EDGAR MORIN: 'O
mestre tem obrigação de formar'
Para o senhor, que é considerado o papa do pensamento complexo, qual
o futuro do conhecimento?
Não sou um profeta, mas espero que o conhecimento
complexo possa ser esmiuçado e desenvolvido. Isso permitiria a cada
indivíduo assumir melhor o seu destino individual e coletivo em sua nação
e, também, o da espécie humana. Mas não estou convicto de que o
conhecimento vá conseguir generalizar-se. Afinal, o futuro é tão incerto,
que fica difícil arriscar qualquer previsão.
Por que faz críticas severas à fragmentação do
conhecimento?
Tentar analisar o todo através de uma parte torna os espíritos míopes. É
como enxergar apenas uma cor do arco-íris. As conseqüências podem ser
irreversíveis.
A televisão é acusada de incitar a violência entre os
jovens. Qual o papel do educador frente a essa questão?
A função dos mestres não é apenas cumprir a carga horária e o conteúdo
programático. Os educadores devem, a partir do teor de suas classes,
explorar temas afins. Em uma determinada aula, o professor pode, por
exemplo, criar um espaço para debater os programas de televisão. Os
estudantes devem ser esclarecidos de modo que a mídia seja interrogada e
vista sob um prisma crítico. O que acho ruim é a posição de se sentir em
uma cidadela atacada. Os jovens precisam perceber como são construídos os
programas: sua montagem, estrutura e funcionamento. Outro exemplo são as
telenovelas, cuja audiência é significativa. Por que elas apaixonam e
atraem? Mas, enfim, em vez de ficar criticando a influência
persuasiva da mídia e culpá-la pelo aumento da violência, devemos
abastecer nossos jovens para que possam assistir à programação
criticamente.
Nesta época de globalização, é importante para a
sobrevivência profissional o domínio de outra língua?
É imprescindível que as pessoas saibam três ou
quatro línguas. Entendemos melhor o ponto de vista de outro povo quando
conhecemos sua língua. Além disso, precisamos estar à altura de um novo
mundo de comunicação que está sendo criado.
As crianças estão sendo atraídas pelos computadores
antes de aprenderem a escrever. Quais os efeitos do uso prematuro das
tecnologias?
A tecnologia agiliza processos e, principalmente, a
busca pelas informações. Dessa forma, criam-se nos usuários novos tipos de
percepção e ritmo. Não vejo com pessimismo o uso das tecnologias aplicadas
ao conhecimento. O problema é a falta de diálogo, a compartimentalização
do conhecimento. As questões mais profundas de nossa sociedade não estão
na mídia, mas no processo que nos torna cada vez mais dependentes e em
busca do dinheiro, da sobrevivência.
Por que o senhor diz que a brincadeira é uma forma de
aprendizado?
A ludicidade é sempre muito interessante. Quer seja
num jogo de cartas, quer seja no futebol, as crianças aprendem a
interpretar o silêncio, as atitudes do outro parceiro, a situação que está
sendo proposta naquele momento. Além disso, as brincadeiras aguçam a
imaginação.
Como deve ser a Educação no próximo século?
É preciso que ela tenha a idéia da unidade da
espécie humana, sem encobrir sua diversidade. Há uma unidade humana, que
não é dada somente pelos traços biológicos do ser, assim como há a
diversidade marcada por outros traços que não os psicológicos, culturais e
sociais. Compreender o ser humano é entendê-lo dentro de sua unidade e de
sua diversidade. É necessário conservar a unidade do múltiplo e a
multiplicidade do único. A Educação, e esse é o desafio que se coloca para
os professores do futuro, deve ilustrar o princípio de unidade e de
diversidade em todos os seus domínios.
Entrevista concedida à jornalista
Viviane Viana, de O Dia, publicada na edição 27/06/2000 - Rio de Janeiro
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