Uma escola para o que vai nascer!

Você é o Autor!

 

Viviane Namur Campagna

*Psicóloga, mestre em psicologia escolar, da aprendizagem e do desenvolvimento humano
 pelo Instituto de Psicologia da USP.

 

   

       Depois de muitos anos, vamos ter um bebê novamente na família, filho de um sobrinho.
        Também nos traz muitas indagações. Que mundo essa criança encontrará, e como ela será, nesses tempos onde tudo se modifica tão rapidamente?

As crianças de hoje certamente são muito diferentes da criança que eu fui. Há 40 anos , eu morava num bairro tranqüilo, sem saída, e, quando não estava na escola, brincava na rua. Era lá que aprendia novas brincadeiras, fazia amigos, brigava, batia, apanhava, inventava armadilhas e voltava para casa suja e exausta, pronta para tomar banho e dormir. Minha infância foi comum a uma grande parte da minha geração. Estudávamos em escola pública (só os muito ricos estudavam em escola particular) e a escola era perto de casa, portanto voltávamos dela em grupo, à pé, e os pais só apareciam lá quando a gente levava alguma advertência. Quase ninguém ia em psicólogo, fonoaudiólogo, psicopedagogo, usava aparelho nos dentes. Os pais se conheciam da rua, eram vizinhos, e não tinham que levar e buscar os filhos na casa dos amigos. A tv era preto e branco, ninguém tinha computador, não existia celular, ter telefone em casa já era considerado um luxo, já que custava caro. Lembro de ter lido uma reportagem na escola dizendo que, no ano 2000, quase todo mundo teria computador em casa. Inacreditável!

Pois esse mundo está aí, pior e melhor que o da minha infância em muitos aspectos, mas, com certeza, muito diferente.

O ensino público degringolou, quem pode prefere pagar uma escola particular.

Os pais acompanham de perto a educação dos filhos, vão às reuniões da escola, acompanham os deveres de casa, levam a um especialista quando o filho apresenta alguma dificuldade, e se exaurem tentando trabalhar, função que hoje é normalmente exercida também pelas mulheres e dar conta de levar o filho na fono, no dentista, nas aulas de natação, judô, capoeira, balé, inglês e etc, buscando ajudar o filho a se desenvolver o máximo possível. Além disso, se desdobram para levar o filho nas casas dos amigos ou trazê-los m casa, pois eles já não são vizinhos e  quem tem coragem de deixar o filho andando sozinho nas ruas hoje em dia?

Em função dessas novas configurações, crianças de hoje passam o tempo entre a casa, os cursos extra-curriculares e a escola, e, com isso, o convívio social se restringiu .

Já a tecnologia desenvolveu-se sobremaneira e, desde pequenas, elas convivem com computador em casa, acessam a Internet e se comunicam com os amigos principalmente on-line, através de programas como o MSN e o Orkut.  Têm celular, ipods, e passam muito tempo na tv, zapeando entre os diversos canais da tv a cabo.

Tudo bem, essa é uma realidade predominantemente de classe média e alta, quer dizer, em termos. Apesar do ensino público ser em geral ruim,  jovens das classes mais pobres, pelo menos em São Paulo, tem aulas de informática, tv em casa, celular pós-pago e acesso a toda informação disponível nos diversos meios de comunicação.

Eis aí uma mudança fundamental. Hoje em dia, a informação é abundante e disponível através da Internet, rádio, Tv. O mais difícil, atualmente, não é ter acesso à informação, mas selecioná-la,  processá-la, criticá-la, e transformá-la num conhecimento útil para a vida . Está aí uma função essencial para a escola do século XXI.

Outro dia, na saída da escola do meu filho, encontro uma professora que dá aulas há 20 anos nesse mesmo lugar. Conversa vai, conversa vem, diz que quando lhe perguntam se não enjoou de dar aulas, ela responde que, após 20 anos, dar aulas é cada vez mais um novo desafio, pois os alunos de hoje são completamente diferentes dos antigos. São mais rápidos, tem facilidade com as novas tecnologias, sabem muito, mas são também mais individualistas e indisciplinados. Além disso, crescem rapidamente, encurtando a infância e apresentando mais cedo desejos e preocupações que antes apareciam mais tarde, como a relativa à aparência física, consumo e sexualidade.

Essa conversa me fez pensar que não deve ser fácil ser professor hoje em dia.

Durante anos os professores iam até a lousa, davam sua matéria, que todo ano era sempre igual e depois avaliavam o conhecimento do aluno através de provas.

Quem pensa em escola hoje unicamente dessa maneira está precisando se aposentar.

Mais do que nunca, na escola de hoje, é necessário dar a vara para pescar, e não o peixe. A escola, a meu ver, deve em primeiro lugar alfabetizar seus alunos, ensiná-los a compreender um texto e depois ajudá-los a buscar a informação que precisam, seja nos livros, seja na Internet. A informação está disponível muito facilmente, mas é necessário desenvolver um espírito crítico para absorvê-la, para que os alunos não aceitem tudo que recebem como verdades absolutas. Eles precisam aprender a ser pensadores, e não repetidores de informação.

Os alunos também não precisam apreender todos os mesmos conteúdos, pois são pessoas diferentes, com interesses e aptidões diversas. O fundamental é que desenvolvam a curiosidade, o espírito investigativo, o raciocínio lógico, a concentração, o pensamento abstrato, a capacidade crítica, e possam aprimorar seus interesses e habilidades.

A escola é hoje o lugar de maior convívio   de crianças e jovens,  e , por isso, tem a importante função social de ser um lugar onde seja promovido o debate de idéias. Um lugar onde todos possam se expressar, enfrentando suas dúvidas e inseguranças. Onde todos tenham lugar, com seus recursos e suas deficiências.

Ela deve ser, portanto, essencialmente inclusiva, e ajudar seus alunos a conviver com a diversidade, sendo mais cooperativos uns com os outros. Grande parte  das queixas dos professores em relação ao individualismo dos alunos vêm do modelo extremamente competitivo que algumas escolas adotam, com lemas como “faça parte do time dos vitoriosos”. Quando chegam ao mercado de trabalho, percebem que ser produtivo está muito mais ligado à capacidade de trabalhar em equipe e ter empatia com os outros do que a um desempenho individual.

Além do mais, é preciso que os alunos compreendam que todos somos responsáveis pelo mundo em que vivemos. É função da escola promover a solidariedade, a cidadania e desenvolver nos alunos a noção de responsabilidade social.

Para  esse modelo de ensino ser viável, é preciso que os educadores repensem seu papel e façam mudanças profundas na escola, tanto na forma de ensinar ,  quanto no conteúdo e na forma de avaliação, que deve ser feita para identificar os progressos de cada aluno, e não para  rotulá-los.

A legislação atual dá um grande amparo para essas mudanças, pois, de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, as escolas têm total liberdade quanto à forma de avaliação dos alunos, e a organização em turmas não precisa ser feita com base no rendimento, ao contrário, pode ser feita de acordo com critérios bastante amplos como idade, afinidade por projetos, etc. Quer dizer, alunos com diferentes níveis de desenvolvimento podem perfeitamente conviver na mesma classe e aprender de acordo com seus desejos e possibilidades.

E, afinal, são nossos desejos que nos movem, que gravam lembranças a ferro e fogo na nossa memória e nos fazem aprender.

Ao bebê que vai nascer, que terá uma vida tão diferente da minha , e possivelmente, até dos meus filhos, meu desejo de que tenha tão boas lembranças da sua escola e da sua infância quanto eu tenho das minhas !

 

*Psicóloga, mestre em psicologia escolar, da aprendizagem e do desenvolvimento humano pelo Instituto de Psicologia da USP.

E-mail:viviane@ajato.com.br

Insira seus comentários: por favor não esqueça de mencionar o artigo lido!

Nome:
E-mail:
Artigo Lido:
Telefone:
Comentários:
 

Acima Educação s/limites Valores Internos Uso de Ferramentas Telemáticas... Supervisor e Novas Tecnologias Relação Estado-Educação Tempos Globalizados Por trás da Progressão Continuada O Direito de Aprender Ensino/Pesquisa/Compr.Social Liberdade de Ensinar Dislexia e mau leitor: as diferenças Educação "total": superando... O Autor deve respeitar o leitor Você lê um palavrão de 46 letras? A dislexia em sala de aula O analfabetismo do meu bisa Import. da Ginástica Rítmica Desportiva Motivação infantil:sua importância ... Socorro! Está impossível... A Educação Transformadora A Prática Pedagógica à luz... A Cola como direito de Importância do convívio familiar Desenvolvendo Competências Educ. Ambiental: A experiência O papel educador do Estado O lúdico nas Interfaces das... Deficiência Visual: Avaliação Inclusão:Novo Paradigma Gestão Democrática e: O professor, sua formação... Expectativa de Qualidade Supervisão Escolar: semeando neste lugar Como entender crianças que... A formiga Efigência O desafio da mudança na educação Inglês na escola pública: uma discussão quanto à avaliação Meu Desempenho como Prof. Universitário... Gestão Democrática X Autoritarismo Como ensinar Ortografia sem palmatória Reminiscências de uma Educação que Transforma Os Pilares da Violência Considerações sobre o tratamento Fisioterápico da Dor As Tecnologias da Inteligência no Processo O Ciberespaço e a Cibereducação: Cooperatividade Inclusiva através de: Quem já não ouviu falar em Internet? Emoções e Sentimentos no processo de aprendizagem: A Educação Infantil e suas possibilidades Uma escola para o que vai nascer! Novos Currículos: ensino e pesquisa Matemática Lúdica: o uso do Tangram Educação também vem de berço Sugestões a uma professora... Corrida contra o Tempo Crianças e Adolescentes na Internet Conselho de Classe do Bloco: de quando ficamos atentos ... Fisioterapia e Qualidade de Vida

atualizado/setembro/2007