Mudança de Escola: entrevista

 

À JORNALISTA Marcela Farras, do site Guia da Semana 
concedida pela Profª. Joana Maria R. Di Santo

 

Quais os motivos mais comuns que levam à mudança de escola?

-Mudar de residência, para outro bairro, outra região e, muitas vezes, de cidade ou estado, principalmente em função do serviço dos pais, sejam funcionários de firmas que transferem sede ou filiais, ou famílias que vão “tentar a vida” em outro local.

-Sair de escola pública para estudar em escola particular, quando a família pode assumir as despesas e valoriza a formação dos filhos, uma vez que, na atualidade, temos muitas escolas particulares bem cotadas; que vêm apresentando melhores resultados em termos de aprendizagem dos alunos e nos exames vestibulares. Muitas vezes, a família faz um esforço e matricula o filho em uma dessas escolas, pelo menos para cursar o Ensino Médio.

-Procurar outra escola, pública ou particular, que tenha fama de “mais forte”, justamente para preparar para o vestibular, o que, na maioria das vezes, não significa preparar para a vida, não significa desenvolver as habilidades e competências necessárias para resolver questões de conflito, assumir posição de maneira autônoma, defender seus ideais...

-Sair de escola particular e ir para a pública, por questões financeiras.

-Falta de adaptação do aluno ao projeto pedagógico da escola. Muitas vezes, a família acredita que aquela será uma escola em que seu(s) filho(s) se desenvolverá (ão) satisfatoriamente, e com compromisso e alegria. No entanto, no dia-a-dia, essa escola se revela praticamente incompatível com os valores e objetivos familiares. Por exemplo, escolas excessivamente liberais para aluno de família que valoriza a rigidez disciplinar, como o fazem a maioria dos militares, ou, ao contrário, família que valoriza o relacionamento interpessoal bastante igualitário, desejando que seu filho fale de igual para igual com todo o pessoal da escola, sem formalismos, numa escola que prima pelo respeito às normas disciplinares e hierarquia. Essas famílias acabam procurando uma escola que atenda a seus desejos de formação escolar compatíveis com os valores que defendem na vida.

-Ser convidado a retirar-se da escola, por problemas de transgressão ao Regimento Escolar, evitando a transferência compulsória.

O descontentamento com a escola tem muito a ver com respostas anteriores, mas podemos acrescentar que a questão, muitas vezes, envolve melindres insignificantes, que se tornam barreiras ao bom entrosamento da família com certos funcionários da escola, ou com a maioria deles. Se não esclarecida imediatamente, a situação tende a agravar-se, até chegar à matrícula em outra escola.

Quais tentativas devem ser feitas antes de mudar de escola quando o problema parece ser falta de adaptação ou descontentamento?

O ideal é que a família, juntamente com o aluno, faça uma escolha criteriosa da escola em que matriculará seus filhos, conversando com outros alunos que já estudem nessa escola e suas famílias, bem como agendando visita e conversa com funcionários da escola, quando deverá levar, bem claros, os questionamentos que deseja esclarecer relativos ao funcionamento institucional. Isso diminui significativamente a possibilidade de não dar certo.

Se, apesar de todos os cuidados, o aluno encontrar problemas para se adaptar á escola, ou estiver descontente, é indicado que, num primeiro momento, os pais tenham uma séria conversa com o filho, para avaliar os reais motivos, procurando raciocinar juntos. Nesse momento, os pais devem evitar emitir juízo de valor, e ouvir atentamente o filho, devolvendo-lhe questionamentos, para que realmente compreendam o que está se passando.

Munidos de todos os motivos e argumentos do aluno, mas desarmados e com vistas a resolver a questão, os pais marcam uma entrevista com os responsáveis da escola, geralmente a coordenação, a quem vai expor claramente a insatisfação do aluno e ouvir as explicações do profissional. Devem ficar combinadas e bem claras as estratégia a serem utilizadas integradamente, família e escola, acompanhando par e passo a implementação das mesmas.

Geralmente, tal providência é suficiente para dirimir as dúvidas, resolver as questões, e o aluno prossegue na escola sem maiores problemas.

Caso o problema persista, nova e decisiva conversa com a escola deve ser agendada. O caso já teve um encaminhamento que será avaliado e as demais providências devem ser claras, com cobrança e prazo para soluções.

Se não for suficiente, o melhor é providenciar, com bastante clareza, uma nova escola. Neste caso, há que se tomar muito cuidado para que o aluno não fique se sentindo todo-poderoso ou, no extremo oposto, um derrotado. Deve ficar bem claro para ele que a mudança de escola é uma opção familiar que visa beneficiar sua vida escolar e, para tanto, ele precisa assumir um sério compromisso com o seu entrosamento na nova escola. A responsabilidade é dele, a vida é dele. Questões surgem em qualquer lugar. Cada pessoa precisa aprender a lidar com as diferentes situações que a vida apresenta. E os filhos precisam conquistar sua autonomia, desenvolvendo, para tanto, as competências e habilidades necessárias para lidar com diferentes situações. Há que se ter maturidade e equilíbrio suficientes para analisar cada situação e criar estratégias que beneficiem soluções compartilhadas.

Quais os sinais que os filhos podem dar de que é hora de mudar?

Cada caso é um caso e não há receitas mágicas ou infalíveis, no entanto, a atenção ao comportamento dos filhos, a conversa animada, atenta e constante com eles, podem fornecer várias pistas, como:

-Excesso de brincadeiras e falta de estudos. Estão na escola exclusivamente pelo social, não cumprindo suas atribuições enquanto alunos, que têm a responsabilidade de pesquisar, estudar, elaborar e apresentar trabalhos inéditos e significativos, enfim, envolver-se com uma rotina escolar que prepare para todos os aspectos da vida.

-Brigas constantes com professores e, também, com outros alunos, gerando insatisfação, falta de aproveitamento, rebeldia e, até, envolvimento em companhias/colegas não aprovadas/os pela família, prejudicando seu desenvolvimento sadio e harmônico. Cabe aos pais saber com quem seus filhos estão se relacionando e quais as conseqüências que tais relacionamentos podem ocasionar. Não estar atento é se omitir!

-Tristeza, letargia, desinteresse exacerbado, reclamações excessivas, ou se negar a ir à escola.

Obs: Muitas vezes, quando o problema é realmente grave, o próprio filho toma a decisão de que não vai mais freqüentar essa escola, reação que exige da família uma ajuda nas providências a serem tomadas.

A decisão de mudança deve ser compartilhada entre os pais e os filhos?

Sempre que houver necessidade de mudança de escola, pais e filhos precisam dedicar um bom tempo para analisar os prós e os contras da questão. Muitas vezes, o jovem não quer conversar sobre o assunto e, mais ainda, não quer conversar com os pais sobre nada. Isso é muito ruim e pode significar que esse jovem está muito distante da família, dos ideais familiares, dos valores deste grupo e, assim, torna-se alvo muito fácil de companhias indesejáveis.

Os pais precisam fazer do diálogo com os filhos um hábito e, para tanto, devem criar situações propícias, sempre. Quando o aluno não quer mudar de escola, tem receio de ficar sem os colegas que tanto preza, de não sentir o aconchego e segurança que desfruta na escola que deve deixar, o envolvimento familiar deve ser reforçado, procurando dar destaque às novidades que serão vivenciadas. Nesse caso, acompanhar a adaptação à nova escola é indispensável.

Quando as relações familiares são boas, os problemas não chegam a tomar grandes proporções, pois são naturalmente tratados, em momentos de integração e crescimento familiar.

Deve-se conversar com a equipe da escola?

Parece-me indispensável conversar com a equipe da escola, sempre que alguma dúvida for levantada, e imediatamente. É importante que os pais pensem antecipadamente nas questões que precisam ser esclarecidas, que agendem um horário e compareçam munidos de disposição para ouvir e refletir sobre os argumentos da escola, colocando também seus próprios argumentos. Muitas vezes os pais comparecem com uma idéia fixa e não a mudam de jeito nenhum. Neste caso, o melhor é providenciar a busca por uma escola mais adequada ao modelo familiar, pois persistir num relacionamento desgastado prejudica o aluno.

E mudar de escola não é o fim do mundo! Se o processo for bem conduzido, muitos benefícios poderão advir.

Deve esperar o fim do ano para mudar?

Depende do caso, dos motivos que levam à transferência escolar. Se o desgaste for muito grande, transferir-se em qualquer época do ano é mais salutar para o aluno que, no entanto, deve levar seu histórico escolar com todas as notas do período. Assim, é aconselhável que se espere o término de cada período de avaliação (bimestral, trimestral ou semestral), o que varia de acordo com o Regimento Escolar de cada instituição.

Sempre que possível, esperar a conclusão do ano letivo, o que facilita a adaptação do aluno em outro ambiente escolar, pois iniciará novo ano, nova série, em nova escola, com novos colegas e professores e isso contribui para melhor interação.

A mudança pode trazer conseqüências negativas – desmotivação, isolamento? Como evitar ou amenizar esses problemas?

Se o aluno gostava muito de sua escola de origem, comparecia às aulas com prazer, tinha bons amigos e se sentia seguro nesse ambiente, pode ser muito difícil para ele adaptar-se em outra escola, pois vai contrariado, sente-se traído pela família, que o obrigou a transferir-se, e nada na nova escola o agrada, pois a comparação com tudo que perdeu pode conduzi-lo à desmotivação e ao isolamento.

Mais uma vez, o diálogo sincero e constante entre pais e filhos ameniza os problemas, pois impede que as dúvidas e os ressentimentos se acumulem. Uma preparação bastante honesta, colocando claramente os motivos da mudança, pode amenizar o problema.

No sábado à noite (06/05/06), no HBO, assisti a um filme denominado Spaninglês, no qual uma garota fica revoltada porque a mãe sai de um emprego no qual ela tinha amizade com a filha da patroa e estudava, com bolsa de estudos, na mesma escola, mas terá que mudar-se. Ela grita, ofende a mãe, e, num primeiro momento, não se conforma. Depois se acalma, mas o filme termina e não sabemos como será sua vida posterior, nem a escola que freqüentará. Principalmente para os jovens, a sensação de insegurança é perniciosa.

Pode ser preparada uma transição? De que forma?

A transição deve ser preparada criteriosamente e, para tanto, o famoso diálogo familiar, sincero e na medida certa, evitando dramatizar a situação, é sempre bem vindo. Por mais jovem que a criança seja, seus sentimentos devem ser respeitados e os motivos da transferência muito bem explicados, procurando ouvi-la com atenção, envolvendo-a na busca pela nova escola.

A família deve incentivar a curiosidade da criança pelo novo ambiente, novos colegas e professores. Para tanto, pode conversar sobre as diferentes possibilidades que a nova escola apresenta, destacando seus diferenciais.

Quanto à escola, é indicado, e a grande maioria providencia, atividades de acolhida e boas vindas aos novos alunos, destacando alguns veteranos para acompanharem os primeiros passos dos novatos no novo ambiente escolar. Com isto, são incentivadas novas amizades, além de serem divulgadas e valorizadas todas as possibilidades que a instituição oferece para incrementar a formação dos alunos, que vão se ambientando à nova escola e se beneficiando com as novidades vivenciadas.

Quando a transferência é compulsória, a ajuda de um profissional (psicanalista, psicólogo ou psicopedagogo) pode colaborar para que o aluno trabalhe suas características de personalidade e consiga mudar seu comportamento, caso contrário tenderá a repetir na outra escola as situações que levaram à deterioração das relações na escola anterior, ainda mais se a solução encontrada reforçar seu comportamento inadequado.

Por outro lado, a mudança pode ser uma boa oportunidade de dar uma “virada”?

Para alunos que estão enfrentando problemas na escola, desafiam professores, brigam com colegas, não gostam daquele ambiente escolar, estão isolados, a mudança para outra escola pode ser “boa oportunidade para dar uma ‘virada’”. Tal virada se consolidará mediante auxílio e estímulo da família. Pelo menos no início, o aluno precisará observar o novo ambiente, fazer amizades, conhecer a equipe escolar e, se já vem de uma experiência desagradável, pode aproveitar a chance de começar de novo com nova postura, principalmente mental, de valorizar a oportunidade e procurar não cometer os erros anteriores, que levaram à deterioração das relações escolares.

Quais os critérios que devem orientar a escolha da nova escola?

É claro que, dependendo dos motivos da transferência e da idade do aluno, os critérios podem mudar.

No caso em que o aluno é convidado a retirar-se da escola, ele e seus pais precisam refletir seriamente sobre os motivos que detonaram tal “convite” e buscar outra escola com  características distintas. Geralmente, uma escola pequena é mais acolhedora e o aluno vai estar num grupo restrito de alunos, sempre acompanhados de professores e funcionários, o que tende a inibir atitudes de desrespeito às normas.

Se a questão era de metodologia da escola, por exemplo, escola excessivamente conteudista e rigorosa na disciplina, procurar uma escola que valorize a autonomia do aluno, o diálogo entre professores e alunos, o respeito à liberdade de expressão, o que não significa que o aluno poderá fazer o que bem entender, pois as normas são discutidas com todos e seu respeito deve ser sempre cobrado, pois vivemos em sociedade e cada um deve cumprir com suas obrigações. Deve-se atentar ao papel do professor naquela escola, à participação dos pais no ambiente escolar, à quantidade e qualidade das tarefas escolares, ao sistema de avaliação, ao nível de segurança do ambiente.

Se a questão é qualidade de ensino, procurar escola que atenda aos interesses pedagógicos daquele aluno e, ao mesmo tempo, não o sobrecarregue com distância excessiva da residência e problemas de locomoção e transporte, pois isso interfere sobremaneira na disposição do aluno, deixando-o irritado e exausto, com o que, não consegue obter o aproveitamento desejado.

Quando a criança é pequena, redobrar o cuidado em relação à escolha da escola, atentando a todos os aspectos anteriormente citados e, ainda, aos aspectos físicos do prédio, evitando escadas e excesso de obstáculos. Valorizar escolas que dispõem de área verde, mobiliário adequado, primem pela limpeza e conservação do prédio, além, é claro, dos aspectos pedagógicos e metodológicos que devem ser compatíveis com os valorizados pela família.

Joana Maria Rodrigues Di Santo, Mestre em Educação, Professora Universitária, Pedagoga e Psicopedagoga, com vasta experiência em Psicopedagogia Institucional, docência, coordenação pedagógica, gestão administrativa, educação especial. Diretora do Centro de Referência Educacional, com vários artigos publicados. Ministra cursos e palestras, bem como assessora instituições, também quanto à educação inclusiva.

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atualizado/setembro/2007