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Contribuições do Cinema
para a Ação Docente
Fornecer
listagem de filmes que podem enriquecer a reflexão e ação do
professor em sala de aula é apenas um estímulo inicial.
Conduzir a análise e a crítica coletiva
sobre os principais temas apresentados/ vivenciados na película é
indispensável, uma vez que as pessoas enxergam diferentes detalhes
nas cenas apresentadas, diferentes facetas de certas ações, reações,
omissões, diálogos entre os personagens.
Se o professor
ficar restrito à própria visão e interpretação da obra, a
contribuição desse filme para o seu fazer docente limitar-se-á ao
que ele conseguiu captar e entender através de sua ação solitária
como espectador. O uso que fará de tais conteúdos estará relacionado
ao que decidir isoladamente. E isso depende da qualidade da sua
formação como ser humano, como docente e cidadão, bem como de quanto
se sente estimulado, que forças está disposto a mobilizar em tal
direção.
Considerando
que filmes são significativas fontes de conhecimento da realidade,
uma vez que se propõem a fazer um recorte de determinados aspectos a
serem retratados, focando uma trama que faz parte de seu enredo,
analisar e discutir seus conteúdos em um conjunto de educadores,
preferencialmente com o auxílio de um mediador, enriquece as
diferentes visões que cada participante teve; alerta para detalhes
que só alguns conseguiram captar e, também, acrescenta as diferentes
visões e explicações de cada um, não apenas sobre o que foi
visto/observado, mas sobre formas de utilizar tais conhecimentos em
sua ação docente, em seu trabalho de formar alunos, não apenas com
conteúdos cognitivos, mas também afetivos, emocionais, contribuindo
para a formação em valores como caminhos para uma vida mais
equilibrada e sadia.
Filmes possuem rico potencial de veiculação
das representações sociais, dessa forma, quando tratam da escola e
têm o professor como protagonista, conforme o professor Dr. Amaury
Cesar Moraes, da FEUSP, podem fornecer-nos informações acerca das
“representações sociais” sobre a escola, o que nos auxilia a
verificar como o imaginário social representa a escola e a atividade
docente. Quando bem utilizadas tais informações podem contribuir
sobremaneira na reorganização da escola em direção às expectativas e
necessidades da formação integral do aluno com vistas à melhoria da
comunidade/sociedade em que ele interage.
É importante
utilizar filmes sobre educação, escola, professor, relacionamentos,
para refletir sobre nosso trabalho, sobre como esse público está
“vendo” a escola; que valores e expectativas retratam, pois a
linguagem cinematográfica dispõe de recursos específicos que
possibilitam que as relações entre filmes e imaginário social se
efetivem.
Bons filmes
podem nos levar a reconhecer uma identificação entre a vida dos
personagens e a nossa vida, como ocorreu com Maria que, assistindo
junto com seus familiares, ao filme “Melhor é impossível”
identificou-se com o personagem que apresenta transtornos obsessivos
compulsivos (TOC) e, a partir daí, procurou ajuda psicológica. Até
então, Maria percebera que tinha reações que outras pessoas não
tinham, no entanto julgava que eram normais. Por exemplo, não
suporta que estranhos a toquem, não põe a mão em fechaduras de porta
nem anda em transporte público. Lava as mãos a cada cinco minutos,
de tal forma que a pele está ressecada. Em restaurantes, ou leva
seus próprios talheres, ou precisa limpar os talheres do restaurante
antes de usá-los.
Maria convivia
com tais transtornos, que lhe causavam sofrimento, mas nem ao menos
percebia que se tratava de distúrbio. Também não demonstrava
preocupação em saber que muitas outras pessoas comportavam-se como
ela, com transtornos obsessivos compulsivos, e que havia diversos
estudos sobre tais transtornos, com tratamentos que melhoravam
bastante a qualidade de vida dos pacientes.
Maria relata
que, quando o filho era bebê, diariamente lavava e passava álcool em
cada brinquedo da criança, o que a levava a despender muita energia,
pois já cumpria um ritual de limpeza na casa, em que diariamente
limpava cada objeto com álcool, e consigo mesma, lavando as mãos a
cada cinco minutos.
A cada ação
compulsiva do personagem no filme, os familiares riam,
sinalizando-lhe que as ações eram semelhantes às dela e que não eram
normais. Só então tomou consciência de que necessitava de ajuda.
Coincidentemente, logo após o filme, assistiu na televisão a uma
reportagem esclarecedora sobre TOC, o que reforçou a necessidade do
tratamento adequado que está se desenvolvendo.
Como o filme
pode ser uma reconstrução da realidade, pode representar uma
“janela” diante da qual nos tornamos testemunhas da ação, pode
levar, também, a um desejo de identificação com os vilões sedutores,
como personagens que estão obtendo mais sucesso; levando vantagem na
vida. Atualmente, muitas crianças preferem identificar-se aos
vilões, como Marcos, de nove anos, que declara, numa atividade
conjunta proposta pela professora da 3ª série a respeito das
perspectivas profissionais de seus alunos, querer ser bandido.
Esclarece que está certo da sua escolha, justificando com suas
palavras o que a seguir traduzimos: o bandido vive em constantes
desafios, superando-os e obtendo vantagens sobre aqueles que
obedecem corretamente todas as normas e acabam vivendo de forma
medíocre, ganhando, na maioria das vezes, salários que não comportam
sequer as despesas de primeira necessidade da família. Ao lhe
colocarem que o bandido tem vida curta, respondeu que é melhor viver
bem vividos poucos anos a ter uma vida longa e repleta de
necessidades, sofrimentos, privações.
Exemplos como este nos dão alertas para selecionarmos muito bem os
filmes a serem transmitidos às nossas crianças e jovens. Que
aspectos da realidade queremos retratar? Que mensagens subliminares
podem estar sendo passadas?
E a situação
da nossa sociedade em termos de valores morais vem corroborar com
tal necessidade. Dada a abrangência deste tema, não cabe nestas
breves palavras uma análise mais ampla, o que fica para futuros
exercícios do pensamento.
O fato é que
podemos selecionar filmes para utilizarmos em nosso trabalho
docente, seja enriquecendo nossas aulas, ampliando a visão dos
alunos sobre temas escolhidos, seja em reuniões de pais, nas quais
aproveitaremos flashes de determinados assuntos que precisam ser bem
analisados, tratados com aquelas famílias e que, se o fizermos de
maneira direta, além de ser bastante delicado, dificilmente
encontraremos a necessária abertura e repercussão. Mas, se
enfocarmos o tema a partir dos pequenos trechos selecionados dos
filmes e abrirmos o debate com os pais, a respeito das questões e
não de seus filhos especificamente, estaremos colaborando para que
cada um se coloque no lugar dos personagens e, através das
discussões, vá percebendo caminhos para a superação do que está em
questão.
E isso tem a ver com leitura do mundo, com letramento, com
alfabetização global, que envolve não apenas o domínio da técnica da
leitura e da escrita, mas a possibilidade de perceber, de “ler”,
interpretar as ocorrências que se desenvolvem à sua volta, na
interação com os demais sujeitos no seu contexto social, mas com
possibilidade de se relacionar com outros contextos, inclusive do
passado, comparando, criticando, propondo ajustes, novas relações e
organizações. |