Depois de muitos anos, vamos ter um bebê novamente na família, filho
de um sobrinho.
Também nos traz muitas indagações. Que mundo essa criança
encontrará, e como ela será, nesses tempos onde tudo se modifica tão
rapidamente?
As crianças de hoje certamente são muito diferentes da criança que
eu fui. Há 40 anos , eu morava num bairro tranqüilo, sem saída, e,
quando não estava na escola, brincava na rua. Era lá que aprendia
novas brincadeiras, fazia amigos, brigava, batia, apanhava,
inventava armadilhas e voltava para casa suja e exausta, pronta para
tomar banho e dormir. Minha infância foi comum a uma grande parte da
minha geração. Estudávamos em escola pública (só os muito ricos
estudavam em escola particular) e a escola era perto de casa,
portanto voltávamos dela em grupo, à pé, e os pais só apareciam lá
quando a gente levava alguma advertência. Quase ninguém ia em
psicólogo, fonoaudiólogo, psicopedagogo, usava aparelho nos dentes.
Os pais se conheciam da rua, eram vizinhos, e não tinham que levar e
buscar os filhos na casa dos amigos. A tv era preto e branco,
ninguém tinha computador, não existia celular, ter telefone em casa
já era considerado um luxo, já que custava caro. Lembro de ter lido
uma reportagem na escola dizendo que, no ano 2000, quase todo mundo
teria computador em casa. Inacreditável!

Pois esse mundo está aí, pior e melhor que o da minha infância em
muitos aspectos, mas, com certeza, muito diferente.
O
ensino público degringolou, quem pode prefere pagar uma escola
particular.
Os pais acompanham de perto a educação dos filhos, vão às reuniões
da escola, acompanham os deveres de casa, levam a um especialista
quando o filho apresenta alguma dificuldade, e se exaurem tentando
trabalhar, função que hoje é normalmente exercida também pelas
mulheres e dar conta de levar o filho na fono, no dentista, nas
aulas de natação, judô, capoeira, balé, inglês e etc, buscando
ajudar o filho a se desenvolver o máximo possível. Além disso, se
desdobram para levar o filho nas casas dos amigos ou trazê-los m
casa, pois eles já não são vizinhos e quem tem coragem de deixar o
filho andando sozinho nas ruas hoje em dia?
Em função dessas novas configurações, crianças de hoje passam o
tempo entre a casa, os cursos extra-curriculares e a escola, e, com
isso, o convívio social se restringiu .
Já a tecnologia desenvolveu-se sobremaneira e, desde pequenas, elas
convivem com computador em casa, acessam a Internet e se comunicam
com os amigos principalmente on-line, através de programas como o
MSN e o Orkut. Têm celular, ipods, e passam muito tempo na tv,
zapeando entre os diversos canais da tv a cabo.
Tudo bem, essa é uma realidade predominantemente de classe média e
alta, quer dizer, em termos. Apesar do ensino público ser em geral
ruim, jovens das classes mais pobres, pelo menos em São Paulo, tem
aulas de informática, tv em casa, celular pós-pago e acesso a toda
informação disponível nos diversos meios de comunicação.
Eis aí uma mudança fundamental. Hoje em dia, a informação é
abundante e disponível através da Internet, rádio, Tv. O mais
difícil, atualmente, não é ter acesso à informação, mas
selecioná-la, processá-la, criticá-la, e transformá-la num
conhecimento útil para a vida . Está aí uma função essencial para a
escola do século XXI.
Outro dia, na saída da escola do meu filho, encontro uma professora
que dá aulas há 20 anos nesse mesmo lugar. Conversa vai, conversa
vem, diz que quando lhe perguntam se não enjoou de dar aulas, ela
responde que, após 20 anos, dar aulas é cada vez mais um novo
desafio, pois os alunos de hoje são completamente diferentes dos
antigos. São mais rápidos, tem facilidade com as novas tecnologias,
sabem muito, mas são também mais individualistas e indisciplinados.
Além disso, crescem rapidamente, encurtando a infância e
apresentando mais cedo desejos e preocupações que antes apareciam
mais tarde, como a relativa à aparência física, consumo e
sexualidade.
Essa conversa me fez pensar que não deve ser fácil ser professor
hoje em dia.
Durante anos os professores iam até a lousa, davam sua matéria, que
todo ano era sempre igual e depois avaliavam o conhecimento do aluno
através de provas.
Quem pensa em escola hoje unicamente dessa maneira está precisando
se aposentar.
Mais do que nunca, na escola de hoje, é necessário dar a vara para
pescar, e não o peixe. A escola, a meu ver, deve em primeiro lugar
alfabetizar seus alunos, ensiná-los a compreender um texto e depois
ajudá-los a buscar a informação que precisam, seja nos livros, seja
na Internet. A informação está disponível muito facilmente, mas é
necessário desenvolver um espírito crítico para absorvê-la, para que
os alunos não aceitem tudo que recebem como verdades absolutas. Eles
precisam aprender a ser pensadores, e não repetidores de informação.
Os alunos também não precisam apreender todos os mesmos conteúdos,
pois são pessoas diferentes, com interesses e aptidões diversas. O
fundamental é que desenvolvam a curiosidade, o espírito
investigativo, o raciocínio lógico, a concentração, o pensamento
abstrato, a capacidade crítica, e possam aprimorar seus interesses e
habilidades.
A
escola é hoje o lugar de maior convívio de crianças e jovens, e ,
por isso, tem a importante função social de ser um lugar onde seja
promovido o debate de idéias. Um lugar onde todos possam se
expressar, enfrentando suas dúvidas e inseguranças. Onde todos
tenham lugar, com seus recursos e suas deficiências.
Ela deve ser, portanto, essencialmente inclusiva, e ajudar seus
alunos a conviver com a diversidade, sendo mais cooperativos uns com
os outros. Grande parte das queixas dos professores em relação ao
individualismo dos alunos vêm do modelo extremamente competitivo que
algumas escolas adotam, com lemas como “faça parte do time dos
vitoriosos”. Quando chegam ao mercado de trabalho, percebem que ser
produtivo está muito mais ligado à capacidade de trabalhar em equipe
e ter empatia com os outros do que a um desempenho individual.
Além do mais, é preciso que os alunos compreendam que todos somos
responsáveis pelo mundo em que vivemos. É função da escola promover
a solidariedade, a cidadania e desenvolver nos alunos a noção de
responsabilidade social.
Para esse modelo de ensino ser viável, é preciso que os educadores
repensem seu papel e façam mudanças profundas na escola, tanto na
forma de ensinar , quanto no conteúdo e na forma de avaliação, que
deve ser feita para identificar os progressos de cada aluno, e não
para rotulá-los.
A
legislação atual dá um grande amparo para essas mudanças, pois, de
acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, as escolas têm
total liberdade quanto à forma de avaliação dos alunos, e a
organização em turmas não precisa ser feita com base no rendimento,
ao contrário, pode ser feita de acordo com critérios bastante amplos
como idade, afinidade por projetos, etc. Quer dizer, alunos com
diferentes níveis de desenvolvimento podem perfeitamente conviver na
mesma classe e aprender de acordo com seus desejos e possibilidades.
E, afinal, são nossos desejos que nos movem, que gravam lembranças a
ferro e fogo na nossa memória e nos fazem aprender.
Ao
bebê que vai nascer, que terá uma vida tão diferente da minha , e
possivelmente, até dos meus filhos, meu desejo de que tenha tão boas
lembranças da sua escola e da sua infância quanto eu tenho das
minhas !
*Psicóloga, mestre em psicologia escolar, da aprendizagem e do
desenvolvimento humano pelo Instituto de Psicologia da USP.
E-mail:viviane@ajato.com.br |