As crianças perguntam e ...

são perguntas

 

Alícia Fernandez faz a declaração que dá título a este texto, acrescentando que a criança é devir. Devir que é construção e construtor, participando dessa construção não apenas a criança, mas também a realidade de ensino em que está inserida.

Crianças são perguntas e, para termos condições de escutá-las, entendê-las, precisamos nos colocar como crianças e nos dar o direito de questionar, de falhar, de retomar, de reinventar, de apelar para a poesia e a metáfora. De sairmos da acomodação e questionarmos nossos anseios e expectativas em relação à nossa própria formação, nosso trabalho, nossa vida.

Precisamos entender nossa própria modalidade de aprendizagem e de ensino para melhor entender a modalidade de aprendizagem do aluno e possibilitar que se manifeste e se constitua enquanto sujeito. Escutar o que o aluno diz e observar o que faz, interagindo, interferindo: orientando, estimulando, colocando limites, é o que procura desenvolver o ensinante comprometido com todo o processo de ensino-aprendizagem, ciente de que “é a aprendizagem que possibilita o despertar de processos internos de desenvolvimento que, se não fosse o contato do indivíduo com um determinado ambiente cultural, não ocorreriam”. (Oliveira, M. Kohl. "apud" Alves, 1994)

Na minha prática educativa, pude atuar como “detentora do conhecimento”, em consonância com a prática pedagógica dos anos 1970, exigindo que meus alunos estudassem muito e registrassem a apreensão de conhecimentos  em provas previamente agendadas, inclusive nas famosas semanas de provas, que tanto aterrorizam muitos alunos, até os dias de hoje. Mas, ao mesmo tempo, também lhes possibilitava inúmeros momentos de atuação criativa, como elaboração de jornais escolares e peças de teatro, que escreviam e representavam. Assim, tive sempre um olhar dirigido à individualidade do aluno e à sua atuação em equipe, o que foi aperfeiçoado através da formação contínua, pela qual pude estar sempre atualizada, voltada para o novo; mobilizada para a mudança, em termos pessoais e profissionais.

Procuro ouvir os alunos, escutar suas queixas e inquietações, combinar atuação conjunta. E não foi automaticamente que consegui essa flexibilidade, mas através da disposição interior de me aperfeiçoar como ser humano e como profissional comprometida  com a qualidade da atuação pedagógica, que implica a valorização de todo o processo e não apenas dos resultados. E isso dá trabalho, envolve tempo, disposição, energia, mas também possibilita a satisfação de vivenciar a realização dos propósitos e planos elaborados.

Possibilita, ainda, estarmos atentos para não cairmos no extremo oposto do profissional autoritário e deixarmos o aluno fazer o que quiser  como tem ocorrido em algumas instituições nas quais professores não sabem como conduzir o processo de aprendizagem dos alunos sem lançar mão da reprovação e, desnorteados, imobilizam-se e acabam não ensinando nada. Este é assunto que merece reflexão maior, com pesquisa de campo, pois temos visto alunos que chegam à oitava série do Ensino Fundamental e, praticamente, não sabem escrever, nem interpretar o que lêem, quando lêem.

Quem se responsabiliza por tal situação?  Ninguém? O sistema?

Não é produtivo ficarmos procurando culpados, no entanto precisamos dar um basta à questão e assumirmos nossa função de ensinantes lúcidos e politicamente comprometidos. Não no sentido partidário, mas no sentido ideológico, que Paulo Freire tão bem vivenciou e nos legou.

 “Para de fato aprender, necessitamos de um ensinante que se mostre conhecendo e não conhecedor; que se mostre pensante, e que não exiba e imponha o que pensa”, diz Alícia Fernandez. O ensinante tem que se dar o direito de questionar, de não ser o dono da verdade, de reconhecer a importância da interação e da produção conjunta: com os alunos, com os demais professores, com os pais, com a comunidade, saindo da onipotência ou do imobilismo e criando vínculos saudáveis.

Nessa linha de pensamento e atuação, hoje, a inclusão se destaca como oportunidade de fazer o professor, a escola, a equipe escolar pensar. Pensar em incluir aqueles que mais têm necessidade de escolarização, de aprendizagem, de autoria de pensamento. E ir além, realmente promovendo a inclusão; assumindo que lugar de criança e adolescente é na escola; adotando medidas que viabilizem tal processo; buscando parcerias significativas que dêem sustentação às ações.

Penso que através do estudo de casos, da oportunidade de reflexão conjunta, do diálogo esclarecedor, os professores possam realmente despertar para a autoria de seu trabalho, sentindo-se valorizados e motivados enquanto sujeitos capazes de reverter a situação na qual o fracasso do aluno denuncia,” velada ou abertamente, que o fracasso que estão vendo nele é o reflexo do fracasso do ensino das instituições educativas”, como Alícia Fernandez vem trabalhando em sua missão de ensinar ensinantes, não apenas na Argentina, seu país de origem, mas no Brasil e em outros países da América Latina.

Referências Bibliográficas:

Alves, Leila Maria. (Coord. Geral). Por trás das letras: Alfabetização- Refletindo sobre a falsa dicotomia entre ensino e aprendizagem. FDE, 1994, Governo de São Paulo.

Fernández, Alicia. O Saber em Jogo: a psicopedagogia propiciando autorias de pensamento. Porto Alegre: Artmed Editora, 2001.


Joana Maria Rodrigues Di Santo – Pedagoga, Psicopedagoga, Mestre em Educação, Professora Universitária com significativa atuação em Psicopedagogia Institucional, com vasta experiência em direção, supervisão e coordenação pedagógica no ensino público e particular, profere palestras e assessora diversas escolas.

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atualizado/setembro/2007