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Uma Escola de qualidade
para todos os alunos
A sala de aula
é o grande termômetro pelo qual se mede o grau de febre das mudanças
educacionais e é nesse micro espaço que as reformas verdadeiramente
se efetivam ou fracassam. Embora a palavra de ordem seja reformar o
nosso ensino, em todos os seus níveis, o que verificamos quase
sempre é que ainda predominam formas de organização do trabalho
escolar que não se alinham na direção de uma escola de qualidade
para todos os alunos. Se queremos, de fato, reformar o ensino, a
questão central a nosso ver é: como criar contextos educacionais
capazes de ensinar todos os alunos? Outras interrogações derivam
desta questão principal, tais como: que práticas de ensino ajudam os
professores a ensinar todos os alunos de uma mesma turma, atingindo
a todos, apesar de suas diferenças? De que qualidade e de que
tipo de escolas está se falando, quando nos referimos a essas
reformas? Neste texto vamos discutir essas questões, em torno das
quais gravitam inúmeras propostas de renovação do ensino.
Recriar o
modelo educativo
Superar o
sistema tradicional de ensinar e de aprender é um propósito que
temos de efetivar urgentemente, nas salas de aula. Recriar o modelo
educativo refere-se primeiramente ao que ensinamos aos alunos e a
como os ensinamos. Recriar esse modelo tem a ver com o que
entendemos como qualidade de ensino.
Há tempos que
qualidade de ensino significa alunos com cabeças cheias de datas,
fórmulas, conceitos, todos justapostos, lineares, fragmentados,
enfim, o reinado das disciplinas estáticas e com muito, muito
conteúdo.
Escolas
consideradas de qualidade ainda são as que centram a aprendizagem no
conteúdo e que avaliam os alunos, quantificando respostas padrão
Seus métodos e práticas preconizam a exposição oral, a repetição, a
memorização, os treinamentos, o livresco, a negação do valor do
erro. São aquelas escolas que estão sempre preparando o aluno para o
futuro: seja este a próxima série a ser cursada, o nível de
escolaridade posterior, o exame vestibular!
Pensamos que
uma escola se distingue por um ensino de qualidade, capaz de formar
dentro dos padrões requeridos por uma sociedade mais evoluída e
humanitária, quando promove a interatividade entre os alunos, entre
as disciplinas curriculares, entre a escola e seu entorno, entre as
famílias e o projeto escolar. Em suas práticas e métodos predominam
as co-autorias de saber, a experimentação, a cooperação,
protagonizadas por alunos e professores, pais e comunidade. Nessas
escolas o que conta é o que os alunos são capazes de aprender hoje e
o que podemos lhes oferecer para que se desenvolvam em um ambiente
rico e verdadeiramente estimulador de suas potencialidades. Em
uma palavra, uma escola de qualidade é um espaço educativo de
construção de personalidades humanas, autônomas, críticas, uma
instituição em que todas as crianças aprendem a ser pessoas.
Nesses
ambientes educativos ensinam-se os alunos a valorizar a diferença,
pela convivência com seus pares, pelo exemplo dos professores, pelo
ensino ministrado nas salas de aula, pelo clima sócio-afetivo das
relações estabelecidas em toda a comunidade escolar - sem tensões
competitivas, solidário, participativo, colaborativo. Escolas assim
definidas são contextos educacionais capazes de ensinar todos, numa
mesma turma.
Ensinar a turma
toda sem exclusões
Para ensinar a
turma toda, parte-se da idéia de que as crianças sempre sabem alguma
coisa, de que todo educando pode aprender, mas a seu modo e a seu
ritmo e de que o professor não deve desistir, mas nutrir uma elevada
expectativa em relação à capacidade de seus alunos conseguirem
vencer os obstáculos escolares, apoiando-os na remoção das barreiras
os impedem de aprender. Entende-se que o sucesso da aprendizagem
tem muito a ver com a exploração dos talentos de cada um e que a
aprendizagem centrada nas possibilidades e não nas dificuldades dos
alunos é uma abordagem efetiva.
Em outras
palavras, a proposta de se ensinar a turma toda, independentemente
das diferenças de cada um dos alunos, implica a passagem de um
ensino transmissivo para uma pedagogia ativa, dialógica, interativa,
conexional, que se contrapõe a toda e qualquer visão
individualizada, hierárquica do saber.
Para se
ensinar a turma toda temos de propor atividades abertas,
diversificadas, isto é, atividades que possam ser abordadas por
diferentes níveis de compreensão e de desempenho dos alunos e em que
não se destaquem os que sabem mais ou os que sabem menos, pois tudo
o que essas atividades propõem pode ser disposto, segundo as
possibilidades e interesses dos alunos que optaram por
desenvolvê-las. Debates, pesquisas, registros escritos, falados,
observação; vivências são processos pedagógicos indicados para
realizar essas atividades, além, evidentemente, dos conteúdos das
disciplinas, que vão sendo chamados espontaneamente a esclarecer os
assuntos em estudo.
A avaliação do
desenvolvimento dos alunos também muda, por coerência com a prática
referida anteriormente. Trata-se de uma análise do percurso de cada
estudante, do ponto de vista da evolução de suas competências ao
resolver problemas de toda ordem e de seus progressos na organização
do trabalho escolar; no tratamento das informações e na participação
na vida social da escola.
Criar contextos educacionais capazes de ensinar a todos os
alunos demanda uma reorganização do trabalho escolar. Tais contextos
diferem radicalmente do que é proposto pedagogicamente para atender
às especificidades dos educandos que não conseguem acompanhar seus
colegas de turma, por problemas de toda ordem - da deficiência
mental a outras dificuldades de ordem relacional, motivacional,
cultural. Sugerem-se nestes casos as adaptações de currículos, a
facilitação das atividades escolares, além dos programas para
reforçar as aprendizagens ou mesmo acelerá-las, em casos de maior
defasagem idade/séries escolares.
A possibilidade de se ensinar a turma toda, sem discriminações e sem
adaptações pré definidas de métodos e práticas especializadas de
ensino advém, portanto, de uma reestruturação do projeto
pedagógico-escolar como um todo e das reformulações que esse novo
projeto exige da prática de ensino, para que esta se ajuste a novos
parâmetros de ação educativa.
Enquanto os professores, persistirem em: - propor trabalhos
coletivos, que nada mais são do que atividades individuais feitas ao
mesmo tempo pela turma - ensinar com ênfase nos conteúdos
programáticos da série; - adotar o livro didático, como ferramenta
exclusiva de orientação dos programas de ensino; - servir-se da
folha mimeografada ou xerocada para que todos os alunos a preencham
ao mesmo tempo, respondendo às mesmas perguntas, com as mesmas
respostas; - propor projetos de trabalho totalmente desvinculados
das experiências e do interesse dos alunos, que só servem para
demonstrar uma falsa adesão do professor às inovações; - organizar
de modo fragmentado o emprego do tempo do dia letivo para apresentar
o conteúdo estanque desta ou daquela disciplina e outros expedientes
de rotina das salas de aula. - considerar a prova final, como
decisiva na avaliação do rendimento escolar do aluno, não teremos
condições de ensinar a turma toda, reconhecendo as diferenças na
escola.
Estas práticas pedagógicas configuram um
ensino para alguns alunos. E para alguns, em alguns momentos,
algumas disciplinas, atividades e situações de sala de aula. A
exclusão então se manifesta amplamente, atingindo a todos os alunos,
em um ou em outro momento do dia escolar, porque sempre existem os
que não aceitam deliberadamente uma proposta de trabalho escolar
descontextualizada, sem sentido e atrativos intelectuais, porque não
desafia, não atende a motivações pessoais. Essas atividades servem
para gerar indisciplina, competição, discriminação, preconceitos e
para categorizar os bons e os maus alunos, por critérios infundados
e irresponsáveis.
O professor
que ensina a turma toda compartilha com seus alunos a autoria dos
conhecimentos produzidos em uma aula; trata-se de um profissional
que reúne humildade com empenho e competência para ensinar, pois o
falar e o ditar não são mais os seus recursos didático-pedagógicos
básicos. O ensino expositivo não cabe nas salas de aula em que todos
interagem e participam ativamente da construção de idéias,
conceitos, sentimentos, valores.
Um ponto crucial do ensinar a turma toda é reconhecer o outro em
sua inteligência e valorizá-lo, de acordo com seus saberes e com a
sua identidade sócio-cultural. Sem estabelecer uma referência,
mas investindo nas diferenças e na riqueza de um ambiente que
confronta significados, desejos, experiências, o professor deve
garantir a liberdade e a diversidade das opiniões dos alunos e nesse
sentido ele é obrigado a abandonar crenças e comportamentos que
negam ao aluno a possibilidade de aprender a partir do que sabe e
chegar até onde é capaz de progredir.
O nosso desafio como educadores é reunir alunos de diferentes
níveis, diante de uma situação de ensino, em grupos desiguais, pois
assim é que se passa na vida e é assim que a escola deve ensinar a
ter sucesso na vida. Temos pois de desconfiar das pedagogias
que implementam dispositivos e que se nutrem de bons propósitos de
ensinar, de preparar para a vida, mas que favorecem ativamente os
desfavorecidos. Ser competente na escola e na vida depende de tempo,
e esse tempo é contado desde cedo, quando, nas salas de aula,
construímos conhecimento e aprendemos a mobilizá-lo em situações as
mais diferentes, que exigem transposições entre o que é aprendido e
o que precisa ser resolvido com sucesso e na desigualdade dos
níveis, nas diferenças de opiniões, de enfoques, de humores, de
sentimentos.
Essa
transposição e a construção de competências, entendida como nos
define Perrenoud (1999): uma capacidade
de agir eficazmente em um determinado tipo de situação, apoiada em
conhecimentos, mas sem limitar-se a eles (p.7) tem seu
cenário ideal na escola que repete a vida, tal como ela é.
Referências
bibliográficas
FREIRE, Paulo.
Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1978.
PERRENOUD,
Philippe. Construir as competências desde a escola;trad. Bruno
Charles Magne. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.
Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp) - Faculdade de Educação -
Departamento de Metodologia de Ensino Laboratório de Estudos e
Pesquisas em Ensino e Diversidade - LEPED/Unicamp.
Vera Lúcia Camara Zacharias é mestre em Educação,
Pedagoga, consultora educacional, assessora diversas
instituições, profere palestras e cursos, criou e é
diretora do CRE. |