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O cenário:
a Segunda Reunião do Comitê Intergovernamental do Projeto Regional
de Educação para a América Latina e o Caribe, PRELAC, realizada em
Santiago de 11 a 13 de maio, convocada pela Oficina Regional de
Educação da UNESCO para a América Latina e o Caribe. Os resultados
do debate serão apresentados em março de 2007, quando se realizará
na Argentina, a próxima reunião de Ministros da Educação.
A sessão inaugural
foi aberta pelo psicólogo espanhol César Coll que colocou o foco da
discussão na sobrecarga dos currículos, o que os torna impossíveis
de serem abordados por professores e estudantes.
“O currículo não é como um chiclete, nem
mesmo é o horário escolar” disse.
Quais são os temas que hoje estão no debate do currículo?
A idéia fundamental
é a importância de redefinir o básico do currículo da Educação
Básica. Por um lado o currículo está sobredimensionado e, por outra,
não inclui coisas essenciais e a solução não está em tirar e por, e
sim em redefinir e repensar. Esta idéia é absolutamente fundamental.
O currículo não é como uma goma elástica, não é como chiclete, e nem
horário escolar. Está limitado ao que se pode fazer dentro do
horário escolar. Por isso no currículo tem que serem colocadas as
coisas realmente imprescindíveis e fazer uma profunda reflexão para
saber o que é que necessariamente os alunos têm que aprender porque,
se deixarem de aprender, tornar-se-ão pessoas que irão ter muitos
problemas no futuro, tanto a nível de desenvolvimento pessoal, como
a nível de integração social. E, esta reflexão é hoje mais
importante que nunca porque nunca houve tantos conhecimentos
potencialmente interessantes para colocar no currículo escolar e
nunca houve currículos tão carregados como os atuais.
Como se faz esta reflexão das aprendizagens imprescindíveis?
Levando em conta
muitos parâmetros e muitas variáveis. Vendo o que é básico para que
as crianças e jovens possam responder às exigências que a sociedade
atual lhes coloca, para que possam tirar proveito de todas essas
oportunidades; para poder construir um projeto de vida e que possam
se incorporar ao mundo do trabalho com garantias. O que há de se
fazer, é aplicar estas diferentes maneiras de entender o conceito
básico, listar tudo o que se sabe do aqui e agora e escolher aquilo
que é mais prioritário que outro, porque nem tudo é igualmente
básico. A escola tem que atentar para que os alunos aprendam
sempre, quanto mais melhor, mas há umas aprendizagens
imprescindíveis que precisam ser identificadas, porque não podemos permitir que
nenhum aluno saia sem tê-las adquirido, porque seria um fracasso,
não dos alunos, e sim do sistema. As outras aprendizagens _quanto
mais, melhor_ não têm a mesma entidade, não têm o mesmo status, do
ponto de vista da significação pessoal e social.
Podemos imaginar críticas da parte
das diversas especialidades. Por exemplo, os professores de história
sentirão que há muita informação que não entrará...
Eu imagino, mas ser
historiador não é uma aprendizagem básica na educação básica. É
necessário que se veja que competências podem ser adquiridas
mediante a aprendizagem da história que são básicas e, portanto, tem
que fazer parte do currículo e quais não. Mas o referente não é a
história.
E depois de identificar estas aprendizagens básicas?
É este núcleo que
deveria ser foco de atenção absoluta para ajustar as políticas do
ponto de vista dos reforços, dos recursos ou das avaliações, como da
atenção à diversidade, como a da formação do professorado.
REDEFINIR OS MÍNIMOS
Poderia
recordar
algumas pistas para a redefinição dos currículos que
colocou em sua apresentação?
A idéia de que realmente temos que optar e que não podemos
enganar-nos e fazer “acertos”, apresentando enunciados mais gerais
que pareçam que não sejam conteúdos, quando na realidade os
implicam; a idéia de definir por competências e, portanto, vincular
o currículo ao que é a aplicação e a mobilização do conhecimento.
Também a idéia das alfabetizações, isto é, pensar não tanto em
termos acadêmicos, o que as crianças têm que saber de história,
geografia, de literatura, de matemáticas, etc., e sim, pensar em
termos de que competências elas têm que adquirir para poder
compartilhar da cultura econômica, a cultura científica, a
tecnológica, a audiovisual, a letrada, em nossa sociedade. Isto
rompe totalmente com a forma pela qual o currículo está organizado
atualmente.
Também
mencionou a idéia da corresponsabilidade na educação...
Hoje em dia a educação e formação das pessoas em muitos aspectos
passa por tantas coisas que acontecem fora das escolas como por
coisas que acontecem nas escolas. Os ministérios da educação
deveriam começar a deixar de ser somente ministérios da educação
escolar e começarem a ser ministérios da educação em sentido amplo e
integral e começar a exigir corresponsabilidades e compromissos de
outros agentes educativos (ou deseducativos, que o sejam). Por
exemplo, hoje em dia pretender abordar o tema dos valores unicamente
no âmbito escolar me parece uma vã ilusão. Se não houver uma
colaboração por parte dos meios de comunicação, dos poderes
políticos e das corporações econômicas, que todos tenham
comportamentos que se atenham escrupulosamente à determinados
códigos éticos, será impossível abordar o tema dos valores
unicamente a partir do âmbito escolar. Não é possível que em toda a
sociedade se estejam praticando outros valores e que a escola seja o
único lugar em que se “resista”, a não praticar esses outros valores
e a praticar os que se dizem que devem ser praticados. Logo a
hipocrisia chega a um extremo que se culpabiliza a escola que não
forma valores nos alunos.
Como se pode
levar isto à prática?
Já há propostas que caminham neste sentido, o que acontece é que são
propostas difíceis, porque não se pode fazê-las de maneira nacional.
Porque você não pode colocar de acordo os meios de comunicação, os
empresários, os sindicatos e as escolas a nível geral do país. Isto
precisa ser feito a partir de planos regionais e locais, por
exemplo, “neste bairro”. Quais são as instâncias deste bairro: a
associação de comerciantes, o município e seus serviços....toda essa
gente que está no local deveria se colocar de acordo. Que fazemos
aqui entre nós? Que fazemos cada um? Que fazem as escolas? Como as
escolas utilizam tudo isso? Deste modo se podem fazer planos, mas a
nível geral, nacional, não.
De que maneira
se modela isto dentro do currículo?
Isto não é tema de currículo, é de política educativa. O currículo é
um elemento, mas, não é a pedra filosofal. Tudo tem relação, mas
isto não tem relação fundamental com o currículo. Poderia ter
currículos muito diferentes e fazer isso e não fazer aquilo. É uma
maneira de entender a educação.
Outra tensão
dentro do currículo é entre a formação do homem para o trabalho e a
formação de homens cidadãos
O homem cidadão é o homem que trabalha. Quero dizer que este é um
dos graves problemas que temos do ponto de vista do que chamamos
educação para a cidadania. Quando se dão comportamentos incívicos?
Quando os jovens não podem construir um projeto de vida, quando não
têm perspectiva para construir um projeto de vida. Isto é, quando
não vêem a si próprios como “homo fabers” dentro dessa sociedade.
Têm a impressão de que façam o que fizerem é igual, que tudo lhes
escapa. De que eles no mundo atual não são cidadãos porque não podem
exercer plenamente seus direitos de cidadão, entre eles o direito ao
trabalho. Mas, novamente o problema não é da escola. O problema é
que se não há lugares para trabalhar, dificilmente se pode formar as
pessoas. Alguns dizem: ‘há postos de trabalho e pouca gente formada
para ocupá-los’. Oxalá o problema que tivéssemos fosse esse. Mas não
é esse, infelizmente para nós.
QUALIDADE E EQUIDADE
No Chile
*(aqui podemos estender ao Brasil) se fala de profundos
problemas na qualidade da educação e na necessidade de inovação. De
que maneira este tema pode ser enfrentado a partir do currículo?
Primeiro vejamos o que se quer dizer com qualidade. Porque se
voltarmos ao tema das competências pode querer dizer duas coisas que
eu creio que são completamente diferentes: quer dizer que nas
comparações internacionais, os alunos chilenos
**(brasileiros)
estão abaixo da média?
Bastante
abaixo....
Pois isso é grave. Esse é um indicador de qualidade. Mas qualidade
também é que os alunos chilenos depois de fazer a educação básica
são candidatos a serem excluídos sociais porque não conseguiram
realizar as aprendizagens mínimas que lhes vão permitir
incorporar-se e poder desenvolver-se na sociedade chilena. Se é
isto, é muitíssimo mais grave ainda. São duas noções diferentes. O
objetivo deveria ser: ‘esse básico não é negociável’. Quer dizer, o
sistema perde toda a credibilidade se não garante isso para todo
mundo. Essa é a opção primeira e logo, ou ao mesmo tempo,
incrementar o nível de todos. Mas o que não pode ser é que, buscando
incrementar a excelência e a pontuação, se deixe uma porcentagem
importante da população que é a que necessita de atenção
majoritária. Para mim uma avaliação que mostre que esse quarto de
crianças que não sabia ler faz alguns anos e hoje sabe ler, ainda
que não haja resultado nas médias internacionais, me parece mais
importante que subir 20 pontos na prova PISA. Quero que nosso
sistema seja eficiente nos dois sentidos. Quero que promova a
equidade e a excelência, mas não a excelência renunciando à
equidade. Esse é outro dos pontos de interesse na diferenciação
entre o imprescindível e desejável.
INOVAÇÃO
Como se
imagina um currículo que aponte para a inovação?
Creio que a inovação não é tanto um problema de desenho curricular,
como de desenvolvimento do currículo. Um currículo pode ser muito
bom e não aportar na inovação. A inovação deveria ser uma das fontes
do currículo e o currículo deveria ser o suficientemente aberto para
impulsionar a inovação. O que se passa é que isso se choca com as
demandas de alguns professores que em vez de currículos abertos que
promovam a inovação, querem currículos fechados, que lhes digam o
que é que eles têm que fazer. Um currículo que promova a inovação é
um currículo aberto, que sugere mais que prescreve, e portanto,
deixa amplas margens de liberdade para adequação e adaptação. Mas
para que o professorado possa fazer isso é necessária uma formação,
condições dignas, tempo para reuniões, para pensar e não estar sei
lá quantas e quantas horas em sala de aula. Pode-se fazer um
currículo maravilhoso que promova a inovação e os professores
rejeitarem-no, o qual se converteria em algo totalmente inservível.
O problema do currículo, é esse, que por seu papel crucial é o
elemento que serve de enlace entre todos os outros. Quando dizem que
o importante não é currículo, o importante é a formação do
professorado, há que se perguntar: qual professorado a que se forma?
Para que ensine o que? O que queira? Ou um currículo?
REFORMAS SEM
PROFESSORES
De que maneira
se deve incluir os docentes na mudança curricular, para não cair no
fenômeno de ‘reformas sem professores’, como algumas vezes já foram
definidas algumas reformas?
É muito difícil. Em certos lugares é mais fácil que em outros. Por
outro lado quando um coletivo é um coletivo tão grande como é o do
professorado é muito difícil assegurar e garantir a participação e a
implicação de todos. Os temas curriculares têm uma parte técnica e
têm uma parte ideológica. A parte técnica dos temas curriculares não
é complicada, está ao alcance de todo mundo e os professores a
compartilham. Já a parte ideológica envolve fatores muito profundos
e diversos.
PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO
À luz de mais
de uma década quais são os pontos fortes e os fracos de um currículo
com ênfase construtivista?
Um indicador de êxito são os muitos elementos conceituais que deram
suporte às reformas. Temas que há dez anos não eram colocados, como
por exemplo, que não é o mesmo aprender conteúdos conceituais que
procedimentos, habilidades ou destrezas; como que vão ser feitos
projetos curriculares e educativos nas escolas, concretizar o
currículo seguindo o ritmo de aprendizagem e das características do
aluno; como o conceito de adaptação curricular. Conceitos que
começaram a ser usados há dez anos, que tem sua origem em boa medida
nas reflexões e apreciações desde o construtivismo e da psicologia.
E os
problemas?
Dois problemas que sempre temos tido em educação. Cada vez que se
faz uma proposta interessante cremos que encontramos a pedra
filosofal, e que essa é que é a boa, a definitiva, a única e que
agora sim resolvemos todos os problemas. Porém, os problemas
complexos, os de fundo, não se resolvem nunca: se reformulam,
melhoram sua formulação e na medida em que se vão reformulando vão
avançando. Isto traz em anexo outra dificuldade que é que a cada vez
nos sentimos obrigados a refundar tudo e começar do início: ‘até
agora foram as capacidades, pois agora as capacidades acabaram,
agora as competências’, até agora currículo, os currículos acabaram,
agora estandares’. Isso é um erro e um horror. Porque cada um destes
conceitos novos traz aspectos positivos, mas seriam muito mais
positivos se fossem colocados do ponto de vista da lógica de
construir-se sobre o anterior, ao invés da lógica do desprezar o
anterior para que o outro surja.
OS 8 PONTOS QUE COLL COLOCA PARA SE REPENSAR O DEBATE SOBRE
CURRÍCULO
1 . O primeiro aspecto a considerar está relacionado com a aceitação
de um princípio ao qual se tem prestado pouca ou nenhuma atenção até
o momento, mas que tem implicações importantes para a tomada de
decisões sobre o que ensinar e aprender na educação básica e que
pode ser enunciado como se segue: nestes níveis educativos não se
pode ensinar tudo o nós gostaríamos que as crianças e jovens
aprendessem; nem sequer o que com toda a segurança é benéfico que as
crianças e jovens aprendam.
2 . Em segundo lugar, levar em consideração este princípio e suas
implicações sugere a conveniência de explorar, e no caso
estabelecer, uma distinção entre o básico e o imprescindível e o
básico e o desejável no currículo da educação básica.
3 . Um terceiro aspecto é que convém prestar especial atenção e
esforço é que “redefinir o básico na educação básica” tem a ver com
o tema clássico das fontes do currículo. O critério neste caso
deveria ser, a nosso juízo, a busca de um equilíbrio entre o que
levar em consideração das exigências educativas e de formação
derivadas das demandas sociais_ e, em especial, do mundo laboral _,
as derivadas do processo de desenvolvimento pessoal do alunado e as
derivadas do projeto social e cultural_ tipo de sociedade e de
pessoa_ que se deseja promover mediante a educação escolar.
4 . Um quarto eixo de reflexão que convém introduzir nas decisões
sobre os conteúdos da educação básica, e que interatuam com os
anteriores, especialmente com a proposta de levar em consideração a
distinção entre o básico e o imprescindível e o básico desejável, é
o relativo à responsabilidade respectiva da educação escolar e de
outros cenários e agentes educativos nos processos de
desenvolvimento, de socialização e formação das pessoas.
5 . Outro aspecto que tem e segue tendo uma influência decisiva
sobre a identificação e definição das aprendizagens básicas concerne
ao fato de que a educação básica tem estado tradicionalmente
associada à educação inicial, isto é, ao processo de
desenvolvimento, de socialização e formação das pessoas que tem
lugar durante a educação obrigatória.
6 . O sexto eixo de reflexão que queremos assinalar concerne à
proposta, amplamente estendida na atualidade, de abordar a
identificação e definição do que se há de ensinar e aprender durante
a educação básica em termos de competências. Esta alternativa tem
sido uma das soluções propostas em ocasiões com o fim de fazer
frente à sobrecarga de conteúdos que caracterizam os currículos
destes níveis educativos.
7 . Uma das questões nas quais se percebe com maior clareza as
implicações desta proposta de entrada simultânea por competências
chaves e saberes fundamentais é que estejam associados à necessidade
de ter em conta, nas decisões sobre o que ensinar e aprender na
educação básica, tanto às necessidades de aprendizagem derivadas do
entorno social cultural imediato como as derivadas do processo de
globalização. Ou, para dizer em outros termos, tanto as necessidades
de aprendizagens relacionadas ao exercício da cidadania nas
sociedades de pertencimento como às relacionadas com o exercício da
cidadania mundial.
8 . O último aspecto do eixo de reflexão ao qual nos referiremos se
relaciona com a proposta de utilizar o conceito de alfabetização e a
identificação das “novas” e “velhas” alfabetizações como plataforma
para a tomada de decisões sobre o que ensinar e aprender na educação
básica. Como nos recorda Emilia Ferreiro, o termo “alfabetização” –
tradução generalizada ainda que insatisfatória do inglês “literacy”
– remete à “cultura letrada”, e o termo “estar alfabetizando” a
“formar parte da cultura letrada”.
* -
acréscimo meu
**
- acréscimo meu
Vera Lúcia Camara Zacharias é mestre em Educação,
Pedagoga, consultora educacional, assessora diversas
instituições, profere palestras e cursos, criou e é
diretora do CRE.
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