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Qual é o melhor momento, o mais adequado para abordar a língua
escrita na Educação Infantil?
De que modo os primeiros passos devem ser dados para formar uma base
sólida que permita às crianças dominar a leitura e escrita no
futuro?
Inúmeras são as consultas e perguntas que recebo sobre esse assunto.
Em muitas conversas ouço ainda: “temos que esperar o
momento em que amadureçam, em que as habilidades de prontidão
necessárias estejam desenvolvidas, primeiro precisam aprender as
vogais, o método fônico é diferente, o método fônico começa
diferente.....’”
Agora, eu formulo uma pergunta:
É na escola que as crianças têm seus primeiros contatos com a língua
escrita?
Creio que em uma sociedade alfabetizada como a nossa, é
impossível que a criança, seja de qual classe ou nível social, não
se depare, desde que abre os olhos, com textos escritos: os dos
produtos que consumimos, as etiquetas, os logotipos, os outdoors, as
placas nas ruas, na televisão etc.
São textos escritos que as crianças olham a todo o momento
porque são curiosas com tudo o que está ao seu redor e como seres
pensantes que são, vão elaborando suas próprias idéias e suas
primeiras hipóteses sobre qual seria seu significado e sua
utilidade.
Vocês acham que elas não têm curiosidade para tentar entender esse
código aparentemente tão secreto que os adultos e as crianças mais
velhas usam?
Elas também falam e pensam sobre a leitura e escrita,
perguntam sobre o que está escrito, pedem aos maiores que leiam para
elas.
Parece muito mais que somos nós que ainda pensamos que a
única maneira de ser alfabetizado é aquela pela qual nos fomos.
Os trabalhos de pesquisas das últimas décadas mais que
demonstraram quão elaboradas chegam a ser estas hipóteses formuladas
antes da criança entrar na escola.
Muitas delas conseguem compreender as funções particulares
com as quais a linguagem escrita se apresenta, de acordo com as
formas diferentes que deixa visível quando serve para coisas
diferentes, como por exemplo: diferenciar entre os anúncios da TV e
os que chegam em casa por meios impressos.
Se os pais tivessem que esperar sem nenhum estímulo ou
motivação, que seus filhos começassem a falar, seria uma loucura!
A maior parte dos pais começa a falar com as crianças assim que
nascem. À medida que o tempo passa, a criança vai extraindo os
significados, as construções e as aplicações da linguagem.
Por que perguntar então quando terão idade para ler e escrever?
Deste modo, as perguntas que me colocam, parecem levar à seguinte
dedução: servirá a escola para distanciar a relação das crianças com
o mundo escrito ao invés de desenvolvê-la?
Muito pelo contrário, a escola não pode atrasar suas
tentativas de aprender sobre ler e escrever, seja qual for sua idade
e, não nos esqueçamos, que uma relação positiva com o mundo escrito
vai ajudá-las na progressão iniciada com sua aprendizagem.
Ah! Mas agora aparecem não só as perguntas, mas as
constatações sobre o resultado que muitos alunos apresentam em
séries mais adiantadas, ou ao chegarem ao Ensino Médio, ou ao
entrarem na faculdade.
Leio muito, sobre como uma grande maioria de alunos possui
uma compreensão leitora deficiente, bem como uma quase incapacidade
em expressar de forma inteligível suas idéias por escrito.
De novo! A culpa é dos alunos/as!
Eles logo se desinteressam da aprendizagem da leitura e da escrita!
E, é claro que vão continuar analfabetos funcionais!
Apesar da ironia, não desprezo o problema. Pelo
contrário, entendo que algo está faltando na maneira de ensinar a
leitura e a escrita, algo que impede que seus objetivos básicos
sejam alcançados.
Este problema real exige que continuemos a investigar, a
buscar novas luzes e experiências recentes sobre a temática.
Vejamos:
É na Educação
Infantil que a criança tem seu primeiro contato com o meio
escolar. Sabemos hoje que o período correspondente à Educação
Infantil é extremamente valioso, não somente pelas características
especiais que o define, mas também por todos os efeitos decisivos
que acarreta em níveis posteriores.
E temos como certo que falar em educação nos tempos atuais,
requer que nos situemos muito mais na perspectiva da aprendizagem do
que da perspectiva do ensino. É o aluno quem aprende. A ênfase é
posta no aluno, como sujeito aprendente, situado no centro do
processo de ensino-aprendizagem, o que implica orientá-lo a
“aprender a aprender” e a “aprender a pensar”.
A linguagem desempenha um papel fundamental no modo como a
criança vai pouco a pouco compreendendo de forma crescente o mundo
em que vice. Ela é o instrumento básico pelo qual se tenta dar um
sentido, tanto dentro como fora da escola, ao mundo em que se
encontra inserida.
Quase todas as investigações contemporâneas e colocações
sobre o problema incidem em uma mesma indicação: a necessidade de
partir dos conhecimentos prévios do aluno para poder vir a
consolidar aprendizagens significativas.
Puxa! Parece tão velho, ela vai bater de novo na mesma tecla?
Sim!
Observemos, como
a escola, em muitas ocasiões, deixa de aproveitar esses
conhecimentos prévios que os alunos elaboraram de há muito.
Ela os ignora!
A Escola faz isso? Nos dias atuais? Parece impossível!
Mas, é uma grande verdade.
As crianças chegam inclusive a pensar que a leitura e a
escrita na escola é frequentemente diferente da leitura e escrita
que é produzida fora da escola. Infelizmente, algumas vezes eles
chegam a acreditar que as atividades de leitura e escrita produzidas
dentro da escola é que são as corretas e autênticas, e que os
eventos reais de alfabetização que encontram na sociedade não são
experiências significativas de alfabetização.
A iniciação à leitura e escrita se coloca na escola sob o
ponto de vista de uma metodologia fechada, que parte do mesmo ponto
para todos os alunos, e que se processa e progride, a partir de uma
lógica que não coincide em nada com a lógica que é utilizada pelas
crianças para formular suas hipóteses.
É para estranhar, portanto, que as aprendizagens assim obtidas
resultem mecânicas e pouco sólidas?
Se os métodos empregados são apropriados não é
necessário forçar nenhuma criança a ler e escrever, da mesma maneira
que nos a forçamos a falar.
Entretanto, quando o ensino da leitura e da escrita se
insere a partir do ponto de vista da aprendizagem significativa e da
funcionalidade da linguagem, como demonstrado por um grande número
de pesquisadores (Emilia Ferreiro, A. Teberosky, I. Sole, L.
Tolchinsky), entre tantos outros, os alunos desenvolvem estratégias
de compreensão de leitura e de produção de textos escritos, que com
o passar do tempo, consolidam-se em um domínio mais profundo e útil
da linguagem escrita.
Não nos
esqueçamos que a finalidade precípua da leitura e da escrita é a
comunicação, e que esta finalidade somente pode ser captada através
da própria linguagem escrita, ou seja, dos seus gêneros textuais
escritos e de seu uso.
É conveniente
lembrarmos-nos que a aprendizagem que crianças têm que fazer neste
sentido é dupla.
Por um lado, precisam conhecer o sistema de codificação da
escrita alfabética; por outro, precisam conhecer a linguagem escrita
como um conjunto de diferentes modos discursivos que resultam
utilização da escrita. Ou seja, as diferentes formas de expressão
que podem ser encontradas nos textos escritos. Notem que antes de
saber ler ou letras, as crianças são capazes de diferenciar uma
carta e uma receita culinária.
Trata-se de
saberes diferentes, com desenvolvimentos próprios e distintos e que
requerem um ensino adequado para que ambos se desenvolvam
paralelamente.
Tentando então responder às perguntas colocadas de início, apresento
um conjunto de critérios que podem ser úteis para colocar em prática
as idéias que coloquei:
-
Ler e
escrever se aprende lendo e escrevendo, vendo como as outras
pessoas lêem e escreve e é claro, errando. Os erros, no começo
da aprendizagem da escrita devem ser tratados como naturais no
processo de exploração que a criança realiza com a linguagem, do
mesmo modo que entendemos os erros quando a criança começa a
falar.
-
O professor
deveria explorar os conhecimentos prévios que a criança possui
sobre a língua escrita quando chega à escola pela primeira vez.
E deveria fazer isso para organizar um currículo que aproveite
de maneira positiva as experiências com a alfabetização, que
todas as crianças, em maior ou menor grau, têm em seus ambientes
familiares.
-
Se o objetivo
da leitura é a compreensão do texto, de que serve a leitura
mecânica? Para conseguir a compreensão do texto temos que
ensiná-las a encontrar significados a partir de seus
conhecimentos prévios e isso quer dizer: aprender a formular
hipóteses e antecipações sobre o conteúdo escrito.
-
Ler não é
somente decodificar. Mas para ler é preciso decodificar. Mas,
podemos muito bem, ensinar a decodificar a partir de leituras
significativas que não deixem de lado a compreensão leitora.
-
Como
professores temos que reforçar a consciência de nossos alunos
sobre a existência de textos escritos com funções diferentes e
em contextos diversos, e como conseqüência, eles vão adquirir
formas diferentes. Por conseguinte a aula deve ser um contexto
rico em interações comunicativas e de forma concreta na leitura
e na produção de textos escritos.
-
Do anterior
decorre que o professor precisa usar textos para serem “lidos”,
isto é, que respeitem as regras da linguagem escrita, e ao mesmo
tempo, que sejam de uso “real”: cartas, bilhetes, anúncios,
receitas de cozinha, contos, notícias etc.
-
O professor
nesse caso, é o receptor privilegiado da comunicação, que
interpreta, corrige e enriquece os textos das crianças, ainda
que elas não saibam “escrever bem”.
-
É importante
que a criança observe desde cedo que escrevemos ou lemos para
nos comunicarmos. Isso significa que nas atividades que propomos
deve estar claro qual o contexto que provoca a necessidade de
comunicação: quem é o emissor, o destinatário e qual a
finalidade da comunicação para qual a escrita é usada.
A aprendizagem da
linguagem escrita é uma tarefa complexa que precisa ser abordada a
partir de perspectivas amplas.
Precisamos oferecer às crianças múltiplos caminhos e
estratégias para que possam apropriar-se da leitura e da escrita,
aproveitando todos os conhecimentos que possuem e todas as perguntas
que possam ocorrer. Elas aprendem a ler e escrever na medida em que
são capazes de integrar diversas estratégias, utilizando todas as
informações oferecidas. Integrando a língua escrita e oral ao longo
de toda jornada escolar em todas as atividades possíveis, a criança
por si mesma a integrará de forma natural em sua vida.
A educação precisa revisitar-se e constatar quais são as
necessidades das crianças.
Uma das primeiras necessidades é a do indivíduo, como
tal. Precisamos reconhecer o indivíduo, isto é, aceitar sua
identidade e ensiná-lo com base no que ele é, e não no que desejo
que ele seja. Isto não significa nivelá-lo por baixo e sim, que o
ensino e a aprendizagem sejam diferenciados, diferenciando o
indivíduo e suas necessidades.
Considero que muitas das dificuldades de aprendizagem que
preocupam os professores, surgem quando os adultos não compreendem
ou não dão valor às construções da criança. Se o conhecimento da
criança não é valorizado, elas não vão valorizar-se a si mesmas como
leitoras, escritoras e como sujeitos que aprendem e isto interferirá
em sua própria aprendizagem.
Bibliografia
Ferreiro, Emília;
Teberosky. A. Psicogênese da Língua Escrita.
ARTMED, 1999.
Teberosky, Ana.
Aprendendo a escrever-perspectivas psicológicas e implicações
educativas. São Paulo: Ática, 1992.
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Vera Lúcia Camara Zacharias é mestre em Educação,
Pedagoga, consultora educacional, assessora diversas
instituições, profere palestras e cursos, criou e é
diretora do CRE. |

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