
Resumo:
O presente texto visa iniciar uma problematização acerca das
interações família-escola, buscando desconstruir preconceitos acerca
dos modelos de família na atualidade. Aponta que os papéis da
família e da escola se modificaram ao longo das últimas décadas a
ponto de, na atualidade, serem co-autoras das decisões
administrativas e pedagógicas nas unidades escolares.
Ao falarmos
sobre família e escola, nos dias de hoje, temos que levar em conta um conjunto de determinantes da nossa
realidade concreta que, cada vez mais, exige o desenvolvimento de
outros olhares, competências e habilidades para nos relacionarmos
com os demais integrantes da sociedade.
Como sujeitos em constante interação, precisamos focar a
atenção em nossos padrões de atitudes e comportamentos para, mais
consciente e criticamente, percebermos nossas ações como seres
humanos que interagem num mundo a cada dia mais imprevisível,
interdependente, desafiante, que não comporta visões unilaterais e
preconceituosas, mas valoriza como fundamental vincular
visões alternativas, desenvolvimento sistêmico, relações intra e
inter pessoais, responsabilidades, direitos e valores humanos.
Assim
sendo, falarmos sobre a família atual exige, de início, que se
registre não existir um “modelo” de família, e sim uma diversidade
de modelos familiares singulares, com identidades próprias, mas que
mantêm entre si inúmeros traços em comum, uma vez que cada
família consiste num agrupamento de pessoas unidas por laços
consangüíneos, com uma história característica, que propicia a
vivência das mais diversas situações e tem a responsabilidade básica
de proteger seus membros e prover-lhes a subsistência. O que não é
garantia de que realmente atue nesse sentido.
Aquele modelo
de família nuclear, onde o pai é o mantenedor, a mãe cuida da
harmonia da casa e os filhos são obedientes, principalmente à figura
paterna, é um modelo que, praticamente, vai sendo substituído pela
família igualitária, na qual todos têm que trabalhar. Essa é uma
conseqüência da nova estruturação social, na qual as conquistas
femininas de igualdade levaram a mulher a assumir seu espaço no
mercado de trabalho, equiparando-se ao homem, tornando a figura
paterna fragilizada e, muitas vezes, inexistente, como nos casos em
que a mulher assume a maternidade como produção independente
Conseqüentemente, grande parte das famílias atuais é
chefiada pelas mulheres. E essa é a estrutura dessas famílias.
Nessa
sociedade competitiva em que vivemos esse homem atual, que não é
mais a figura principal na família e muitas vezes não consegue
sequer alimentar sua prole, está, cada vez mais, sujeito à
desesperança, à depressão, ao alcoolismo, descambando muitas vezes
para a violência, numa tentativa de se impor junto à mulher e aos
filhos.
Nesse sentido, e frente a um conjunto de novos
e diferenciados arranjos familiares existentes em nosso meio social,
falar em "família desestruturada" como se falava um tempo atrás, não
encontra mais repercussão, pois, se antigamente havia um ideal para
identificação no sentido de existir uma família modelo,
"estruturada" e "normal", com a qual as crianças e jovens deveriam
se espelhar, hoje, provavelmente, é mais indicado, mais alentador,
que os educadores repensem e procurem compreender as famílias dos/as
seus/suas alunos/as como portadoras de semelhanças e diferenças,
sem menosprezar a relevância que os contextos social e cultural
podem ter como demarcadores de características de diversidades e não
de "faltas" e de "carências".
Então, há que se deixar de lado explicações
como as que se referem a “famílias desestruturadas”, que não trazem
qualquer benefício, seja ao aluno, seja à escola, substituindo-as
por visões inclusivas, que não comportam qualquer discriminação.
Nesse sentido, a família de cada aluno deve ser respeitada como ela
é e todos os alunos devem receber tratamento equitativo e, na medida
do possível, individualizado, que desenvolva suas potencialidades,
respeite suas peculiaridades, estimule a criatividade, a interação
com os demais.
Com as mudanças sociais decorrentes, prioritariamente, da
vida econômica altamente instável, do êxodo rural, das conquistas
tecnológicas que aumentam sobremaneira as influências externas sobre
a infância e estimulam o consumismo, a violência, a visão de mundo
descomprometida com a solidariedade,
valores morais passaram a ser transitórios, dando lugar a
novas estruturas, tanto da família quanto da escola que, por sua
vez, tende a questionar a capacidade das crianças, principalmente
daquelas que lhe dão mais trabalho, seja em termos de aprendizagem
seja em termos de disciplina, e, o que é mais grave, questiona sua
própria capacidade de educar essas crianças. Este posicionamento da
escola também modifica profundamente as relações destas famílias,
que se afastam ainda mais do ambiente escolar.
Com certeza,
os papéis da família e da escola se modificaram ao longo das últimas
décadas. Hoje, praticamente vencidas
enormes resistências de parte a parte, graças, também à legislação
específica, família e escola são co-autoras das decisões
administrativas e pedagógicas, o que acaba favorecendo e facilitando
a educação dos estudantes, principalmente daqueles que desafiam os
docentes, exigindo deles maior dedicação e capacidade de confronto e
resolução de conflitos.
As faculdades
de Pedagogia e os cursos de licenciatura vêm debatendo a necessidade
de ambas instituições (família e escola) caminharem juntas,
responsabilizando-se mutuamente pela formação dos sujeitos; formação
para a cidadania, para a vida e não apenas para passar no
vestibular. Estão discutindo entre seus pares que, para haver
parceria e composição de tarefas, é preciso ter clareza do que cabe
a cada uma das instituições. A escola deve
compreender que a família mudou e é com essa família que precisa
interagir, ocupando seu espaço de formação/preparação das novas
gerações. Os professores precisam aproximar-se de seus alunos tendo
o apoio constante da família.
A escola de hoje, de modo geral,
apresenta maior disposição em aceitar um relacionamento mais próximo
com os pais. Mas o caminho percorrido para se chegar
a tal interação não foi muito fácil, em decorrência das
transformações políticas, econômicas e sociais, da mudança de
paradigmas. As pesquisas acadêmicas apontavam a necessidade de maior
interação família-escola em prol da melhor qualidade do ensino, da
formação do aluno, no entanto havia certa resistência de ambas as
partes; um receio dos educadores de que houvesse interferência na
especificidade de seu trabalho. Um receio dos pais de não serem bem
aceitos. No entanto, principalmente devido à legislação, que garante
a participação de representantes da comunidade nos Conselhos de
Escola, tal fato, como citado anteriormente, agora é realidade,
especialmente nas escolas públicas, e vem mostrando que, quando não
há manipulação, quando há sincero desejo de colaborar para a
melhoria do ambiente escolar oferecido ao aluno (deixando de lado
vaidades e orgulhos egoístas), a permeabilidade entre o universo
familiar e o escolar é positiva.
Joana
Maria R. Di Santo
é Psicopedagoga experiente, com atuação
significativa em Psicopedagogia Institucional, Supervisora aposentada do
Município de São Paulo, mestre em Educação, Professora
do Curso de Pedagogia da Uni'Santana, profere palestras e assessora diversas escolas.
 |