Corrida contra o Tempo

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Fernando Amaral Rodrigues

Nasci no final da década de 70. Durante minha infância aguardei ansioso a chegada do ano 2000 e todos os benefícios que sempre ouvia dizer e assistia nos filmes, seriados e desenhos de que eu era fã, afinal, quando me tornasse adulto iria ao trabalho pilotando um misto de carro com avião que cruzava a cidade pelo alto, repleta de arranha-céus, ruas limpas, onde todos eram muito bonitos (manipulação genética) e parecidos com funcionários do sistema de saúde, pois se trajavam inteiramente de branco. Os trabalhos “sujos” e rotineiros eram realizados por robôs de aparência humanóide e super computadores do tamanho de salas. Geradores Atômicos, a mais avançada tecnologia, iriam suprir todas as nossas necessidades de energia e esperava-se viajar pelo universo à velocidade da luz. Hoje, em 2006, vejo que estamos mais próximos da ficção proposta pelo longa metragem Blad Runner, o Caçador de Andróides do que de 2001, uma Odisséia no Espaço.

Deixando de lado a ficção e centrando-me na atual realidade do planeta é possível enxergar que estamos passando por um período sem precedentes nas esferas populacional, econômica e ambiental, que formam o eixo central de nosso problema. E que os rumos e as decisões que tomarmos hoje serão determinantes para a qualidade de vida no mundo que estamos planejando para o futuro. Hoje, muitas complicações são capazes literalmente de destruir o mundo. Essas ameaças podem ser ambientais, sociais ou econômicas, na verdade uma mistura delas. E variam do buraco na camada de ozônio, que paira sobre nossas cabeças e causa câncer, matando nos oceanos o fitoplâncton, base da cadeia alimentar de incontáveis seres, levando à perda de boa parte de nossa já fragilizada biodiversidade, também responsável pela captura de CO2 e repositória de quase todo oxigênio que respiramos, até o medo da mais nova forma de pandemia, a gripe aviária, que logo mais, em outubro, novembro, com a chegada do inverno naquele hemisfério, aterrorizará o velho mundo. Percebe-se, portanto, que muitas ações são capazes de debilitar o frágil equilíbrio dessa ínfima parte do universo onde ocorrem as interações do homem com o ambiente.

Decisões políticas tomadas hoje são determinantes para o futuro sustentável do planeta. Elas devem seguir as diretrizes e metas que vêm sendo traçadas desde a conferência de Estocolmo para evitarmos que as gerações vindouras arquem com nossos passivos, como ocorreu, e vem ocorrendo até hoje, por conta de nosso modelo de desenvolvimento que, num estranho ritual, utiliza uma espécie de energia solar armazenada nos corpos dos seres que habitaram o planeta muito antes do surgimento do homem. Essa “pilha pré-histórica”, na forma de gás, carvão e petróleo possibilitou que o homem erguesse a atual civilização em ritmo tão frenético que em 1800 atingimos nosso primeiro bilhão de habitantes, o segundo bilhão só seria acrescentado em 1930. Em 2006 somos 6.5 bi, e as melhores expectativas dão conta de que seremos 9 bi em 2050.

Principalmente após a revolução industrial o homem passou a agir no meio de forma mais agressiva. Com o crescimento sustentado pela queima de combustíveis fósseis continuamos até hoje a lançar na atmosfera milhões de toneladas de CO2 ao ano, contribuindo para aumentar o efeito estufa e suas trágicas conseqüências. Um ponto positivo no combate ao aquecimento global foi a assinatura do protocolo de Kyoto que estipulou como meta para os países desenvolvidos reduzir suas emissões aos níveis registrados em 1990, entre 2008-2012. Entretanto, ainda se emite CO2 em quantidades muito maiores do que a capacidade do planeta em absorvê-lo, os prazos estipulados são longos e as reduções pouco significativas. É esperado um acréscimo entre 2 e 6 °C para os próximos 100 anos e seus efeitos serão certamente catastróficos para a humanidade.

Mesmo com a ameaça de colapso total do sistema, parece que as autoridades globais ainda não  atentaram para a gravidade do problema e não o tratam com a seriedade necessária. As chamadas energias limpas ou renováveis, embora tenham dado um grande salto tecnológico nos últimos anos, ainda são preteridas por tecnologias já consagradas e mais poluidoras.

Pela emergência da situação muito mais deveria estar sendo feito em favor da redução da emissão de gases estufa e de outros tantos problemas. Não parece que se discute o futuro do planeta e do ser humano. O tempo urge. A essa velocidade conseguiremos estabilizar a situação do globo antes do colapso?

Fernando Amaral Rodrigues é licenciado em Biologia e está cursando o MBA em Gestão Estratégica em Meio Ambiente, no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), USP.

 

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atualizado/setembro/2007