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No livro Com
Todas as Letras, Ferreiro, coloca: "Antes
de passar à interpretação teórica do conceito de pré-requisito, convém
perguntar: para que tem servido na prática escolar a noção de maturidade?".
Estamos em 2003
e a edição de meu livro é de 1993, portanto, dez anos e, ao que me lembre,
bem antes dessa época já se questionava o modo de conceber os
pré-requisitos para a alfabetização, expressos nas concepções contidas nos
termos "prontidão", "maturidade", "maturação" para aprender.
E, decorrido tanto tempo, tantas pesquisas, teses, dissertações, livros,
cursos, debates, congressos, seminários, freqüentados por docentes e
especialistas, muitos podem ser levados a acreditar que idéias sobre
"prontidão" para alfabetização não mais se fazem presentes nas práticas
pedagógicas, ao menos nos grandes centros urbanos dos estados mais
desenvolvidos, que contam com professores legalmente habilitados para o
exercício da profissão.
Infelizmente essa não é a realidade com que nos deparamos, principalmente
em nossa tarefa de assessoria.
A crença na necessidade da existência de
pré-requisitos relacionados à discriminação visual, memória auditiva,
lateralidade, coordenação viso-motora, ritmo e tantas outras habilidades
que devem ser desenvolvidas para que as crianças possam aprender a ler e a
escrever é ainda muito presente e podem ser detectadas nos "exercícios"
realizados pelas crianças no caderno ou nas famosas folhas (antigamente
mimeografadas, agora saídas do computador) recheadas de atividades para
que passem o lápis em cima de linhas pontilhadas, liguem um objeto à
outro, contornem vogais e consoantes, pintem em espaços demarcados, bem
como outras atividades de treino de habilidades perceptivo motoras,
indicativas de uma visão do processo de alfabetização como codificação e
decodificação de formas gráficas.
Concepção diametralmente oposta ao apontado há décadas pelas
mais variadas pesquisas, de que a alfabetização é um processo "no qual as
crianças necessitam resolver problemas de natureza lógica até chegarem a
compreender de que forma a escrita alfabética em português representa a
linguagem, e assim poderem ler e escrever por sim mesmas".
Essas concepções tradicionais pressupõem "que não se
pode permitir à criança que entre em contato com um objeto antes de ter as
condições necessárias de "maturidade". A maturidade em questão não
pode ser exclusivamente biológica porque neste caso não haveria povos
ágrafos nem adultos analfabetos". Ferreiro, 1993: 39
A maturidade estaria sendo ajudada, preparada por "uma mão que pegue o
lápis e faça traçados controlados, o olho para que distinga entre formas
fechadas e abertas, curvas e retas, orientação acima/abaixo e
direita/esquerda; o ouvido para que distinga as diferenças sonoras
desligadas do significado, e o aparelho fonador para que pronuncie
isoladamente sons que nunca são produzidos isoladamente na fala".
Ferreiro, 1993: 40
Em um próximo artigo voltaremos a
discutir sobre as questões acima, sobre as diferenças entre as concepções
subjacentes na prática pedagógica, pois vamos
retomar agora a pergunta que é o título deste artigo, com as respostas
colocadas por Ferreiro.
Segundo ela:
"A noção de
maturidade abriu um próspero mercado comercial. Todos os anos são editados
novos livros de exercícios preparatórios para leitura e escrita, e há
numerosos testes para medir a prontidão" (op. cit.); facilita o trabalho
dos professores com o uso de cadernos ou livros de exercícios para serem
seguidos de forma mecânica; para encobrir fracassos metodológicos;
para discriminar crianças dos setores marginalizados,
haja vista que sejam quais forem os critérios de prontidão usados, os
imaturos acabam sendo sempre os filhos de pais analfabetos ou aqueles que
menos oportunidades tiveram de contatos com a língua escrita, contatos que
lhes propiciariam aquilo que mais precisam, o "para que serve a língua
escrita"; discrimina porque é impossível
"obter essa informação fora dos atos sociais que a convertem em funcional"
(op. cit.). Discrimina porque as crianças não
chegam ignorantes à escola já que têm conhecimentos específicos sobre a
língua escrita, "ainda que não compreendam a natureza do código alfabético
e que são esses conhecimentos (e não as decisões escolares) que determinam
o ponto de partida da aprendizagem escolar". Ferreiro, 1993
Não chegam ignorantes à
escola e sim com menos informação adquirida em contextos sociais sobre o
uso deste objeto social que é a língua escrita. Podem saber menos
por não terem tido a quem perguntar, porque "não tiveram a oportunidade de
confrontar suas escritas iniciais com as escritas produzidas por outros (e
de enfrentar os conflitos que estas confrontações acarretam)". Ferreiro,
1993
Para aprender a ler e a escrever, a criança precisa construir
um conhecimento de natureza conceitual: precisa compreender não só o que a
escrita representa, mas também de que forma ela representa graficamente a
linguagem. (Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil: 113)
Nessa perspectiva, a
aprendizagem da linguagem escrita é concebida como:
-
a compreensão de um sistema de
representação e não somente como a aquisição de um código de
transcrição de fala;
-
um aprendizado que coloca
diversas questões de ordem conceitual, e não somente
perceptivo-motoras, para a criança;
-
um processo de construção de
conhecimentos pelas crianças por meio de práticas que têm como
ponto de partida e de chegada o uso da linguagem e a participação
nas diversas práticas sociais da escrita.
Fonte: Referencial
Curricular Nacional para a Educação Infantil |
Segundo Ferreiro
(op.cit.) do ponto de vista construtivista o problema dos pré- requisitos
necessita ser considerado da seguinte maneira: " é essencial estabelecer
os antecessores de qualquer conhecimento em um momento qualquer de seu
desenvolvimento. Contudo, a identificação desses sucessores
não leva a sugerir sua incorporação no
currículo escolar, já que há uma distinção entre conhecimentos que são
adquiridos somente quando são ensinados e aqueles que o sujeito adquire,
em interação com outros sujeitos (de níveis similares, inferiores ou
superiores em relação a esse conhecimento) sem ser explicitamente
ensinados, mas em condições que favorecem o
processo de apropriação. As propriedades dos objetos sociais só
aparecem através de interações sociais. A aquisição da língua escrita
inclui a aprendizagem do código, porém não se reduz a ele. A aquisição da
língua escrita inclui a leitura mas não a coloca adiante da escrita".
Referências
Bibliográficas:
Ferreiro, Emilia. Com todas as letras.
4. ed. São Paulo: Cortez, 1993.
Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil- MEC-
Brasília: MEC/SEF, 1998. 3v.
Vera Lúcia Camara Zacharias é mestre em Educação,
Pedagoga, consultora educacional, assessora diversas
instituições, profere palestras e cursos, criou e é
diretora do CRE. |