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Acredito que nunca se pronunciou tanto a palavra
cidadania como nos últimos tempos. Até parecem aqueles chavões, que
volta e meia aparecem, fazem sucesso, ou não, e somem com a mesma rapidez
com que surgiram. No entanto, tem-se a impressão de que a intenção e a
dimensão que acompanham esta palavra são grandes demais. E isto não é
difícil de se perceber. Quando lemos jornais e revistas encontramos, sem
muito esforço, alusões a este tema. A televisão e o rádio em suas
programações, criam até espaços especiais para tratar deste assunto.
Lógico que não citarei os sindicatos, as ONGs, associações diversas e a
própria Igreja. O objetivo deste artigo é atentar para a novidade: Escola
e Cidadania. A novidade não é do ponto de vista da teoria, mas do ponto de
vista da prática. Por muito tempo se refletiu, dentro da
escola, sobre cidadania. E agora, num ato de coragem, ousadia e
compromisso social, a escola vem tentando, e com relativo sucesso, fazer
acontecer a cidadania. Claro que hoje há possibilidades pedagógicas e
curriculares que facilitam e motivam. Vale a pena ressaltar que os PCNs
são, para a escola, a grande ferramenta que possibilita, com o uso
adequado dos temas transversais, romper os limites dos muros da escola,
na busca de oferecer ao educando e ao professor (inclua-se muitas vezes os
pais...) a prática da teoria.
Assim a escola fica mais próxima da realidade. Em
conseqüência podemos e devemos fazer comparações de realidades. Ao
obtermos o resultado, não resta outra alternativa senão criarmos projetos
que envolvam todos da comunidade educativa, para então, encurtarmos as
possíveis distâncias.
Há, no momento histórico que estamos vivendo, um interesse
grande, por parte de muitos educandos e professores, de participação em
projetos sociais.
É neste momento que a escola, organizada, pode fazer
acontecer o grande resgate da cidadania.
Temos hoje muitos órgãos, associações, instituições e
centros comunitários atendendo a crianças, jovens, adultos e idosos. No
entanto, não podemos dizer que com isso a cidadania destes atendidos é
real. E a escola pode e deve se fazer presente contribuindo para que na
promoção de cada indivíduo, o sentido pleno da cidadania se estabeleça.
Quem ganha e
quem perde....
Não resta a menor dúvida: todos ganham. A escola por
ser fiel ao seu papel; o educando por adquirir autonomia e criticidade,
responsabilidade e organização; a comunidade por sentir-se mais integrada.
Ganham, ainda, os pais por perceberem os filhos
envolvidos com projetos que os tornam mais humanos, e com possibilidades
de adotarem novos valores para a sua vida. E quem sabe, pais participando
de projetos juntamente com os filhos.
Ganham os professores, pois agora o conhecimento,
que antes se transformava, quase todo, em pó (de giz), tem significado
especial para continuidade do serviço à cidadania.
Cada um que já fez esta experiência pode acrescentar
a esta lista os benefícios advindos da decisão de tornar a escola uma
possibilidade ímpar na vida dos educandos.
Resta dizer quem perde. Se pegarmos ações isoladas,
é quase imperceptível, mas quando somamos..... Perde a miséria, a
monotonia, o comodismo, o analfabetismo, a falta de oportunidades....
Dentre
muitas, algumas dicas que costumam dar certo...
“...em
tudo que fazemos, mostramos se somos, e se queremos que o outro seja
cidadão”.
Dentro da escola.
Grêmio estudantil: Grupo representativo dos alunos, que eleito promove ações,
culturais e de solidariedade. São chapas que apresentam para todos os
alunos suas propostas, e submetem-se a uma eleição. A novidade neste
trabalho, é que as chapas que tem se destacado são aquelas que buscam ter
um maior envolvimento com as causas sociais e atividades que desenvolvam o
senso de cidadania.
Preparação pré-vestibular:
Alunos de escolas públicas procuram cursos que os ajudem a competir num
vestibular. Esta atividade é uma boa oportunidade para os professores da
própria escola assumirem como voluntários, e contribuírem assim com
aqueles que não têm condições de pagarem um cursinho. Esta experiência já
tem dado bons frutos, e tem crescido muito.
Reciclagem: Muitas escolas têm acordado para a educação ambiental. É
incrível como o resultado destes projetos ajuda na fixação de conteúdos de
diversas disciplinas. O interessante que neste projeto inclui-se não só
alunos e professores, como também os pais. Tudo é questão de organização;
não sem antes vontade. Se a escola conseguir elaborar um bom projeto
poderá coletar dados importantes até mesmo para uma reeducação alimentar;
é um projeto que vai longe....
Formação para cidadania: Muitas vezes queremos enquanto escola, fazer para
fora, e esquecemos dentro. Têm escolas que programam junto com
professores, aulas ou encontros de formação para seus funcionários. Isto
se dá na forma de orientação ao uso indevido de drogas, orientação sobre
sexualidade, formação política, formação para espiritualidade etc. Um
funcionário bem instruído é um educador e um cidadão a mais.
Fora da
escola
Visitações: Desde as séries menores, é importante que se façam
estudos do meio, em locais ou instituições onde se possa apresentar a
necessidade que temos de exercer, ou ajudar o outro a exercer a cidadania.
Visitar, por exemplo, o projeto “SOS Mata Atlântica”, ou outro projeto de
preservação da sua região, deve despertar o compromisso, não apenas com um
relatório, mas com a causa. A visitação numa creche pode, de forma
habilidosa, gerar o compromisso de um gesto concreto com a cidadania
daquelas crianças que lá estão.
Engajamento: Muitos alunos de Ensino Médio, não querem mais visitas
esporádicas, dizem já ter idade, que ‘são grandes’. Este é um grande passo
que não podemos desmotivar. Outro dia ouvi de uma aluna: “Eu faço trabalho
voluntário porque acho que posso ajudar outras pessoas a se sentirem
melhor”. Quando perguntei, como havia conhecido aquela instituição,
disse-me que foi por intermédio de uma amiga mais velha. Com isto nasceu a
idéia de levar alguns alunos que demonstram interesse específico, seja
para o trabalho com menores; grupos de alfabetização; moradores de rua;
deficientes visuais etc. Com isso, a possibilidade de engajamento é bem
maior. E com a vantagem, de ver aquele que já não é mais aluno continuando
o trabalho.
Cada passo precisa ser pensado....
Talvez um bom início para a escola que queira ser uma escola cidadã
seja:
Contemplar
em seu Projeto Educativo a vontade, a intenção de ser escola cidadã.
Com isto, estou dizendo que ações isoladas, de uma
ou outra área (ou grupo), talvez não tenham força de mobilização para
iniciar, realizar e dar autonomia ao projeto. A direção, orientadores,
professores, grêmio e associação de pais e mestres, enfim, todos devem ter
claro o papel de cada um.
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Conhecer a realidade à sua volta e apresentá-la à comunidade educativa.
Fazer um levantamento, nas imediações, dos
principais locais onde é possível desenvolver um trabalho protagonizado
pelos educandos, isto é muito importante.
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Propor a esta mesma comunidade desafios, que comecem na sala de aula e
continuem em locais escolhidos (creches, asilos etc.)
O ciclo do ensino aprendizagem, pode começar na sala de aula,
aprendendo pela experiência de outros, ir para campo e fazer a própria
experiência, voltar para sala e sintetizar a experiência que foi passada
com a que foi vivida e agora apreendida. Com isto, o educando redimensiona
conceitos e posturas, estando mais preparado para conviver. Aqui talvez
seja bom lembrar dos quatro pilares da educação para o século XXI, segundo
Jacques Delors, onde é necessário: aprender a conhecer, aprender a
fazer, aprender a ser e aprender a conviver.
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Dispor professores que orientem grupos de educandos nos projetos
propostos.
É indispensável, se a escola acredita mesmo no
trabalho, que ele seja orientado, e bem orientado. Para isto, se faz
necessário ter educadores (a etimologia da palavra nos ajuda a
entender o por quê), com experiência e vontade à frente de cada projeto.
Cada escola conhece a
sua realidade, sabe perfeitamente as condições que têm para tocar um
projeto que a caracterize como escola cidadã. Não se pode, no entanto,
parar numa etapa onde o projeto se caracterize apenas por ser
assistencialista, e com isso deixe de ser alimentado pela utopia.
...onde isto pode dar?
O trabalho desenvolvido
fora da escola, traz para dentro da mesma, uma riqueza enorme de
informações. Isto faz com que professores e alunos redescubram o valor da
interdisciplinaridade. Muitas vezes sugere uma revisão no Projeto
Educativo. Aponta para a necessidade de construção de um novo espaço de
aprendizagem, com isto, novos métodos. Tudo, do ponto de vista do processo
do tempo escolar do educando.
O mais importante vem
agora: Como é gratificante, ver na escola um antigo aluno, que continua
o trabalho de ser um agente de cidadania em outros locais, agora mais
ligado à sua formação profissional. Muitas vezes, com outros amigos
que ele conseguiu convencer pelo entusiasmo adquirido nas experiências que
foram oportunizadas por uma escola que quis ser cidadã.
Se quisermos um mundo
melhor, temos de capacitar a todos, para que sintam no que
ele não está bom. Não bastam somente palavras, conselhos, indicação de
leituras, estudo sobre pessoas que foram ou são exemplos.
É preciso mais.
É preciso que a
cidadania do outro seja preocupação de cada um(a).
A cidadania é pessoal,
intransferível, ninguém terá mais se o outro tiver menos. Ousaria dizer
que temos de acreditar que todos a tenham, porém, nem todos podem
exercitá-la.
É justamente neste
ponto, que a escola cidadã faz a diferença, pois oportuniza experiências
que marcarão vidas e passarão para a história, como contribuição na
construção da nova sociedade, que quer ser mais justa e mais fraterna. |