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Pedagogos
e psicólogos estão de acordo em que o Jogo Infantil é uma atividade física
e mental que favorece tanto o desenvolvimento pessoal como a
sociabilidade, de forma integral e harmoniosa. A criança evolui com o jogo
e o jogo da criança vai evoluindo paralelamente ao seu desenvolvimento, ou
melhor dizendo, integrado ao seu desenvolvimento.
Independente de época, cultura e classe social, os jogos e os brinquedos
fazem parte da vida da criança, pois elas vivem num mundo de fantasia, de
encantamento, de alegria, de sonhos, onde realidade e faz-de-conta se
confundem. (Kishimoto, 1999 ).
O jogo está na gênese do
pensamento, da descoberta de si mesmo, da possibilidade de experimentar,
de criar e de transformar o mundo.
O caráter de ficção é um dos elementos constitutivos do jogo e, é um modo
de expressão de grande importância, pois também pode ser entendido como um
modo de comunicação em que a criança expressa os aspectos mais íntimos de
sua personalidade e sua tentativa de interagir com o mundo adulto.
Pelo jogo as crianças exploram os objetos que os cercam, melhoram sua
agilidade física, experimentam seus sentidos, e desenvolvem seu
pensamento. Algumas vezes o realizarão sozinhos, em outras, na companhia
de outras crianças, desenvolvendo também o comportamento em grupo. Podemos
dizer que aprendem a conhecer a si próprios, ao mundo que os rodeia e aos
demais.
Vygotsky (1987) afirma que na brincadeira “a criança se
comporta além do comportamento habitual de sua idade, além de seu
comportamento diário; no brinquedo, é como se ela fosse maior do que ela
é na realidade” (p.117). Em sua visão, a brincadeira cria uma zona de
desenvolvimento proximal favorecendo e permitindo que as ações da
criança ultrapassem o desenvolvimento real já alcançado permitindo-lhe
novas possibilidades de ação sobre o mundo.
Huizinga (1980) filósofo da história, em 1938, escreveu seu livro “HOMO
LUDENS” no qual argumenta que o jogo é uma categoria absolutamente
primária da vida, tão essencial quando o raciocínio (HOMO SAPIENS) e a
fabricação de objetos (HOMO FABER), então a denominação HOMO LUDENS, quer
dizer que o elemento lúdico está na base do surgimento e desenvolvimento
da civilização.
Huizinga define jogo como: “uma atividade voluntária exercida dentro de
certos e determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente
consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo,
acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de
ser diferente de vida cotidiana.”
O jogo da criança não é equivalente ao jogo para o
adulto, pois não é uma simples recreação, o adulto que joga
afasta-se da realidade, enquanto a criança ao brincar/jogar avança para
novas etapas de domínio do mundo que a cerca.
Também a auto-estima, uma das condições do desenvolvimento normal, tem sua
gênese na infância em processos de interação social – na família ou na
escola – que são amplamente proporcionados pelo brincar.
É de grande importância que os professores compreendam e utilizem o jogo
como um recurso privilegiado de sua intervenção educativa.
O papel do
professor
Apesar do
jogo ser uma atividade espontânea nas crianças, isso não significa que o
professor não necessite ter uma atitude ativa sobre ela, inclusive, uma
atitude de observação que lhe permitirá conhecer muito sobre as crianças
com que trabalha.
Podemos sintetizar algumas funções do professor
frente aos jogos:
Providenciar um ambiente adequado
para o jogo infantil
A
criação de espaços e tempos para os jogos é uma das tarefas mais
importantes do professor, principalmente na escola de educação infantil.
Cabe-lhe organizar os espaços de modo a permitir as diferentes formas de
jogos, de forma, por exemplo, que as crianças que estejam realizando um
jogo mais sedentário não sejam atrapalhadas por aquelas que realizam uma
atividade que exige mais mobilidade e expansão de movimentos.
Selecionar materiais adequados
O
professor precisa estar atento à idade e às necessidades de seus alunos
para selecionar e deixar à disposição materiais adequados. O material deve
ser suficiente tanto quanto à quantidade, como pela diversidade, pelo
interesse que despertam, pelo material de que são feitos. Lembrando sempre
da importância de respeitar e propiciar elementos que favoreçam a
criatividade das crianças. A sucata, é um exemplo de material que preenche
vários destes requisitos.
Permitir a repetição dos jogos
As
crianças sentem grande prazer em repetir jogos que conhecem bem. Sentem-se
seguras quando percebem que contam cada vez com mais habilidades em
responder ( ou executar) o que é esperado pelos outros; sentem-se seguras
e animadas com a nova aprendizagem.
Enriquecer e valorizar os jogos
realizados pelas crianças
Uma
observação atenta pode indicar os professor que sua participação seria
interessante para enriquecer a atividade desenvolvida, introduzindo novos
personagens ou novas situações que tornem o jogo mais rico e interessante
para as crianças, aumentando suas possibilidades de aprendizagem.
Valorizar as atividades das crianças, interessando-se por elas,
animando-as pelo esforço, evitando a competição, pois em jogos não
competitivos não existem ganhadores ou perdedores. Outro modo de estimular
a imaginação das crianças é servir de modelo, brincar junto ou contar como
brincava quando tinha a idade delas. Muitas vezes o professor, que não
percebe a seriedade e a importância dessa atividade para o desenvolvimento
da criança, ocupa-se com outras tarefas, deixando de observar atentamente
para poder refletir sobre o que as crianças estão fazendo e perceber seu
desenvolvimento, acompanhar sua evolução, suas novas aquisições, as
relações com as outras crianças, com os adultos. Para tanto, pode ser
elaborada uma planilha, um guia de observação que facilite o trabalho do
professor.
Ajudar a resolver conflitos
Durante
certos momentos dos jogos acontecem com certa freqüência pequenos
conflitos entre as crianças. A atitude mais produtiva do professor é
conseguir que as crianças procurem resolver esses conflitos,
ensinando-lhes a chegar a acordos, negociar e compartilhar.
Respeitar as preferências de cada
criança
Através
dos jogos cada criança terá a oportunidade de expressar seus interesses,
necessidades e preferências. O papel do professor será o de propiciar-lhes
novas oportunidades e novos materiais que enriqueçam seus jogos, porém,
respeitando os interesses e necessidades da criança de forma a não
forçá-la a realizar determinado jogo ou participar de um jogo coletivo.
Não reforçar papéis sexistas/e ou
outros valores do professor
"Os
brinquedos aparecem no imaginário dos professores de educação infantil
como objetos culturais portadores de valores considerados inadequados. Por
exemplo, bonecas Barbies devem ser evitadas por carregar valores
americanos. Bonequinhos guerreiros , tanques, armamentos e outros
brinquedos, com formas bélicas, recebem o mesmo tratamento por estarem
associados à reprodução da violência. Brincadeiras de casinhas com bonecas
devem restringir-se ao público feminino. Brincadeiras motoras, com
carrinhos e objetos móveis, pertencem mais ao domínio masculino. Crianças
pobres podem receber qualquer tipo de brinquedo, porque não dispõem de
nada. A pobreza justifica o brincar desprovido de materiais e a
brincadeira supervisionada. Escolas representadas por diversas etnias
começam a introduzir festas folclóricas, com danças, comidas típicas, como
se a multiculturalidade pudesse ser resumida e compreendida como algo
turístico, pelo seu lado exótico, apenas por festas e exposições de
objetos típicos, não contemplando os elementos que caracterizam a
identidade de cada povo. Enfim, são tais atitudes que demonstram
preconcepções relacionadas à classe social, ao gênero e à etnia, e tentam
justificar propostas relacionadas às brincadeiras introduzidas em nossas
instituições de educação infantil". (Kishimoto, 1999)
Tanto
meninos quanto meninas expressam através de seus jogos grande parte dos
usos e relações sociais que conhecem. O jogo é, por sinal, um meio
extraordinário para a formação da identidade e a diferenciação pessoal.
Entretanto, os professores precisam ser bastante cuidadosos e sensíveis
para não reproduzir através de seus valores, os papéis sexistas
tradicionais. Neste sentido possibilitar que meninos e meninas joguem
juntos, evitando expressões como "os meninos não jogam...." ou, "isto não
é para uma menina...", estimulando e favorecendo o crescimento e a
identidade tanto de meninos como meninas, sem reforçar esteriótipos
sociais, ainda existentes em muitas regiões do país ou arraigados em
certas culturas.
Bibliografia:
HUIZINGA,J.
“Homo Ludens – O Jogo como elemento da Cultura”
Ed. Perspectiva
KISHIMOTO, Tizuko Morchida (org.). Jogo, brinquedo, brincadeira e a
educação. 3ª edição, SP: Cortez, 1999.
VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins
Fontes, 1987.
"Brincar não é perder tempo, é ganhá-lo. É
triste ter meninos sem escola, mas mais triste é vê-los enfileirados em
salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação humana".
Carlos Drummond de Andrade
"Através de uma brincadeira de criança,
podemos compreender como ela vê e constrói o mundo- o que ela gostaria que
ele fosse, quais suas preocupações e que problemas a estão assediando.
Pela brincadeira, ela expressa o que teria dificuldade de colocar em
palavras. Nenhuma criança brinca só para passar o tempo, sua escolha é
motivada por processos íntimos, desejos, problemas, ansiedades. O que está
acontecendo com a mente da criança determina suas atividades lúdicas;
brincar é sua linguagem secreta, que devemos respeitar mesmo se não a
entendemos". Bruno Bettelheim
" Brincar é um componente crucial do
desenvolvimento, pois, através do brincar a criança é capaz de tornar
manejáveis e compreensíveis os aspectos esmagadores e desorientadores do
mundo. Na verdade, o brincar é um parceiro insubstituível do
desenvolvimento, seu principal motor. Em seu brincar, a criança pode
experimentar comportamentos, ações e percepções sem medo de represálias ou
fracasso, tornando-se assim mais bem preparada para quando o seu
comportamento 'contar'".
Howard Gardner
Vera Lúcia Camara F. Zacharias é mestre em
educação, pedagoga, consultora em educação, com vasta experiência
na área educacional em geral, e na assessoria e capacitação de
profissionais das mais diversas áreas.
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