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Analisar o
contexto educacional brasileiro da atualidade exige a tarefa inicial
de recuperação de aspectos da nossa história da educação desde a
missão dos jesuítas que aqui aportaram, em 1549, juntamente com o
primeiro governador geral, Tomé de Souza, a fim de construirmos um
referencial dialógico com a evolução da política educacional no
Brasil, recordando que fomos colônia de exploração, povoada com o
excedente que a Europa rejeitou e isto ficou fortemente marcado no
inconsciente coletivo do nosso povo.
O processo
educacional iniciado pelos jesuítas, que perdurou por
aproximadamente duzentos anos, dirigia-se prioritariamente à
catequização e instrução dos gentios e para tanto foram criadas
escolas de primeiras letras, que propagavam os ideais católicos.
Criaram, também, colégios destinados a formar sacerdotes, bem como
preparar para os estudos superiores jovens que não buscavam a vida
sacerdotal. Dessa forma, os padres da Companhia de Jesus possuíam
total poder no setor educacional, que desde o início esteve voltado
para interesses de exploração e enriquecimento de uma minoria, de
uma elite carregada de privilégios, em detrimento da maioria da
população.
Quando o Marquês
de Pombal, em 1759, expulsou os jesuítas de Portugal e de todos os
seus domínios, destruiu completamente a organização educacional
existente em terras brasileiras. Sua pretensão era tornar laico o
ensino, colocando-o a serviço dos interesses civis e políticos da
Coroa Portuguesa. No entanto, como não se contava com
infra-estrutura e professores especializados, ficou uma grande
lacuna nos serviços educacionais, cuja solução posteriormente
encontrada foi instituir aulas régias, avulsas, sustentadas
por um novo imposto colonial, o “subsídio literário”. Essas aulas
deviam suprir as disciplinas antes oferecidas nos extintos colégios.
Através delas, a mesma reduzida parcela da população colonial
continuava se preparando para estudos posteriores na Europa.
Sem
sistematização, sem freqüência definida, sem pessoal docente em
quantidade e qualidade suficientes, a instrução no país foi
drasticamente limitada, até 1799, quando as licenças para docentes
passaram a ser concedidas pelo vice-rei.
Com a vinda de D.
João VI para o Brasil, em 1808, houve investimentos no ensino
técnico e no superior; foram criadas a Academia da Marinha e a
Academia Militar, para atender as necessidades de defesa militar do
reino. No entanto a educação do povo, com estudos primários e
médios, ficou esquecida. Durante todo o período colonial
houve poucos e localizados avanços educacionais, com criação de
algumas salas e graus.
Após a
independência, em nome dos princípios liberais e democráticos, são
redigidos planos visando nova política no campo da instrução
popular, mas, na prática, pouco se concretiza. Com o Ato Adicional
de 1834 houve a criação de sistemas paralelos de ensino em cada
província, numa tentativa de solucionar questões que eram
centralizadas pela coroa anteriormente. Começa-se a ter uma
preocupação com o ensino básico, continuando o poder central
responsável pelo ensino superior. Tal medida em pouco alterou o
quadro do ensino elementar, pois a verba destinada às províncias
para custeio da instrução pública era ínfima, insuficiente para
fazer frente a tais responsabilidades. Em conseqüência, algumas
raras escolas particulares sediadas na Corte e nas grandes cidades
ofereciam ensino primário mais rico e consistente que o ministrado
nas escolas públicas.
Foi criada, na
cidade do Rio de Janeiro, a Inspetoria Geral da Instrução Primária e
Secundária, órgão ligado ao Ministério do Império e destinado a
fiscalizar e orientar o ensino público e particular nos níveis
primário e médio. Mas o panorama geral do ensino elementar continua
ruim, e tem como uma das causas a falta de pessoal docente
habilitado. Surgiram então, por iniciativa dos governos provinciais,
as primeiras escolas normais das províncias, mas o nível era muito
baixo.
Em 1837,
visando nortear a iniciativa das províncias, foi criado na Corte o
Colégio de Pedro II, como estabelecimento modelo dos
estudos secundários, pois ainda eram mantidas aulas avulsas e
descontextualizadas, ou seja justaposição de aulas ministradas em
liceus, que constituíram os primórdios da elaboração de um
currículo em nosso país. Os liceus provinciais, no entanto, não
tiveram as mesmas prerrogativas para matrícula em qualquer curso
superior, independentemente de novos exames junto às faculdades.
Conseqüentemente, seus alunos tinham que se submeter aos exames
parcelados dos preparatórios fixados nos estatutos.
O Colégio de Pedro
II passou a admitir matrículas avulsas e instituiu exames finais por
disciplina, equivalentes para fins de matrícula nos cursos
superiores, aos exames gerais.
A influência
nefasta dos exames parcelados de preparatórios fez-se sentir no
próprio colégio padrão, pois muitos alunos apressavam o ingresso nos
cursos superiores recorrendo aos exames parcelados. Em 1888
aboliram-se as matrículas avulsas, os exames vagos e a freqüência
livre no Colégio de Pedro II.
A equiparação,
ou seja, o reconhecimento dos graus conferidos pelos liceus
provinciais que adotassem a estrutura e os planos de estudos do
Colégio de Pedro II, medida que fora reivindicada em quase todos os
projetos de reforma dos últimos anos de Império, veio consagrar e
regulamentar a interferência do poder central no ensino secundário
provincial. Também era solicitada concessão de auxílio financeiro a
escolas erigidas pelos Poderes Provinciais e pela iniciativa
particular. Com isso percebe-se que, já àquela época, tendia-se a
reconhecer aos Poderes Gerais o direito de fixar diretrizes para a
instrução em todo o território nacional.
Na década de 1850,
Couto Ferraz reformulou todo o ensino na Corte e a instrução
superior no Império, mas não criou Escola Normal na Capital do País,
optando por formar professores em exercício, sob a supervisão de
mestres experientes.
Apesar das
iniciativas de alguns teóricos e magistrados da época, a educação
brasileira caminhava muito lentamente e com pouca evolução enquanto
política educacional; o ensino elementar era qualitativamente
deficiente e quantitativamente precário. O ensino secundário
beneficiava apenas diminuta parcela da população que buscava o
ensino superior. Foram criadas condições de expansão da rede
privada, procurando, dessa forma, suprir as graves lacunas do ensino
público provincial. No entanto, o Império legou à República uma
tarefa imensa a ser cumprida no setor da instrução pública,
agregando-se a tal tarefa a necessidade de instalação do ensino
técnico comercial, agrícola e industrial, que praticamente inexistia
no Brasil.
Pode-se dizer que,
desde o Império, com toda a precariedade dos serviços educativos, já
se percebe uma dicotomia no ensino que espelhava a realidade da
sociedade, ou seja, ensino propedêutico para as elites e ensino
profissional para as classes pobres.
Na República,
embora se mantivessem essas dicotomias, o ensino técnico avançou. No
geral, a educação continuou refletindo as contradições da sociedade.
O ensino
secundário passa a subordinar-se diretamente ao controle da
União, através do instrumento da equiparação. A Administração
Federal continuou a manter apenas o Colégio de Pedro II como
estabelecimento de ensino secundário modelo de organização para os
equiparados e, até 1930, tal nível de ensino permaneceu praticamente
entregue à iniciativa particular.
A instrução
primária, a profissional, o ensino normal, ficaram inteiramente
subordinados à iniciativa e possibilidades econômicas dos estados,
da mesma forma que se subordinavam às províncias, no Império. Dada a
inexistência de instrução básica comum, considerada necessária à
formação da consciência nacional, vários projetos de lei são
elaborados nesse sentido. Por exemplo, em 1890, logo após a
Independência, é criado o Ministério da Instrução Pública, Correios
e Telégrafos, que durou pouco mais de um ano.
No período da
República esboça-se um novo perfil educacional, através de leis,
decretos, e atos institucionais que estabelecem critérios e
diretrizes para o ensino primário, secundário e universitário, além
da tentativa de normatizar o ensino agrícola e o industrial que são
marcados por finalidades filantrópicas, destinando-se
prioritariamente aos órfãos e desvalidos.
Marco importante
para o Ensino Industrial foi o Decreto Federal nº 7.566/1909,
determinando a criação de uma escola de aprendizes artífices,
destinada a ministrar o ensino profissional primário, subordinada ao
Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, em cada capital de
Estado.
A qualificação
para exames preparatórios, com estudos irregulares e assistemáticos,
bem como a preponderância da finalidade propedêutica sobre a
formativa, continua a funcionar como alternativa da escolarização
secundária regular, tanto no ensino público como no particular, até
a reforma de ensino organizada por João Luiz Alves, em 1925, que
instituiu a obrigatoriedade de seriação e aprovação nas matérias de
cada ano, para promoção ao seguinte, eliminando os exames
preparatórios. Houve, entretanto, nova prorrogação de tais exames.
Nas décadas de
1920 e 1930 surge a idéia de Plano Nacional de Educação, com órgãos
específicos tentando criar uma linha de diretrizes curriculares. Em
1924 criou-se a Associação Brasileira de Educação (ABE),
contribuindo para a formação de nova consciência educacional,
referente ao papel do Estado na educação, à necessidade de expandir
a escola pública, à exigência de uma política nacional de educação,
com o Poder Central exercendo papel de coordenador, orientador e
supletivo na incrementação de ensino em âmbito nacional. Várias
dessas idéias consubstanciaram-se em proposições do Manifesto dos
Pioneiros da Educação Nova, em 1932, e em dispositivos da
constituição de 1924.
A Revolução de
1930 caracteriza a passagem progressiva de uma sociedade artesanal,
pré-capitalista e agrário-comercial para urbano-industrial,
implementando profundas transformações sociais, alterando o “status
quo” da mulher, aumentando e diversificando a classe média, formada
prioritariamente por pessoas ligadas ao processo produtivo. Tais
pessoas buscam o mesmo modelo de escola da elite, visando a
conquista de melhores posições na estrutura social. Em conseqüência,
a política educacional não busca ajustar a organização escolar à
nova e heterogênea clientela, acarretando altos índices de evasão e
repetência.
Com o fim das
oligarquias e o esvaziamento do regionalismo, o Estado passa a ter
ação mais intervencionista em todos os setores, inclusive na
organização do ensino em todo o território nacional, criando o
Ministério de Educação e Saúde Pública, em 1930, e, em 1931, o
Conselho Nacional de Educação, órgão consultivo destinado a
assessorar o ministro Francisco Campos, que promoveu a reforma do
ensino secundário (Decreto nº 19.890, de 18/04/31), dando a todos os
estabelecimentos dessa modalidade a oportunidade de se equipararem
ao Colégio Federal Pedro II, superando definitivamente os exames
parcelados, estabelecendo currículo seriado, freqüência obrigatória,
divisão do curso em dois ciclos e ampliação do mesmo para sete anos.
Em 1961, a lei
4024 (Lei de Diretrizes e Bases) e em 1971, a lei 5692, começam a
criar um perfil nacional para a educação estimulando a organização
de currículos, planejamento e autonomia das escolas.
E mais
proximamente,em 1988, com a Constituição Cidadã, inicia-se uma nova
etapa, caracterizada pela reorganização do ensino em bases mais
democráticas, que culmina , em 1996, com a aprovação da Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 9394, a qual cria
condições para a institucionalização dos Parâmetros Curriculares
Nacionais, visando a organizar e direcionar o Plano Nacional de
Educação.
Na verdade, desde
o início, a política educacional demonstra que a aprendizagem,
conhecimento, crescimento do indivíduo estão sempre ancorados no que
o Estado deseja e impõe. Assim, o poder prevalece e a educação fica
em segundo plano.
Considerações Finais
Se a educação
jesuítica, confessional e catequizadora foi a única existente no
Brasil durante os dois primeiros séculos de colonização exploradora,
os avanços em termos de diferentes linhas pedagógicas não mudou
significativamente a situação da política educacional brasileira,
que continua subordinada aos interesses daqueles que a estabelecem.
Um real aperfeiçoamento do sistema educacional brasileiro está
condicionado a alternativas da política financeira no setor, ou
seja, se houver um aumento real de investimentos, conseqüentemente,
se apressará a implantação do novo sistema de ensino; caso contrário
se persistirá no mesmo ritmo financeiro e a implantação se
prolongará, mantendo a clássica desproporção “.entre o que se espera
da educação e o que a ela se oferece.”
Há, na realidade,
uma grande diferença entre a teoria e a prática.Na letra da lei está
presente a igualdade de oportunidades a todos, indistintamente, mas
no dia-a-dia percebe-se a desigualdade no ensino e a falta de
acesso, de uma grande camada da população, a uma educação com a
qualidade prevista nos instrumentos legais. Como na época da
Companhia de Jesus ou na Era Pombalina, para citar apenas os
períodos iniciais, faltam profissionais realmente compromissados com
a missão de educar; faltam investimentos/recursos financeiros
internos e externos, públicos e privados para fazer frente às
necessidades da educação nacional; falta a opção de toda a sociedade
pela educação pública de qualidade, pois a partir de tal opção as
reivindicações seriam mais claras e dirigidas.
Podemos observar,
durante toda a história da educação brasileira, os jogos de
interesse: o ensino oferecido pelos jesuítas visava prioritariamente
o fortalecimento da igreja católica; com a Independência,
privilegiou-se ainda mais a classe alta que comandava a nação.
Podemos dizer que no Estado Novo o ensino era enfatizado como uma
forma de justificar o governo, fato que também ocorreu durante a
ditadura militar, agravado pelas medidas adotadas pelo tecnicismo,
destacando-se que, com a ditadura militar no poder, o ensino nas
escolas estimulava a transformação de alunos em patriotas, visando o
desenvolvimento do país. A própria querela anterior à promulgação da
atual LDBEN comprova tal situação.
Assim, apesar do
transcurso histórico destes 500 anos, ainda há muito a evoluir nas
questões educacionais brasileiras, que mantêm inconsistência entre a
legislação (os ideais registrados nas leis) e a prática (o contexto
real). As inovações e reformulações não melhoraram na proporção
esperada a qualidade do ensino em todo o território nacional; o
ensino básico ainda não recebeu o tratamento desejado/adequado com
relação à aplicação das verbas da educação.
“Considerando que
a maior fonte de recursos internos é consignada à educação por meio
dos orçamentos, a necessidade de elaborá-los corretamente é
imprescindível, pois da sua execução, controle e avaliação depende a
manutenção e o desenvolvimento do ensino público em suas diferentes
esferas e também em parte, do ensino ministrado pelas entidades
privadas, já que parte dos recursos consignados no orçamento da
União é redistribuída para Estados, Municípios e entidades
não-públicas e não-estatais (escolas confessionais, filantrópicas e
comunitárias)”.
Considerando a
sistemática orçamentária e, também, que os impostos existem para
custear serviços gerais, sendo a educação um desses serviços, bem
como a Lei Federal nº 9394, de 20.12.1996, que estabelece Diretrizes
e Bases da Educação Nacional, e definiu o que são e o que não são
despesas de manutenção e desenvolvimento de ensino, deveria haver um
esforço entre Governos Federal, Estadual e Municipal para a alocação
de recursos necessários a todos os níveis de ensino, com foco no
desenvolvimento profissional de docentes, que é componente central
de todo processo de elaboração de conhecimento.
Sendo a educação
uma necessidade para todos, sem distinção de raça, credo, classe
social ou gênero, para que a totalidade da população seja
efetivamente atendida são necessárias ações diversas e de diferentes
instituições no sentido da mobilização político- social e na
ressignificação dos conteúdos curriculares, para que os mesmos
possam fomentar o desenvolvimento de novas mentalidades e mobilizar
todos os atores envolvidos numa proposta reflexiva sobre as ações
educativas e seus resultados (avaliação). Na realidade a instituição
escolar deveria ser um equipamento determinante, com condições de
indicar e estabelecer o modelo socioeconômico ao invés de ser
definida por ele.
Na verdade, o
modelo de sociedade, de desenvolvimento adotado, concentrador de
renda, segregacionista, baseado no acúmulo de capital das elites,
acabou por influenciar o modelo de ensino e de educação do país. E a
educação não tem conseguido influenciar a sociedade como um todo no
sentido de transformá-la, pois está condicionada a manter o “status
quo”. Nesse contexto, os planos de educação foram vários e diversas
foram as iniciativas colocadas à prova como resultado de esforços de
educadores como Francisco Campos, Anísio Teixeira e Darci Ribeiro.
No entanto, as políticas implementadas por sucessivos governos, em
diferentes esferas de poder, não conseguiram romper com o paradigma
da sociedade que vem se reproduzindo ao longo das décadas.
Pode-se constatar
que nenhuma reforma ou lei conseguiu alcançar totalmente os
verdadeiros fins e objetivos da educação. Esses objetivos
transformam-se dinamicamente, sobretudo nos dia atuais, mediante as
significativas mudanças que estão acontecendo no mundo contemporâneo
e que caracterizam esta sociedade do conhecimento e da informação
que determina novas demandas para o sistema educacional e pressiona
a educação a assumir novos papéis, como por exemplo o de inclusão.
Embora este seja
um papel ligado à igualdade e liberdade, a educação acaba por
ocupar-se de questões que, mediante as carências da sociedade, cada
vez mais ampliam suas responsabilidades para além do ensino
acadêmico. E sem a contrapartida da formação inicial e continuada
dos professores, nem a valorização da carreira do magistério e da
função docente.
Bibliografia:
Estrutura e Funcionamento da Educação Básica. São Paulo:
Pioneira Tomson Learning, 2004. 2ª edição atualizada. Vários
autores (Meneses, João Gualberto de Carvalho e outros).
História da
Educação. São Paulo: Moderna, 1997. 2ª edição revista e
atualizada. Aranha, Maria Lúcia de Arruda.
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Joana
Maria Rodrigues Di Santo
é Psicopedagoga experiente, com atuação
significativa em Psicopedagogia Institucional, Supervisora aposentada do
Município de São Paulo, mestre em Educação, Professora
da Universidade Santana, profere palestras e assessora diversas escolas. |
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