|
Alguns pais
sentem-se culpados por colocarem os filhos muito cedo na escola. No
entanto, nos dias de hoje, em que as famílias são cada vez menores,
o que dificulta as relações das crianças com outras da mesma idade,
o fato de muitas delas ingressarem na escola nos primeiros anos de
vida pode representar um ganho, favorecendo o desenvolvimento
infantil.
Para tanto, é
fundamental a consideração de diversos fatores, a começar pela
escolha da escola, que deve ser o resultado de ampla pesquisa
realizada pelos pais, atentos aos padrões de atitudes e
comportamentos valorizados pela equipe escolar; se estão em sintonia
com seus próprios valores, ou seja, se a equipe escolar está
investindo no desenvolvimento processual de habilidades, atitudes,
conhecimentos compatíveis com os valorizados pela família. Se está
preocupada com a constituição subjetiva da criança; com suas
emoções, sensibilidade, imaginação e sonhos infantis, partindo de
tal conjunto para estimular a capacidade de lidar, de modo operativo
e construtivo, com os desafios do mundo.
Além disso, é
indispensável que os pais acompanhem a escolarização da criança,
sobretudo quando há ingresso prematuro na instituição escolar, pois
os resultados dependem, sobretudo, da qualidade desse acompanhamento
escolar e familiar realizado, ou seja, pais e professores bem
integrados podem ajudar a criança a se desenvolver melhor em todos
os aspectos: sociais, cognitivos, emocionais, afetivos.
E o que significa ingresso prematuro na instituição escolar?
Se nos
reportarmos ao sistema de ensino brasileiro veremos que é recente o
ingresso da criança à escola antes dos sete anos de idade. e isso
está ligado ao papel da mulher na família: era ela quem cuidava dos
filhos até a idade em que eles podiam ser matriculados na primeira
série da antiga escola primária. Antes disso, apenas alguns Parques
Infantis Municipais e raras escolas particulares. Isso nos grandes
centros urbanos, como a cidade de São Paulo, onde, na década de
1950, por exemplo, não havia vaga suficiente, em escola pública,
para todas as crianças com sete anos de idade. Mesmo com a criação
da Rede Municipal de Ensino, ainda nessa década, o problema
persistiu, embora em grau mais moderado e, até hoje, ainda se
discute a falta de vagas.
Hoje,
raras são as mães que se dedicam apenas ao lar. A esmagadora maioria
integra-se ao mercado de trabalho, formal ou, sobretudo informal,
necessitando de instituições que se encarreguem dos cuidados com
seu(s) filho(s), desde creches municipais ou conveniadas, até
instituições particulares destinadas a todas as classes sociais. E a
necessidade se dá a partir do terceiro mês de vida da criança!
Essa é uma
realidade que está posta e que exige das autoridades, intervenções
sérias, não apenas quanto ao número de vagas, mas, sobretudo, quanto
ao ingresso de profissionais capacitados, bem como com seu
desenvolvimento em serviço, pois, da qualidade do trabalho realizado
depende o bom desempenho das novas gerações que aí são atendidas.
Nesse sentido,
o ingresso prematuro na instituição pode dar-se aos três meses de
vida. E é o que acontece com muita freqüência, haja vista as
constantes mobilizações das comunidades por mais vagas em creches, e
também em escolas de educação infantil.
Isso é bom? É ruim?
Depende. Cada
caso é um caso; não dá para generalizar. O que está em jogo, além
dos aspectos físicos, é a constituição subjetiva da criança, que
precisa de cuidados especiais por parte dos profissionais que com
ela interagem na creche e, também, das figuras familiares, sobretudo
da mãe, que deve estar atenta acompanhando os detalhes do trabalho
realizado na instituição, com sua criança. Satisfeitas essas
exigências, o desenvolvimento infantil transcorre da maneira
desejada.
No entanto,
quando a família coloca a criança na escola, em qualquer idade, e
não faz o acompanhamento do trabalho que está sendo desenvolvido,
pode gerar em seu filho um sentimento de descaso em relação ao seu
desenvolvimento, além do surgimento de várias outras questões, que
não são objeto deste pequeno artigo.
Assim, mesmo
tendo se esmerado na escolha da escola, os pais precisam manter
contato bem próximo com os profissionais que nela atuam,
principalmente, na interação direta com a criança; marcando presença
na rotina do filho, inclusive para colocar limites.
A criança
precisa sentir-se querida, aceita, importante, sem o que poderá
rebelar-se e agredir os que estão a seu redor, começando muito cedo
a desgostar da escola e vê-la como local de disputas, competições,
conflitos.
Seja
qual for a idade com que a criança ingresse na escola, o que diz
respeito muito mais às possibilidades de organização de cada
família, a relação entre os pais e a instituição é questão que
precisa ser abordada a partir de duas instâncias: a legal e a real,
a desejável e a trajetória que ainda está sendo construída pela
escola e família.
A
fundamentação para a relação educação/escola/família como um dever
da última para com o processo de escolarização e importância de sua
presença no contexto escolar é publicamente amparada pela legislação
nacional e diretrizes do MEC aprovadas no decorrer dos anos 90, tais
como: Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8069/90), nos
artigos 4º e 55; Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei
9394/96), artigos 1º, 2º, 6º e 12; Plano Nacional de Educação
(aprovado pela Lei nº 10172/2007), que define como uma de suas
diretrizes a implantação de conselhos escolares e outras formas de
participação da comunidade escolar (composta também pela família) e
local na melhoria do funcionamento das instituições de educação e no
enriquecimento das oportunidades educativas e dos recursos
pedagógicos e, ainda, a Política Nacional de Educação Especial, que
tem como uma de suas diretrizes gerais: adotar mecanismos que
oportunizem a participação efetiva da família no desenvolvimento
global do aluno. Esta vem a ser a instância legal e desejável como
explicitaremos logo mais.
Como abordamos
anteriormente, hoje os tempos são diferentes e as expectativas de
cada segmento também, o que oportuniza a eclosão de conflitos entre
o que compete a cada um deles, olvidando por vezes, que ambos
desejam a mesma coisa: preparar os alunos/filhos para a vida, para a
cidadania.
O que temos
ainda hoje é um caminho a ser percorrido, um caminho de cooperação
que só será efetivo se os pais compreenderem que à escola não cabe
exercer a função moral da família, e se a escola promovesse ações de
conscientização junto a essas famílias para que ficasse clara a
importância do dever de cada um no desenvolvimento do aluno/filho, e
que, embora essa parceria escola e família seja essencial, cada um
desses setores deve conservar suas particularidades.
É importante
que os pais procurem agir em sintonia com a equipe docente,
relacionando-se constantemente com os profissionais para, dessa
forma, poder confiar no tratamento específico que cada professor
confere aos conteúdos desenvolvidos em sua área de atuação. Se assim
não for, para que possam reivindicar as providências necessárias e,
com maturidade, responsabilidade e equilíbrio contribuir para
restabelecer a ordem
Em
contrapartida, também os profissionais das instituições educativas
precisam se desincumbir de sua missão de passar segurança aos pais,
despertar e manter o interesse dos alunos, sentindo–se preparado e
atualizado para o desenvolvimento de suas atribuições,
posicionando-se e garantindo um intercâmbio maior entre essas duas
instituições (família e escola), cientes de que a constituição de
conhecimentos, conceitos e valores não ocorrem somente dentro da
sala de aula.
Joana
Maria Rodrigues Di Santo, Pedagoga, Psicopedagoga, Mestre em Educação,
diretora do CRE, consultora em educação.
 |