| Com o título Educar para Pensar, a
primeira parte do livro de Matthew Lipman
é composta de quatro capítulos que têm os seguintes subtítulos : o
modelo reflexivo da prática educativa; aprendendo a pensar; a plenitude
do desempenho cognitivo; cognição, racionalidade e criatividade.
Pelos títulos já se pode depreender que Lipman
pretende explicitar aspectos importantes dos resultados de suas
investigações a respeito do tema Educação para o Pensar.
Nosso objetivo, aqui, é colher algumas de suas
explicitações, acompanhando-as de algumas considerações que julgamos
úteis para nossa realidade brasileira e oferecê-las como subsídios
para o trabalho em sala de aula. Especialmente o trabalho com o Programa
Filosofia para Crianças.
Lipman se alinha àqueles que sustentam que "o
fortalecimento do pensar na criança deveria ser a principal atividade
das escolas e não somente uma conseqüência casual". (LIPMAN,
1995, p. 11).
Isto não significa que apenas trabalhando os conteúdos
das várias disciplinas, automaticamente, o pensar dos alunos vai sendo
desenvolvido e fortalecido. Significa afirmar que é preciso oferecer
atividades voltadas, intencionalmente, ao cultivo do "pensar
bem", além da oferta dos conteúdos. Estes últimos, sempre necessários.
Mas o que seria o "pensar bem"? Antes: o que
constitui o ato de pensar?
Lipman coloca esta segunda pergunta à página 13 do
livro, mas não é aí que ele a responde. Há uma resposta que chama a
atenção à página 140: "pensar é fazer associações e pensar
criativamente é fazer associações novas e diferentes".
Em passagem anterior a esta, Lipman afirma a mesma
coisa sobre o que é o pensar, explicitando-a um pouco mais:
"Pensar é o processo de descobrir ou fazer
associações e disjunções. O universo é feito de complexos (não há,
evidentemente, realidades simples) como as moléculas, as cadeiras, as
pessoas e as idéias, e estes complexos têm ligações com algumas
coisas e não com outras. O termo genérico para associações e disjunções
é relacionamentos. Considerando que o significado de um complexo
encontra-se nos relacionamentos que este tem com outros complexos, cada
relacionamento, quando descoberto ou inventado, é um significado, e
grandes ordens ou sistemas de relacionamentos constituem grandes corpos
de significados."(LIPMAN, 1995. p. 33).
Nas duas passagens Lipman está afirmando que pensar
é o processo de descobrir relações existentes na realidade e
representá-las em nossas consciências e que isso nos permite atinar
para os significados ou os sentidos que, de alguma forma, estão dados
na mesma.
Esta não é uma tarefa fácil, pois a realidade é
complexa nas suas relações e inter-relações. Mas a única forma de
apreender o seu sentido é estar apreendendo as relações que a
constituem. E, se estas relações são dinâmicas, isto é, estão
sempre se refazendo e se modificando, o nosso pensamento precisa estar
atento e precisa ser competente para apreendê-las neste seu dinamismo.
Lipman indica, ainda, uma possibilidade especial do
pensar: a de produzir ou criar novas relações e, portanto, a de os
seres humanos estarem produzindo novas significações ou novos sentidos
para a realidade e, por conseguinte, para suas próprias vidas, visto
que fazem parte do processar-se da realidade.
A forma através da qual os seres humanos concretizam
sentidos ou direções na realidade é sempre a sua prática, a sua ação.
Ao mesmo tempo em que vão agindo e pensando reflexivamente o seu agir,
os seres humanos podem estar representando as relações implicadas na
realidade e podem estar representando intelectualmente novas relações.
Tanto as relações percebidas quanto as relações criadas ou construídas
são trabalhadas na consciência como indicadoras das direções
(sentidos) da prática humana.
A ação tem, como componente importante e necessário,
o processo do pensar. Não é só o pensar que determina a ação, mas o
pensar, nos seres humanos, é um dos determinantes da ação. O pensar
produz sentidos, direções, significações na e para a ação. Daí a
importância de que o pensar seja bem "produzido", isto é,
seja construído com rigor, sistematização, profundidade, com examinação
(sic) constante e séria e com disposição constante a revisões
(auto-correção), levando em conta as várias situações na sua
globalidade e, dentro de cada realidade situacional, as relações dadas
e as possíveis.
Um pensar assim, para Lipman, é um pensar bem, é um
pensar de ordem superior que é crítico e criativo.
A expressão mais utilizada por Lipman, neste livro,
para se referir ao pensar bem é pensamento de ordem superior que ele opõe
à expressão pensamento de ordem inferior.
Algumas afirmações suas podem nos ajudar a ir
entendo o que ele quer dizer com esta expressão que, assim como outras,
diz ele, são contagiadas pela inexatidão ( p. 37) :
Diferentes observadores atribuem diferentes
propriedades ao pensamento de ordem superior, mas, em geral, o que
parecem querer dizer é que este pensamento é conceitualmente rico,
coerentemente organizado e persistentemente investigativo. (LIPMAN,
1995, p. 37)
Podemos acrescentar que o pensamento de ordem superior
não equivale somente ao pensamento crítico, mas à fusão dos
pensamentos crítico e criativo. ( idem, p. 38)
Em um esclarecedor quadro, à página 43, Lipman
indica algumas características do pensar de ordem superior que, aí, é
também chamado de pensar complexo. Ele envolve características do
pensar crítico, como utilização de critérios, produção de juízos
ou julgamentos, auto-correção, sensibilidade ao contexto e outras.
Envolve, também, características do pensar criativo, como
sensibilidade aos critérios sem se deixar aprisionar por eles,
capacidade de auto-transcendência, isto é, capacidade de "ir além
ou transcender a si mesmo" (nota da p. 44), ou seja, capacidade de
produzir novas relações e não apenas constatar as relações já
dadas.
É claro que aquilo que denominamos aqui de pensamento
complexo inclui o pensamento recursivo, o pensamento metacognitivo, o
pensar auto-corretivo e todas aquelas formas de pensamento que envolvem
a reflexão sobre sua própria metodologia, enquanto examinam, ao mesmo
tempo, seu tema principal. (idem, p.43).
Essas são características do pensamento crítico;
mas o pensamento de ordem superior inclui, também, o pensamento
criativo, como já foi assinalado acima.
Como características do pensamento criativo, Lipman
aponta habilidade, talento, julgamento criativo, inventividade, produção
de alternativas ou hipóteses plausíveis, etc. Tais características são
indicadas em vários momentos desta obra.
Apesar da afirmação de que o pensamento criativo faz
parte indissociável do pensamento de ordem superior e que ele é
fundamental para o próprio pensamento crítico, Lipman se detém mais
amplamente no estudo das características deste último.
Faz parte do pensamento crítico bem desenvolvido (e
isto influencia e faz parte do pensamento criativo) a utilização ótima
daquilo que Lipman denomina de habilidades cognitivas.
Vejamos isso um pouco mais detalhadamente.
Habilidades Cognitivas
No capítulo 2, Aprendendo a Pensar, Lipman inclui uma
caracterização das habilidades cognitivas com o intuito de auxiliar os
educadores a serem capazes, primeiro de reconhecê-las e, segundo, de
realizarem atividades que possam fortalecê-las e desenvolvê-las.
A um dado momento deste capítulo, após tecer várias
considerações sobre o raciocínio e sobre a linguagem, Lipman contesta
um equívoco que ele diz ser comum: o de se afirmar que nossas
habilidades de raciocínio aumentam e melhoram com a idade. Diz ele que
isso é verdade apenas parcialmente. Todos nós contamos com um repertório
básico de habilidades cognitivas que, se não forem estimuladas
adequadamente por um processo educacional propício, não se desenvolverão
para além deste repertório básico.
Na sociedade complexa e dinâmica de hoje, o domínio
de um pensar de ordem superior (um pensar complexo) é instrumento
fundamental de realização de todas as pessoas. Daí a sua proposta de
uma educação para o pensar que contemple o desenvolvimento do
pensamento crítico e criativo.
Mas quais seriam as habilidades cognitivas (ou
habilidades de pensamento) que constituem o repertório básico que
todos temos e que precisariam ser melhor desenvolvidas?
Lipman oferece uma primeira lista na seguinte
passagem:
Assim, mesmo quando estamos envolvidos com os tipos
mais elaborados de pensamento - longas cadeias dedutivas, construções
teóricas altamente confusas, e coisas parecidas - pressupõe-se uma
familiaridade com um número relativamente pequeno de atos mentais,
habilidades de raciocínio e habilidades investigativas sobre as quais
se baseiam as operações de pensamento mais elegantes e sofisticadas.
Sem a capacidade de presumir, supor, comparar,
inferir, contrastar ou julgar, para deduzir ou induzir, classificar,
descrever, definir ou explicar, nossa própria capacidade para ler e
escrever estaria ameaçada, para não mencionar nossa capacidade para
participarmos em debates em sala de aula, prepararmos experimentos e
compormos textos. (idem, p. 57).
Pensamento de ordem superior é mais exigente quanto a
critérios, razões, profundidade, abrangência de sua compreensão e ao
contexto ou contextos a que se refere, quanto ao rigor, à auto-correção,
a se ver e se acompanhar no seu próprio processar-se (metacognição),
quanto a complexidade das relações que identifica ou que estabelece e
reconstrói e quanto à sua capacidade reflexiva.
Ora, dirá Lipman, para um pensamento assim são
necessárias habilidades cognitivas de ordem superior.
Aquelas do repertório básico são a base. Seu uso
comum, sem determinadas qualidades, as tornam habilidades de ordem
inferior. Seu uso de uma outra forma, num outro grau de complexidade, as
tornam de ordem superior.
Lipman aponta, nas páginas 57 a 59, algumas características
e formas de emprego do repertório básico das habilidades que as tornam
de ordem superior. Dentre as referidas características e formas
destacam-se a sua complexidade de uso, a coordenação e sequência
entre elas quando do seu emprego e formas de sua aplicação expandidas
e cumulativas.
As habilidades cognitivas são utilizadas assim, de
uma maneira "superior", quando são articuladas naquilo que
Lipman chama de mega- habilidades, isto é, grupos de habilidades que são
utilizadas conjuntamente para as operações de raciocínio, investigação,
formação de conceitos e tradução.
Habilidades de raciocínio, habilidades de investigação,
habilidades de formação de conceitos e habilidades de tradução são
expressões utilizadas por Lipman para indicar grupos de habilidades
cognitivas. Cada grupo contém, ou envolve, várias habilidades que
concorrem interligadamente para que aconteça, ou o raciocínio, ou a
investigação, ou a formação de conceitos, ou a tradução.
Não só. Estes grupos de habilidades estão sempre
funcionando interligadamente no nosso processo de pensar e, por
conseguinte, no nosso processo de falar. É no nosso processo de falar
que o nosso processo de pensar é operado. Sem linguagem, para Lipman, não
há pensamento. Daí a importância que ele atribui à conversa
organizada, isto é, ao diálogo investigativo que deve ser promovido na
sala de aula. A sala de aula deve ser transformada em uma pequena, mas
importante, comunidade de investigação.
Neste sentido são importantes as seguintes palavras
de Lipman:
"Em relação aos objetivos educacionais, a
matriz comportamental do pensamento é a fala, e a matriz do pensamento
organizado (isto é, o raciocínio) é a fala organizada."
Em termos ideais, a comunicação linguística na infância
inicial, no contexto familiar, prepara as crianças para pensarem na
linguagem da sala de aula, e isto, por sua vez, as prepara para pensar
nas linguagens das disciplinas. Mas, visto que a comunicação familiar
raramente é o o que deveria ser, a conversa disciplinada e coerente na
sala de aula deve ser oferecida como seu substituto.
"O grupo de conversação é a chave para a
transição suave da vida familiar para a vida governada pelas normas da
sala de aula. "(LIPMAN, 1995, p. 54).
Seria muito útil, para se ter uma idéia mais clara
do que Lipman está pensando sobre diálogo e comunidade de investigação,
ler a última parte deste livro e, em especial, o capítulo 14 que tem
como título: Pensar em Comunidade.
Mas voltemos aos quatro grupos de habilidades
cognitivas. É nas páginas 65 a 76, do livro que estamos examinando,
que Lipman descreve e explicita estes quatro grupos de habilidades.
É bom notar que, com respeito ao grupo das
habilidades de formação de conceitos, Lipman utiliza uma segunda
denominação: "organização de informações". Isso faz
sentido, pois todo conceito é, na realidade, uma organização de
informações sobre algo que produzimos ou construímos em nossa consciência
sobre algo.
É com as seguintes palavras que ele anuncia os quatro
grupos:
"As áreas de habilidades mais relevantes para os
objetivos educacionais são aquelas relacionadas com os processos de
investigação, processos de raciocínio, organização de informações
(formação de conceitos, é bom lembrar) e tradução.
É provável que crianças muito pequenas possuam
todas essas habilidades de maneira ainda rudimentar.
A educação não é, portanto, uma questão de aquisição
de habilidades cognitivas, mas de fortalecimento e aperfeiçoamento de
habilidades. Em outras palavras, as crianças estão naturalmente
inclinadas a adquirir habilidades cognitivas, do mesmo modo que adquirem
naturalmente a linguagem; e a educação é necessária para fortalecer
o processo." (LIPMAN, 1995, p. 65).
Interessante, nesta passagem, é que Lipman coloca o
grupo das habilidades de investigação antes das habilidades de raciocínio,
o que ele faz, também, à página 72. Em todos os seus outros textos
por nós conhecidos, ele coloca, em primeiro lugar, o grupo das
habilidades de raciocínio.
Ainda que esta ordem não seja essencial, é
interessante notar nas suas explanações, que ele diz que, na investigação,
nós produzimos as primeiras informações. Isto é, nós produzimos ou
construímos nosso primeiro conhecimento que se expressa em juízos, ou
seja, em afirmações que vamos produzindo a respeito de tudo que se
apresenta a nós como necessário de ser entendido.
Juízos devidamente encadeados ou articulados entre si
vão produzindo nosso pensamento articulado sobre a realidade e sobre nós
mesmos, e são expressos nas proposições e nos discursos.
Habilidades de investigação
Para produzirmos juízos, precisamos investigar. Para
investigar precisamos ser capazes de, no mínimo, observar bem,
problematizar ou formular boas questões, formular hipóteses plausíveis,
verificar cuidadosamente, constatar, chegar a produzir conclusões ( os
tais juízos) e, muito importante, ser capazes de nos auto-corrigirmos
toda vez que nossas conclusões se nos mostrarem enganadas.
"Investigação é uma prática auto-corretiva
onde um tema é investigado com o objetivo de descobrir ou inventar
maneiras de lidar com aquilo que é problemático. Os produtos da
investigação são os julgamentos." (idem, p. 72).
Em Natasha, sua última obra traduzida no Brasil, ao
ser interrogado quanto à expressão "habilidades de investigação",
Lipman diz que a utiliza na "falta de melhor nome. São as
habilidades empregadas para fazer ciência."(LIPMAN, 1997, p. 49).
Ora, as habilidades empregadas para fazer ciência são,
dentre outras, as relacionadas acima e que Lipman não indica, nos seus
escritos, em listagens assim, mas assinalando umas ou outras delas, ou
apresentando-as numa grande listagem sem separá-las nos quatro grupos
das "mega-habilidades".
Um exemplo de grande listagem das habilidades
cognitivas pode ser encontrado às páginas 80 e 81 do livro: A
Filosofia vai à Escola (LIPMAN, 1990). Neste mesmo livro, nas páginas
227 a 241, Lipman explicita o seu entendimento de cada uma das vinte e
sete habilidades listadas às páginas 80-81.
É necessário que tal explicitação se dê para cada
professor que se proponha a trabalhar educacionalmente na direção do
desenvolvimento ou fortalecimento destas habilidades como o propõe
Lipman.
Vejamos o que ele diz a respeito das habilidades que
compõem o grupo das habilidades de raciocínio.
Habilidades de raciocínio
Comecemos com as seguintes palavras de Lipman:
"Raciocínio é o processo de ordenar e coordenar
aquilo que foi descoberto através da investigação. Implica em
descobrir maneiras válidas de ampliar e organizar o que foi descoberto
ou inventado enquanto era mantido como verdade." (LIPMAN, 1995, p.
72).
Mas o que foi descoberto através da investigação?
Informações, por certo, que são organizadas nos
nossos juízos ou nos nossos "julgamentos", conforme citação
anterior.
Ora, os nossos juízos são afirmações (ou negações)
que produzimos a respeito de uma situação, de um fato, de algo, após
termos feito uma análise investigativa: descobrimos alguma
"verdade" a respeito e a afirmamos com base na investigação
feita.
Nós expressamos os juízos através de proposições
ou orações.
Pois bem, diz Lipman, quando ordenamos e coordenamos
os nossos juízos de uma tal forma que, a partir deles, nós ampliamos
aquilo que havíamos descoberto na investigação, nós estamos fazendo
um raciocínio.
O conhecimento origina-se da experiência. Uma maneira
de ampliá-lo sem, no entanto, recorrer a experiências adicionais, é
através do raciocínio. Considerando aquilo que conhecemos, o raciocínio
nos permite descobrir coisas adicionais afins.
A partir de um argumento solidamente formulado, onde
iniciamos com premissas verdadeiras, descobrimos uma conclusão
igualmente verdadeira que é "inferida" em consequência
destas premissas.
Nosso conhecimento baseia-se na experiência do mundo;
é por meio do raciocínio que ampliamos este conhecimento,
preservando-o. (idem, p. 66).
O raciocínio é, pois, o processo do pensamento através
do qual nós produzimos nossas conclusões a partir de algo já sabido.
Isso, todas as pessoas fazem, inclusive crianças pequenas.
Mas há raciocínios mais simples e raciocínios mais
complexos, isto é, aqueles que fazem parte do pensamento de "ordem
superior". Um dos objetivos de uma educação para o pensar deve
ser o de ajudar crianças e jovens a serem capazes de realizar raciocínios
mais complexos. Para tanto é importante promover o fortalecimento das
habilidades de raciocínio que envolvem,
"... por exemplo, a utilização de inferências
bem fundamentadas, a apresentação de razões convincentes, a revelação
de suposições latentes, a determinação de classificações e definições
defensáveis e a organização de explicações, descrições e
argumentos coerentes." ( LIPMAN, 1995, P. 46).
Habilidades de formação de conceitos
A formação de conceitos implica na organização de
informações para grupos relacionais e, então, analisar e esclarecê-los
para facilitar sua utilização na compreensão e no julgamento.
O pensamento conceitual envolve relacionar conceitos
entre si a fim de formar princípios, critérios, argumentos, explicações,
etc. (LIPMAN, 1995, p. 72).
Esta organização de informações que construímos
em nossa consciência pode ser expressa por palavras, por sentenças e
por esquemas, diz Lipman, à p. 67. Trata-se de conjuntos de informações
relacionadas entre si e que formam um sentido, um significado.
Pense-se, por exemplo, na palavra mesa. Se
"dominamos", ou compreendemos o significado que esta palavra
expressa, é sinal de que somos capazes de "ver" um conjunto
de aspectos que, reunidos e interligados, nos dão a idéia, o conceito,
do que constitui uma mesa. Não só. Na verdade, nós ficamos de posse
de um conjunto significativo de informações inter-relacionadas (de um
conceito) que nos ajuda a nos entendermos mutuamente quando falamos de
mesas e nos ajuda a identificarmos como mesa os objetos que se nos
apresentam com um conjunto de dados interligados desta mesma forma.
Nós podemos ir formando conceitos a partir de nossas
relações diretas com as coisas, objetos, situações, etc., dentro de
contextos situacionais culturais de uso e de significação ou, também,
podemos formar conceitos sem estarmos em relação direta, física, com
os objetos.
Em ambas as situações, para sermos capazes de formar
conceitos em nós mesmos, precisamos ser capazes de relacionar idéias
entre si; "esmiuçar" idéias que estejam juntas, isto é,
analisar; juntá-las de novo, isto é, sintetizar; esclarecer
significados; explicar; etc..
Esta é uma listagem de habilidades que auxiliam na
habilidade maior de formação de conceitos que se pode encontrar nos
textos de Lipman.
Habilidades de tradução
"Tradução implica na transmissão de
significados de uma língua ou esquema simbólico, ou modalidade de
sentido, para outra, mantendo-os intactos." (LIPMAN, 1995, p.72).
Traduzir, então, é conseguir dizer algo que está
dito com certas palavras ou de certa forma, por meio de outras palavras,
ou por meio de outras formas, mantendo o mesmo significado. Diz Lipman,
que isto é o que ocorre nas boas traduções de uma língua para outra.
Mas isto ocorre, também, quando procuramos dizer, com nossas próprias
palavras, algo que alguém disse com as palavras dele. Ou, ainda, quando
alguém procura traduzir em gestos, ou em desenhos, etc., algo já dito
ou expresso de qualquer outra forma. O importante é manter o
significado.
Parece-nos óbvia a importância desta "mega-habilidade".
Para o seu desenvolvimento, diz Lipman, é necessário desenvolver a
capacidade de interpretação, bem como todas as habilidades envolvidas
na formação de conceitos.
No seu livro Natasha (1997), Lipman tem passagens que
explicitam, ainda mais, o que entender por tradução. Dentre elas,
recomendamos a leitura da página 49.
O que procuramos mostrar neste texto foram algumas das
idéias de Matthew Lipman sobre Educação para o Pensar. Trata-se de
uma primeira aproximação do que Lipman diz. Obviamente, faltam, ainda,
leituras de outros textos e maiores explicitações. Faltam,
principalmente, análises críticas das propostas de Lipman.
Fica, aqui, convite e propostas para que outras
pessoas ampliem o que está apenas começado.
Bibliografia
- LIPMAN, Matthew. A Filosofia vai à Escola. São
Paulo. Summus, 1990.
- LIPMAN, Matthew. A Filosofia na Sala de Aula. São
Paulo. Nova Alexandria,1994.
- LIPMAN, Matthew. O Pensar na Educação. Petrópolis.
Vozes, 1995.
- LIPMAN, Matthew. Natasha: diálogos vygotskianos.
Porto Alegre. Artes Médicas, 1997.
Retirado de Filosofia para crianças- http://www.cbfc.com.br/biblioteca/biblio5-3.htm,
consultado em 12/11/2001 |