Série: Contribuições do Cinema para a Ação docente

 

Parte 2

Prof. Ms. Joana Maria R. Di Santo

 

Um pouco de história

Denominado por Ricciotto Canudo como a “sétima arte”, o cinema, a mais popular das artes, foi inventado, em fins do século XIX, como uma curiosidade científica, utilizando diversos inventos precursores indispensáveis, que se iniciaram oficialmente no século XVII, com o jesuíta alemão Athanasius Kircher (1601-1680), construtor da primeira lanterna mágica dos tempos modernos.

O caminho continuou a ser preparado pela invenção da fotografia, possibilitando que o cinema viesse a surgir da combinação do princípio da lanterna mágica com as imagens fixadas em filmes. O movimento, condição até então faltante, foi pesquisado por diversos estudiosos, até que, em 1891, o francês Georges Demeny idealizou o phonoscope, com a finalidade de reproduzir o movimento da palavra e o jogo fisionômico de um homem articulando palavras. Com isso termina a fase preparatória da invenção do chamado cinematógrafo e são dados os passos definitivos para a invenção do cinema.

Em 1888, Émile Reynaud apresentou o “teatro óptico”, realizando fitas de quinhentas e até setecentas imagens, que já tinham perfurações e eram apresentadas para platéias de centenas de espectadores, com música de Gaston Poulin, no entanto, os franceses não lhe atribuíram a invenção oficial da cinematografia, mas sim aos irmãos Louis e Auguste Lumière que fizeram a primeira exibição pública de “fotografia animada”, em 28 de dezembro de 1895, em Paris. Os americanos, no entanto, atribuem a glória de tal invenção a Edison, pois este, antes dos Lumière tornara coletivo o espetáculo.

Disputas à parte, os Lumière dedicavam-se ao documentário e não previram as possibilidades artísticas de seu invento, tanto que, anos depois, declararam: “As aplicações cinematográficas do cinematógrafo, orientando-se cada vez mais para o teatro e dando ênfase à encenação, forçam-nos a abandonar essa exploração para a qual não estávamos preparados”.

Apesar de Antoine Lumière, pai de Louis e Auguste, declarar que o cinematógrafo “era uma curiosidade científica, sem nenhum futuro comercial”, Georges Méliès fabricou um aparelho análogo, transferindo sua experiência de ilusionista para a tela e, em 1896, como mágico e poeta, utilizou seus truques e sua imaginação para retirar o cinema do terreno árido da realidade fotografada. Nesse mesmo ano, construiu o primeiro estúdio francês em Montreuil, o qual já apresentava muitas das características dos estúdios modernos.

Desde então, o cinema vem colaborando sobremaneira para o desenvolvimento da cultura dos povos, possibilitando, principalmente aos artistas de teatro, imortalizar seu desempenho.

Com a I Guerra Mundial, o cinema nos EUA expandiu-se de maneira triunfante, sobretudo com o fundador da comédia americana, Mack Sennett, com o inesquecível Charles Chaplin, e com Griffith, que organizou as bases da linguagem cinematográfica universal, com os filmes: O nascimento de uma nação (1914-1915) e Intolerance (1916). Era o sucesso do cinema mudo que movimentava Hollywood, levando a Griffith e Chaplin a juntar-se a diversos outros profissionais da sétima arte, até que se chegou ao cinema sonoro, no dia 6 de outubro de 1927, com a estréia de The Jazz singer, tendo como produtores os irmãos Warner. A partir de então, a riquíssima indústria cinematográfica tem-se aperfeiçoado cada vez mais, apaixonando gerações e gerações de fãs fiéis e exigentes.

Grandes mudanças no panorama cinematográfico mundial se fizeram presentes a partir dos anos 1960, com mudanças em infra-estrutura muito mais profundas que todas as anteriores, caracterizando um período no qual, com o impacto da televisão, o público médio fez exigências até então inexistentes, com o que produtores e exibidores ousaram criar ofertas temáticas visando recuperar público e, até, criar uma nova clientela, contando, para tanto, com uma plêiade de cineastas que se caracterizaram pela seriedade de suas abordagens nos gêneros mais diversos.

Atuando como poderoso veículo de propaganda, direta ou sub-reptícia, o cinema tem aplicações importantes, como por exemplo no campo da educação visual.  Conforme André Malraux, “nasceu das possibilidades de expressão conjugada da imagem e do som” e sua linguagem própria, autônoma, lhe possibilita ocupar um lugar entre as artes. O mesmo não ocorre com a televisão, cuja função prioritária não é artística, e sim de informação, divulgação, marketing para as massas. Apesar de ser um veículo para projetar os filmes e funcionar como excelente mercado de trabalho artístico, a televisão será sempre um cinema em tela menor.

O cinema tem auxiliado sobremaneira na educação, na medida em que atrai os alunos, mostrando-lhes realidades até então desconhecidas, ou aprofundando sua visão de determinados assuntos selecionados pelos professores, que utilizam filmes, geralmente relacionados a suas disciplinas, a fim de enriquecer os conteúdos e dinamizar o trabalho pedagógico, num diálogo permanente entre teoria e prática na integração das linguagens à arte.

Ao educador, é importante que o aluno aprenda a apreciar os filmes, sobretudo os selecionados, entregando-se à trama, para dela extrair ensinamentos para sua vida e sua ação docente, no caso dos cursos de formação de professores e profissionais da educação, embasando sua atitude perante a profissão, a classe, o aluno, como também enriquecendo seu cabedal de conhecimentos, possibilitando-lhe alternativas de amadurecimento e flexibilização, fornecendo-lhe vários ângulos para analisar as questões.

As cenas nos passam as formas de ação e reação dos personagens e representam a vida real, colocando em destaque situações específicas, para serem analisadas com calma, longe do calor do momento da ocorrência. A vida real não pode ser congelada para se analisar um fato, que é vivo, dinâmico e envolve as pessoas, inclusive no plano das responsabilidades morais e legais, mas a cena de um filme pode ser congelada ( e cada cena é feita por diretores de cinema que têm sua maneira de lidar com problemas humanos, com conceitos e imagens comovedoras) para refletirmos sobre todos os aspectos de sua ocorrência, analisando a ação de cada personagem, suas causas e conseqüências, a trama e também a repercussão para o ambiente e para a sociedade.

Filmes escolhidos podem fornecer o substrato para aulas mais dinâmicas, em que professores e alunos possam vivenciar, junto com os protagonistas, antagonistas e personagens secundários, diversas situações que outros já viveram na vida real, pois o cinema, com sua linguagem e imagens específicas, tem muito a dizer sobre a condição humana.

Cinema é uma arte, e a arte, sem dúvida, traz muitas contribuições à educação, como já falei em artigos anteriores sobre arte terapia. Educação, cinema, arte são atividades humanas com possibilidades de interagir intensamente, trazendo vantagens para todos, pois os filmes são ferramentas preciosas para expor e discutir “questões caras à humanidade”.

O filósofo e professor Júlio Cabrera diz que os meios expressivos do cinema, pela sua mobilidade, fluidez e multissituacionalidade podem exprimir sentimentos, emoções, idéias, melhor que frases escritas.

É importante ouvir a interpretação dos alunos a respeito das cenas, procurando extrair o máximo de conhecimentos para embasar sua ação docente e, mais ainda, para embasar sua ação como ser humano ético, competente, maduro, responsável.

 

Reflexões sobre  filme de interesse para a Educação:

Ao Mestre com Carinho

Filme dirigido por James Clavell e estrelado pelos atores Sidney Poitier, Judy Geeson, Christian Roberts, Lulu, Faith Brook, Geoffdey Bayldon, retratando as dificuldades encontradas por um professor iniciante, numa sala de aula de jovens londrinos rebeldes, quase concluindo o Ensino Médio. O ano é 1966 e “revolução” parece ser a palavra de ordem. Influenciados pela década de 1960, mais a natural inquietude da juventude, acrescida por questões que os próprios alunos não entendem, pois estão numa escola “segregada”, são problemáticos, indisciplinados, mal educados e grosseiros, com pouquíssimos conhecimentos do conteúdo curricular. Na verdade, sentem-se perdidos e confusos, mas agridem a escola e os professores, numa atitude de revolta contra as circunstâncias que os levaram a tal situação. Em decorrência, nenhum professor estava conseguindo permanecer no cargo e interagir com essa turma indisciplinada, sem limites, rebelde, revoltada, até que o Senhor Tackeray, um cidadão negro comum, formado em engenharia e desempregado, que não conseguia um emprego em sua área, aceita o desafio de lecionar para essa turma.

Assim que chega ao colégio, que atende jovens que foram expulsos de outras escolas, é desestimulado por outros professores que lá trabalham. Um deles tenta fazê-lo desistir, dizendo que aqueles alunos não têm mais jeito; que não são nada, apenas “demônios” tentando acabar com a vida de cada um dos professores que já lecionaram para eles e que ainda irão lecionar. Mas Thackeray fica sensibilizado com sua turma e percebe que os alunos queriam mesmo chamar a atenção e pedir ajuda através de sua rebeldia e desrespeito aos colegas e a si próprios.

No início foi ignorado pelos alunos, sofreu até preconceito racial e teve de ser muito profissional, pois os jovens desafiavam sua autoridade em sala de aula, mas ele procurava sempre manter a calma para não piorar a situação, procurando entender o lado oposto.  E, lentamente, foi conquistando espaço, até se tornar figura fundamental e de referência, não apenas para a turma, como também para os pais de muitos alunos, que o cumprimentavam com alegria e respeito pelas ruas da comunidade.

Mesmo não sendo a profissão com a qual sonhava, lecionava com muita vontade e carinho, empenhando-se em tudo que fazia pelos alunos, e mesmo assim várias vezes foi agredido por eles. Thackeray demonstra todo o conflito daquele professor que anseia por estar perto dos alunos, mas, ao mesmo tempo, deve manter o tratamento formal.

A cada dia, Thackeray tentava uma nova técnica para despertar o interesse e prender a atenção dos alunos. Após diversas tentativas percebeu que falando a mesma linguagem dos alunos, tratando de assuntos que realmente pudessem lhes interessar, conseguia resultados positivos. É quando deixa de lado os livros e os conteúdos teóricos, combinando com eles que os trataria como adultos e procuraria fazê-los vivenciar a realidade que os esperava fora da escola. Explicou as novas regras da sala: boas maneiras, higiene pessoal e até culinária. Os alunos o questionam sobre o quê estudarão, já que os livros foram jogados fora e o professor responde que eles falarão sobre o que quiserem falar e questionar. A aula, então, começa a fluir. Mostrou-se interessado pelos problemas dos alunos dentro e fora da sala de aula; soube ouvi-los, procurando conhecê-los melhor. Passou a programar aulas mais dinâmicas, bem como os levou a conhecer um museu (proposta que foi aprovada pelo diretor e pelo Conselho, com a condição de que Thackeray conseguisse que outro professor também acompanhasse a turma, e ele conseguiu a ajuda de uma professora amiga) Chegando ao museu, todos se interessam pelas obras e as histórias de cada uma delas.

O mestre passou a desenvolver assuntos do seu cotidiano. Desta maneira, conquista a confiança de todos, principalmente dos mais indisciplinados, que procura ter como aliados. Com isso, a maioria dos alunos começou a mudar.

Ao passar pelas feiras e ruas, os pais dos alunos o reconhecem e agradecem pelo que está fazendo por seus filhos. Uma das colegas de trabalho diz que ele está se envolvendo com os alunos e que por emprego nenhum ele deve desistir de lecionar.

Um dia, numa aula de Educação Física, um dos alunos da sala se envolve numa briga com seu mal humorado professor, que constantemente persegue um aluno gordo, que não tem habilidade física. Thackeray é chamado e consegue acabar com a confusão sem que ocorra nada de mais sério. Ele ensina que a violência só gera mais violência e esta não pode ser combatida sem o diálogo.

A mãe de um dos alunos morre e a turma junta dinheiro para comprar-lhe flores, mas, por ser negra, ninguém quer ir entregar, pois seria uma ofensa serem vistos na casa de um negro. No dia do velório, o professor vai dar os pêsames à família do aluno e fica surpreso ao se deparar com todos os seus alunos levando flores e já reunidos no velório.

Com o passar dos dias, os adolescentes foram reconhecendo o trabalho do professor e passaram a compreendê-lo melhor; viram que sua intenção era fazer deles pessoas com bons princípios e aprimorar valores que eles possuíam, trazendo-lhes uma perspectiva de vida. Finalmente ele consegue impor respeito com legitimidade e mantém a confiança e afeição dos alunos. É significativo que o professor se tenha feito respeitar pelo líder da classe, que, inicialmente, não estava satisfeito em ver seus colegas mudando de atitude. No entanto, o professor provou que era fundamental o ser humano ter bom caráter. Também conseguiu que os alunos aprendessem os conteúdos necessários para atingir boa nota na avaliação final. Isso fez com que  passasse a sentir-se realizado com o progresso dos alunos, sua transformação e preparação para o mundo que enfrentariam depois de formados.

Com o fim do ano, os alunos convidam Thackeray para participar das comemorações junto com eles. No dia da festa todos estão entusiasmados e dançam felizes. O outro professor, que tentara desestimulá-lo, diz-lhe que ele conseguiu maravilhas com aqueles alunos; que qualquer um pode ser engenheiro, mas que são raros aqueles que ensinam como ele. No baile de despedida do curso o mestre percebe a maravilha que conseguiu com aquela turma rebelde, que ansiava por alguém que lhe mostrasse os limites e possibilidades.

Com gratidão pelo que o professor fez por eles, uma das alunas dança com o professor e os demais o homenageiam e lhe entregam um presente. Emocionado, ele não consegue falar e vai em direção a sua sala, refletir. Com o gesto dos alunos ele percebe o quanto é querido e que seu trabalho foi reconhecido, não somente por eles, mas também pelos colegas de trabalho que lhe dizem que para ser professor é necessário ter um “Dom” e que ele tem esse Dom e pode contribuir com as futuras gerações. Ele vai para a sala de aula para refletir, pensar um pouco numa oportunidade de trabalho que lhe surgiu no campo da engenharia, quando um casal de jovens irreverente entra e o “desafia”, levando-o a tomar uma decisão: rasga o contrato de trabalho como engenheiro e resolve ficar, pois tem muitos outros alunos que precisam dele. Precisam que ele faça a diferença e lhes dedique todo seu esforço e atenção, para conseguir com eles  as mudanças extraordinárias no modo de pensar e agir que conseguira com sua primeira turma.

Podemos concluir que o professor tem papel muito importante na vida dos alunos; tem como responsabilidade passar uma imagem de bom exemplo, pois os alunos se espelham nele, em suas ações e atitudes. O professor transmite um conteúdo de idéias que interferem na formação de cada um de seus alunos, interagindo, a fim de que o ensino seja cada vez mais significativo para todos, levando-os a construir um ideal que os valoriza e respeita. Assim, a cada dia, compartilham interações e aprendizagens, pois a escola da vida é longa e talvez um dia se encontrem, não só como professor e aluno, mas como grandes amigos.

 

Trama bastante estimulante e atual, apesar dos quarenta anos de distância entre a filmagem e os dias de hoje, neste ano 2006, no século XXI. Isso, ao mesmo tempo nos estimula e entristece, pois há tantas décadas, já se apresentava uma proposta de trabalho contextualizada, enfatizando as relações interpessoais, a interação professor-aluno, o foco nas atividades cotidianas e no desenvolvimento de competências e habilidades que permitam mobilizar conhecimentos a fim de se enfrentar uma determinada situação desafiadora. Vale a pena assistir e analisar o filme com os alunos das licenciaturas e, sobretudo, do curso de Pedagogia.

 

Bibliografia

Enciclopédia Barsa, elaborada com assistência editorial da Encyclopaedia Britannica. Volume 5. Rio de Janeiro – São Paulo, 1990.

 

FERRO, Marc. Cinema e História. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

 

MORRONE, Maria Lúcia. Cinema e educação: a participação da "imagem em movimento" nas diretrizes da educação nacional e nas práticas pedagógicas escolares. São Paulo: FE/ USP, dissertação de mestrado,1997.


Soares, Mariza de Carvalho (2001): A História vai ao cinema, São Paulo, Editora Record.


 

Joana Maria R. Di Santo- Mestre em Educação, Psicopedagoga, Pedagoga
com atuação significativa em Psicopedagogia Institucional, Coordenadora de Ensino Médio e Fundamental, Supervisora aposentada do Município de São Paulo, Professora Universitária ministrando disciplinas do Curso de Pedagogia.e-mail: cred@centrorefeducacional.com.br

 

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atualizado/setembro/2007