência
neutra. Eles refletem o próprio processo interior do aluno e do professor.
Se o professor não souber, em algum momento, trabalhar aprofundadamente
com o material introduzido, os alunos perceberão a sua postura insegura.
Com isso, como assinala Mauco, ele acabará expondo, direta ou
indiretamente, aos alunos, os seus próprios fantasmas:
A relação aluno-professor vai depender em larga escala do que o professor
é inconscientemente. Com demasiada freqüência, os educadores ignoram a
importância das reações inconscientes, tanto neles como nas crianças. Esta
ignorância surge com clareza nas situações afetivas que suscitam a
expressão dos desejos libidinais recalcados. É assim que a projeção dos
fantasmas da criança (e os do professor) pode ter naturalmente uma
intensidade particular no domínio sexual. Durante largo tempo a
Universidade viu em qualquer manifestação sexual, por ligeira que fosse, o
"Mal" por excelência. Uma única palavra "indecente" ou um desenho
"indecente" era suficiente para justificar uma expulsão imediata. (Mauco,
1987: 124).
Percebe-se que, no ensino, o professor
não introduz um objeto qualquer. O objeto de ensino, enquanto um símbolo,
carrega em seu bojo toda a história passada do aluno e do professor,
podendo desencadear, em ambos, processos conscientes e inconscientes de
atuação. É este sistema prévio que chamamos de estruturas de alienação no
saber. É ele que precisa ser trabalhado antes mesmo de o professor e o
aluno entrarem em contato com o material em si.
O uso de brinquedos, jogos e materiais pedagógicos, do ponto de vista
psicopedagógico, necessita da percepção do contexto em que se encontram
inseridos. É preciso que o professor e/ou psicopedagogo identifiquem a
matriz simbólica anterior do objeto, para entender melhor as necessidades
e dificuldades mais imediatas dos alunos.
O uso dos brinquedos, jogos e materiais pedagógicos as estruturas de
alienação no saber
Um dos aspectos mais importantes a ser levado em conta pelo professor e
pelo psicopedagogo é o reconhecimento das estruturas prévias de alienação
no saber que o professor e o aluno apresentam em relação ao uso de
brinquedos, jogos e materiais pedagógicos. São elas que impedem o objeto
seja empregado em uma gama mais rica de utilização.
Apresentamos abaixo algumas das estruturas de alienação no saber mais
comuns, tradicionalmente usadas pelos professores e alunos:
1. A concepção e capacidade lúdica do professor. Um professor que não sabe
e/ou não gosta de brincar dificilmente desenvolverá a capacidade lúdica
dos seus alunos. Ele parte do princípio de 'que o brincar é bobagem, perda
de tempo. Assim, antes de lidar com a ludicidade do aluno, é preciso que o
professor desenvolva a sua própria. A capacidade lúdica do professor é um
processo que precisa ser pacientemente trabalhado. Ela não é imediatamente
alcançada. O professor que, não gostando de brincar, esforça-se por
fazê-lo, normalmente assume postura artificial, facilmente identificada
pelos alunos. A atividade proposta não anda. Em decorrência, muitas vezes
os professores deduzem que brincar é uma bobagem mesmo, e que nunca
deveriam ter dado essa atividade em sala de aula. A saída deste processo é
um trabalho mais consistente e coerente do professor no desenvolvimento da
sua atividade lúdica.
2. Os modos estereotipados do professor conceber o material apresentado.
Diante de um material novo, é bastante comum o professor estabelecer, uma
atitude distanciada em relação a este objeto, colocando-se como
especialista e não como quem! brinca com o material. O seu olhar. é
técnico, basicamente o olhar do professor ou do psicopedagogo sobre o
objeto, isto é, um olhar adulto. Acontece que quem vai utilizar o objeto
geralmente é uma criança ou um adolescente. Muitas vezes aí se estabelece
uma incompatibilidade entre esses dois olhares.
3. As formas estereotipadas de o professor conceber o aluno. Esta
estrutura de alienação no saber introduz um problema bastante sério do
ponto de vista da ludicidade. A imagem que o professor tem do aluno não é
o aluno. Este está em um outro lugar, tendo de ser resgatado através da
fala na relação professor/aluno, psicopedagogo/aluno. É o próprio aluno
que tem de dizer quem ele é, do que gosta, com que quer brincar etc.
Normalmente, este é um dos processos mais difíceis de c) professor
alterar. Para muitos professores, a imagem do aluno chega a adquirir a
certeza de uma crença. O professor acredita piamente que a imagem que ele
tem do aluno é o próprio aluno. Ele não percebe que, sendo uma imagem, é
um estereótipo, uma construção na linguagem. Em suma, não se dá conta de
que a imagem do aluno é uma produção sua, uma interpretação sua de quem é
este aluno. O aluno está em um outro contexto, que deve ser resgatado
através da própria relação.
4. As formas estereotipadas que o aluno concebe o professor, a
instituição, o material proposto. Elas podem impedir ou atrapalhar o seu
contato com a instituição, com o material proposto ou com o próprio
professor. Uma imagem prévia da instituição feita pelos alunos pode se
antecipar à própria captação da instituição real. Uma imagem de uma escola
boa ou ruim tende a se perpetuar na mente dos alunos. Da mesma forma, as
imagens de bom e mau professor também se antecipam à atuação docente,
determinando muitas vezes os rumos do processo de ensino-aprendizagem. Se
o aluno não gosta do material proposto, é bastante comum ele rejeitá-lo,
sem tentar estabelecer uma outra forma de interação.
5. As formas estereotipadas que envolvem o uso do material a ser empregado
na comunidade em geral. As grandes indústrias de brinquedos e materiais
pedagógicos estabelecem alguns parâmetros para o uso do material. Estes
indicadores podem constituir imagens tão impactantes que acabam por
desviar o professor ou o psicopedagogo de um trabalho mais aprofundado com
o material. É bastante comum os pais e os especialistas (professores e
psicopedagogos) tomarem a indicação das faixas etárias, colocadas nas
caixas de brinquedos pelas indústrias, como verdades comprovadas. Acontece
que muitas classificações partem de indicadores empíricos, não de
pesquisas abrangentes com faixas de mercado estruturadas. A indústria pode
ter testado em apenas um pequeno grupo de crianças o uso dos brinquedos
naquela faixa etária. Os resultados encontrados são generalizados em
seguida a um público maior. É a criança que deve se pronunciar a respeito
do material, não as indicações vagas do fabricante. Ela usa o brinquedo
para atender a uma necessidade especial do momento. Este processo lúdico é
que tem que ser privilegiado, e não quaisquer preconcepções dos adultos
e/ou dos fabricantes a respeito do brinquedo.
6. As formas estereotipadas que envolvem o uso do material a ser
empregado. Muitas vezes o professor utiliza brinquedos, jogos e materiais
pedagógicos de uma maneira redutora e rotineira. O material a ser dado
para o aluno deverá ser farto e variado. O professor ou psicopedagogo
poderá criar locais onde, em seu próprio ritmo de trabalho, a criança
poderá escolher livremente o que quer fazer. Um dos exemplos mais eficazes
desta forma de trabalho são os cantinhos de música, ciências, artes etc.
bastante empregados na pré-escola.
O uso do material deverá levar em conta as necessidades especiais e a
singularidade do aluno. O aluno poderá se recusar em um momento a
trabalhar com o material, preferindo ficar divagando ou conversando. No
ensino de I' grau é fundamental que o professor respeite este processo. As
crianças chegam a trabalhar, às vezes, quatro horas seguidas em atenção
contínua. Ao longo desse período, podem ter um pequeno Intervalo para se
refazer, e depois voltar a prestar atenção. Isso não quer dizer que não se
irá trabalhar o porquê de a criança não ter desejado lidar com o objeto.
No final da atividade, o professor ou psicopedagogo pode pedir a cada
criança para verbalizar livremente o que sentiu ao brincar com o material.
Elas podem dizer que não queriam brincar, queriam conversar, ficar paradas
etc.
O aluno poderá fazer coisas totalmente imprevistas com o material, ações
que o professor ou psicopedagogo muitas vezes poderá considerar
inadequadas. E preciso julgar estas ações da perspectiva da criança.
Somente o aluno, a partir da sua história de vida, conhece as razões para
agir daquela maneira.
Uma criança deficiente mental onde quer que fosse levava um paninho e
limpava muito bem os objetos, antes de tocá-los. Posteriormente o
professor velo a saber que este era o procedimento que a mãe usava
rotineiramente com o seu filho. Ela limpava todos os objetos antes de
passá-los à criança. Ao agir desta forma, a criança estava simplesmente
imitando a mãe e cuidando de si mesma da maneira como lhe fora ensinado.
Crianças com problemas motores necessitam de materiais especialmente
criados, para auxiliá-las nas atividades pedagógicas: cadeiras adaptadas,
materiais específicos para a escrita etc. Principalmente com crianças
portadoras de lesão cerebral, que não falam, mas que apresentam nível de
compreensão normal (quadriplégicos, paraplégicos etc.), é fundamental
estar atento aos indicadores sutis de cansaço do aluno. Quando a criança
que não fala enrijece o corpo pode estar chegando a hora de mudar de
atividade. Esta pode ser a única forma de fazer o outro sentir que ela não
quer fazer o que é proposto.
Assim, o professor pode, neste momento,
perguntar se ela deseja descansar ou continuar a trabalhar, uma vez que
ela não consegue sozinha fazer o deslocamento de atividade e material.
O uso de brinquedos, jogos e materiais pedagógicos: um objeto estruturado
ou um objeto em estruturação?
O que eram então os brinquedos, jogos e materiais pedagógicos? Eram
objetos concretos apresentados aos alunos ou objetos construídos na mente
da criança?
A concepção que esboçamos apresenta o material pedagógico como um objeto
construído durante o processo (ensino-aprendizagem), que se funda em três
elementos articuladores básicos: o objeto pedagógico, a matéria-prima
pedagógica e o substrato pedagógico. Com isso queremos dizer que o
material pedagógico tem uma concretude ou essência, uma multiplicidade de
imagens desta concretude e um símbolo representativo da mesma (Mrech,
1989: 50).
A passagem do objeto concreto para o objeto construído pelo aluno nos
parece fundamental. O professor pode acreditar que sua visão do objeto é a
mesma do aluno. Ele não perceber que, embora a essência do objeto seja a
mesma, a sua inserção se dá em um universo simbólico diferente. Para
identificar o que o aluno está percebendo, é fundamental captar em que
contexto simbólico e/ou imaginário o objeto do aluno se encontrar
inserido.
O uso de brinquedos, jogos e materiais pedagógicos e a construção da
modalidade de aprendizagem do aluno
É importante perceber o objeto em construção, para não reduzí-lo a uma
leitura rasa do que pode estar acontecendo com o aluno. Este processo é
fundamental, porque não é só o objeto do conhecimento e do saber que está
sendo construído, mas também a modalidade de aprendizagem do aluno.
O conceito de modalidade de aprendizagem proposto por Alícia Fernandez
permite que se passe do universal para o particular, do estático para o
dinâmico, do concreto para o abstrato, de uma percepção do objeto
pedagógico construído para um objeto pedagógico em construção. O aspecto
fundamental deste processo é o modo como se dá o processo de construção do
material pedagógico no interior do sujeito. A construção do material
pedagógico e da modalidade de aprendizagem do aluno são processos em
estruturação:
Em cada um de nós, podemos observar uma particular "modalidade de
aprendizagem", quer dizer, uma maneira pessoal para aproximar-se do
conhecimento e para conformar seu saber. Tal modalidade de aprendizagem
constrói-se desde o nascimento, e através dela nos deparamos com a
angústia inerente ao conhecer-desconhecer. A modalidade de aprendizagem é
como uma matriz, um molde, um esquema de operar que vamos utilizando nas
diferentes situações de aprendizagem. Se analisarmos a modalidade de
aprendizagem de uma pessoa, veremos semelhanças com sua modalidade sexual
e até com sua modalidade de relação com o dinheiro (Fernandez, 1991: 109).
A modalidade de aprendizagem revela a forma e o conteúdo do processo de
estruturação da aprendizagem do sujeito, trazendo em seu bojo a criação do
material pedagógico como um objeto resultante do processo de
ensino-aprendizagem. Diferentemente do modelo de aprendizagem geral e
universalista, a modalidade de aprendizagem é sempre singular e
específica. O material pedagógico ou objeto pedagógico construído
interiormente Pelo aluno é sempre único. É através da modalidade de
aprendizagem do sujeito que realmente podemos conhecer como o material
introduzido pelo professor foi captado e quais são as necessidades
específicas do aluno. São estas necessidades específicas que deverão
nortear o nosso trabalho. João, ao entrar na sala, começa a passar a mão
em todos os objetos, como se através deste processo pudesse percebê-ios
melhor o objeto. A sua modalidade de aprendizagem o leva a privilegiar o
tato como um processo de construção do conhecimento. Todos os objetos com
os quais interage são percebidos como objetos táteis. Isso mostra que há
em seu interior uma necessidade específica, que o leva a construir a sua
modalidade de aprendizagem direcionada para o lado tátil do conhecimento e
do saber. Ciente disso, o psicopedagogo ou professor pode estruturar as
atividades propostas, ensinando as diferentes texturas dos objetos:
áspero, liso, aveludado etc. Ou pode pedir para que a criança fale de suas
percepções, investigando o modo como ela constrói o objeto.
O que são os brinquedos e materiais pedagógicos enquanto objetos
estruturadores do conhecimento e do saber?
Primeiramente brinquedos, jogos e materiais pedagógicos não são objetos
que trazem em seu bojo um saber pronto e acabado. Ao contrário, eles são
objetos que trazem um saber em potencial. Este saber potencial pode ou não
ser ativado pelo aluno.
Em segundo lugar, o material pedagógico não deve ser visto como um objeto
estático sempre igual para todos os sujeitos. O material pedagógico é um
objeto dinâmico que se altera em função da cadeia simbólica e imaginária
do aluno.
Em terceiro lugar, o material pedagógico traz em seu bojo um potencial
relaciona], que pode ou não desencadear relações entre as pessoas. Assim,
o objeto que desencadeou relações muito positivas em uma classe pode ser o
mesmo que paralisará outra.
Em quarto lugar, o material pedagógico são objetos que trazem em seu bojo
uma historicidade própria. Além de portar a historicidade de cada aluno e
professor, eles apresentam também a historicidade da cultura de uma dada
época. Por exemplo, poderíamos pensar que a boneca da Grécia antiga
apresenta em seu bojo as mesmas características simbólicas e imaginárias
da boneca contemporânea. Mas será que isto é verdadeiro?
Conforme a Sociologia e a História Antiga, as bonecas gregas estavam
inseridas em sociedades distintas do ponto de vista sócio-econômico. A
sociedade grega era escravagista, com um lugar peculiar em relação à
posição da mulher. Em Esparta, a mãe destruía os filhos que apresentavam
algum tipo de deficiência. Privilegiava-se mais o vínculo da mãe com a
sociedade do que com a criança. Nosso conceito de maternidade é diferente
da concepção de maternidade da Grécia antiga, o que acaba afetando também
a visão do objeto concreto boneca.
Quando se lida com brinquedos, jogos e materiais pedagógicos deve-se
atentar a uma enorme quantidade de estruturas de alienação no saber que
cercam estes objetos. É preciso que elas sejam identificadas com precisão,
para que o processo de intervenção psicopedagógica se realize mais
facilmente.
O uso de brinquedos, jogos e materiais pedagógicos o processo de
construção da inteligência do aluno
É importante não se fazer uma leitura rasa do processo de escolarização e
construção da inteligência da criança. Howard Gardner estudou a
possibilidade de a criança apresentar mais de um tipo de inteligência:
(... ) Em certo sentido, ler abre o mundo. O estudo de Scribner-Cole nos
relembra, porém, que devemos ser cuidadosos antes de supor que qualquer
forma de educação necessariamente acarreta amplas conseqüências. E, de
fato, quando consideramos as vastas diferenças entre uma escola rural e
uma escola religiosa tradicional ou entre uma escola religiosa tradicional
e uma escola moderna, parece claro que o tipo de escola faz uma diferença
intelectual tão grande quanto o fato da escolarização em si (Gardner,
1994: 275).
Muitas vezes, ao longo da formação da modalidade de aprendizagem do
sujeito penas certas faixas de inteligência foram privilegiadas. Na
sociedade tradicional é bastante comum um desenvolvimento baseado nas
atividades de memorização; assim como na sociedade moderna ocorre um
privilegiamento do pensamento lógico-matemátlco. Por razões de ordem
pessoal o aluno pode ter ficado exposto a outras faixas específicas do
processo de conhecimento.
Uma criança autista que gostava de música ficou muito mais exposta a
discos e fitas musicais do que uma outra que não gostava. O professor pode
partir deste aspecto para a ensiná-la. Com isso, o aprendizado da música
deixou de ser apenas um efeito mecânico do processo de memorização da
inteligência musical para tornar-se produto de uma investigação e
estruturação de outros tipos de inteligência.
Tradicionalmente se pressupõe um uso de brinquedos, materiais e jogos em
que se acredita que os conhecimentos de um tipo de 'Inteligência transitem
facilmente para outro. Gardner revelou que este processo não ocorre de
forma natural e precisa ser desencadeado pelo professor.
(...) cada inteligência é relativamente independente das outras e que os
talentos intelectuais de um indivíduo, digamos, em música, não podem ser
inferidos a partir de suas habilidades em matemática, linguagem ou
compreensão interpessoal (Gardner, 1994: XI).
Os brinquedos, jogos e materiais pedagógicos geralmente são empregados a
partir de um modelo de inteligência unidimensional que privilegia o eixo
cognitivo. Estudos recentes têm revelado que as inteligências podem ser
várias e não necessariamente intercambiáveis entre si. Embora a criança
autista tenha uma excelente memória para a música, isto não quer dizer que
o mesmo ocorra com os seus outros tipos de inteligência. A sua
inteligência lingüística pode ainda não ter percebido o sentido das
palavras. A sua inteligência lógico-temporal pode ainda não saber o que é
passado, presente e futuro etc.
Embora o mesmo material tenha a possibilidade de ser utilizado por várias
inteligências, isto não quer dizer que ele seja efetivamente empregado na
prática. Ele pode ficar apenas no uso potencial. Conforme o aluno um
trabalho mais específico pode ser necessário.
Do livro Jogo,
Brinquedo, Brincadeira e a Educação - Cortez Editora
Bibliografia
BARTHES, Roland. O rumor da língua. Lisboa, Edições 70, 1987.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa, Dlfel, 1989.
FERNANDEZ, Alícia. A inteligência aprisionada. Porto Alegre, Artes
Médicas, 1991.
GARDNER, Howard. As estruturas da mente - a teoria das inteligências
múltiplas. Porto Alegre, Artes Médicas, 1994.
KOHL, Marta. Vygotsky - aprendizado e desenvolvimento um processo
sócio-histórico. São Paulo, Scipione, 1993.
LACAN, Jacques. O eu na teoria e na técnica da psicanálise. Rio de
Janeiro, Jorge Zahar, 1985.
MAUCO, Georges. Psicanálise e Educação. Lisboa, Moraes Editores, 1987.
MERANI, Alberto L. Psicologia e pedagogia - as idéias de Henri Wallon.
Lisboa, Editorial Notícias, 1977.
MRECH, Leny M. O espelho partido e a questão da deficiência mental
moderada e severa em seu vínculo com as estruturas de alienação no saber.
São Paulo, Ipusp, 1989.
MRECH, Leny M. Uma breve discussão a respeito da concretude do material
pedagógico. ln: Boletim da Associação Brasileira de Psicopedagogia. Ano 6,
n. 13, jun. 1987.
FONTE:
http://www.forumeducacao.hpg.ig.com.br/textos/textos/metod3.htm
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