
A família,
durante muito tempo, nem foi objeto de estudos, no entanto é na
instituição familiar que vivenciamos a primeira forma de amor com
que se tem contato na vida. É nela que nos humanizamos. Se
valorizarmos esse relacionamento e esse sentimento, vamos
transmiti-los aos nossos filhos.
No entanto, a
instituição família tem recebido pouco investimento das pessoas, até
pela falta de sentido que a reveste nos dias de hoje, em que o
consumismo reina soberano e até as leis ajudam na sua fragmentação.
A instituição social mais tem colaborado na extinção do que na
promoção da família.
Até os anos
1960,
casar,
criar filhos era um projeto de vida; agora, tal projeto ficou
relegado a um plano secundário e, praticamente, perdeu o sentido,
como perderam o sentido os valores a longo prazo. A humanidade como
um todo está perdendo o sentido propriamente humano da afetividade e
compromisso com o conjunto para a individualidade, o consumismo, a
solidão.
Numa breve
retrospectiva histórica, vemos que, nos anos 1960, a política
autoritária, não apenas do Brasil, mas de muitas partes do mundo,
fez com que os jovens se revoltassem contra todo poder instituído,
inclusive o patriarcal. Queriam quebrar barreiras e a família foi a
primeira delas, a mais acessível naquele momento de amor livre, de
“revolução branca” contra as amarras institucionais.
A família
patriarcal, com o pai dando todas as ordens, já não é preponderante,
inclusive porque nas favelas, principalmente, há falta de homens de
14 a 25 anos, que são mortos de maneira violenta (conforme pesquisas
amplamente divulgadas), fazendo com que a mulher assuma as duas
funções: paterna e materna. Nesse sentido, tratar as famílias de
hoje da mesma forma que as de outrora, exigindo delas as mesmas
responsabilidades e atribuições de então seria agir diacronicamente,
sem sintonia com a realidade atual. “A ausência da figura paterna é
muito freqüente e está associada à falta de limites e ao
desenvolvimento de padrões alterados de conduta. A função paterna
será associada, muitas vezes, à figura de um delinqüente
`poderoso´”(Outeiral, 2005, p.29)
Acrescenta-se
a tal situação que, com a tecnologia altamente desenvolvida a que
temos acesso nos dias de hoje, tudo fica bonito e veloz, mas, dentro
de casa, onde estão os sentimentos? Onde está o espaço do diálogo
entre os familiares? A grande chave do relacionamento familiar é
poder amar de verdade e converter isso em ação. Para tanto há que se
reservar um tempo específico. E, na atualidade, tudo indica que tal
ação não esteja ocorrendo a contento. Nossa sociedade de tantas
contradições está promovendo muito mais a aproximação e intercâmbio
entre projetos e culturas diferentes do que entre os membros de uma
mesma família e, também, do que entre as famílias e as equipes das
escolas que seus filhos freqüentam.
É certo que os
papéis da família e da escola, antes prioritariamente repressores,
modificaram-se ao longo das últimas décadas. Uma das principais
diferenças refere-se à transmissão do conhecimento, pois
antigamente, essa transmissão dava-se apenas na escola, a agência
por excelência destinada à transmissão dos conhecimentos acumulados
pela sociedade. Os valores e padrões de comportamento eram
ensinados e cultivados em casa.
Atualmente, a
família tem passado para a escola a responsabilidade de instruir e
educar seus filhos e espera que os professores transmitam valores
morais, princípios éticos e padrões de comportamento, desde boas
maneiras até hábitos de higiene pessoal. Justificam alegando que
trabalham cada vez mais, não dispondo de tempo para cuidar dos
filhos. Além disso, acreditam que educar em sentido amplo é função
da escola. E, contraditoriamente, as famílias, sobretudo as
desprivilegiadas, não valorizam a escola e o estudo, que antigamente
era visto como um meio de ascensão social.
A escola, por
sua vez, afirma que o êxito do processo educacional depende, e
muito, da atuação e participação da família, que deve estar atenta a
todos os aspectos do desenvolvimento do educando. Reclama bastante
da responsabilidade pela formação ampla dos alunos que os pais
transferiram para ela, e alega que isto a desviou da função precípua
de transmitir os conteúdos curriculares, sobretudo de natureza
cognitiva. Com isso, ao invés de ter as famílias como aliadas, acaba
afastando-as ainda mais do ambiente escolar. E todos perdem!
Há que se
considerar, ainda, os casos de separação do casal, em que as
crianças são colocadas diretamente no embate e sofrem muito mais que
os pais, que deixam de ser marido e mulher, mas continuam pai e mãe
das crianças. Quando já estava presente um relacionamento de
confiança família-escola, e esta acolhe o aluno de maneira
satisfatória, os sentimentos de abandono e medo do futuro diminuem.
Em geral, tais pessoas conseguem comunicar-se melhor com as próprias
oportunidades que o mundo oferece e geralmente tiveram o privilégio
do estímulo familiar, impulsionando e apontando o compromisso com a
dignidade, a possibilidade de conquistar os próprios sonhos,
alicerçando condições para que as pessoas acreditem em si mesmas e
ajam com vistas ao sucesso.
Já no caso das
famílias que têm se envolvido com a educação dos filhos enquanto
cobrança, principalmente da promoção de uma série para outra, e
também de comportamento e interação, colocando em plano secundário a
motivação, o prazer de freqüentar a escola e de aprender, os
problemas se agravam. Como esperar alunos estimulados e envolvidos
com o processo de ensino-aprendizagem se a cobrança de resultados é
excessiva e o medo de não corresponder às expectativas imobiliza?
Como as
demais instituições sociais, a família e a escola, passam por
mudanças que redefinem sua estrutura, seu significado e o seu
papel na sociedade. É o que tem acontecido nos dias de hoje, em
função de diversos fatores, sobretudo, a emancipação feminina. Com
isso, os papéis da escola foram ampliados para dar conta das novas
demandas da família e da sociedade. Esse é um fato que deve,
necessariamente, ser levado em consideração quando se trabalha com a
escola. Negá-lo é agir fora da realidade e não obter resultados
satisfatórios.
É certo que
cada segmento apresenta reclamações e expectativas em relação ao
outro; os professores acham que os pais devem estabelecer limites e
ensinar a seus filhos os princípios básicos de respeito aos
semelhantes, boas maneiras, hábitos de alimentação e higiene
pessoal, etc. Por sua vez, os pais se recusam a comparecer à escola
para ouvir sermões e serem instados a criar situações que
possibilitem a aprendizagem de seus filhos, alegando que a função de
ensinar conteúdos, criar situações de aprendizagem é da escola, dos
professores.
Se num
primeiro momento os professores reclamaram e rejeitaram a função
mais ampla de transmitir valores morais, princípios éticos e padrões
de comportamento, desde boas maneiras até hábitos de higiene pessoal
e alimentação, como falamos anteriormente, hoje já não estão tão
arredios em participar de tais atividades e, também, atender a esses
pais, ouvindo-os, dialogando com eles e, dessa forma, colaborando
para a sua formação e de seus filhos.
As escolas,
por sua vez, estão abrindo espaços para a participação das famílias,
a ponto de, hoje, família e escola serem co-autoras das decisões
administrativas e pedagógicas, o que acaba favorecendo e facilitando
a educação dos estudantes. As faculdades de Pedagogia e os cursos de
licenciatura vêm debatendo a necessidade de ambas caminharem juntas,
se responsabilizando mutuamente pela formação dos alunos. Estão
discutindo entre seus pares que, para haver parceria e composição de
tarefas, é preciso ter clareza do que cabe a cada uma das
instituições. A escola deve compreender que a família mudou e é com
essa família que deve trabalhar. A escola precisa ser o espaço de
formação/preparação das novas gerações. Os professores precisam
aproximar-se de seus alunos tendo o apoio constante da família.
Valorizar a
heterogeneidade em lugar da ambicionada homogeneidade perseguida
pela escola tradicional, a universalização do ensino, evitando a
discriminação e o abandono, o processo e não apenas o produto do
conhecimento, o respeito à diferença, investindo na educação
inclusiva, o papel do professor como mediador do processo, bem como
a necessidade de constituir junto aos estudantes valores e conceitos
para a vida harmoniosa e plena em cidadania, são tarefas
relativamente recentes e bastante complexas a serem assumidas por
todos os envolvidos no trabalho escolar.
Finalmente,
na relação família/educadores, um sujeito sempre espera algo do
outro. E para que isto de fato ocorra é preciso que sejamos capazes
de construir de modo coletivo uma relação de diálogo mútuo, onde
cada parte envolvida tenha o seu momento de fala, onde exista uma
efetiva troca de saberes. A construção dessa relação implica em uma
capacidade de comunicação que exige a compreensão da mensagem que o
outro quer transmitir, e para tanto, se faz necessário, a
competência e o desejo de escutar o que está sendo expresso, bem
como a flexibilidade para apreender idéias e valores que podem ser
diferentes dos nossos.
Por parte
da escola: respeito pelos conhecimentos e valores que as
famílias possuem, evitando qualquer tipo de preconceito e
favorecendo a participação dos componentes da instituição familiar
em diferentes oportunidades, estimulando o diálogo com os pais e
possibilitando-lhes, também, obter um ganho enquanto sujeitos
interessados em evoluir e se aperfeiçoar e como seres humanos e
cidadãos compromissados com a transformação da realidade.
Joana
Maria R. Di Santo
é Psicopedagoga experiente, com atuação
significativa em Psicopedagogia Institucional, Supervisora aposentada do
Município de São Paulo, mestre em Educação, Professora
do Curso de Pedagogia da Uni'Santana, profere palestras e assessora diversas escolas.

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