A IDADE DO SABER

   Conhecimento e competência fazem parte de processo coletivo e contínuo

* de Mário Sérgio Cortella

fonte: Artigo publicado pela Revista Educação de abril de 2002.

 

O mundo está mudando, bradam muitos, ainda atordoados pelas dificuldades que a Escola encontra hoje para dar conta do que a ela atribuem. A questão central não é a mudança em si, mas, o modo como nos preparamos para enfrentá-la ou aproveitá-la. Está na hora de praticarmos com mais afinco o que costumamos dizer aos alunos e à alunas: aprender sempre é o que mais impede que nos tornemos prisioneiros de situações que, por serem inéditas, não saberíamos enfrentar. Temos um "defeito" natural que acaba por se tornar nossa maior vantagem: não nascemos sabendo!

Por isso, aqueles ou aquelas entre nós que imaginarem que nada mais precisam aprender ou, pior ainda, não têm mais idade para aprender, estão-se enclausurando dentro de um limite que desumaniza e, ao mesmo tempo, torna frágil a principal habilidade humana: a audácia de escapar daquilo que parece não ter saída. Afinal, do nascimento ao final da existência individual, aprendemos (e ensinamos) sem parar; o que caracteriza um ser humano é a capacidade de inventar, criar, inovar e isso é resultado do fato de não nascermos já prontos e acabados.

Daí, ser necessário rever nossa concepção sobre a fonte da Competência. Ora, nos tempos atuais, ela é mais ainda uma condição coletiva. Até algum tempo atrás, a competência era entendida como algo individual; agora, tendo em vista a interdependência existente e a profusão de novos saberes em uma velocidade cada vez maior, é preciso pensar que, em um grupo, equipe ou instituição, se alguém perde ou diminui a sua competência, todos no grupo a perdem ou diminuem.

Nesse sentido, é urgente que haja na organização do trabalho uma permeabilidade de educação continuada, em que as pessoas estejam se educando permanente e reciprocamente. Portanto, é necessária a criação de um ambiente educativo, um ambiente pedagógico, no qual caiba a possibilidade de as pessoas se ensinarem e aprenderem ao mesmo tempo umas com as outras. Nessas organizações, devem imperar dois princípios: "quem sabe, reparte" e "quem não sabe, procura".

Tudo isso nos coloca um desafio: a capacidade de sermos mais flexíveis. Porém, flexibilidade é diferente de volubilidade. Ser flexível significa ser capaz de, sem alterar seus princípios e valores básicos, enxergar e viver a realidade de outros modos; por sua vez, ser volúvel é mudar de posição ou opinião sem apoiar-se em convicções e simplesmente deixar-se levar pelas circunstâncias imediatas. A flexibilidade se caracteriza pela capacidade de romper algumas amarras e preconceitos que tornam alguém refém de uma condição que, parecendo segura e confortável, pode ser indicadora de indigência e fragilidade intelectual.

Vale sempre lembrar a frase do fictício detetive chinês Charlie Chan: "Mente humana é como pára-quedas; funciona melhor aberta"...
Mario Sergio Cortella - Professor de Pós-Graduação em Educação (Currículo) da PUC/SP.

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atualizado/setembro/2007