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RESUMO: O presente trabalho
consiste no relato de uma experiência de Educação Ambiental,
realizada em uma escola de ensino fundamental, constando de
atividades apoiadas no Modelo das Cinco Fases e nos fundamentos da
teoria da complexidade. Realizadas entre 2000 e 2002, as atividades
contemplaram as orientações didáticas contidas nos Parâmetros
Curriculares Nacionais e a crença numa educação afetiva e
comprometida com a prática da cidadania.
Introdução
A gravidade dos
problemas ambientais pressupõe que as medidas para diminuir os
impactos negativos no ambiente natural e na sociedade devam ser tão
rápidas quanto foi o avanço de nossa ação predatória.
Entre essas
medidas, o trabalho educacional é, sem dúvida, um dos mais urgentes
e necessários, pois atualmente, grande parte dos desequilíbrios está
relacionada a condutas humanas geradas por apelos consumistas que
geram desperdício, e pelo uso inadequado dos bens da natureza, como
os solos, as águas e as florestas. Somos responsáveis diretos pelo
que acontece à nossa volta e, a menos que mudemos nossos valores e
nossos hábitos, não haverá saída.
Diante disso, além
da formulação de propostas teóricas, da aprovação de leis e da
introdução de novas diretrizes curriculares e orientações didáticas
nos sistemas educacionais, além da produção e distribuição de
material pedagógico, é necessário que haja mais acompanhamento e
maior apoio ao que acontece dentro das escolas, no espaço das salas
de aula. É lá que a educação realmente acontece e, quer sejam
grandes ou pequenas ações, elas são extremamente necessárias. É a
partir delas que acreditamos existir a possibilidade de mudar
condutas e formar pessoas que, disseminando suas convicções,
trabalharão por uma nova maneira de relacionar-se com o mundo e com
os outros.
As vivências da Escola Municipal
Agrícola
A Escola Municipal
Agrícola de Ensino Fundamental “Engº. Rubens Foot Guimarães”
localiza-se na zona rural do município de Rio Claro. Caracteriza-se
por dar atendimento em período integral e por fazer parte de sua
grade curricular disciplinas voltadas para a iniciação em práticas
agrícolas.
Sua proposta
pedagógica foi construída considerando suas especificidades e,
portanto, a questão ambiental nela está colocada como uma das
principais metas educacionais, a ser atingida por meio de um
trabalho articulado entre o núcleo comum e a parte diversificada.
Essa vocação foi
por nós acompanhada durante 8 anos de convivência com alunos e
professores, período em que, como professora de Geografia, pudemos
desenvolver inúmeras atividades de campo e projetos, focalizando,
principalmente, os temas lixo e água.
Entretanto, nenhum
outro momento foi tão rico e provocou tanto interesse e participação
dos alunos como no período de 1999 a 2001, quando investimos na
realização de um trabalho sistemático, com embasamento teórico e que
contou com a participação de praticamente toda a equipe escolar.
No início do
projeto de Educação Ambiental, foram selecionadas e/ou organizadas
aquelas atividades consideradas apropriadas para a compreensão e
discussão das questões ambientais.
Ao mesmo tempo,
tínhamos como objetivo colocar em prática ações consideradas
saudáveis, procurando incorporá-las no cotidiano da escola e da
família do aluno, no sentido de promover mudanças significativas de
conduta, com vistas à formação de indivíduos capazes de agir,
individual e coletivamente, na busca por um ambiente mais
equilibrado.
Nessa
primeira fase, o trabalho se desenvolvia mais comumente em sala de
aula, debatendo os temas a partir de uma leitura ou uma sessão de
vídeo. Com o passar das semanas, começamos a propor aos alunos que
saíssemos do âmbito teórico, iniciando atividades práticas, sem,
contudo, deixar de lado a revisão de conceitos e informações
importantes para entender os processos naturais e sociais que
influenciam na qualidade ambiental.
A estratégia para
escolher as atividades práticas e envolver os alunos numa ação que
tivesse significado para todos, foi partir da observação de
problemas, que existiam no local de moradia (bairro ou rua), para
depois decidir qual o mais importante e trabalhar, dentro da escola,
contribuindo para solucionar o problema.
Como já
prevíamos, o problema que apareceu com mais freqüência foi a
incorreta disposição do lixo[i]
colocado a céu aberto em terrenos baldios, em beira de córregos e
nas bocas de lobo (bueiros), provocando o entupimento das mesmas e o
risco de enchente durante a época de chuva.
A partir dessa
constatação, propusemos o início do trabalho de coleta seletiva de
lixo, de oficina de reciclagem de papel e de confecção de brinquedos
utilizando materiais retirados do lixo e denominados de sucata. A
mobilização dos alunos em torno dessas três atividades apresentou
alguns momentos de extrema dificuldade, pois o início foi muito
demorado já que não tínhamos os materiais necessários.
No primeiro ano de
projeto (1999), quase nada foi feito na Oficina de Reciclagem por
falta de condições, pois só sabíamos a teoria (procedimentos), mas
não tínhamos materiais adequados e nenhuma experiência. As primeiras
tentativas foram desastrosas! Mas para os alunos foi um grande
momento. Apesar de não ser possível fazer nada com aquele quadrado
de papelão grosso, enrugado e cinza escuro, os alunos puderam,
naquela experiência, vivenciar a transformação do material
reciclável, ou seja, da matéria prima contida naqueles produtos já
utilizados e descartados (papel branco e de jornal), em um novo
produto.
A oficina de
brinquedos foi uma proposta que teve resultados muito positivos no
primeiro ano. O ponto de partida foi a leitura de um texto sobre as
embalagens de isopor, muito utilizadas em supermercados e padarias e
também pela indústria de eletrodomésticos.
A leitura provocou
a indignação dos alunos e duas atividades foram feitas a partir
disso: a produção de uma carta da sexta série que foi entregue nos
supermercados e outros tipos de comércio que utilizam embalagens de
isopor (bandejas), explicando o perigo ambiental que elas
representam e propondo que estas embalagens sejam substituídas por
outras de papelão ou de plástico, que são recicláveis. A carta foi
escrita em nome dos alunos e assinada pela direção da escola - que
encorajava e prestigiava as iniciativas do projeto - e cada grupo
encarregou-se da entrega nos estabelecimentos mais próximos de suas
residências.
A segunda
atividade foi a confecção de brinquedos pedagógicos reutilizando as
bandejas de isopor: quebra-cabeça, alfabeto, relógios, jogo da
velha, caça-palavras, entre outros. Além do próprio brinquedo, os
alunos fizeram, também reaproveitando material, as embalagens de
presente, já que o produto da oficina seria entregue para as classes
multisseriadas de primeira a quarta série, que funcionam vinculadas
à escola.
Durante todo o ano
letivo, procuramos apoiar as atividades práticas no conhecimento das
causas dos desequilíbrios e das soluções já desenvolvidas pela
ciência. Outra preocupação foi buscar exemplos no entorno do aluno –
seu local de moradia e a escola – ou em situações que eles próprios
identificassem, para dar significado aos conteúdos.
Uma das atividades
realizadas periodicamente com alunos de quinta série era o
“arrastão”, muitas vezes sugerida por eles próprios, que chegavam em
nossa sala ou ao “ponto de encontro” dizendo que a escola estava
muito suja e que seria bom fazer um mutirão de limpeza.
Por várias vezes,
aproveitamos essa disposição para fazê-los refletir e aprender.
Começávamos orientando-os para que não jogassem imediatamente o que
eles recolhessem, mas que fossem colocando tudo em um saco plástico,
menos a matéria orgânica (folhas e galhos, que sempre havia em
grande quantidade, e restos de lanche).
Quando terminavam
a tarefa, fazíamos com eles um exercício de aplicação das
informações trabalhadas em sala de aula. Na frente do grupo,
despejávamos todo o conteúdo do saco plástico e pedíamos que
separassem por tipo de material. Em seguida, corrigíamos os
eventuais enganos, como, por exemplo, considerar papel de bala e
embalagens de salgadinho, como recicláveis.
Dependendo do
interesse da classe, a discussão se aprofundava e conversávamos
sobre a quantidade de embalagens que as indústrias produzem, muitas
vezes desnecessárias. Na mesma direção, comentávamos sobre os
supermercados que colocam apenas um produto dentro de uma sacolinha,
e que nesses casos, nós consumidores temos papel importante, levando
nossa própria sacola para evitar o consumo desnecessário desse tipo
de embalagem.
Após essa primeira
tarefa, que era restrita à classe envolvida, montávamos uma
exposição dos materiais no galpão principal (por onde todos os
alunos e demais pessoas da escola transitam), e escrevíamos frases
alertando para a quantidade de lixo encontrada no chão, acompanhadas
de orientação sobre os materiais que deveriam ser separados nos
coletores, de acordo com a convenção por cores.
Com a oitava
série, a leitura de um texto sobre a sociedade de consumo era o
ponto de partida utilizado para discutirmos o problema da
inadequação das embalagens e do excesso delas. Para a aula seguinte
pedíamos que cada um trouxesse uma embalagem e, em seguida,
dividíamos a turma em grupos para que observassem os seguintes
itens: 1) se as embalagens eram feitas com materiais recicláveis e
se continham o símbolo que indicava essa condição; 2) se continham
informações sobre composição do produto; 3) se continham informações
sobre a indicação/utilização/toxicidade do produto; 4) se informavam
o telefone para contato com a empresa ou de serviço gratuito ao
consumidor (0800); 5) se o produto poderia ser embalado de uma forma
mais econômica e ecologicamente correta.
Em seguida,
fazíamos uma plenária para avaliar o resultado, verificando o tipo
de material mais utilizado na confecção das embalagens; quais os
produtos que mais necessitam de informações ao consumidor; qual o
ramo de atividade que mais presta serviços ao consumidor e quais as
soluções que eles dariam aos problemas levantados.
Finalizávamos com
uma reflexão sobre a questão do consumo e sua relação com o nosso
papel enquanto cidadãos, ou seja, revendo nossos hábitos, recusando
os produtos que não utilizam embalagens recicláveis, exigindo nosso
direito à informação sobre aquilo que compramos e denunciando ao
PROCON[ii]
as empresas que não cumprem com a legislação e não oferecem bom
atendimento ao consumidor.
Várias outras
atividades fizeram parte do dia-a-dia do projeto, muitas delas
voltadas para a sensibilização, trabalhando com afetividade e
valores, por meio de dinâmicas de grupo. Com igual objetivo, os
professores das disciplinas do núcleo comum também desenvolveram o
mesmo tipo de atividades, pois fazia parte da metodologia do
trabalho. Era necessário investir na discussão de valores
individuais e coletivos, para, em seguida, introduzir a temática
ambiental, pois se o indivíduo não está em equilíbrio consigo mesmo
e com o outro, dificilmente estará em equilíbrio com o meio em que
vive e compreenderá o seu papel.
Em conjunto com os
demais professores, planejávamos trabalhos de campo e visitas em
locais onde os alunos poderiam estar em contato com a natureza,
vivenciando situações agradáveis, belas, prazerosas ou de
desequilíbrio, como lixões, esgoto a céu aberto, erosões, depredação
do patrimônio, poluição sonora e visual. Muitas foram as atividades
no Horto Florestal, nas margens do Corumbataí, do Ribeirão Claro, do
Passa Cinco; muitas foram as visitas ao DAAE, tanto na captação como
no tratamento, e às estações de tratamento de esgoto. Visitamos
pedreiras, erosões, matas ciliares, locais onde se faz coleta
seletiva e reciclagem de materiais. Passeamos pelo centro da cidade
e pelos jardins centrais. Mas, foram também inúmeras as atividades
planejadas no espaço da própria escola, por onde andávamos
observando, analisando, planejando...
Entretanto, nem todas as propostas do
projeto eram bem aceitas e garantiam a participação dos alunos.
Tivemos momentos de grande desalento, principalmente com relação à
Coleta Seletiva.
Iniciativa muito
comum nas escolas, a Coleta Seletiva permite a discussão de temas
fundamentais para a melhoria da qualidade ambiental. Facilita também
a demonstração para o aluno, que, além de ele participar ativamente
da existência do problema, em contrapartida, ele pode ter atitudes
que auxiliam na solução do mesmo.
A experiência
demonstra que essa é uma atividade que demanda esforços contínuos
(tempo), infra-estrutura (espaço e coletores adequados), além do
mais importante, que é a regularidade na retirada do material do
interior da escola. Sem essas condições, o trabalho corre o risco de
não trazer benefícios em termos de melhoria ambiental, além de
repercutir negativamente no envolvimento dos alunos, na medida em
que eles não percebam o resultado concreto dos seus esforços.
Entretanto,
podemos chamar de “marco zero” da Educação Ambiental na Escola
Agrícola o ano de 1999, quando tivemos contato com a pesquisadora
Ivana de Campos Ribeiro. Em conversa informal, ela falou sobre seu
trabalho no Núcleo de Educação Ambiental da Prefeitura Municipal,
localizado no Recreio das Águas Claras, intitulado “Projeto
Nascente”. Tratava-se de uma série de atividades de Educação
Ambiental, organizadas e ministradas por ela. Agendamos a
participação de nossa escola e levamos uma turma de oitava série.
Imediatamente após
o primeiro encontro, compreendemos que todos os alunos deveriam ter
a oportunidade de participar, pois a proposta tinha grande
aproximação com o projeto da escola. As atividades aliavam o
conhecimento, a reflexão, o posicionamento crítico e a busca de
soluções, trabalhadas por meio de atividades lúdicas e de
representações, além de envolver prazer e afetividade.
Após um período de
aproximadamente dois meses, até que todos os alunos tivessem
participado do “Projeto Nascente”, a responsável pelo trabalho
procurou-nos para fazer uma proposta. Pós-graduanda, Ivana precisava
de um grupo de professores, sediados em uma escola, para a
realização de sua pesquisa, cuja preocupação se voltava igualmente
para a Educação Ambiental, mas com foco no trabalho com professores.
A pesquisa que ela
iria desenvolver nos dois anos seguintes, 2000 e 2001, teria uma
importância fundamental, contribuindo sobremaneira para o projeto,
já que a formação/capacitação dos professores se apresenta como um
das dificuldades para se alcançar maior sucesso com os projetos de
Educação Ambiental na educação formal.
Em 1998, a
pesquisadora defendeu, em sua dissertação de mestrado[iii]
que é necessário começar o trabalho de Educação Ambiental no próprio
indivíduo, ao desenvolver no mesmo a capacidade de sentir o mundo
e, através do seu corpo descobrir como relacionar-se melhor com o
meio em que vive, inclusive com seus semelhantes. A Educação
Ambiental assim entendida, deve preocupar-se com o estabelecimento
de elos afetivos entre os homens e entre os homens e o mundo. Esses
pressupostos metodológicos foram expressos pela autora no Modelo das
Cinco Fases.
A presença da
pesquisadora e seu trabalho com os professores suscitaram um maior
interesse pelo trabalho com Educação Ambiental e o projeto deixou de
ser um horário a mais para as professoras de Geografia.
Embora o quadro
docente fosse extremamente unido e sintonizado com a proposta
pedagógica da escola - a qual dá ênfase aos aspectos ambientais
devido às suas características - havia também um fator comum a todas
as escolas: a dificuldade dos professores em incorporar ao seu
conteúdo curricular as questões ambientais. Mesmo reconhecendo a
importância do tema, os professores não se sentiam seguros em
trabalhar com conteúdos fora de suas especialidades, atribuindo-se
essa tarefa aos professores de Geografia e Ciências
MODELO DAS CINCO
FASES
FASE 1:
Tomar contato:
“Não posso admirar aquilo que não conheço, logo, necessito tomar
contato.”
FASE 2:
Admirar:
“Se conheço e reconheço a engenharia perfeita da natureza,
inclusive a do meu próprio corpo, através do qual percebo o
mundo, passo então a admirá-la.”
FASE 3:
Amar:
“A admiração gera amor.”
FASE 4:
Respeitar:
“Amor gera respeito.”
FASE 5: Conservar: “O
respeito nos impulsiona a cuidar/conservar aquilo que amamos.”
À medida que o
trabalho de orientação e capacitação dos professores foi
acontecendo, podemos dizer que houve um “despertar vocacional”,
ou seja, a grande maioria tinha em si, de forma latente, uma
vocação para educadores ambientais. Faltava-lhes a preparação e
a motivação necessárias para aprender alguns conceitos e noções
específicas das ciências naturais e, a partir daí, perceber como
a sua área de conhecimento poderia contribuir para educar
ambientalmente os alunos, numa visão inter e transdisciplinar.
Essa situação,
de certa forma inédita, em que duas pesquisas com a mesma
temática aconteciam no mesmo ambiente escolar, pode ser uma
importante contribuição para a pesquisa educacional, pois disso
deriva uma análise mais aprofundada do real, indicando novos
focos de atenção.
O trabalho de capacitação dos
professores ocorreu durante os horários de trabalho pedagógico
individual e coletivo, assim como em reuniões pedagógicas e
encontros especialmente organizados para isso. As discussões
envolviam tanto as questões teóricas e metodológicas e as
questões voltadas à práxis, assim como o “cuidado” com as
questões afetivas, com o “interior” dos educadores.
A partir de dois temas – água e
lixo – os professores passaram a planejar as atividades que
iriam desenvolver com os alunos, inserindo-as nos seus conteúdos
curriculares de forma inter e transdisciplinar.
Paralelamente, os professores foram preparando os
alunos para participarem de atividades com água, envolvendo
relaxamento e lazer. Uma delas aconteceu na própria escola, com
alunos de sexta série e foi realizada pelos professores,
constando da prática de saltos acrobáticos, levando à reflexão
sobre a necessidade de um corpo sadio e “limpo” para ter a
capacidade de realizar todos os movimentos exigidos.
Por este caminho, os alunos eram levados a
perceber que nós e, sendo assim, o nosso corpo, somos parte
integrante do meio ambiente e que precisamos estar em
equilíbrio, pois nossa percepção e todas as sensações de prazer
que podemos ter no contato com o mundo exterior, somente são
possíveis quando nosso corpo está bem. Aqui, o uso de drogas e
as atitudes violentas eram trabalhados com a conotação de “lixo
interior” e que é necessário afastá-los para ter um corpo sadio
e equilibrado, capaz de interagir com o mundo e com os outros,
no sentido da felicidade.
Em outro momento, dando continuidade às mesmas
reflexões, todos os alunos participaram de uma atividade de
lazer denominada “toboágua”. Os professores estenderam uma lona
plástica numa das laterais do campo de futebol, cuja inclinação
era acentuada e, jogando água e sabão, fizeram uma brincadeira
em que os alunos deslizavam pela ladeira. Era verão e foi uma
verdadeira festa . A última etapa foi na piscina de um Centro
Social, para onde os alunos das sétimas séries foram
transportados e participaram de uma atividade de massagem
corporal e relaxamento na água.
Os efeitos dessas atividades, com foco nos
conteúdos atitudinais, foram sentidos pelos demais professores
que, ao desenvolverem suas atividades com conteúdos conceituais
e procedimentais, percebiam as relações de prazer e bem-estar
que tinham ficado na memória dos alunos quando se falava em
água, e que eram expressas no desejo de conservação, na defesa
da economia e da não-poluição, indicando a mudança de valores e,
portanto, um avanço no sentido da mudança de conduta.
Inúmeras outras atividades foram
desenvolvidas com base nos mesmos pressupostos teóricos, tanto
para as situações de sala de aula, como para a observação da
realidade através de trabalho de campo e, principalmente, nas
atividades do projeto de Educação Ambiental, quando passamos a
selecionar e elaborar atividades que atendessem aos pressupostos
que a escola havia adotado a partir da capacitação dos
professores.
A seguir descrevemos algumas
dessas atividades, realizadas com as quintas e sextas séries,
com base no modelo das cinco fases.
Título: “Eu e o
Mundo”
5ª série
Objetivos de
ensino:
Ser e Conviver (conteúdos atitudinais)
Estratégias/Procedimentos:
·
Valorização do ser (indivíduo)
·
Sensibilização (aguçar os sentidos para perceber o mundo)
1º passo
(1 aula): Em sala de aula
Projeto de
vida (“Os meus sonhos para o futuro”): os alunos escrevem sobre
como eles são por dentro e por fora e sobre o que eles esperam
do futuro.
Trabalho com
as qualidades pessoais: confecção de crachá com o nome do aluno
e sua principal qualidade.
2ª passo
(1 aula): Quadra de esportes
Brincadeira:
“Fomos passear no parque...” com o objetivo dos alunos se
integrarem e se conhecerem. Durante a brincadeira, os alunos são
chamados pelas suas qualidades descritas no crachá (feliz,
amável, estudioso, carinhoso, quieto, amigo, etc)
Reflexão:
Como se dá o nosso relacionamento com o mundo, ou seja, com a
natureza e a sociedade (os outros)? Como percebemos o que está à
nossa volta? Com a nossa alma, o que inclui nossas qualidades,
sentimentos e valores construídos na família, na escola, com os
amigos, e com o nosso corpo, ou seja, pelos sentidos (visão,
audição, tato, paladar e olfato).
3º passo
(1 aula): Sentados em círculo
Solicitação
para olharem em torno e observarem tudo.
Com os olhos
fechados, cheirar, ouvir e sentir (nesse momento, a professora
toca em alguns alunos e sopra o ar em seus rostos).
Descrição das
sensações e percepções.
Discussão
final sobre a importância do nosso corpo e alma para nos
relacionarmos bem com os outros e com o mundo à nossa volta.
Avaliação
Verificar se o
aluno é capaz de:
1-
estabelecer
relações entre dados e fatos: nosso organismo é sensível a tudo
que nos rodeia e sofre com as alterações que nele acontecem,
como por exemplo, a poluição do ar (cheiro, partículas em
suspensão, gases tóxicos, etc), sonora (ruídos acima dos níveis
suportáveis para a audição humana) entre outros.
2-
compreender que nos relacionamos e interagimos com tudo que nos
envolve (o meio ambiente) através do nosso corpo (sentidos) e de
nossa alma (valores): é através dos órgãos dos sentidos, quando
recebem estímulos de ambiente, enviando mensagens ao nosso
cérebro, que os decodifica e os transforma em sensações
agradáveis ou desagradáveis, desejadas ou indesejadas, tornando
possível nossa percepção do mundo e a atribuição de valor a tudo
que nos dá bem estar e alegria.
Título: “O menino de Olho d’água”
5ª série
Objetivos
de ensino:
Conhecer (conteúdos factuais e conceituais), ser e conviver
(conteúdos atitudinais).
Estratégias/Procedimentos:
1º passo:
Leitura em grupo do livro O menino de Olho d’água[i]
Divisão da classe em grupos que farão a leitura em locais
previamente combinados, em espaços abertos da escola (jardim,
pátio, galpão, etc).
2º passo:
Reescrita em forma de resumo ou texto para teatro. Orientar o
grupo para desenvolver a reescrita do texto (apoio do professor
de Português) e combinar uma data para que o grupo apresente o
trabalho.
3º passo:
Preparação (ensaios);
· do
primeiro ao terceiro passo: 4 aulas
4º passo
(1 aula): Apresentação dos trabalhos para os
demais.
Avaliação
Verificar se o
aluno é capaz de
· relacionar
os fatos e os personagens da história com a realidade,
reconhecendo oproblemas que levam ao desaparecimento de
mananciais.
Título: “Era uma vez...”
5ª
série
Objetivos de ensino:
Conhecer: conteúdos factuais e conceituais (fatos, dados e
princípios).
Ser e
conviver: conteúdos atitudinais (valores e atitudes).
Estratégias/Procedimentos:
Tempo : 1
aula
1º
passo:
Reunir os alunos em espaço aberto e em círculo.
2º
passo:
Explicar detalhadamente os passos da atividade, solicitando
ao grupo que escolha dois alunos para anotar a história que
for criada.
3º
passo:
Dar início à história com o tradicional “Era uma vez...”,
formando apenas uma frase. A história deve versar sobre um
assunto que já tenha sido tratado com a classe e, após a
fala inicial, os alunos, numa seqüência previamente
combinada, darão continuidade, até que todos tenham
participado da construção da história.
Avaliação:
Verificar
se os conceitos estão corretos e se as idéias presentes na
construção da história contemplam princípios éticos.
Título: “Árvores amigas”
5ª
série
Objetivos de ensino:
Conhecer: conteúdos factuais e conceituais (fatos, dados e
princípios).
Ser e
conviver : conteúdos atitudinais (valores e atitudes)
Estratégias/procedimentos:
Tempo: 1
aula
1º
passo:
Levar a turma para um local da escola ou próxima dela onde
haja uma grande quantidade de árvores (de qualquer porte).
Pedir que observem as árvores e suas diferenças: tamanho,
tipo de tronco, de folhas, de raízes, se há flores, frutos,
se há plantas hospedeiras, se há ninhos de pássaros ou o
barulho deles. Reunir as crianças e conversar com elas sobre
a importância das árvores na natureza; dizer que elas são
seres vivos e que por isso têm energia e que podem trocar
essa energia de vida com outros seres vivos, como, por
exemplo, o homem. Quando abraçamos uma árvore podemos sentir
essa energia.
2º
passo:
A classe será dividida em dois grupos, sendo que um deles
receberá uma venda nos olhos. O outro será encarregado de
escolher um colega e levá-lo até uma das árvores. Ao sinal
da professora (pode ser um apito), todos os que estão com os
olhos vendados abraçarão a árvore e, tocando seu tronco e
sentindo suas características, conversarão com ela.
2º
passo:
Ao comando da professora, o segundo grupo buscará o
primeiro, trazendo-o para o ponto de partida, onde serão
retiradas as vendas. Cada aluno procurará descobrir a sua
árvore amiga.
3º
passo:
A atividade se repete invertendo-se os grupos.
Avaliação
Verificar, de forma oral, se a atividade despertou a
afetividade dos alunos, pelo contato prazeroso com um
elemento da natureza.
Título: “Pares de bichos”
5ª
série
Objetivos:
Ser e conviver (conteúdos atitudinais).
Estratégias/procedimentos
1º passo:
Reunir todos os alunos da classe em espaço amplo e aberto e
formar um círculo. Explicar que a brincadeira exige atenção
de todos e muita participação.
2ª passo:
As crianças serão designadas por 4 nomes de bichos (gato,
cachorro, galinha e pato), que se repetem até completar o
círculo. Após vendar os olhos de todos os alunos, passam-se
as seguintes comandas:
1º apito: Todos devem imitar
as vozes dos bichos.
2º apito: Todos devem caminhar
para o centro do círculo, misturando-se com os colegas e
imitando os bichos.
3º apito: Cada um deve
procurar encontrar os seus pares, ou seja, os que estão
imitando o mesmo bicho.
4º apito: Parar a procura e
tirar a venda para ver quem sobrou.
3º passo:
Discutir com o grupo os seguintes pontos: Qual foi a maior
dificuldade? O que foi necessário para que a brincadeira
desse certo?
Avaliação
Verificar
se:
-
- os alunos perceberam a importância de
ouvir o outro para encontrar os pares;
- os alunos perceberam que à medida
que o grupo ficava maior (fortalecimento), era mais fácil
encontrar os iguais.
Título: “Mensagem pelo ar”
(Atividade interdisciplinar)
5ª
série
Objetivos de ensino
: Ser e conviver (conteúdos atitudinais).
Estratégias/procedimentos:
Discussão
e escrita das mensagens: 1 aula
1º
passo
: Em sala de aula, retomar com os alunos, anotando na lousa,
todas as condutas ambientalmente corretas: o respeito para
consigo próprio (seu corpo e sua mente), para com seus
semelhantes (colegas, professores, funcionários, família e
todos os seres humanos), para com os animais, a água, a
vegetação e o ambiente construído (preservação do
patrimônio).
2º
passo:
Solicitar que escolham uma dessas condutas e escrevam uma
mensagem que eles gostariam de enviar para outras pessoas,
chamando a atenção delas para o assunto.
Confecção
da pipa: 2 aulas
Escrita da
mensagem e finalização com a pipa no ar: 2 aulas
3º
passo:
As frases contendo as mensagens devem ser lidas na aula de
Português e trabalhadas pela professora, tendo em vista a
clareza e a correção do texto. Após os alunos terem feito a
pipa na aula de Educação Física e Educação Artística, eles
deverão escrever a frase escolhida em suas pipas. No dia
escolhido, todos devem ir para um espaço adequado e soltar
suas pipas.
Avaliação:
Verificar
quais as condutas mais valorizadas pelos alunos, para
reforçar as menos citadas, que devem ser alvo de trabalho
posterior.
Título: “Retomando conceitos”
6ª
série
Objetivos de ensino:
Conhecer (conteúdos factuais e conceituais).
Estratégias/Procedimentos:
Tempo : 3
aulas
1º
passo:
Revisão de conceitos sobre o ciclo da água, sua importância,
formas de aproveitamento e cuidados para a conservação dos
mananciais, utilizando o vídeo: “Água na boca” (SABESP).
2º
passo:
Discussão em grupos para levantamento dos principais pontos
abordados no vídeo.
3º
passo:
Reconstituição, no terreno da escola, da maquete apresentada
no vídeo, demonstrando como ocorre a interferência humana no
ciclo hidrológico e suas conseqüências ambientais.
Avaliação
Verificar
se o aluno é capaz de identificar os problemas relacionados
com o uso abusivo do recurso água e quais são as soluções
para resolvê-los.
Título: “Gerenciando nosso
espaço”
6ª
série
Objetivos de ensino:
Conhecer (conteúdos factuais e conceituais) e fazer
(conteúdos procedimentais).
Estratégias/Procedimentos:
Tempo : 2
aulas
1º
passo:
Trabalhar a observação do meio ambiente para perceber
desequilíbrios, aplicando conceitos aprendidos em sala de
aula. Divisão da classe em grupos de trabalho delimitando
uma área de atuação para cada um dos grupos;
2º
passo:
Desenvolver a capacidade de estabelecer prioridades e
planejar soluções. Aplicação de um roteiro de observação do
espaço da escola, constando de levantamento dos problemas e
propostas de solução, segundo alguns princípios básicos de
gerenciamento ambiental.
3º
passo:
Apresentação de relatório.
Avaliação
Verificar
se o aluno é capaz de:
-
perceber os problemas e suas causas;
-
apontar os principais agentes causadores;
-
propor soluções e planejar ações para atingir
os objetivos.
Título: “Os governos e suas
decisões”
6ª
série
Objetivos de ensino:
Conhecer (conteúdos factuais e conceituais) e fazer
(conteúdos procedimentais)
Estratégias/Procedimentos:
Tempo: 2
aulas
1º
passo:
Debate sobre as notícias da recusa dos EUA em assinar o
protocolo de Kyoto, que prevê a diminuição do nível de
poluição pelo controle da emissão de gases, principalmente
pelos países mais desenvolvidos, como é o caso dos Estados
Unidos.
2º
passo:
Carta ao Presidente George Bush, solicitando que reflita
sobre sua decisão.
Avaliação
Verificar
se o aluno é capaz de:
1-
conceituar
poluição atmosférica e identificar suas causas e
conseqüências.
2-
perceber
que as decisões governamentais podem colocar em risco a vida
do planeta;
3-
compreender que as soluções para os problemas ambientais
envolvem a participação de todos e a vontade política dos
governantes.
Considerações finais
Esses relatos são apenas parte de um trabalho
que mobilizou e envolveu de forma direta ou indireta um
significativo número de pessoas durante três anos.
O grupo de professores dessa escola, mesmo
com o término da pesquisa e o natural afastamento das
pesquisadoras, continua desenvolvendo atividades de Educação
Ambiental de forma transdisciplinar.
Como exemplo disso, citamos a professora de
Matemática, que consegue aproximar seu conteúdo programático
de atividades como a confecção de “porta-trecos” e potes de
doces, reutilizando embalagens de vidro vazias, que foram
decorados (pintura a óleo e acabamento feitos com retalhos
de tecidos), para serem vendidos na Festa Julina.
Como a Matemática entra nessa idéia?
Primeiro, relembrando com os alunos quanto tempo o vidro
demora para se deteriorar e retornar à natureza; depois,
fazendo os cálculos do custo dos materiais que seriam
necessários, para determinar o preço mínimo de venda. Nesse
processo, antes e depois da festa, os alunos trabalharam com
a solução de problemas envolvendo juros e porcentagens,
considerando o investimento inicial (despesa) e a receita.
Assim, o conteúdo matemático não se revela ao aluno por si
só, mas como uma ferramenta na resolução de problemas. A
professora deixa de ser uma especialista em Matemática para
exercer o papel de mediadora no processo de construção do
conhecimento e de formação para a cidadania.
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São Paulo: Palas Athena, 1997.DEL NERO, Henrique S. O
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humano. São Paulo: Collegium Cognitio, 1970.
DELORS,
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Cortez; Brasília: UNESCO-MEC, 1999.
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práticas. 6ª ed. São Paulo: Gaia, 2000.
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Iniciação à temática ambiental. 2ª ed. São Paulo:
Gaia; São Paulo: Global, 2002.
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Martins Fontes, 1994 (Coleção Tópicos).
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Educação para a vida: uma experiência metodológica.
2003. Tese. (Doutorado em Ecologia e Recursos Naturais).
UFScar, São Carlos.
[ii]
Um dos grupos fez pesquisa sobre o que é o PROCON e como
ele presta serviços ao consumidor.
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Profª. Drª. Maria Bernadete S. da S. Carvalho;
Pós-graduada em Geografia
Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de São José do
Rio Pardo
Rua
4-B, nº 557 – Cidade Nova
13506-808 – Rio Claro – SP
Telefone : (19)3533-2740 e-mail:
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