Metáfora da maçã e o conhecimento

A metáfora da maçã alimento/conhecimento e a avaliação da aprendizagem

 

 

A MAÇÃ NÃO FOI BEM

APRECIADA E DIGERIDA

 OU NÃO FOI BEM

ESCOLHIDA E OFERECIDA?

 

A avaliação da aprendizagem vem sendo um assunto bastante polêmico na escola brasileira. Sem dúvida, é questão delicada e muito importante, quer na vida escolar e pessoal do aprendiz, quer no projeto político pedagógico da escola, cujos resultados se refletem na qualidade da formação dos educandos em nosso país. Se pensarmos na escola como espaço de preparação das futuras gerações, urge refletirmos sobre como as estamos preparando. Se não acreditarmos em propostas novas e sérias, não conseguiremos inovar e aperfeiçoar o trabalho pedagógico, perpetuando as mazelas que procuramos combater.

Nesse sentido, há que se estar atento à eficácia da avaliação e como ela deve ser feita; há que se enxergar os educandos como pessoas com diferentes histórias de vida, representando locais e espaços de aprendizagem distintos, bem como que cada educando precisa encontrar-se como autor e se apropriar de seu lugar como sujeito na situação de aprendizagem que está acontecendo. No processo de avaliação, o professor precisará analisar continuamente quanto de conhecimento cada aluno conseguiu construir,  uma vez que cada pessoa age e reage de formas diferentes, e isto, principalmente, no processo de aprendizagem. Como estava o educando no ponto de partida e como está agora?  Ele está diferente após esse determinado período de estudo?

Se o docente está fixado na idéia de provas para nota, exigindo que o aluno reproduza algo decorado, o aluno está preocupado com sua aprovação, através destas mesmas provas, e decora o conteúdo, na maioria das vezes sem compreendê-lo adequadamente. O sabor da busca e o prazer de aprender, de compreender a realidade, são substituídos pela nota que significa aprovação, descaracterizando a relação do sujeito cognoscente com os objetos cognoscíveis. E sabemos que competências e habilidades não são adquiridas através da aplicação/realização de provas. Então, com seu trabalho, o professor precisa criar condições, estimular o desenvolvimento de habilidades e competências no corpo discente, e não apenas preparar mecanicamente para o vestibular.

Nesse sentido, não é apenas a relação dos alunos com o conhecimento que se dá de maneira inadequada, mas também a relação dos profissionais da escola com as famílias, que têm sido chamadas a se envolver com a educação dos filhos apenas enquanto cobrança, principalmente da promoção de uma série para outra, mas também de comportamento e interação. Conseqüentemente, temos constatado uma prática de avaliação da aprendizagem concentrada em cobrar notas e pautas, colocando em plano secundário a motivação que, como fator dinâmico da conduta humana, é indispensável à aprendizagem. A psicanálise deixa bem claro que o que faz a pessoa se mover, progredir, aprender, é a aposta feita no aperfeiçoamento do seu desempenho, no seu sucesso. A partir dessa aposta são construídas as estratégias de ação, envolvendo o sujeito, acreditando no seu desenvolvimento.Assim, se nas primeiras vivências escolares, o aluno tiver a experiência de que é capaz realizar as atividades propostas; de que pode ter um bom desempenho, ele continua acreditando no seu potencial; continua sendo bem sucedido, a menos que fatores excepcionais interfiram. Esse aluno investe em suas possibilidades de realização; age nesse sentido. Se, ao contrário, acreditar que a solução dos problemas está fora de seu alcance, que não pode dar conta das atividades propostas, não vai atrás das soluções; acomoda-se e não apresenta o desempenho que poderia obter.

O ensinante consciente, atualizado, sabe que, “cada um de nós se relaciona com o outro como ensinante, consigo mesmo como aprendente e com o conhecimento como um terceiro de um modo singular.Analisando com cuidado o modo como uma pessoa relaciona-se com o conhecimento, encontraremos algo que se repete e algo que muda ao longo de toda a sua vida nas diferentes áreas. Chamo modalidade de aprendizagem a esse molde ou esquema de operar que vai sendo utilizado nas diferentes situações de aprendizagem. É um molde, mas um molde relacional.” (Fernández, 2001, p.78). A modalidade de aprendizagem indica um modo particular de relacionar-se, procurar e construir conhecimentos por parte do sujeito como autor de seu pensamento e isso tem que ser levado em conta durante todo o processo de ensino-aprendizagem-avaliação.

Uma avaliação melhor ou pior não é uma questão de técnica, mas de postura e  seria mais sensato se percebêssemos que aprender é como nos  alimentar

Em seu livro A mulher escondida na professora Alícia Fernández desenvolveu ainda mais o conceito de modalidade de aprendizagem, principalmente em suas relações com a modalidade de alimentação. Diz que o corpo, transversalizado pela inteligência e pelo desejo, alimenta-se e aprende, passando a representar o cenário onde será mostrada a história do alimentar-se, o aprender e o ensinar do sujeito.

Falando em aprendizagem como alimentação, podemos traçar um paralelo com a famosa história da Branca de Neve e os sete anões, onde a maçã, embora com uma aparência apetitosa, estava envenenada e deixou a heroína num sono profundo, por muito tempo.Da mesma forma, se for oferecido ao aluno um conhecimento descontextualizado, que não desperte sua curiosidade e vontade de aprender, ele permanecerá desligado, sem se comprometer com tal aprendizagem; poderá ficar com sua inteligência aprisionada.

No entanto, se a aprendizagem for como uma maçã realmente saborosa e sadia, o aluno a comerá com prazer e sua digestão será leve e rápida. Ele sempre se lembrará com satisfação desse momento prazeroso e procurará aplicar o que aprendeu em outras circunstâncias de sua vida. E isso tem a ver com a didática do professor.

Se aprender é como se alimentar, tanto o educando quanto o educador se alimentam/aprendem . Este, porém, tem, sobretudo, a obrigação de despertar e estimular  o apetite do aluno, pois, da mesma forma que, muitas vezes, mesmo não estando com fome sentimos vontade de comer ao vermos algo que nos estimula, que nos chama a atenção, no caso da aprendizagem, o aluno, mesmo que esteja na classe por obrigação, sem demonstrar vontade de aprender, tem essa vontade estimulada  quando o ensinante respeita a bagagem que ele traz para a escola e procura lançar mão de todas as práticas possíveis para que  entenda o que está sendo transmitido com objetividade e clareza; traz assuntos contextualizados; utiliza dinâmicas diferenciadas, explorando e aproveitando as capacidades de todos os envolvidos; mantém na classe um ambiente agradável, propondo atividades que prendem a atenção e o interesse, disponibilizando a energia dos alunos para a aprendizagem significativa, enfim, zela pelo bom relacionamento interpessoal com a turma e estimula sua auto-estima e realização.

A avaliação representa significativa parcela da atuação didática do professor

Se alguns professores transmitem/passam conteúdo de forma complicada, não refletem sobre sua prática, sobre seus alunos, sobre o momento /o contexto, não extrapolam e, como resultado, não são compreendidos pela maioria dos alunos, outros ensinantes observam as habilidades e dificuldades dos estudantes para incentivar os pontos certos de cada um, não deixando de lado o papel preponderante de transmitir conteúdos e estabelecer relações, a fim de que os conhecimentos sejam utilizados por toda a vida. Tais profissionais, constantemente, refletem sobre questões como:

 

Será que fui suficientemente claro em minhas explanações?

-Recorri a outras formas/ dinâmicas ao passar o conteúdo, que não a cansativa aula expositiva?

-Refleti sobre outras formas de avaliação que não a prova com questões que exigem memorização do conteúdo exposto?

-Até que ponto o aluno representa essa nota/número?

-Estou preocupado com a auto-estima do aluno?

Sem dúvida, tal profissional tem plena consciência de que aluno deve ser estimulado a ter uma visão ampla de seus aprendizados e não apenas ser condicionado a técnicas e regras que lhe são impostas com a intenção de uma assimilação muito mais de conteúdos do que de uma verdadeira elaboração do conhecimento e postura frente à vida, o que implica em ética e valores.

A metáfora da maçã, comparando alimentação ao conhecimento, fornece indícios bastante ricos para uma atuação concreta por parte do professor. Realmente, para cada aluno que o professor ofertar o seu conhecimento/maçã, a forma de mastigar e engolir será diferente, única. Isso quer dizer que se incentiva/valoriza o trabalho com as diferenças; com a heterogeneidade e não com um abstrato ideal de homogeneidade.

Para um aluno, a maçã dará dor de barriga, para outros, provocará alguns quilos a mais, para alguns, a quantidade de maçã será pouca e para outros, suficiente. Há os que vão considerar a quantidade excessiva, não conseguindo engolir/absorver tudo. Sem falar da assimilação dos componentes alimentares, que não se dá instantaneamente, além de depender do metabolismo de cada organismo. E é esta consciência por parte do docente; sua forma de interagir com as diferentes circunstâncias, que demonstra a sua concepção teórica; os fundamentos da sua prática educativa.

O mesmo conteúdo pode ser diferentemente compreendido por cada ser humano, pois depende do seu olhar, da sua visão de mundo.  E o conhecimento não é estanque, mas muda a cada momento e esse movimento é interessante para o ser humano. Mas a busca incessante pelo saber desestabiliza, causa certa insegurança, para depois entrar em acomodação.novamente.

Uma das atribuições do professor é estar constantemente estimulando esse desequilíbrio no aluno, auxiliando-o com subsídios para que possa encontrar respostas que o levem à acomodação. Mas que logo o desestabilizem novamente, ou seja, despertem novas curiosidades. A esse professor cabe organizar práticas diferenciadas, significativas, que desafiem o aluno a experienciar; a entender  que os conteúdos são ferramentas para a solução de problemas cotidianos; são instrumentos que nos ajudam a pensar, são meios e não fins.

Os conhecimentos precisam ser mastigados, engolidos e digeridos. É necessário experienciar vivências para podermos aprender; entender que a escola é um contexto de trabalho, tanto para o professor quanto para o aluno. Ambos precisam se esforçar para aprender e investir na própria aprendizagem. Ambos ensinam e aprendem; ambos devem avaliar suas possibilidades, conquistas, esforços e realizações, mobilizando suas energias com vistas à formação do ser humano integral.

 

Ao participar desse processo, intensamente, o professor está realizando uma avaliação continuada do aprendizado do aluno, ao mesmo tempo em que procura mostrar-lhe o mundo de realidade, não só de dentro da escola, mas de fora dela, para que possa compreender melhor o contexto e se tornar cidadão crítico, autônomo, responsável.

 

Referências Bibliográficas

 

Fernández, Alícia. Os idiomas do aprendente: análise de modalidades ensinantes em famílias, escolas e meios de comunicação – Porto Alegre; Artmed Editora, 2001

------ A Mulher Escondida na Professora: uma leitura psicopedagógica do ser mulher, da corporalidade e da aprendizagem  – Porto Alegre; Artes Médicas Sul, 1994

------ A inteligência aprisionada

 

Joana Maria R. Di Santo é pedagoga, psicopedagoga, mestre em educação, professora universitária.

 

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atualizado/setembro/2007