Resenha

A CRIANÇA E SEUS JOGOS - Aberastury, Arminda. Editora Artes Médicas

É uma obra que retrata a atividade lúdica como a melhor expressão plástica da vida de fantasia e do desenvolvimento psicológico infantil.

 

Na introdução, um dos filhos da autora lhe pede algo não muito técnico sobre atividade lúdica e o desenvolvimento da criança para preparar programa de TV sobre o significado do brinquedo em cada idade, transmitindo experiências cotidianas ou algo que lhes fosse útil para compreender os filhos.
Questionada a respeito de que consiste o brinquedo e em que idade aparece, Arminda foi dialogando, procurando transmitir sua experiência, mas constatou que para explicar por que em determinada idade, uma criança normal, sempre aparecia o mesmo brinquedo - o de esconder, por exemplo- idêntico em todas as partes do mundo e que se inicia entre os quatro e os cinco meses, seria necessário também tecer considerações a respeito do desenvolvimento infantil. Assim, explicou os brinquedos até a adolescência e o programa que realizou nessa base. A partir daí, passou a redigir este livro, curto e acessível, evitando todo tecnicismo.
Já se havia perguntado sobre a razão de, em determinada idade aparecer um brinquedo e não outro,e de haver crianças nas quais ele não aparece, justamente crianças que sempre apresentam distúrbios. O não brincar no momento adequado com o brinquedo correspondente acarreta perturbações, e o fato de não surgir um determinado modo de brincar pode ser um sinal de mau desenvolvimento.
Recordou casos de consultas de pais porque seu bebê de oito ou nove meses não dormia, tivera uma convulsão ou sofria de angina de repetição e como a introdução de modificações na rotina diária, a organização da vida doméstica e sobretudo a orientação de sua atividade lúdica permitiram não somente o desaparecimento dos sintomas como uma profunda modificação da estrutura da criança. Isto acontecia com crianças em seu primeiro ano de vida.
Freud ensinava que uma criança brinca não somente para repetir situações satisfatórias, mas também para elaborar as que lhe foram traumáticas e dolorosas. Em seu trabalho diário, a autora comprovou o aparecimento das situações traumáticas no brinquedo da criança, interessando-se também em ver que relações entre a maturação e o desenvolvimento levaram ao aparecimento ou desaparecimento de um brinquedo em determinada idade.
Suas primeiras experiências consistiram em indicar uma atividade lúdica e observar os resultados. Depois tentava aprofundar as relações entre desenvolvimento e maturação e, deste modo, muitos mistérios se esclareceram, sobretudo em um período precoce do desenvolvimento; a segunda metade do primeiro ano.

Descoberta fundamental: comprovar que todo bebê passava entre os sete e doze meses, por um período em que a genitalidade era muito importante e apresentava suas formas de descarga adequadas. Entre elas, uma das mais significativas era o brincar, não de um modo geral e sim de maneira muito específica, como: meter e retirar coisas, introduzir objetos penetrantes em orifícios, encher recipientes com pequenos objetos, explorar buracos.
De acordo com os ensinamentos de Freud, estudamos que durante todo o primeiro ano de vida os interesses da criança se centralizavam nos alimentos e nos prazeres e exigências derivados da fase oral: chupar, morder, beijar, lamber, explorar os objetos com a boca. A experiência demonstrou que isso se processava assim e de maneira intensa até a aparição dos dentes, para, então, dar lugar a novos interesses. Aparecia, por exemplo, uma necessidade imperiosa de explorar o corpo, tanto o seu como o dos outros, o que a levava a descobrir no seu os genitais. Desta zona genital surgiam exigências que tendiam à satisfação.
A autora compreendeu que a criança, além de conhecer a diferença de sexos, também tinha seu modo de expressar formas de procurar satisfazê-lo, o que demonstrava conhecer suas funções sexuais. Tais excitações e exigências necessitavam de descarga, que de acordo com a maturação e o desenvolvimento, eram específicas para cada idade.
Parte das necessidades genitais se satisfaz com a masturbação, como o mostrar seu corpo e demonstrar curiosidade pelo dos outros. Outras necessidades se satisfazem graças à identificação projetiva com a figura dos pais unidos e. por último, com a ATIVIDADE LÚDICA na qual conseguem a união simbólica dos sexos.
Ao mesmo tempo surgia a aprendizagem do movimento e a necessidade de se deslocar no espaço, que acarretava, por sua vez, uma nova série de exigências: movimentar-se, exercitar a força, manipular objetos, às  vezes com violência.
Ao surgirem as novas necessidades era necessário atendê-las para que o desenvolvimento seguisse o seu curso normal e, se estas eram descuidadas, a criança apresentava distúrbios.
A experiência de Arminda mostrou-lhe que o brinquedo oferecia ao bebê uma longa série de experiências que correspondiam a estas necessidades específicas da etapa do desenvolvimento a que se referiam e a todas as posteriores.

O BRINQUEDO possui muitas das características dos objetos reais, mas pelo seu tamanho, pelo fato de que a criança exerce domínio sobre ele, pois o adulto outorga-lhe a qualidade de algo próprio e permitido, transforma-se no instrumento para domínio de situações penosas, difíceis, traumáticas, que se engendram na relação com os objetos reais. Também o brinquedo é substituível e permite que a criança repita, à vontade, situações prazerosas e dolorosas que, entretanto, ela por si mesma não pode reproduzir no mundo real.
Freud foi o primeiro a descrever este mecanismo psicológico de brincar quando interpretou o brinquedo de um garoto de dezoito meses, que fazia aparecer e desaparecer um carretel, tentando, assim, dominar a sua ansiedade em relação ao aparecimento e desaparecimento de sua mãe, simbolizada pelo carretel e, ao mesmo tempo, jogá-la longe, sem perigo de perdê-la, já que o carretel voltava quando ele o desejava. Este brinquedo lhe permitia descarregar, sem risco algum, fantasias agressivas e de amor em relação à mãe, já que era senhor absoluto da situação. Também elaborava deste modo sua angústia diante de cada despedida da mãe.
A observação do brinquedo efetuada por Freud continua a ser modelo, mas Arminda descobriu que o que Freud descreveu para os dezoito meses (o brinquedo de esconder), surgia muito mais cedo, ou seja, entre os quatro e os seis meses e corresponde a motivos psicológicos profundos pois, neste momento, o bebê atravessa uma etapa de desenvolvimento chamada “Posição Depressiva” na qual tenta elaborar a necessidade de se desprender da relação única com a mãe para poder passar para a relação com o pai; deste modo, se estabelece a tríade  mãe-pai-filho, que é a base das futuras relações do indivíduo com o mundo.
Desprender-se da situação única com a mãe e orientar-se para o pai abre à criança o caminho de interesses múltiplos no mundo exterior e lhe permite formar laços com pessoas e objetos cada vez mais variados e rumorosos. Estas novas relações e todas as situações de mudança mencionadas despertam ansiedade e, de diversos modos, o brinquedo oferece a possibilidade de elaborá-las. A canalização de afetos e conflitos para objetos que ela domina e que são substituíveis cumpre a necessidade de descarga e de elaboração, sem por em perigo a relação com seus objetos originários. Com o crescimento surgem novos interesses, novas situações de mudança e os brinquedos se modificam.
A substituição do objeto originário, cuja perda é temida e lamentada, por outros mais numerosos e substituíveis, a distribuição de sentimentos em múltiplos objetos e a elaboração de sentimentos de perda através da experiência e recuperação, tal como observou Freud ao analisar o brinquedo do carretel, constituem as bases da atividade lúdica e da capacidade de transferir afetos para o mundo externo.
Usando o mecanismo da IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA, as crianças fazem TRANSFERÊNCIAS POSITIVAS E NEGATIVAS para os objetos conforme estes excitem ou aliviem sua ansiedade e este mecanismo é a BASE de toda sua relação com os objetos originários. Através das personificações no brinquedo observa-se como o objeto pode modificar-se com rapidez, de bom para mau, de aliado para inimigo. Por isto, o brinquedo infantil, quando normal, progride constantemente para identificações cada vez mais aproximadas da realidade.
Lendo este livro poderemos ir descobrindo as relações entre os processos de maturação e crescimento, e o aparecimento de novos interesses no brincar. Ao observar o brinquedo de uma criança poderemos ter uma noção da marcha de seu desenvolvimento.
O primeiro passo da aplicação dos conceitos neste livro expostos sobre o significado do brinquedo  foi a aplicação da atividade lúdica à terapêutica. Freud proporcionou as bases da técnica do brinquedo, posteriormente desenvolvida por Melanie Klein e, em nosso meio, por um grupo numeroso de psicanalistas de crianças que, seguindo orientações de Arminda, aplicaram a técnica de Melanie Klein com algumas modificações.

Nesta obra, Arminda refere-se apenas ao brinquedo da criança normal, procurando mostrar do que brinca uma criança à medida que se desenvolve.

A criança ao nascer tem a expectativa do tipo de mãe que lhe virá ao encontro. Encontrar o pai significa não somente poder separar-se bem da mãe como também encontrar um ponto de identificação masculino. Uma boa maternidade e uma boa paternidade permitem à criança superar grande parte das dificuldades inerentes ao desenvolvimento. Desde a concepção a situação do casal em relação ao filho é diferente. O filho rompe a relação única do casal e a partir desse dia é necessário aceitar a inclusão do terceiro, o que nem sempre é fácil. Quando o bebê nasce precisa adaptar-se a um mundo novo que deverá conhecer e compreender. Muitas de suas tentativas de explorar o ambiente constituirão a base de sua futura atitude lúdica. Desde o nascimento até mais ou menos vinte dias, o interesse da criança se centraliza quase que exclusivamente na mãe. A visão se desenvolve desde o primeiro momento. É imprescindível que a pele da mãe esteja em contato com a pele do bebê desde os primeiros momentos, pois isso prepara a criança para um bom desenvolvimento. A carência desta relação satisfatória acarreta distúrbios no contato com a realidade e predispõe a criança a doenças de pele.
Entre o terceiro e o quarto mês, já conhece a mãe, ama-a e rejeita-a, sente-se amado e rejeitado, iniciando um processo de desprendimento que conduzirá à procura do pai e do mundo circundante. Em torno dos quatro meses inicia-se a atividade lúdica, fundamental na vida mental da criança: os objetos funcionam como símbolos e ao mesmo tempo produzem-se em seu corpo modificações que facilitam o exame do mundo. Entre quatro e seis meses é capaz de se sentar e a relação com os objetos que a rodeiam se modifica. O pedaço de lençol que leva à boca e atrás do qual se esconde representa a mãe; cada objeto próximo ou distante adquire vida e a estimula a novas experiências.
Brincar de esconder é sua primeira atividade lúdica e com ela elabora a angústia de desprendimento, a desolação por um objeto que deve perder.

Aos quatro meses a criança brinca com seu corpo e com objetos: desaparece atrás do lençol e torna a aparecer. Assim, o mundo momentaneamente se oculta e ela volta a recuperá-lo quando seus olhos se libertam do objeto atrás do qual estava escondida.
De seu corpo saem sons e agora é capaz de repeti-los; escuta-os e sua expressão modifica-se. Estes sons, balbucios, são a primeira tentativa de expressão verbal. Assim como a palavra, começam a ser objeto concreto para sua mente e também com eles pode brincar. Sua repetição é um brinquedo verbal e pode fazer com os sons o que já experimentou com os objetos.
As crianças de todos os tempos e de todas as nacionalidades brincaram com um chocalho; com ele também algo aparece e desaparece: os sons. A criança também descobre que ao bater em um objeto pode produzir sons. Todos os sons lhe interessam e muitos a assustam. Com o chocalho repete essas experiências: é algo fora do seu corpo que simboliza  a mãe e que ela controla com sua mão. Do mesmo modo que ela e a mãe, o chocalho tem algo dentro que se move e produz sons. Então chupa-o, explora-o, morde-o e vai reproduzindo experiências que a tranqüilizam.. Quando atira os brinquedos no chão, espera e exige que lhe sejam devolvidos, mas não age por maldade nem para controlar ou escravizar o adulto; é um brinquedo necessário através do qual a criança experimenta o perder e recuperar o que ama.

Entre quatro e seis meses, a criança adquire diversos modos de elaborar a angústia da perda. Através de seus brinquedos intui, sente e elabora que as pessoas e os objetos tanto podem aparecer como desaparecer. Expressa isso em seu mundo lúdico. Paradoxalmente, ao encontrar a forma de elaborar suas angústias de perda, exige com urgência incontrolável a presença de seus verdadeiros objetos: os pais. Iniciou-se o penoso processo de abandonar a relação única com a mãe e aceitar de modo definitivo a presença do pai. Neste período sofre verdadeiras depressões e suas tendências destrutivas aumentam quando aparecem os dentes.

Na segunda metade do primeiro ano surge novo interesse em seus brinquedos: descobre que algo oco pode conter objetos, que algo penetrante pode entrar em objeto oco. Este grande descobrimento é o anúncio da forma adulta de manifestar amor.  Uma vez realizados esses jogos com seu corpo e com o das pessoas que a cercam, passa a brincar com coisas inanimadas: o buraco do banheiro, da fechadura, etc. Um lápis, óculos, seus dedos, tudo serve para por e tirar, unir e separar.

Entre oito e doze meses as diferenças anatômicas dos sexos se manifestam nos brinquedos. A menina prefere colocar objetos num lugar oco, e seus brinquedos repetirão essa experiência. O menino, ao contrário, escolhe objetos com os quais possa penetrar. Também a criança se desloca no espaço circundante engatinhando. Seu campo de ação se amplia e começa uma consciente e paciente exploração dos objetos. Ao fim do primeiro ano, o pôr-se  de pé e o caminhar lhe permitem afastar-se voluntariamente  dos objetos e reencontrá-los.

As FEZES E A URINA que o corpo elabora também são modelos fantasiados do que seja a concepção. Entram alimentos em sua boca, passam através do corpo e saem transformados, sólidos, suscetíveis de originar formas; transformam-se no símbolo de sua capacidade criadora. A criança ama e teme as substâncias que saem de seu corpo. Se elas estão condenadas a desaparecer devido às proibições dos adultos, a criança busca na água, na terra e areia os substitutos permitidos das fezes e da urina. Água, terra e areia passam do estado de puras substâncias para adquirir aspecto de objetos. Serão crianças, castelos, animais selvagens, líquidos com poderes mágicos, etc. Mais tarde o adulto lhe fornecerá uma massa especial com a qual pode modelar. Seu ventre fecundo e o da mãe vão tomando o primeiro plano. A fecundidade, conseqüência da união, começa a interessá-la. Aparecem os tambores e bolas como brinquedos prediletos que simbolizam tal ventre.

Entre onze e dezoito meses usa uma tampa e uma colher para percutir como tambor e isso serve às suas necessidades de descarga motriz, além do que, sendo inquebrável, facilita esta descarga, pois percebendo a realidade de que não se destrói, diminui na criança o temor a suas tendências destrutivas e, por conseguinte, também sua culpa.

Ao final do primeiro ano o globo e depois a bola constituirão o centro de seus interesses. As fantasias de união vão dando origem ao forte desejo de ter um filho. Seu próprio corpo está simbolizado nas formas esféricas. A aprendizagem da maternidade e da paternidade começam com as brincadeiras e jogos com bonecas e animais que corporificam os filhos imaginários. Vasilhas, pratos, talheres servem para receber e dar alimento aos filhos imaginários ou para submetê-los a privações. Esta experiência de alimentar e ser alimentado traz também experiências de perda e recuperação.

Com aproximadamente dois anos, começam a interessar-lhe  os recipientes que utiliza para derramar substâncias de um lugar para outro. Esta atividade lúdica pode ser tomada como indício de que espera e necessita aprender a controlar os esfíncteres, isto é, a adquirir a capacidade  de entregar à sua vontade os conteúdos do corpo.

Por volta do três anos descobre que pode recuar e reter a imagem através do DESENHO. Quando desenha, também seu primeiro desejo, interesse, é o corpo. A casa, que simboliza o corpo, será o objeto central de suas paisagens. Brinquedos de corda, para os pequenos, é difícil de manejar e difícil de dar prazer. Ao contrário, experimentará profunda frustração e dor pela impotência e incapacidade de usá-los. TODOS OS BRINQUEDOS SIMPLES FACILITAM A PROJEÇÃO DE FANTASIAS  e a ajudam na função específica do brinquedo: ELABORAR AS SITUAÇÕES TRAUMÁTICAS. Evitar brinquedos que se quebrem com facilidade, pois isso é motivo de angústia.

A criança que brinca investiga e precisa ter uma experiência total que deve ser respeitada. Seu mundo é rico e em contínua mudança; inclui o intercâmbio permanente entre fantasia e realidade. Se o adulto interfere e irrompe em sua atividade lúdica, pode perturbar o desenvolvimento da experiência decisiva que a criança realiza ao brincar.

Em torno dos três anos, os carros e as locomotivas são a paixão do menino, paixão que é compartilhada pelas meninas.
A organização genital se desenvolve pouco a pouco: a menina e o menino sentem-se impelidos a experiências genitais e as sublimam através dos brinquedos. Ao brincar representam suas fantasias de vida amorosa dos pais e de si próprias, o nascimento do filho, as atividades masturbatórias.
A pequena garagem é usada para brincadeiras de penetração intimamente ligadas com a alimentação. O brinquedo com bonecas e animais satisfaz suas necessidades de paternidade e maternidade.
Começam a valorizar uma gaveta, um armário, uma caixa onde possam guardar seus brinquedos. A destruição e a desordem lhes produzem angústia. Surge o interesse pela limpeza e pela ordem.  Precisam ver que algumas coisas podem ser substituídas e neste período dá mais prazer à criança tornar a ver um brinquedo que foi consertado do que receber um novo. A luta contra as tendências destruidoras começa a mostrar-se ativa. A simbologia da vida genital é muito rica entre três e cinco anos. O brinquedo amplia-se e complica-se; a intensidade de brincar e a riqueza da fantasia permitem a avaliação da harmonia mental. Sua vida mental é povoada de imagens que a acalmam e de outras que a inquietam; teme perder todas, necessita conservá-las, recuperá-las, revivê-las, repetir a angústia que lhe provocaram e, deste modo, abundam os detalhes, os objetos reais e fantásticos que seus DESENHOS recriam. A imagem é fugidia e seu desenho a retém e a imobiliza. Esta capacidade de recriar objetos em imagens imóveis é uma nova forma de lutar contra a angústia de perda. A imagem entra também por outro caminho no mundo de seus brinquedos: aparece com o livro e a monotonia com que as crianças pedem que repitamos suas pequenas histórias e mostremos seus desenhos. A vida moderna oferece à criança pequena a possibilidade de fazer aparecer e desaparecer, à vontade, a imagem.

Os desejos genitais adquirem pujança entre os três e os cinco anos e se expressam em vários tipos e atividades, de modo que somente uma parte deles fica livre para a relação edípica com os pais. As BRINCADEIRAS SEXUAIS entre crianças são a norma. Não são negativas, pelo contrário: CONTRIBUEM PARA O BOM DESENVOLVIMENTO. Os desejos genitais podem canalizar–se em brincar de mamãe e papai, de médico e enfermeira, de namorados, de casados, e como esses tipos de brinquedos satisfazem suas necessidades de tocar, de se mostrar, de ser vistos e de ver. Aos cinco anos o menino brinca de mistério, conquista, ação (Super-Homem) e a menina de boneca, casinha, finge relações sociais e entra na aprendizagem das características femininas através da quais procura identificar-se com sua mãe.

A ENTRADA NO COLÉGIO modifica profundamente o mundo do brinquedo e as letras e números  convertem-se em brinquedo para as crianças. O amor pelo conhecimento é a continuação da curiosidade que sentiram pelo mundo circundante até cinco/seis anos. Com a aprendizagem escolar aparecem novos jogos que se combinam com as aptidões intelectuais e a sorte. O menino aprende a competir e a compartilhar os papéis com seu grupo, graças a múltiplos brinquedos que vão desde a sorte até a perícia. O ludo, os jogos de corrida, o dominó, o banco imobiliário abrem-lhe um novo mundo no qual competir significa, a princípio, aniquilar. Triunfa-se sobre alguém, mas não com alguém. Uma longa aprendizagem será necessária até chegar a uma nova forma de competição na qual é incluído e admitido o possível triunfo de dois com valores iguais.

O LUDO simboliza para a criança o manejo de suas forças na LUTA DE ADAPTAÇÃO E CONQUISTA do mundo.

Os adultos fabricam os brinquedos das crianças, como o chocalho e a bola. Alguns permanecem sem modificações através dos anos. Outros são cópias de situações novas e vão cumprindo as necessidades dos adultos de elaborar a inclusão de novas situações de perigo. Exemplo disso é a invasão de discos voadores e elementos de guerra atômica que tiveram seu aparecimento no mundo dos brinquedos e nas imagens das estórias das crianças dessa idade.

Finalmente, a partir dos sete ou oito anos e até a puberdade, o corpo volta a ter um papel  fundamental. O gosto pela luta, pelas corridas, pelo futebol se intensifica, acentua-se o prazer pelo jogo de pegar e de esconder, pelos brinquedos com as mãos. O apogeu desses brinquedos é o quarto escuro, onde a exploração e a procura já têm conteúdos genitais muito evidentes. A escuridão, como condição necessária, neste jogo, nasce à medida que as capacidades genitais vão se definindo mais e se torna possível a utilização dos órgãos.

 

Joana Maria Rodrigues Di Santo é Psicopedagoga experiente, com atuação significativa em Psicopedagogia Institucional, Coordenadora de Ensino Médio e Fundamental, Supervisora aposentada do Município de São Paulo, Mestre em Educação, profere palestras e assessora diversas escolas.
 

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atualizado/setembro/2007