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A
qualidade de uma instituição escolar depende em grande parte
do modo pelo qual ela enfoca o processo de condução das atividades que
se desenvolvem nas classes, pois, ali não é somente o lugar onde se
realiza o processo de ensino-aprendizagem, como também, o lugar que
traz sempre o momento oportuno para se desenvolver e promover os valores
humanos nos alunos. Essa qualidade depende sobretudo também da
capacidade dos professores estimularem o esforço dos alunos.
Podemos formular várias perguntas:
-Como conseguir um ambiente harmônico de trabalho? Como conseguir a
integração dos alunos na classe? Como promover a disciplina? Como agir
diante de condutas que podem ser consideradas irregulares, que perturbam
o direito dos outros alunos?
Para responder a tais questionamentos, é necessário
em primeiro lugar que a instituição escolar tenha bem claro o que é
disciplina para ela. Dependendo da maneira com que a escola conceitua
disciplina, as respostas às formulações acima irão variar muito, o
que nos indica claramente porque um aluno é considerado indisciplinado
em uma escola e quando freqüenta outra, isso pode não acontecer,
confundindo os pais muitas vezes a respeito do conhecimento que acham
que possuem sobre seus filhos.
Consideramos que uma escola preocupada
com a formação dos seus alunos e não somente em "ensiná-los"
é aquela que considera a disciplina como: o
domínio de si mesmo para ajustar a conduta às exigências do trabalho
e de convivências próprias da vida escolar, não como um
sistema de castigos ou sanções que são aplicadas a alunos que alteram
o desenvolvimento normal das atividades escolares com uma conduta
negativa.
A disciplina é um hábito interno que facilita a cada pessoa o
cumprimento de suas obrigações, é um autodomínio, é a capacidade de
utilizar a liberdade pessoal, isto é, a possibilidade de atuar
livremente superando superando os condicionamentos internos ou externos
que se apresentam na vida cotidiana.
Necessidade de normas básicas de convivência
Pelo que vim expondo até agora, quem está lendo poderia pensar que um
bom clima na classe ou a ação positiva e continuada dos professores
tornassem desnecessárias quaisquer regras de disciplina. Não é isso o
que estou defendendo. O que torna possível essa ação positiva
continuada dos professores e um bom clima na classe são alguns pontos de
apoio, podemos chamá-los assim. Com efeito, o respeito às pessoas e à
propriedade, a ajuda desinteressada aos companheiros, a ordem e as boas
maneiras, exigem exigem que todos que convivam na escola aceitem algumas
normas básicas de convivência e se esforcem por vivê-las dia após dia.
O bom clima de uma escola não se improvisa, é uma questão de coerência,
de tempo e constância.
São imprescindíveis, portanto, algumas
normas que sirvam de ponto de referência e ajudem a conseguir um
ambiente sereno de trabalho, ordem e colaboração; um referencial
geralmente aceito, que determina o limite que a liberdade dos outros impõe
à nossa própria liberdade. Para que estas normas sejam eficazes é
necessário que :
-
sejam poucas e coerentes com o
processo educativo;
-
que estejam formuladas e
justificadas com clareza e sensatez;
-
que sejam conhecidas e aceitas
por todos: pais, professores e alunos;
-
que seu cumprimento seja
exigido.
É lógico
que as normas por si mesmas não são suficientes. Não se consegue a
disciplina escolar mediante a aplicação exaustiva das sanções
estabelecidas. A convivência harmônica entre toda a comunidade escolar
é conseqüência de um processo de formação pessoal que torna
possível a descoberta da necessidade e valor destas normas elementares
de convivência; que ajudam a fazê-las próprias porque se
converteram em hábitos de autodomínio que se manifestam em todos os
ambientes onde se desenvolve a vida pessoal.
A disciplina como instrumento educativo
Em uma escola não existem problemas de disciplina: há alguns alunos com
problemas, a cuja formação é preciso atender de uma maneira particular.
Para um real processo educativo a solução não é excluir os que
atrapalham e sim atender a cada um segundo suas necessidades
pessoais.
Como se trata de pessoas em formação,
é preciso estabelecer um sistema de estímulos que favoreçam o
desenvolvimento da responsabilidades dos alunos, muito mais que punir, o
que vem a exigir uma atuação continuada dos professores: os alunos não
mudam de um dia para o outro. Em educação é absolutamente necessário
contar com o tempo, pois o importante é a formação.
A primeira e mais fundamental norma para o
professor é tratar seus alunos com estima e respeito. Para estar em
condições de educar, o professor precisa estabelecer relações cordiais
e afetuosas com seus alunos; criar um ambiente estimulante de compreensão
e colaboração, usando de atitudes amistosas e pacientes com todos os
alunos sem distinção.
Neste ambiente de cordialidade que deve envolver
as relações professor- aluno, não há espaço para palavras ou mesmos
gestos que signifiquem menosprezo; nem que se ridicularize um aluno
perante seus companheiros, ou a impaciência com seu erro; nem para ameaças
ou concessão de privilégios; ou para a ação que não aceita que os
alunos tenham direitos à justificativas, ou ainda, a utilização de sanções
para estimular aprendizagens.
Um dos fatores que mais estimula a
indisciplina, ou a falta de consideração dos alunos a um professor é a
falta de coerência entre o que o professor diz e o que ele faz, entre os
valores que ele tenta transmitir aos alunos e os que ele mesmo vive.
Os valores e atitudes cultivados numa escola
precisam ser incorporados por toda a equipe de profissionais; a incoerência
entre a vivência desses valores pelos professores, pode transmitir aos
alunos uma visão distorcida dos valores que a instituição cultiva.
Sabemos também
que existem comportamentos que pela gravidade e transtornos que provocam
nos demais podem prejudicar o andamento normal da classe e o bom ambiente
entre os alunos. Nessas ocasiões em que se põe a prova a qualidade
humana e profissional, ofício do professor, importa e muito agir com
acerto.
O mau comportamento é com freqüência,
conseqüência de condições
desfavoráveis do mesmo ambiente escolar que está atuando sobre os alunos:
locais e mobiliários inadequados, falta de unidade e critério dos
professores e equipe da escola etc., e sobre eles devem centrar-se
inicialmente a atenção antes de tomar medidas mais drásticas e também
atuar com a família e com o próprio aluno.
Já, nos casos em que a indisciplina é coletiva,
em que a maioria dos alunos de uma classe se comporta com
irresponsabilidade, as raízes podem estar em diversas condições
ambientais que estão atuando sobre a realidade escolar. Estas condições
devem ser analisadas com objetividade e identificadas para que se possa
tratá-las de modo adequado: as instalações são funcionais?; o número
de alunos na classe é muito grande?; as atividades escolares são monótonas?;
os profissionais atuam de modos muito diferentes demonstrando falta de
integração entre si e entre as normas da escola?; acontece em todas as
aulas ou apenas com um ou outro professor?
Soluções para os chamados
problemas de "indisciplina" deverão estar baseados numa
análise exaustiva da situação, na reflexão, no diálogo e em técnicas
que capacitem os alunos para o autocontrole e a responsabilidade por sua
conduta.
O assunto não se esgota aqui. Retornaremos posteriormente a ele.
Queremos
deixar claro também que não estamos centrando exclusivamente nos
professores a responsabilidade pelo comportamento dos alunos na aula,
mas, não podemos deixar de acentuar que quando os professores atuam com
competência profissional, unidade e coerência, sentindo-se responsáveis
pelo que ocorre ao seu redor, os comportamentos inadequados ficam restritos
a poucos alunos, com problemas muitas vezes de origem extra-escolar.
Vera Lúcia Camara Zacharias é mestre em Educação,
Pedagoga, consultora educacional, assessora diversas
instituições, profere palestras e cursos, criou e é
diretora do CRE.

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