| RESUMO:
O
ARTIGO OBJETIVA REFLETIR A QUESTÃO DA GESTÃO ESCOLAR DEMOCRÁTICA
INSERIDA EM UMA ORGANIZAÇÃO EDUCACIONAL AINDA MANTENDO
CARACTERÍSTICAS DE PODER E AUTORITARISMO PAUTADAS SOB A ÓTICA
EMPRESARIAL E DE CONTROLE, NÃO CUMPRINDO ASSIM, COM PRINCÍPIOS
DEMOCRÁTICOS.
PALAVRAS-CHAVE:
democracia, autoritarismo, gestão, escola pública
INTRODUÇÃO
A
escola, pelo que observamos, nem sempre, ou diria, raramente, é
pautada pelo princípio de que deva ser governada por interesses dos
que estão envolvidos. Será que existe, na verdade, interesse em uma
gestão democrática? Qual seria então o papel da democracia na
escola?
Dentro de um contexto da rede pública, Observa-se pelo que tenho
notado, que o gestor ou diretor escolar assume uma nova centralidade
organizacional, sendo o que deve prestar contas pelos
resultados educacionais conseguidos, transformando-se no
principal responsável pela efetiva concretização de metas e
objetivos, quase sempre centrais e hierarquicamente definidos. Neste
sentido, esta concepção de gestão introduz uma nova nuance
na configuração das relações de poder e autoridade nos sistemas
educativos. Trata-se de uma autoridade cuja legitimidade advém agora
da revalorização neoliberal do “direito a gerir” — direito este, por
sua vez, apresentado como altamente convergente com a idéia
neoconservadora que vê a gestão ao serviço de uma nova ordem
social, política e econômica, com formas de avaliação que facilitam
a comparação e o controle de resultados, embora no primeiro modelo
se exija sempre a sua divulgação pública e no outro essa prestação
de contas se faça diretamente às hierarquias de topo da
administração.
SUTIL PODER DESMOBILIZADOR
Democracia refere-se à “forma de governo” ou a “governo
da maioria”; então, torna-se claro, que as relações cotidianas no
âmbito escolar, deveriam explicitar esta linha de ação, porém
sabendo-se que toda gestão, pressupõe uma AÇÃO e a palavra ação é
justamente o oposto da inércia, do comodismo, espera-se do gestor
educacional atitudes compromissadas de construir, de fazer e o que
observa-se são atitudes autoritárias, seguindo diria, uma linha
horizontal, onde os princípios democráticos não se inserem; visto
que a escola deve ser vista como um lugar privilegiado para a
construção do conhecimento e como eixo base das relações humanas,
viabilizando não só a produção de conhecimentos como também de
atitudes necessárias à inserção neste novo mundo com exigências cada
vez maiores de cidadãos participativos e criativos,
Seria para muitos, um exagero em considerar a
gestão escolar na esfera pública, autoritária. Porém, partindo-se
que o autoritarismo está ligado a práticas antidemocráticas e
anti-sociais e estas, permeiam sutilmente a gestão das escolas
públicas, creio sim, que este termo não estaria sendo utilizado
aqui, neste artigo, de forma errada, a afrontar a administração
pública.
A questão do controle, do poder aprisionado nas
mãos de diretores e superiores ainda é prática constante.
Administrar escolas é tarefa árdua, porém, dentro dos moldes do
autoritarismo, legitima-se então, traumas antigos em que a sociedade
se mostra ainda fragilizada, com medo, sem liberdade de se expressar
e covardemente cedendo lugar às ideologias.
Percebe-se na gestão educacional, uma
administração voltada com ações na verdade, reprodutoras de uma
sociedade infelizmente alienada e passiva, ditando regras e não
estabelecendo uma relação dialógica ideal com os envolvidos,
estabelecendo meramente uma transmissão de ordens, alegando na
maioria das vezes cumprirem determinações que lhes vem de cima não
proporcionando assim, momentos para discussão..”... Todas as
iniciativas de política educacional, apesar de sua aparente
autonomia, têm um ponto em comum: o empenho em reduzir custos,
encargos e investimentos públicos, buscando senão transferi-los e/ou
dividi-los, com a iniciativa privada e organizações não
governamentais”(ROSSI, 2001)
A participação é muitas vezes, limitada,
controlada e puramente formal. A estrutura técnica se sobrepõe aos
indivíduos envolvidos e o poder e a autoridade(leia-se: autoridade
: como não prática social- sem visão crítica) se instalam de forma
sutil , com obediência, dentro de uma perspectiva clássica de
administração que repudia a participação, o compartilhar idéias, a
liberdade para expressar-se , a deliberação de decisões e o
respeito às iniciativas. A questão do controle ainda é muito forte
e mesmo sabendo que o poder e a autoridade são necessários em muitos
momentos dentro de várias organizações, intermediando e viabilizando
ações criativas para melhora, observa-se ainda um controle rígido,
um descompromisso e muito pouca participação da comunidade escolar
como um todo (professores, pais, funcionários, lideranças de bairro)
no processo da gestão escolar, causando assim automaticamente uma
acomodação, em que as pessoas não se mobilizam para nada e ficam
alheias, esperando sempre serem orientadas ou então aceitando
passivamente tudo que venha das “autoridades competentes”, sem quer
que seja , nenhum questionamento crítico construtivo.
As atuais discussões sobre gestão escolar têm como dimensão e
enfoque de atuação: a mobilização, a organização e a articulação das
condições materiais e humanas para garantir o avanço dos processos
socioeducacionais, priorizando o conhecimento e as relações internas
e externas da escola.
“...Sou um homem de causas .Vivi sempre pregando,
lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem.
Elas são muitas, demais: a salvação dos
índios, a escolarização das crianças, a reforma
agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária.
Na verdade, somei mais fracassos
que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa.
Horrível
seria Ter ficado ao lado dos que
venceram nessas batalhas.” (Darcy
Ribeiro).
ESCOLA OU EMPRESA?
Nota-se com freqüência que esta suposta “gestão”, se mascara como
sendo democrática e acaba que atendendo de forma a não priorizar
princípios básicos democráticos, ocasionando o aumento da
produtividade, a massificação do indivíduo, afastando não só o
caráter da coletividade , como também o diálogo e o processo
decisório.
Esta tendência, gerencialista, que adquire certas especificidades
quando adotada em instituições e serviços do Estado tem sido
designada de nova gestão pública. Gestão esta com requintes de
modelo empresarial, onde a escola se coloca a serviço da empresa,
com metas a cumprir, atendendo “clientela”, sendo o aluno na
verdade, um mero número.
O uso da autoridade dentro de uma gestão educacional, deve ter o
cuidado de não se estender a um modelo vertical, devendo
essencialmente privilegiar as relações horizontais entre seus
integrantes, mediando as discussões, as trocas de idéias,
legitimando assim, verdadeiras ações democráticas.
Sabe-se o quanto somos facilmente manipulados, por vivermos
em uma sociedade de consumo, porém não devemos esquecer que as
organizações educacionais são melhores situadas que outras, para
iniciar mudanças , começando no âmbito de suas relações internas,
no trabalho educativo e logicamente na qualidade da gestão que
viabiliza este trabalho.
Eliminar as
desconfianças, incentivar a criatividade, a ousadia, a solidariedade
e a boa convivência, são elementos básicos fundamentais ,que com
certeza estruturam uma gestão democrática. É claro que estes
princípios não se desvinculam da análise de um contexto político,
social, ideológico e cultural num sentido amplo, mas mesmo assim,
os principais atores deste espetáculo, são os educadores, peças
chave na construção de uma gestão educacional digna e humanitária,
com potencial de ação, motivadora e inovadora.
CONCLUSÃO
É necessário
que o gestor garanta a participação das comunidades interna e
externa, a fim de que assumam o papel de co-responsáveis na
construção de um projeto pedagógico que vise ensino de qualidade
para a atual clientela da escola pública e para que isso aconteça é
preciso preparar um novo diretor, libertando-o de suas marcas de
autoritarismo redefinindo seu perfil, desenvolvendo características
de coordenador, colaborador e de educador, para que consigamos
implementar um processo de planejamento participativo de
representantes dos segmentos da comunidade interna (diretor,
vice-diretor, especialistas, professores, alunos e funcionários) e
externa (pais, órgãos/instituições, sociedade civil organizada,
etc.), com um conselho não só consultivo, como também deliberativo
(que não se vê há tempos).
“A
esses que sempre se beneficiaram do autoritarismo que gerou a
exclusão,
do centralismo que gerou a alienação, da falta de transparência que
gerou a
corrupção e da irresponsabilidade que produziu a ignorância; temos
que dar
um recado: [...] Não abriremos mão de construirmos o que já
conquistamos
e não nos acomodaremos ante o sonho de sermos os próprios obreiros
e
gestores do nosso mundo.”(FILHO, José
Iran Barbosa,professor da Rede
pública Estadual
e Municipal de Aracaju e presidente do SINTESE).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
QUEIROZ, M. T. S. Desafios à educação num mundo
globalizado.
In:RBPAE v. 19, nº 1, jan/jun, 2003.
PARO, V. H. Gestão Democrática da escola pública.
São Paulo: Ática, 2001.
PEDROZA, R. L. S., ALMEIDA, S. F. C. In: psicologia e
Psicanálise (Re)pensando o sujeito na Educação. DOXA –Revista
paulista de psicologia e Educação,1994
SANTOS FILHO, J. C.dos. Democracia Institucional na
escola: discussão teórica. In: Rev. de administração
Educacional, vol.1 nº 2. Jan/jun/98, Universidade Federal de
Pernambuco. Recife, 1998.
*Valéria Ribas de Oliveira Assis:
é
Pedagoga, graduada pela UNICAMP, publicitária e trabalha com
Educação de Jovens e Adultos em Campinas. Faz parte de um Projeto
chamado Letramento e Cidadania, que trata da inclusão das
diversidades. É professora da FUMEC- Fundação Municipal de Educação
Comunitária. |