O sistema alfabético irá se solidificar na cultura grego-romana
por um processo de transformação, visto que o valor da imagem é
substituído pelo valor sonoro. Do pictórico e ideográfico para o
fonográfico (representação fonética). Deve-se aos fenícios a
utilização de vários sinais da escrita egípcia para formar um
inventário muito reduzido de caracteres os quais passam a
representar um som consonantal. Em adição, os gregos juntaram as
vogais criando o sistema alfabético. (Cagliari, 1999). Essa
transposição do valor visual para o sonoro levou muitos anos.
Datam de 30.000 anos a.C na Espanha, as primeiras impressões do
real por meio de pinturas. E somente há 3500 anos os fenícios
inventaram o sistema fonético adotado por várias civilizações.
Só por esta criação um círculo que poderia significar sol, bola,
lua, pode ser expresso de outro modo remetendo à idéia do
enunciador.
Mas o que a história da escrita tem a ver com a aprendizagem da
escrita pela criança?
Se até o momento falamos da história da escrita, é porque a
filogênese está diretamente relacionada com a ontogênese
(história do indivíduo). Uma criança, por exemplo, no seu
primeiro ano escolar, muitas vezes encontra-se na fase da
garatuja ou no período pré-silábico. Mediar o processo de
apropriação do conhecimento para que a criança altere a lógica
visual para a lógica sonora implica não somente uma técnica
didática, mas um processo de acolhimento das significações que o
sujeito expressa.
É preciso conhecer os meios pelas quais as crianças fazem uso da
representação. Quando alguém escreve a palavra sol, sua
significação pode variar de pessoa para pessoa e é neste ponto
que se opera o sujeito que escreve, ou o que aprende. Na
caminhada como educadores/as constatamos que o aluno imprime no
papel suas significações, sua relação com o outro, seja tomando
como outro seu irmão, sua professora, suas fantasias, seus
temores ou o próprio conhecimento (outrora descoberto por um
outro). Uma das alunas observadas na prática escolar, jamais
escrevia seu primeiro nome, pois este foi escolhido pelo pai
que, segundo ela, a abandonara e não lhe sustentara
financeiramente. Outro jovem desabafou que, falar e escrever a
língua da escola, seria distanciar-se da cultura dos seus pais.
Por três anos consecutivos, ao fazer reuniões com pais de alunos
que apresentavam problemas de alfabetização foi possível
perceber nos vários relatos uma tendência à conservação
do filho como bebê, como os caroços de azeitonas nunca tornados
árvores. E certamente, não por acaso, que quando estes pais
começaram a deixar de serem senhores de toda significação
para seus filhos, é que os pequenos abandonaram as várias
simbologias do berço esplêndido e debutaram na
codificação social de escrita.
E será sobre este ponto que iremos nos deter quando propomos uma
reflexão sobre o sujeito que inicia seu processo na leitura e na
escrita – a da escrita enquanto representação do que se passa na
caminhada do aluno em direção à aquisição do conhecimento. Esse
olhar começou a surgir a partir da valorização da prática do
cotidiano escolar ao constatarmos que a abordagem técnica era
insuficiente para explicar o fracasso do ensino e da
aprendizagem. Como abordagem técnica nos referimos ao fechamento
dos sentidos, à ilusão de que uma metodologia é suficiente para
dar conta do processo educativo. É preciso deixar frestas quando
os seres que aprendem deixam seus rombos, se aventurar na
poiésis, naquilo que desconhecemos e mediar o conhecimento
do aluno. Mediação que envolve a sustentação de um tempo, ora de
repetição, ora de criação. É por isso que ensinar exige por
parte do educador uma certa paciência histórica. Mediar o
conhecimento de um sujeito é uma tarefa diferente do ato de
operar uma máquina e é por isso que precisamos estar atentos aos
programas ou pacotes governamentais, os quais na maior parte
prescrevem ações visando a superação da ineficiência no ensino
(próprio da esfera governamental), enquanto que no cotidiano
escolar isso é uma preocupação, mas com a especificidade de se
conhecer a história do João, do José, da Maria...E se este é o
nosso tesouro, talvez seja por aí que devemos nortear nossa
tarefa.
Foi assim que no ano de 2006, em pleno mês de outubro estávamos
com alunos ansiosos para realizar seu debut na escrita.
Ao invés de nos angustiarmos e nos culpabilizarmos atribuindo
apenas a nós como educadores a responsabilidade do ensino
começamos a nos perguntar: o que poderíamos aprender com o não
aprender desses alunos? O que Maria, inteligente e esperta,
tenta nos dizer com sua resistência em não se alfabetizar? Por
que João, cara e jeito de menino sapeca, ágil corporalmente,
mente para si que não consegue ler? Começamos a observar e
registrar cada brincadeira, cada conversa, toda habilidade, toda
vadiagem e a partir daí, sem censura, acolher suas
fabricações. Estabelecemos uma relação dialógica com o
brincar e o (não ) fazer dos nossos alunos a partir do seu
mundo... e dando-nos/lhes as mãos fomos encorajados a lidar com
o desconhecido, com o não saber diante daquele aluno que
não se alfabetizava não por incompetência técnica do educador,
mas por se tratar de um ser humano cheio de enigmas. Munidos
dessa coragem fomos de mansinho introduzindo-os ao mundo dos
sumérios, dos fenícios, dos gregos, dos romanos...
Foi com esse propósito que realizamos um Conselho de Classe no 3o.
bimestre diferente, pois ao invés de discutirmos aluno por aluno
de modo corrido e com a sensação de impotência diante de tantas
crianças com todo tipo de problemas, decidimos discutir apenas
um aluno de cada turma. Posteriormente, as outras crianças
seriam discutidas em planejamento semanal entre pedagoga,
coordenação e professora.
Eleger um único aluno era muito difícil: quem escolher entre
tantos que preocupavam, que necessitavam de intervenção? O
estudo de caso de um aluno implica na aceitação da complexidade
que é um ser humano, tendo presente que por mais que
intercedamos sempre algo irá escapar. Não há como dar conta de
tudo na sua história: somos apenas uma gota do oceano na vida de
cada criança... cada aluno tem seus abissais, suas atlântidas
perdidas, seus corais e pérolas preciosas...
Vamos relatar dois casos: um de abandono familiar e outro de
excesso de proteção - para a partir disso realizar nossa
reflexão. O primeiro aluno do Bloco Inicial foi o Aldo (nome
fictício). A professora estava angustiada, pois ele não queria
fazer as atividades, além de não dominar a leitura e a escrita.
Não apresentava necessidades especiais, mas muita dificuldade em
aprender devido, segundo relato, à sua vida sócio-cultural e
econômica. A professora informou que a coordenadora da Educação
Especial ficou de contatar com a assistente social do Posto de
Saúde para verificar a situação familiar, visto que ele não
convivia com a mãe e nem com o pai, embora solicitasse muito
esse convívio. No início do ano escolar, Aldo apresentou um
costume: passar a chamar de mãe algumas pessoas que lhe
davam atenção, embora isto não acontecesse com a tia que cuidava
dele. Dizia sempre que ela não era sua mãe. A professora, por
sua vez, declarou achar difícil que uma criança se interessasse
pela leitura, com tanta carência familiar. O aluno agredia e
provocava os colegas, até mesmo as professoras. Só nas aulas de
Educação Física ele participava com entusiasmo. Um aspecto
positivo salientado pela estagiária da turma diz respeito ao
ambiente de inclusão que havia entre ele e os colegas. Mesmo
comportando-se agressivamente, Aldo não ficava isolado, mesmo
porque seus amigos não eram de fazer intrigas pois estavam
sempre ocupados com atividades. Os livros retirados por Aldo na
biblioteca foram: A Boca do Sapo, Hipopótamos no Bairro, O
dia a dia de Rob, A Cidade Perdida. Sugerimos então,
pesquisar com a bibliotecária uma história em que uma criança
tivesse sido abandonada, ou fosse cuidada por outra pessoa, como
por exemplo, a história da Branca de Neve. Embora trate de
contextos e situações distintas, havia em comum entre a história
de Aldo e da Branca de Neve a figura de uma outra pessoa
substituindo a mãe. Veio também à mente a história do Bambi que
teve que se ver no mundo sem a presença de sua mãe. A idéia
seria contar estas histórias, fazer problematizações e
releituras verificando o comportamento da turma, suas falas,
além de trabalhar com estes personagens na escrita e leitura de
palavras. Outra idéia foi a aquisição de fantoches de famílias,
deixar na sala à disposição dos alunos para que representassem
nas brincadeiras seu mundo, suas raivas, suas queixas, suas
fantasias (mesmo as mais violentas), pois ainda seria preferível
a criança encontrar espaço para brincar com seu mundo real. Na
brincadeira ela poderia fantasiar o que a civilização colocava
como limite...
O segundo aluno foi Matheus (nome fictício). A maior preocupação
da nossa colega era com os constantes furtos da criança na sala,
além de suas dificuldades no processo de alfabetização. Em casa
era cuidado com excesso de mimo de tal modo que sua mãe lhe
preparava o pão, o leite com chocolate, e o mais grave, Matheus
dormia na cama do casal. Seu caderno estava sempre rasgado e
perdia seu material escolar com facilidade. Não sentia motivação
em aprender o que quer que fosse, contudo como explicar seu
grande desejo em aprender a ler, expresso na grande quantidade
de livros por ele retirados semanalmente na biblioteca? Alguns
livros retirados por ele foram: A criação, Salada de frutas,
O Noivo da Cutia, Com os Pés na Cabeça do Rei, A Língua do Sapo
Lambão, O Dia a Dia do Rob, entre outros. Também nas aulas
de Artes e Inglês Matheus não participava exigindo empenho das
professoras no sentido de tentar incluí-lo nas tarefas. O
professor de Educação Física sugeriu a utilização de palavras
significativas como meio de motivação, embora a professora
titular já realizasse esse procedimento com a turma. Contudo,
passou a trabalhar palavras geradoras do repertório de vida do
aluno, como nomes de animais, pessoas, brinquedos... Quanto ao
furto, a professora ficou de observar de quem o aluno pegava
objetos, se de todos ou de alguém em especial. Precisaríamos ler
mais sobre a criança que furta e solicitar apoio do serviço de
psicologia da unidade de saúde, além de ouvir do aluno por que
agia desse modo. A coordenadora e a pedagoga propuseram uma
entrevista com a família para obter mais dados a respeito da
criança. Foram feitas ainda algumas sugestões visando o cuidado
com o seu material.
Aldo e Matheus. O que eles possuem em comum? Freqüentam a mesma
escola, desenvolvem suas mentes nos espaçostempos de articulação
com o conhecimento, como a sala de informática, a biblioteca, o
refeitório, a sala de multimeios, a escola aberta, as visitas de
campo monitoradas, além de residir no mesmo bairro. O local onde
vivem está situado numa área urbana, cujas casa na sua
totalidade são de alvenaria, porém com espaços internos e
externos confinados, a maior parte sem jardins. Fora da escola
seu momento de brincar fica restrito aos irmãos e ao uso de
recursos eletrônicos como vídeo-games, televisão, computadores.
Quanto às habilidades motoras essas crianças ao fazerem as
atividades físicas como correr, pular, chutar apresentavam pouca
variação do padrão considerado normal. No que tange ao trabalho
pedagógico recebiam atividades diferenciadas, e tinham
atendimento quase que individualizado ora pela professora, ora
pela estagiária contratada pela SEME (Secretaria Municipal de
Educação). Outro aspecto importante era que por se tratar de uma
escola que está construindo seu Projeto Político Pedagógico não
havia uma linha de alfabetização. Cada professora realizava do
modo como se sentia mais segura. Uma trabalhava com o
construtivismo interacionista, outra com o sintético.
Esses eram os aspectos tangíveis mais comuns entre as crianças.
O aspecto mais perceptível à equipe escolar sobre suas
diferenças referia-se ao contexto familiar. Enquanto que uma
criança estava abandonada pelos pais, a outra vivia num contexto
de super-proteção. Refletir sobre essas realidades não significa
restringir a problemática da falta de aprendizagem ao âmbito
familiar e sim, ampliar a visão de que se a educação é da ordem
do impossível, é por que ela não se esgota na tarefa puramente
pedagógica. Existe qualidade no ensino público sim, como existem
questões culturais, políticas, geográficas e ambientais
construídas historicamente para não favorecerem a emancipação
das classes mais empobrecidas. Por outro lado, diante do caos,
das diversidades da vida, estas crianças precisavam criar alguma
forma de se relacionar com o mundo e por enquanto, seu
comportamento é o que lhes possibilita viver, vir para a escola.
Claro que aceitar o sintoma não significa acomodação. Temos uma
responsabilidade sobre a aprendizagem dos alunos, mas é preciso
ser mais paciente com o ritmo, com o despertar de cada um quando
após exaustivas técnicas e procedimentos pedagógicos, ainda
assim, a criança não se alfabetizar. É necessário introduzir um
questionamento quando se acredita que a técnica, o método, o
material didático, possa dar conta da aprendizagem. Ás vezes, o
máximo que se faz é fazer surtir um pequeno barulho, abrir uma
fresta para em outro momento com outro profissional a criança
aprender. E se isso ocorreu, não terá sido por que uma
profissional foi mais competente, (embora isso também possa
ocorrer), mas porque simplesmente a criança passou a atribuir
uma outra significação à escrita.
Aliás, talvez seja essa uma questão que precise ser mais
discutida por nós educadores: a de não nos sentirmos redentores
na vida dos alunos. Não tínhamos certezas de que estávamos
escolhendo os caminhos certos. Mas existe um rumo: o de ficarmos
atentos ao sujeito que aprende...
REFERENCIAS
CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização e Lingüística. 10o.
ed.. São Paulo: Editora Scipione, 1999.
CAPES. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior. Banco de Teses.
Disponível em:
http://servicos.capes.gov.br/capesdw/resumo.html?idtese=200227633005010024P9
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Acesso em: out/2006