Ler e Escrever na Educação Infantil

Vera Lúcia Camara Zacharias

Qual é o melhor momento, o mais adequado para abordar a língua escrita na Educação Infantil?

De que modo os primeiros passos devem ser dados para formar uma base sólida que permita às crianças dominar a leitura e escrita no futuro?

Inúmeras são as consultas e perguntas que recebo sobre esse assunto.

Em muitas conversas ouço ainda: “temos que esperar o momento em que amadureçam, em que as habilidades de prontidão necessárias estejam desenvolvidas, primeiro precisam aprender as vogais, o método fônico é diferente, o método fônico começa diferente.....’”

Agora, eu formulo uma pergunta:

É na escola que as crianças têm seus primeiros contatos com a língua escrita?

Creio que em uma sociedade alfabetizada como a nossa, é impossível que a criança, seja de qual classe ou nível social, não se depare, desde que abre os olhos, com textos escritos: os dos produtos que consumimos, as etiquetas, os logotipos, os outdoors, as placas nas ruas, na televisão etc.

São textos escritos que as crianças olham a todo o momento porque são curiosas com tudo o que está ao seu redor e como seres pensantes que são, vão elaborando suas próprias idéias e suas primeiras hipóteses sobre qual seria seu significado e sua utilidade.

Vocês acham que elas não têm curiosidade para tentar entender esse código aparentemente tão secreto que os adultos e as crianças mais velhas usam?

Elas também falam e pensam sobre a leitura e escrita, perguntam sobre o que está escrito, pedem aos maiores que leiam para elas.

Parece muito mais que somos nós que ainda pensamos que a única maneira de ser alfabetizado é aquela pela qual nos fomos.

Os trabalhos de pesquisas das últimas décadas mais que demonstraram quão elaboradas chegam a ser estas hipóteses formuladas antes da criança entrar na escola.

Muitas delas conseguem compreender as funções particulares com as quais a linguagem escrita se apresenta, de acordo com as formas diferentes que deixa visível quando serve para coisas diferentes, como por exemplo: diferenciar entre os anúncios da TV e os que chegam em casa por meios impressos.

Se os pais tivessem que esperar sem nenhum estímulo ou motivação, que seus filhos começassem a falar, seria uma loucura! A maior parte dos pais começa a falar com as crianças assim que nascem. À medida que o tempo passa, a criança vai extraindo os significados, as construções e as aplicações da linguagem.

Por que perguntar então quando terão idade para ler e escrever?

Deste modo, as perguntas que me colocam, parecem levar à seguinte dedução: servirá a escola para distanciar a relação das crianças com o mundo escrito ao invés de desenvolvê-la?

Muito pelo contrário, a escola não pode atrasar suas tentativas de aprender sobre ler e escrever, seja qual for sua idade e, não nos esqueçamos, que uma relação positiva com o mundo escrito vai ajudá-las na progressão iniciada com sua aprendizagem.

Ah! Mas agora aparecem não só as perguntas, mas as constatações sobre o resultado que muitos alunos apresentam em séries mais adiantadas, ou ao chegarem ao Ensino Médio, ou ao entrarem na faculdade.

Leio muito, sobre como uma grande maioria de alunos possui uma compreensão leitora deficiente, bem como uma quase incapacidade em expressar de forma inteligível suas idéias por escrito.

De novo! A culpa é dos alunos/as!

Eles logo se desinteressam da aprendizagem da leitura e da escrita! E, é claro que vão continuar analfabetos funcionais!

Apesar da ironia, não desprezo o problema. Pelo contrário, entendo que algo está faltando na maneira de ensinar a leitura e a escrita, algo que impede que seus objetivos básicos sejam alcançados.

Este problema real exige que continuemos a investigar, a buscar novas luzes e experiências recentes sobre a temática.

Vejamos:

É na Educação Infantil que a criança tem seu primeiro contato com o meio escolar. Sabemos hoje que o período correspondente à Educação Infantil é extremamente valioso, não somente pelas características especiais que o define, mas também por todos os efeitos decisivos que acarreta em níveis posteriores.

E temos como certo que falar em educação nos tempos atuais, requer que nos situemos muito mais na perspectiva da aprendizagem do que da perspectiva do ensino. É o aluno quem aprende. A ênfase é posta no aluno, como sujeito aprendente, situado no centro do processo de ensino-aprendizagem, o que implica orientá-lo a “aprender a aprender” e a “aprender a pensar”.

A linguagem desempenha um papel fundamental no modo como a criança vai pouco a pouco compreendendo de forma crescente o mundo em que vice. Ela é o instrumento básico pelo qual se tenta dar um sentido, tanto dentro como fora da escola, ao mundo em que se encontra inserida.

Quase todas as investigações contemporâneas e colocações sobre o problema incidem em uma mesma indicação: a necessidade de partir dos conhecimentos prévios do aluno para poder vir a consolidar aprendizagens significativas.

Puxa! Parece tão velho, ela vai bater de novo na mesma tecla?

Sim!

Observemos, como a escola, em muitas ocasiões, deixa de aproveitar esses conhecimentos prévios que os alunos elaboraram de há muito. Ela os ignora!
A Escola faz isso? Nos dias atuais? Parece impossível
!

Mas, é uma grande verdade.

As crianças chegam inclusive a pensar que a leitura e a escrita na escola é frequentemente diferente da leitura e escrita que é produzida fora da escola. Infelizmente, algumas vezes eles chegam a acreditar que as atividades de leitura e escrita produzidas dentro da escola é que são as corretas e autênticas, e que os eventos reais de alfabetização que encontram na sociedade não são experiências significativas de alfabetização.

A iniciação à leitura e escrita se coloca na escola sob o ponto de vista de uma metodologia fechada, que parte do mesmo ponto para todos os alunos, e que se processa e progride, a partir de uma lógica que não coincide em nada com a lógica que é utilizada pelas crianças para formular suas hipóteses.

É para estranhar, portanto, que as aprendizagens assim obtidas resultem mecânicas e pouco sólidas?

Se os métodos empregados são apropriados não é necessário forçar nenhuma criança a ler e escrever, da mesma maneira que nos a forçamos a falar.

Entretanto, quando o ensino da leitura e da escrita se insere a partir do ponto de vista da aprendizagem significativa e da funcionalidade da linguagem, como demonstrado por um grande número de pesquisadores (Emilia Ferreiro, A. Teberosky, I. Sole, L. Tolchinsky), entre tantos outros, os alunos desenvolvem estratégias de compreensão de leitura e de produção de textos escritos, que com o passar do tempo, consolidam-se em um domínio mais profundo e útil da linguagem escrita.

Não nos esqueçamos que a finalidade precípua da leitura e da escrita é a comunicação, e que esta finalidade somente pode ser captada através da própria linguagem escrita, ou seja, dos seus gêneros textuais escritos e de seu uso.

É conveniente lembrarmos-nos que a aprendizagem que crianças têm que fazer neste sentido é dupla.

Por um lado, precisam conhecer o sistema de codificação da escrita alfabética; por outro, precisam conhecer a linguagem escrita como um conjunto de diferentes modos discursivos que resultam utilização da escrita. Ou seja, as diferentes formas de expressão que podem ser encontradas nos textos escritos. Notem que antes de saber ler ou letras, as crianças são capazes de diferenciar uma carta e uma receita culinária.

Trata-se de saberes diferentes, com desenvolvimentos próprios e distintos e que requerem um ensino adequado para que ambos se desenvolvam paralelamente.

Tentando então responder às perguntas colocadas de início, apresento um conjunto de critérios que podem ser úteis para colocar em prática as idéias que coloquei:

  • Ler e escrever se aprende lendo e escrevendo, vendo como as outras pessoas lêem e escreve e é claro, errando. Os erros, no começo da aprendizagem da escrita devem ser tratados como naturais no processo de exploração que a criança realiza com a linguagem, do mesmo modo que entendemos os erros quando a criança começa a falar.

  • O professor deveria explorar os conhecimentos prévios que a criança possui sobre a língua escrita quando chega à escola pela primeira vez. E deveria fazer isso para organizar um currículo que aproveite de maneira positiva as experiências com a alfabetização, que todas as crianças, em maior ou menor grau, têm em seus ambientes familiares.

  • Se o objetivo da leitura é a compreensão do texto, de que serve a leitura mecânica? Para conseguir a compreensão do texto temos que ensiná-las a encontrar significados a partir de seus conhecimentos prévios e isso quer dizer: aprender a formular hipóteses e antecipações sobre o conteúdo escrito.

  • Ler não é somente decodificar. Mas para ler é preciso decodificar. Mas, podemos muito bem, ensinar a decodificar a partir de leituras significativas que não deixem de lado a compreensão leitora.

  • Como professores temos que reforçar a consciência de nossos alunos sobre a existência de textos escritos com funções diferentes e em contextos diversos, e como conseqüência, eles vão adquirir formas diferentes. Por conseguinte a aula deve ser um contexto rico em interações comunicativas e de forma concreta na leitura e na produção de textos escritos.

  • Do anterior decorre que o professor precisa usar textos para serem “lidos”, isto é, que respeitem as regras da linguagem escrita, e ao mesmo tempo, que sejam de uso “real”: cartas, bilhetes, anúncios, receitas de cozinha, contos, notícias etc.

  • O professor nesse caso, é o receptor privilegiado da comunicação, que interpreta, corrige e enriquece os textos das crianças, ainda que elas não saibam “escrever bem”.

  • É importante que a criança observe desde cedo que escrevemos ou lemos para nos comunicarmos. Isso significa que nas atividades que propomos deve estar claro qual o contexto que provoca a necessidade de comunicação: quem é o emissor, o destinatário e qual a finalidade da comunicação para qual a escrita é usada.

A aprendizagem da linguagem escrita é uma tarefa complexa que precisa ser abordada a partir de perspectivas amplas.

Precisamos oferecer às crianças múltiplos caminhos e estratégias para que possam apropriar-se da leitura e da escrita, aproveitando todos os conhecimentos que possuem e todas as perguntas que possam ocorrer. Elas aprendem a ler e escrever na medida em que são capazes de integrar diversas estratégias, utilizando todas as informações oferecidas. Integrando a língua escrita e oral ao longo de toda jornada escolar em todas as atividades possíveis, a criança por si mesma a integrará de forma natural em sua vida.

A educação precisa revisitar-se e constatar quais são as necessidades das crianças.

Uma das primeiras necessidades é a do indivíduo, como tal. Precisamos reconhecer o indivíduo, isto é, aceitar sua identidade e ensiná-lo com base no que ele é, e não no que desejo que ele seja. Isto não significa nivelá-lo por baixo e sim, que o ensino e a aprendizagem sejam diferenciados, diferenciando o indivíduo e suas necessidades.

Considero que muitas das dificuldades de aprendizagem que preocupam os professores, surgem quando os adultos não compreendem ou não dão valor às construções da criança. Se o conhecimento da criança não é valorizado, elas não vão valorizar-se a si mesmas como leitoras, escritoras e como sujeitos que aprendem e isto interferirá em sua própria aprendizagem.

Bibliografia

Ferreiro, Emília; Teberosky. A. Psicogênese da Língua Escrita. ARTMED, 1999.

Teberosky, Ana. Aprendendo a escrever-perspectivas psicológicas e implicações educativas. São Paulo: Ática, 1992.

Vera Lúcia Camara Zacharias é mestre em Educação, Pedagoga, consultora educacional, assessora diversas instituições, profere palestras e cursos, criou e é diretora do CRE.

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atualizado/setembro/2007