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Muito se tem
falado sobre competências, na escola, nos ambientes de trabalho, na
mídia. O conceito de competência também tem sido questionado por
alguns autores que o relacionam com o modelo de qualificação que
privilegia a especialização.
...O silêncio e a fragmentação das tarefas saem de cena para dar
espaço à comunicação e à interatividade, onde o savoir-faire e o
ambiente subjetivo do indivíduo entram em cena. Aspectos antes
desconsiderados, tais como os componentes cognitivos e os
componentes sócio-afetivos passam a ser valorizados na formação e no
exercício do trabalhador. Novos conhecimentos e habilidades são
exigidos, visto que a otimização das atividades utiliza novas formas
de organização do processo produtivo e novas tecnologias. (SIMIONATO,
Margareth F.- Desmistificando Competências, paper, out/2003)
No entanto, a mudança do paradigma
educacional baseado em um modelo pedagógico de dependência onde o
currículo é visto como um fim, que tem por meta o acúmulo de
saberes, que utiliza metodologias transmissivas e tem foco
centrado no ensino, tem sido preocupação da escola.
Assim, o desenvolvimento de competências (conhecimentos,
habilidades e atitudes) tem sido o caminho apontado por muitos, para
a mudança deste paradigma.
Convém aqui apontarmos alguns conceitos de competência:
“Qualidades de
quem é capaz de apreciar e resolver certos assuntos.” (Dicionário
Aurélio)
Na escola, “faculdade de mobilizar um conjunto de recursos
cognitivos (saberes, capacidades, informações, etc) para solucionar
com pertinência e eficácia uma série de situações. Estão ligadas a
contextos culturais, profissionais e condições sociais.”
(Philippe
Perrenoud)
Modalidades
estruturais da inteligência, ou melhor, ações e operações que
utilizamos para estabelecer relações com e entre objetos. situações,
fenômenos e pessoas que desejamos conhecer. as habilidades decorrem
das competências adquiridas e referem-se ao plano imediato do “saber
fazer”. através das ações e operações as habilidades aperfeiçoam-se
e articulam-se, possibilitando nova organização das competências.
(Documento do ENEM, p. 8)
Conjunto de
conhecimentos, qualidades, capacidades e aptidões que habilitam para
a discussão, a consulta, a decisão de tudo o que concerne a um
ofício, supondo conhecimentos teóricos fundamentados, acompanhados
das qualidades e da capacidade que permitem executar as decisões
sugeridas. (TANGUY,L. 1997)
“A pedagogia da
competência assume duas dimensões: uma psicológica, em que a noção
de competência é apropriada sob a ótica das teorias psicológicas da
aprendizagem; outra sócio-econômica, pela qual essa noção adquire
um significado no âmbito das relações sociais de produção.”
(RAMOS,M.2001)
COMPETÊNCIAS
PROFISSIONAIS, “capacidade de mobilizar, articular e colocarem ação
valores, conhecimentos e habilidades necessários para o desempenho
eficiente e eficaz de atividades requeridas pela natureza do
trabalho. (DCN EDUCAÇÃO PROFISSIONAL DE NÍVEL TÉCNICO)- (Parecer
CNE-CEB 16/99 e Resolução CNE-CEB nº 04/99)
Cabe aqui , a
diferenciação entre eficiência e eficácia. A eficiência está
relacionada ao processo enquanto a eficácia está relacionada ao
resultado. Exemplo: Aulas consideradas boas são eficientes mas, só
serão eficazes se produzirem aprendizagem.
Então, o que
significa ser competente?
Aquele que
julga, avalia e pondera; acha a solução e decide, depois de examinar
e discutir determinada situação,de forma conveniente e adequada. A
competência exige o saber, o saber fazer e o ser/conviver.
(conhecimentos, habilidades e atitudes).
Trabalhar
enfocando as competências significa mudança no foco do ensino. Ao
invés da memorização de conteúdos, o aluno irá exercitar suas
habilidades, que o levarão à aquisição de novas competências. (Nota
10: Jornal Mensal sobre Educação - Ano I nº 4 agosto/99)
Enquanto aprendentes, interiorizamos
aquilo que de alguma forma está ligado ao conteúdo por um desafio,
necessidade ou motivação.
Exemplificando: Quando aprendemos a andar
de bicicleta, consideramos o “andar”, um desafio. Esta aprendizagem
acontece a partir da mobilização de recursos cognitivos para a
resolução do problema ou objetivo da aprendizagem.
A competência é uma construção mental e
não a mera resolução de tarefas. Quem sabe fazer deve saber porque
está fazendo desta maneira e não de outra.
Moretto (1999) aponta cinco competências: •domínio de linguagens;
•compreensão de fenômenos; •construção de argumentações; •soluções
de problemas; •elaboração de propostas.
Buscando um
novo paradigma educacional, centrado na aprendizagem e não no
ensino, teremos o professor como mediador entre o conhecimento
acumulado e o interesse e a necessidade do aluno . E o currículo,
entendido como o conjunto integrado e articulado de situações
organizadas de modo a promover aprendizagens significativas.
Para
desenvolver competências é preciso, antes de tudo, trabalhar por
resolução de problemas e por projetos, propor tarefas complexas e
desafios que incitem os alunos a mobilizar seus conhecimentos,
habilidades e valores.
Metodologias
Novas
metodologias serão necessárias para o desenvolvimento de
competências na escola. Para Fernando Hernandez, (1998) os projetos
de trabalho aparecem como um veículo para melhorar o ensino e como
distintivo de uma escola que opta pela atualização de seus conteúdos
e pela adequação às necessidades dos alunos e dos setores da
sociedade aos quais, cada instituição se vincula.
Atualmente, as
escolas têm definido como objetivo de seu projeto pedagógico a
formação do cidadão crítico, criativo, capaz de estabelecer relações
e fazer julgamentos; há de ser atuante, responsável e comprometido
com o que faz; deve ser bem informado, capaz de se perceber no grupo
e atuar no sentido de seu fortalecimento e de sua coesão.
O trabalho com
projetos oportuniza ao aluno:
participar da
definição dos temas; fortalecer a sua autonomia, o comprometimento e
a responsabilidade compartilhada; confrontar idéias, experiências e
resultados de pesquisa produzir conhecimentos significativos e
funcionais; valorizar diferentes habilidades e potencialidades;
apreender e interpretar conceitos, utilizando o conteúdo próprio de
diferentes disciplinas; ter uma visão global da realidade.
Etapas do
projeto
Problematização:
É nesta fase
que o professor detecta o que os alunos já sabem, e o que ainda não
sabem sobre o tema em questão. É a partir das hipóteses levantadas
nesta etapa que o projeto é organizado pelo grupo.
Desenvolvimento:
Momento em que
são elaboradas estratégias para buscar respostas às questões
hipóteses formuladas na etapa de problematização.
Síntese:
Os alunos
superam suas convicções iniciais, substituindo-as por outras, de
maior complexidade e de maior fundamentação teórica e prática,
construindo novas aprendizagens.
Avaliação:
Deve acontecer entremeada com as demais etapas e ainda ao final de
toda tarefa; pretende-se, com a avaliação, melhorar o processo,
aprimorando todos os envolvidos: o processo educativo não pode ter
compromisso com avaliações que selecionem os melhores dos menos
capazes.
Proposta de
passos para a realização de um projeto de trabalho
•Tema
ou problema
•
Projeto de pesquisa
•
Questões ou hipóteses
•
Fontes de informação
•
Critérios de ordenação e de interpretação das fontes
•
Relações com outros problemas
• Avaliação
• Conexão com novo
tema ou problema
Um projeto de trabalho não pode ser considerado apenas como um
método de ensino, mas como uma postura que reflete uma concepção do
conhecimento como produção coletiva, onde a experiência vivida e a
produção cultural sistematizada se entrelaçam, dando significado a
aprendizagens construídas.
Importância
dos registros sobre os fatos e questões discutidos durante todo o
encaminhamento do projeto.
Os alunos
aprendem a ser flexíveis e a compreender a realidade sociocultural e
o mundo do trabalho que os cerca. Estabelecem relações entre o
passado e o presente; entre os significados atribuídos a
determinadas práticas culturais, científicas e laborais; e entre as
diferentes versões dos fatos e fenômenos que estudam.
Na montagem de projetos em torno de situações concretas de trabalho,
são valorizadas as diversas contribuições prestadas por cada
disciplina, o que traz a necessidade de que os docentes das
disciplinas compreendidas em cada módulo de ensino realizem um
planejamento integrado.
É importante
considerar que os projetos encerram uma concepção que prioriza a
aquisição de estratégias cognitivas de nível superior, bem como o
papel do aluno como responsável por sua própria aprendizagem.
Os projetos contribuem para o desenvolvimento das capacidades que
são exigidas dos profissionais da atualidade, compondo o quadro de
atributos genéricos incorporados no modelo de competências.
Essas
capacidades incluem:
Iniciativa;
criatividade; diagnóstico de situações; integração: tomada de
decisões; comunicação interpessoal.
Juan Pozo
(1998) tem defendido uma metodologia centrada na solução de
problemas. Para ele, ensinar a resolver problemas não consiste
somente em dotar os alunos de habilidades e estratégias eficazes,
mas também em criar neles o hábito e a atitude de enfrentar a
aprendizagem como um problema para o qual deve ser encontrada uma
resposta.
A aprendizagem
através da solução de problemas somente se transformará em autônoma
e espontânea se transportada para o âmbito do cotidiano, se for
gerada no aluno a atitude de procurar respostas para suas próprias
perguntas/problemas, se ele se habituar a questionar-se ao invés de
receber somente respostas já elaboradas por outros, seja pelo
livro-texto, pelo professor ou pela mídia.
Avaliação
No momento em
que a escola decide trabalhar no intuito de desenvolver
competências, fazem-se necessárias novas metodologias, mas também um
redimensionamento na compreensão de avaliação. A avaliação é
inerente ao ser humano. Sempre que temos que decidir, fazemos
escolhas.
Quando estamos avaliando estamos estabelecendo critérios de escolha,
juízos de valor. Sempre tomamos posição partindo de um ponto de
vista.
O
objetivo do ensino de qualquer disciplina deve ultrapassar a mera
memorização de informações, porque o êxito não esta na reprodução,
mas na capacidade de construir soluções próprias a novos problemas.
Ao escolher
instrumentos de avaliação o professor deve saber qual a habilidade
requerida:
1)
Conhecimento (evocação de informações)
2) Compreensão (entendimento)
3) Aplicação (usar abstrações)
4) Análise (desdobrar o conhecimento)
5) Síntese (combinar novos elementos)
6)
Avaliação (julgamento de valor do material
Em todos os momentos o professor expressa, de forma explícita e
implícita a concepção que ele tem sobre a educação. Se ensinar é
“transmitir” conhecimento, na avaliação a transmissão será cobrada.
Porém, se acredita que ensinar é propiciar condições para que o
indivíduo desenvolva suas potencialidades, a avaliação também
buscará aspectos que devem ser aprofundados.
Para avaliar corretamente, exige-se clareza na definição do perfil
de aluno que queremos formar. É necessário identificar as
competências, para atuação e intervenção intencionais no processo
educativo.
Ao compor as competências específicas de cada disciplina é preciso
que professores identifiquem as ações e os componentes
(conhecimentos, habilidades e atitudes) assim como os indicadores
que permitirão avaliar tal competência.
A superação da
fragmentação da prática da escola só se tornará possível se ela se
tornar o lugar de um projeto educacional, entendido como um conjunto
articulado de propostas e planos de ação fundados numa
intencionalidade. E, fundamentalmente:
“vencer uma
série de preconceitos e resistências. Por um lado vencer as
representações deterministas de que alguns alunos são mais capazes
que outros e aceitar que nem tudo está definido na vida. É preciso
acreditar que os alunos podem dominar os mínimos necessários desde
que lhe sejam dadas condições adequadas de aprendizagem.” PERRENOUD,P,
2000
Bibliografia
HERNANDEZ, Fernando. A organização do currículo por projetos de
trabalho. Porto Alegre:Artmed, 1998
MACHADO, Nilson José. Sobre a idéia de competência.
In: PERRENOUD, Philippe (org).
As competências para ensinar no século XXI.
Porto Alegre: Artmed. 2002.
PERRENOUD, Philippe. Construir as competências desde a escola.
Porto Alegre:Artmed, 1999.
POZO, Juan Ignacio.
A solução de problemas.
Porto Alegre: Artmed, 1998.
RAMOS, Marise. A pedagogia das competências: autonomia ou
adaptação? São Paulo: Cortez, 2001
ROPÉ, Françoise; TANGUY, Lucie. Saberes e competências: o uso de
tais noções na escola e na empresa. São Paulo: Papirus, 1997
SIMIONATO,
Margareth F.; Desmistificando Competências, paper, out/2003
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*Rosângela Borges Martins é
Mestre em Educação, professora na
Faculdade São Judas Tadeu, no Centro Universitário
Feevale e na Secretaria de Educação/RS |
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