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A aprendizagem da leitura e escrita não se realiza
da mesma forma para todos os alunos. Como professores tenho certeza de que
já tiveram este tipo de experiência.
Neste artigo quero compartilhar com vocês algumas idéias de fundo sobre
certos fatores que podem ocasionar dificuldades na aprendizagem da leitura
e escrita,
muitas vezes ocasionadas pelo processo de ensino.
O primeiro fator de dificuldade é o de
não saber para que serve a língua escrita e como ela funciona.
Não entender o que se está fazendo e o porquê...
Para que serve ler e o que se pode ler?
Muitas crianças chegam à escola com
idéias bastante claras a esse respeito, sabem que são lidas coisas escritas e não
desenhos. Que um livro tem um título, que lendo pode-se saber o que está
dito em um texto.
Saber como funciona a linguagem escrita.
Nosso sistema de escrita funciona segundo um princípio
alfabético: a quantidade de letras de uma palavra corresponde, a grosso
modo, ao número de sons que compõem a palavra. Entender o princípio
alfabético não é o mesmo que conhecer os sons das letras. Uma criança pode
saber que ao símbolo escrito E corresponde ao som [e], que ao símbolo L
corresponde o som [l ], mas, mesmo assim, ela pode não ter compreendido o
mecanismo que permite formar uma palavra escrita.
Algumas crianças chegam à escola com a compreensão do
princípio alfabético. Outras pensam que o número de letras de uma palavra
é igual ao número de sílabas de uma palavra, enquanto outras, sequer
entenderam que as letras escritas tem relação com os sons das palavras.
Devemos lembrar sempre que as crianças não chegam à escola com o mesmo
nível de compreensão que do seja ler e escrever.
Como professores precisamos ter consciência de que os
conhecimentos, para poderem ser ensinados, passam necessariamente por uma
transformação em relação aos seus contextos de origem, porém, é muito
importante evitar que nesta transformação percam seu significado, seu
sentido original. Ao mesmo tempo em que se preserva o sentido do objeto do
conhecimento é indispensável que se proteja o sentido deste saber do ponto
de vista do sujeito que trata de reconstruir esse objeto, isto é: a
criança. Por essa razão, a transposição didática deve implicar em
fidelidade ao saber de origem assim como fidelidade às possibilidades do
sujeito de atribuir um sentido ao dito saber.
Deste modo ante um conhecimento complexo tendemos a
delimitá-lo em conhecimentos parciais, porque partimos da suposição que a
fragmentação facilita a compreensão. Mas, ao delimitá-los em fragmentos
autônomos, provocamos sua descontextualização, porque na realidade os
fragmentos que separamos fazem parte de complexos processos de
interrelações e assim estamos desconectando a rede de problemáticas que
lhes dão sentido completo. Assim, instauramos uma ruptura entre o modo de
ensinar e o modo de aprender, pois que o sujeito que aprende não se depara
com a realidade analisando um pedaço de cada vez, e sim, o faz, tratando
de entender como funciona, analisando os aspectos que seus esquemas
cognoscitivos lhe permitem observar, tratando de encontrar e dar um
sentido ao que está fazendo.
Como bem o demonstram as investigações de Ferreiro e
Teberosky, assim como em outros âmbitos, no âmbito da língua escrita, a
criança é um sujeito ativo que se depara com a realidade, construindo
conhecimentos, criando teorias e hipóteses, comparando-as entre si e
modificando-as.
Para ilustrar um exemplo da falta de coerência entre o
modo de ensinar e o modo de aprender vamos ter em mente a fase inicial do
ensino da escrita que se desenvolve nos primeiros anos do ensino
fundamental ou nos últimos da educação infantil. O que ainda predomina
como prática de escrita nesses anos são exemplos como os mostrados abaixo:


Analisando esta página de caderno, pode-se compreender
facilmente quais são as idéias que estão dirigindo a proposta didática:
uma letra, uma sílaba, uma palavra por vez, seguindo uma ordem de
dificuldade crescente do ponto de vista do adulto. Não passam de
exercícios de escrita, que têm como objetivo memorizar a relação grafema-
fonema e a coordenação viso- motora.

O mesmo se pode notar no exercício ao lado.
As crianças, nesse caso, estão escrevendo fragmentos:
letras, sílabas e palavras, mas não textos. Os textos são deixados para
depois, para quando, o professor acredite que os alunos já tenham
aprendido a "técnica instrumental" da escrita.
Entretanto, quando se observam alguns exemplos de escrita espontânea de
crianças, por exemplo, na fase da educação infantil, nota-se que independentemente
do modo de escrever (grafismos primitivos, escritas diferenciadas,
escritas silábicas, alfabéticas etc.), o que prevalece nelas é a
construção de uma mensagem, escrita com clara intenção comunicativa e não
a construção de fragmentos de escrita. Deste modo, ao invés de favorecer o
processo de aprendizagem da escrita por meio do uso de "fragmentos", por
achá-los mais simples para a criança, na verdade, isso pode
tornar-se um obstáculo. Ha uma ruptura entre o modo de ensinar a escrever
com o modo com que as crianças se apropriam da escrita.
A
ESCRITA DO PONTO DE VISTA DA CRIANÇA
De acordo com Teberosky (1991) investigações recentes
demonstraram que a aprendizagem da escrita não é uma tarefa simples para a
criança, já que requer um processo complexo de construção, em que suas
idéias nem sempre coincidem com as dos adultos.
O ensino da lecto- escrita tem se baseado em certas pressuposições que à
luz das investigações mencionadas p questionadas. Uma delas é a de que o
nosso sistema alfabético de escrita é natural e que a única dificuldade
consiste em aprender as regras de correspondência entre fonema e grafema,
e, partindo dessa suposição, para aprender a ler e a escrever é necessário
ressaltar fundamentalmente o aspecto sonoro.
As investigações de Ferreiro (1981) demonstram que as
idéias das crianças não coincidem com essa pressuposição. Até os 4 anos,
elas tentam compreender que tipo de objeto são as letras e os números de
nosso sistema de representação convencional. As grafias, segundo Ferreiro,
são consideradas somente como "letras", "números", "a, e, i, o, u", etc.
Para a criança desta faixa etária as "letras" ou os "números" não
substituem nada, são aquilo que são, um objeto a mais que como outros no
mundo possuem um nome.
Essa maneira de pensar muda mais tarde. As grafias servem para substituir
outra coisa, passam a ser "objetos substitutos", que têm um significado,
ainda que diferentes do nosso ponto de vista de adultos alfabetizados,
pois para as crianças as grafias não representam sons. O primeiro tipo de
relação consiste em buscar alguma correspondência entre os sinais gráficos
e os objetos do mundo. Como os objetos tem nome, a relação se estabelece
quando para um certo conjunto de letras se atribui o nome do objeto ou
imagem que o acompanha.
Porém o nome ainda não é a representação de uma pauta sonora e sim uma
propriedade dos objetos que podem ser representados através da escrita, a
atribuição depende muito mais das correspondências que existem na relação
com o objeto do que das propriedades daquilo que está escrito. Desta forma
um mesmo conjunto de letras significa vaca perto da imagem de uma vaca,
sem que se exclua que pode significar também outra coisa se estiver
relacionado a outras imagens.
Chega o momento no processo evolutivo que as crianças estabelecem alguma
hipótese entre os sons e as letras.
A primeira hipótese que aparece é que as letras representam
sílabas. A hipótese silábica consiste em atribuir uma sílaba a uma letra,
a qualquer delas e a correspondência é mais quantitativa que qualitativa.
Para um nome trissílabo fazem falta 3 letras. Mas, no caso de nomes
monossílabos ou bissílabos, duas e uma letra são "poucas". Com poucas
letras (menos de três) se vai de encontro a uma outra hipótese da criança
que consiste em exigir uma quantidade mínima para que uma coisa sirva para
"ler". A criança tem muitas idéias sobre a escrita sem que encontremos a
tal naturalidade e simplicidade do sistema alfabético.
"A relação entre escrita e linguagem não é um dado inicial. A criança não
parte dela, mas, chega a ela". Passa de uma correspondência lógica
(uma letra para cada sílaba) para uma correspondência mais estável (não
mais qualquer letra para qualquer sílaba.
Portanto, a idéia de que a escrita é um objeto
substitutivo, isto é, tem um significado, está bastante distante da
redução à uma simples associação entre fonemas e sons e não depende
unicamente de uma representação dos fonemas.
Nas aprendizagens envolvidas no processo de alfabetização é
necessário distinguir, como o faz Emilia Ferreiro:
-
a aprendizagem de certas convenções fixas, exteriores ao
sistema de escrita, como por exemplo: orientação, tipo de letra;
-
a aprendizagem da forma de representação da linguagem que
define o sistema alfabético;
-
aceitar como escrita o que é escrito de formas não
convencionais ao sistema;
-
conhecer o conjunto de "idéias prévias", "esquemas de
conhecimentos" a partir dos quais intervir no processo de aprendizagem;
-
fazer uso de uma metodologia que permita às crianças saírem
de suas teorias infantis e progressivamente construir as convenções
sociais que estão imbricadas nas atividades de leitura e escrita.
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