
Uma mãe me relata
o seguinte caso: seu filho está na terceira série do Ensino
Fundamental. Seu comportamento é de uma criança muito inteligente,
falante, crítico, questionador. Ele vai bem em todas as matérias,
contudo tem uma certa dificuldade na escrita: come letras, sílabas.
Diz a mãe que, ao
que parece, o pensamento da criança é muito mais rápido que a
mãozinha na hora de escrever. Os textos dele são bons de conteúdo,
mas a preocupa o fato de faltar letras e sílabas nas palavras que
escreve e cometer alguns erros ortográficos considerados
persistentes e graves por seus professores.
A mãe afirma que
embora saiba que ele, o filho, ainda está em fase de aprendizagem da
língua materna, que não pode exigir que ele escreva tudo certinho, é
muito ruim, para ela, detectar um problema e não saber como fazer
pra ajudá-lo.
Ainda segundo o relato da mãe, não acha que seja
correto esperar que o tempo resolva o problema da escrita
ortográfica de seu filho. Supõe, com lídima razão, que a base do
processo de alfabetização do filho precisa ser sólida para ele
ganhar autonomia futuramente e se aventurar pelo mundo da escrita
com mais propriedade.
Ressalta também
que a criança é leitor voraz, lê livros de literatura infantil,
historinhas bíblicas, matérias relacionadas com meio ambiente,
natureza, animais que visivelmente adora, mas mesmo assim, tem
problemas na escrita. E me faz uma pergunta direta: Isso é dislexia?
Como podemos ajudá-lo, insiste a mãe. Haveria, prossegue a mãe,
jogos, exercícios que pudesse fazer em casa para ajudá-lo?
A partir de seu
relato prévio, poderíamos dizer, desde já, algumas coisas. A
primeira é a de levarmos em conta que alguns erros ou desvios (aos
olhos dos adultos) podem ser, no processo de alfabetização ou de
aquisição de linguagem, hipóteses importantes para que as crianças,
no decorrer da formação, consigam ultrapassar as barreiras da língua
e possam se comunicar, principalmente por escrito, como nós,
adultos, almejamos, como modelo ideal de escrita ortográfica, para
nossos educandos. Piaget e seus herdeiros da psicogênese levantam a
hipótese de que um erro ortográfico, por exemplo, é ponto de partida
para o professor que, realmente, trabalhe com o processo de
construção do saber lingüístico, contando, para isso, com o
conhecimento científico ou de formação do docente.
A escrita
ortográfica depende muito da memória. Há, em nós, um léxico ou um
cérebro da ortografia. Por que não explorar mais sua memória
imediata, sua memória de trabalho? Em geral, as crianças demoram um
pouco a estocar todo um conjunto de traços das letras do alfabeto,
principalmente quando minúsculas.
Um detalhe: o traçado das letras, a despeito do
nosso automatismo, não é tão fácil. Vejamos, por exemplo, letras
como p, b, d, q, que trazem os mesmos traços (segmento da reta,
semicírculo), mas são simétricas, com alterações na rotação,
direção, sentido, enfim.
A supressão de algumas letras ou de seus traços
grafêmicos, na escrita ortográfica, pode traduzir também a supressão
que as crianças (e alguns adultos e diria muitos adultos também)
fazem na fala, na expressão oral espontânea. Se a supressão ocorre
na fala, variação fonológica que muitas vezes não afeta a mensagem,
exigirá de nossa parte também inciativas de intervenção como um
trabalho com a pronúncia em voz alta dos sons da fala. Se apenas na
escrita, um caderno de caligrafia pode em muito ajudar a esse
processo de automatismo (como os antigos foram e são sábios em se
tratando de aquisição de linguagem!).
O certo é que levamos para a escrita muitas
neutralizações da fala, tipo assim: para a forma verbal "vamos", a
gente normalmente diz "vamo", apagando o "s", morfema, no final da
palavra. Quando a supressão é de sílaba inteira (mas observemos o
ambiente fonológico da ocorrência, se no início, no meio ou no fim
da palavra), nos assustamos um pouco, mas cabe à criança fazer suas
descobertas e, com certeza, logo mais fará no ensino fundamental, em
particular, a partir da 1ª série, etapa do ensino em que devem ser
desenvolvidos práticas de leitura, escrita e ortografia.
Outro ponto a considerar é que os educadores e os
pais têm muito o que aprender com os erros ortográficos dos pequenos
educandos. Todo erro ortográfico tem sua motivação fonológica ou
etimológica, mas caberá ao professor interventor observar a
regularidade no desvio: mesmo com aparentes erros as crianças estão
sempre aprendendo, sistematizando, observando, e de alguma forma nos
ensinando a ter paciência com os problemas da língua que nós,
adultos, já superamos, mas, como sabemos, também não foi tão fácil
assim. Se as crianças omitem letras, caberá aos educadores da
linguagem observar que letras são estas e que fonemas representam na
ortografia. Claro, nós, os adultos, ansiosos, queremos que todas as
formas lingüísticas sejam logo apreendidas pelas crianças. É preciso
paciência no desenvolvimento e processamento da linguagem escrita.
Quando as
crianças são bons leitores, como as relatadas nesse caso, decerto,
desenvolveram hábitos de leitura e tenderão, doutra sorte, a
compreender muito do que lêem. Não há a rigor muito pra se angustiar
nessa fase em se tratando de ortografia, que, no decorrer de
formação escolar, e, em especial, com o desenvolvimento da fala e da
escuta ativa, há indicar compensações para a escrita ortográfica
exigida pelo padrão culto da língua.
Vicente Martins é professor da Universidade
Estadual vale do Acaraú (UVA), de Sobral.
E-mail:
vicente.martins@uol.com.br |