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Sou professor universitário. Leciono, em período noturno, a
disciplina de Administração de Recursos Humanos em um curso
seqüencial da Universidade de Mogi das Cruzes. Estou completando
cinco anos de magistério. Neste semestre recém-findo, ao responderem
à pergunta “Qual sua avaliação geral do professor da disciplina? ”,
pergunta que apresentava as opções “Ótimo”, “Bom”, “Regular”, “Ruim”
e “Péssimo”, 40% dos alunos me atribuíram o conceito “Ótimo” e 60%,
o conceito “Bom”. Um deles me perguntou por três vezes se eu ia ser
seu professor no próximo semestre. Ante a terceira negativa,
mostrou-se decepcionado. Outro aluno disse possuir uma amiga que
estuda Gestão de Recursos Humanos na Universidade Brás Cubas. Ao
compararem os estudos de ambos, chegaram à conclusão de que ele
aprendeu e aproveitou muito mais do que ela.
Como cheguei a esse nível de apreciação por parte dos
alunos? O que sustenta esses resultados? Trata-se de puro acaso ou é
intencional? Existe algo por trás desse desempenho? São questões que
procuro responder no texto que segue.
1.
SOFRIMENTO
ESCOLAR
Embora tenha
estudado em instituições educacionais de boa qualidade e sempre
obtido boas notas, durante toda a minha vida escolar eu sofri com os
maus professores e com o estilo de ensino que vigorava na época, a
chamada escola tradicional. Do primário ao superior, para mim
estudar sempre significou conviver com sentimentos de medo, culpa e
desalento. Mais recentemente, no curso de mestrado, os sentimentos
mudaram mas foram substituídos por outros igualmente negativos:
frustração, decepção, raiva e a sensação de ter sido enganado pelo
fato de pagar a escola mas não receber o que esperava.
2.
FILOSOFIA DA
QUALIDADE NO MAGISTÉRIO
Quando me tornei docente, disse para mim mesmo que eu seria
um mestre diferente. Primeiro, por achar que todo professor tem uma
obrigação moral para com seus alunos; segundo, porque eu sentiria
vergonha se apresentasse desempenho igual ao dos professores que
tive depois de criticá-los tanto; e terceiro, porque exijo muito de
mim mesmo. Eu queria ser excelente sob todos os aspectos. Concluí
que o caminho era melhorar sempre, ou seja, eu tinha que adotar uma
filosofia de melhoria contínua, de modo a aumentar sempre o nível de
qualidade de meu magistério.
3.
EVOLUÇÃO
Apesar de toda a minha convicção, porém, confesso que, no
início, eu era péssimo. Não só minhas aulas eram pesadamente
expositivas, como também muitas vezes eu lecionava temas que não
eram importantes, deixando de lado aspectos prioritários dos
assuntos do programa. Consegui melhorar à custa de muito esforço.
Li algumas dezenas de livros sobre pedagogia e sobre
didática. Assim, pude entender algo sobre a eficácia dos diferentes
métodos de ensino. Descobri muitas idéias que me pareceram
importantes, dentre as quais, só para citar algumas, a aprendizagem
pela experiência, a aprendizagem significativa e a aprendizagem por
descoberta. Essas noções tiveram influência marcante em minhas
estratégias pedagógicas.
4.
ADEUS ÀS AULAS
EXPOSITIVAS
Uma das primeiras mudanças que implantei em meus esquemas
didáticos foi dar um golpe de morte nas aulas expositivas, por
influência do princípio da aprendizagem pela experiência. Segundo
esse princípio,
o professor não deve expor os conteúdos escolares (matérias) aos
alunos de forma pronta e acabada (aula expositiva), mas
apresentá-los na forma de questões ou problemas que estimulem os
alunos a reconstruir a experiência, isto é, a reconstruir o
conhecimento. Foi o que fiz. Eliminei ou reduzi ao mínimo a parte
expositiva em quase todos os capítulos do programa. Em alguns deles,
a exposição simplesmente foi suprimida. Em outros, foi mantida, mas
deixou de ser a atividade inicial da aula. Passei a iniciar os
trabalhos com perguntas, exercícios ou leituras que focalizassem
aspectos práticos do tema em estudo e criassem nos alunos a
necessidade de respostas teóricas que seriam proporcionadas pela
parte expositiva. Dessa forma, a parte teórica ficou restrita à
discussão posterior das questões e problemas colocados inicialmente.
Essa estratégia foi possível porque, para cada um dos capítulos do
programa, preparei um texto-base cuja leitura completa os
conhecimentos dos alunos, substituindo a exposição.
5.
ABAIXO OS
CONCEITOS VAZIOS
Um dos livros que li, sobre aprendizagem significativa,
estimulou-me a mudar a maneira de ensinar conceitos. A maneira
tradicional consiste em o professor enunciar o conceito e talvez
escrevê-lo na lousa, ou, para ficar mais atraente, projetá-lo na
tela por meio de uma transparência ou de um slide de
PowerPoint. Essa estratégia, que eu também usava, na melhor das
hipóteses produz apenas uma aprendizagem mecânica, isto é, o aluno
decora o conceito mas não capta seu significado. Descobri que, para
haver aprendizagem significativa – que é a aprendizagem com
aquisição de significado – existem dois métodos: (1) assimilação de
conceito e (2) formação de conceito. Assimilação de conceito é a
aquisição de um novo conceito pelo seu relacionamento com aquilo que
a pessoa já conhece, enquanto formação de conceito é o processo de
aprendizagem de um conceito por meio de uma experiência prática.
Formação de conceito foi o método que eu adotei para
ensinar o conceito de avaliação de desempenho. Minha estratégia
consiste em propor aos alunos um exercício de avaliação que eles
devem fazer sem orientação. Trata-se simplesmente de avaliar o
desempenho de um funcionário conhecendo seu desempenho real e o
desempenho esperado pela empresa. Feito e corrigido o exercício,
dele é “extraído” o conceito por indução (V. o significado da
indução no item 6). O conceito recém-adquirido é pleno de
significado, pois antes foi “vivido”, foi “experimentado
praticamente” pelos alunos.
6.
OS ALUNOS
PRODUZEM TEORIAS
Dentro do programa que eu leciono, o capítulo sobre
motivação constitui um bom exemplo do processo de melhoria contínua.
De início, eu desenvolvia o assunto à moda tradicional:
(1) exposição das várias teorias de motivação para o trabalho, (2)
exercícios e (3) prova. Muitos alunos se aborreciam durante a
exposição e alguns até cochilavam. Promovi logo uma primeira
alteração nesse esquema. Adotei uma técnica de motivação para o
ensino que é aplicada antes de se começar uma exposição. A técnica
consiste em provar aos espectadores que eles não sabem o que pensam
que sabem. Para isso, como primeira atividade da aula, passei a
propor um exercício que contém uma série de sentenças que descrevem
crenças populares a respeito de motivação para o trabalho. Em cada
uma delas, os alunos devem assinalar V (verdadeiro) ou F (falso). Na
discussão que se segue, cria-se um divertido tumulto e os estudantes
ficam surpresos ao saber que todas as sentenças são falsas.
Dois semestres atrás, decidi mudar radicalmente a maneira
de lecionar o assunto. Em lugar de expor todas as teorias de
motivação, passei a concentrar-me em duas delas apenas: a teoria da
expectativa e a teoria da eqüidade (na verdade, teoria da
ineqüidade). Também modifiquei a estratégia de ensino, adotando
o método da aprendizagem por descoberta.
A essência do método da descoberta consiste em fazer um
exercício prático ou uma experiência e, em seguida, utilizar o
raciocínio indutivo para construir um conceito, princípio ou
teoria a partir da situação particular representada pelo exercício.
No método da descoberta o professor não enuncia mecanicamente os
conceitos ou teorias. Ele envolve os alunos em situações de
aprendizagem que lhes permitam fazer generalizações a partir de
casos particulares. A idéia é fazer o aluno descobrir por si mesmo o
conhecimento. O que diferencia o método da descoberta de outros
métodos didáticos é o uso da indução, que é o processo de
generalização de um conhecimento particular.
Para cada uma das duas teorias de motivação mencionadas, eu
proponho três exercícios de aplicação da teoria e os resolvo junto
com os alunos. Em seguida, por meio de perguntas e respostas, eu
procuro induzi-los a enunciar a teoria que representa os casos
particulares descritos nos exercícios. Por fim, depois de posta a
teoria, eu proponho um quarto exercício, a ser feito por eles, no
qual aplicarão a teoria recém-construída a um caso particular
(dedução). Tem-se, assim, um método indutivo-dedutivo de ensino de
motivação para o trabalho.
Ao mesmo tempo em que adotei o método da descoberta, mudei
o conteúdo da prova, de tal forma que ela se tornou mais difícil. A
prova é a seguinte: os alunos devem verificar se o sistema de
remuneração variável que uma empresa pretende implantar atende às
condições da teoria da expectativa e da teoria da eqüidade. A
dificuldade da prova provém do fato de que a verificação deve ser
feita de forma independente para cada teoria, e os alunos tendem a
deixar que a conclusão sobre uma das teorias influencie a conclusão
sobre a outra.
Os estudantes têm levado uma surra nessa prova. Neste
semestre, as notas variaram de 1,5 a 6,5. Não obstante – e esse é o
fenômeno – o capítulo sobre motivação é, de longe, aquele de que os
alunos mais gostam. Esse fato indica que a nota obtida na prova não
tem necessariamente relação com o gosto pelo assunto que é objeto da
prova.
7.
RECORTE DE
JORNAL É UM BOM PONTO DE PARTIDA
No capítulo sobre Ética na gestão de pessoas, eu começo a
aula usando (1) uma frase que foi proferida pelo diretor de uma
grande empresa brasileira e (2) uma notícia de jornal, para discutir
a chamada Ética das Virtudes e ilustrar a diferença entre valores
morais e não morais. Outro recorte é usado para ensinar, de forma
prática, o princípio da ação por dever. A seguir, faço uma rápida
exposição sobre o tema e logo passo aos exercícios e casos. Sinto
que a parte expositiva fica mais leve quando colocada entre duas
partes práticas.
8.
DRAMATIZAÇÃO
EM SALA DE AULA
Eis outro exemplo de melhoria contínua. Tudo começou com “A
entrevista de ajuda”, título de um livro que trata de terapia não
diretiva. Ao folheá-lo e ler sobre o caso de um paciente que se
recusava a submeter-se a uma cirurgia, percebi que aquele material
poderia ser útil dentro do capítulo de Relacionamento Interpessoal,
para dramatizar a discussão do problema “julgamento x compreensão”.
Primeiro, a partir daquele parágrafo, elaborei um texto,
para ser lido em classe, cujo objetivo era mostrar que, quando
julgamos alguém, bloqueamos a comunicação e perdemos toda capacidade
de influenciar o outro. Dois semestres depois, transformei a leitura
em um conjunto de diálogos para ser interpretado por três estudantes
perante a classe. O problema é que eles não sabiam interpretar e,
como conseqüência, o texto perdia força. Ademais, os diálogos já
mostravam aos estudantes, de forma pronta e acabada, como deveriam
proceder na situação dada, o que lhes tirava toda possibilidade de
descoberta. Em suma, aqueles diálogos estavam afastados demais de
uma situação real.
Eu continuava insatisfeito, pois queria uma experiência de
aprendizagem que auxiliasse os alunos, mesmo que de forma
incipiente, a adquirir habilidades interpessoais. Mais dois
semestres se passaram e, finalmente, consegui algo mais de acordo
com meu objetivo. Eliminei os diálogos e transformei o caso numa
situação mais próxima da realidade. Agora, eu desempenho o papel do
paciente que não quer se operar, e os estudantes, um de cada vez,
têm que sentar com ele (comigo) e tentar convencê-lo do contrário.
9.
UMA PROVA
DIFERENTE
Outro exemplo de melhoria contínua é o capítulo de seleção
de pessoal. De início, a aula era total e exclusivamente expositiva.
Não obstante, sempre pensei que eu deveria concentrar o ensino nas
principais atividades exercidas pelos gestores dentro do processo
seletivo, que são a entrevista e a decisão final de contratação.
Após dois semestres de ensino expositivo, acrescentei um texto, para
ser lido em classe, que mostra, primeiro, um exemplo de entrevista
errada e, em seguida, o exemplo de uma entrevista certa. Acrescentei
também um estudo de caso no qual, em uma empresa, existe uma vaga a
ser preenchida e um grupo inicial de candidatos constituído de
profissionais que já são funcionários. Os alunos têm que decidir se
escolhem um desses candidatos ou se partem para o recrutamento
externo. Mais três períodos letivos se passaram, e acrescentei outro
texto de leitura a respeito de perfis discriminatórios.
Neste último semestre, criei uma prova diferente para o
capítulo, baseada no filme “A Chorus Line”. O filme mostra o
processo seletivo de um grupo de dançarinos para um musical.
A primeira parte do processo é uma etapa técnica que consiste de
testes práticos de dança para todos os candidatos. Ao final dessa
etapa, são classificados 16 finalistas, dentre os quais devem ser
escolhidos oito candidatos para serem contratados, sendo quatro
homens e quatro mulheres. A escolha final é feita com base em
entrevistas com todos os finalistas e o critério de escolha, em
essência, é o grau de motivação dos candidatos para a dança, isto é,
o grau de convicção que eles têm em relação à própria profissão. O
que fiz foi (1) passar o vídeo para os alunos até o momento de
término das entrevistas, (2) parar o filme e (3) pedir-lhes que
fizessem a escolha dos contratados com base nas entrevistas e no
critério pré-definido. Para tanto, eu lhes forneci uma folha
contendo o nome de cada finalista, a descrição do respectivo
vestuário, para que pudessem ser identificados, e um espaço em
branco em baixo de cada nome para que cada estudante pudesse fazer
anotações que orientassem a escolha final.
Meus próximos objetivos são: 1º) ensinar os alunos a
elaborar um roteiro de entrevista a partir dos requisitos ideais do
candidato e da análise de um currículo; 2º) criar uma simulação de
entrevista para que os alunos possam viver a situação de forma tão
real quanto possível.
10.
CORREÇÃO DE
FOCO
No capítulo sobre treinamento, a princípio a aula também
era exclusivamente expositiva. Ademais, como me baseei, sem maior
atenção, no conteúdo dos livros de Administração de Recursos
Humanos, o capítulo acabou adquirindo um enfoque que privilegiava a
formação de analistas de treinamento.
Tempos depois, eu subitamente percebi o engano, e mudei a
ênfase do capítulo para a formação de um instrutor de treinamento,
baseado na visão de que qualquer profissional, gestor ou não, pode
vir a ser convocado para ministrar cursos a seus colegas.
Essa visão durou pouco, apenas um semestre. Após outro
semestre de indecisão, no qual o capítulo ficou sem foco definido,
creio ter chegado a uma visão do tema que é mais consentânea com
aquilo que se espera dos gestores: o enfoque do gestor orientador
(gestor coach) que também tem capacidade de diagnosticar
situações de treinamento.
Encontrei na
Internet um exercício que propicia uma rica discussão a respeito do
papel e do comportamento do gestor na orientação e no
desenvolvimento de sua equipe. Por outro lado, um artigo publicado
anos atrás na Harvard Business Review me deu a idéia de discutir com
os alunos a relação entre o jogo da culpa e o treinamento, ou mais
especificamente, entre o jogo da culpa e a aprendizagem, bem como o
papel do gestor nessa questão. Como introdução a esse tema, eu
apresento para os estudantes um filme curto
11.
CORREÇÃO DA
MIOPIA
Outro capítulo terrível era o de remuneração. Além de
totalmente expositivo, eu restringia a exposição ao sistema de
remuneração funcional e dava todos os detalhes de como elaborar um
PCS – Plano de Cargos e Salários, como se o objetivo do curso fosse
formar especialistas nessa área. Os exercícios e a prova que eu
propunha eram ainda piores, pois focalizavam apenas um dos detalhes
da elaboração de um PCS.
Depois de quatro semestres nessa toada, fiz três mudanças:
(1) incluí na exposição os sistemas de remuneração por habilidades e
de remuneração variável; (2) encurtei a exposição; e (3) incluí no
programa a discussão de dois casos de remuneração variável que
possibilitaram modernizar o estilo da prova. Mais três semestres se
passaram, e outras modificações foram introduzidas: (1) remodelei a
exposição, para que a apresentação dos diversos sistemas de
remuneração ficasse mais equilibrada; (2) encurtei ainda mais a
parte expositiva.
Como, apesar
dos meus esforços, os alunos ainda cochilam durante a exposição,
decidi eliminá-la. Ela será substituída por um exercício de escolha
de sistemas de remuneração para ocupações profissionais variadas. A
exposição prévia ficará restrita apenas ao necessário para que os
alunos entendam o enunciado do exercício, sendo completada durante a
discussão posterior da respectiva solução. Outras informações
estarão disponíveis no texto do capítulo.
12.
MOTIVAÇÃO EM
AÇÃO
Desde o início do magistério da disciplina de Administração
de Recursos Humanos, adotei a prática de aplicar provas abrangendo o
conteúdo de cada capítulo, a não ser para os dois capítulos
iniciais. Dessa forma, depois de um mês e meio de aula, os alunos
passam a ter prova aula sim, aula não. Neste último semestre, porém,
suspendi a prova relativa ao capítulo de treinamento, prova que, se
estivesse prevista, teria sido realizada na 6ª feira, dia 11 de
novembro, véspera do feriado prolongado do dia 15 (3ª feira).
No intervalo da aula do dia 4 de novembro, um dos alunos me
procurou, pedindo-me confirmação de que não haveria prova na aula
seguinte. “É que eu vou viajar”, disse ele. Esse diálogo não me saiu
da cabeça. Mais tarde, no caminho de volta para casa, subitamente
“caiu a ficha”. De repente, eu me dei conta de que, no sistema de
avaliação que adotei, quando um capítulo não é objeto de prova, esse
capítulo se desvaloriza aos olhos dos alunos. Alguns estudantes
percebem aquela parte do programa como menos importante do que as
demais.
Também me dei conta de que ali, diante de meus olhos,
encontrava-se em plena ação uma das teorias de motivação que eu
leciono, a Teoria da Fixação de Metas. Explico. Costuma-se criticar
o fato de que os alunos estudam apenas para se sair bem na prova.
Mas também é verdade que a perspectiva da prova dá um sentido ao
esforço dos estudantes e lhes fornece o desafio de um objetivo a ser
alcançado, que é o de obter êxito no teste que realizarão.
O conceito de motivação está associado precisamente à noção de
“esforço”. Dessa forma, a perspectiva da prova motiva os alunos ao
estudo, ainda que de forma extrínseca. Conclusão: a prova de
treinamento será restabelecida já no próximo semestre.
13.
O VALOR
PEDAGÓGICO DO ERRO
Tradicionalmente, o erro é encarado como uma espécie de
produto que não passou no teste de qualidade e que, portanto, deve
ser descartado, jogado na lata de lixo. Todos fogem do erro como se
este fosse uma doença contagiosa. Para mim, porém, o erro tem valor
pedagógico. O erro me sinaliza onde existem problemas. Quando os
alunos erram, eu não os culpo. O que faço é procurar refletir sobre
as causas do erro, tentando descobrir como posso modificar minhas
estratégias de ensino para que eles não errem novamente.
14.
PRIORIDADES E
PRODUTIVIDADE
Há dois anos, Stephen Kanitz escreveu que os grandes
opositores da globalização são os conservadores que desejam que o
tempo pare para beneficiá-los. E continuou: “Não é por coincidência
que os maiores críticos da globalização são professores que
continuam dando as mesmíssimas matérias nos mesmos doze meses de
sempre. Reduzir um curso de quatro anos para três, cortando matérias
desnecessárias, ensinar melhor e mais rápido sem encher as aulas com
lengalenga, nem pensar”.
Essa crítica ficou gravada em minha memória. Como o tempo é
curto e o campo da Administração de Recursos Humanos é vasto, tenho
feito um esforço contínuo no sentido de revisar as prioridades de
ensino. Também tenho me esforçado para descobrir maneiras de ensinar
mais e melhor em menos tempo, e para descobrir como aproveitar
melhor o tempo disponível. Procuro ser objetivo, cortando a
“lengalenga”.
15.
ÍNDICE DE
APRENDIZAGEM
A julgar pelas notas dos alunos, calculo que seu índice de
aprendizagem está em cerca de 60% do que é lecionado. Para aumentar
esse índice, creio que seriam necessários mais exercícios, o que é
difícil, dada a escassez de tempo e a amplidão da matéria abordada.
Não obstante, talvez com o contínuo aprimoramento dos métodos
didáticos os estudantes possam aumentar em certa medida seu grau de
assimilação e seu rendimento. Uma de minhas tentativas nesse sentido
é tentar fazer com que a prova não seja apenas um instrumento de
avaliação mas também de aprendizagem. Para isso, eu dou aos alunos o
feedback mais completo possível sobre as avaliações (V.
item 16).
16.
ELES TÊM
DIREITO À INFORMAÇÃO
Penso que os alunos têm o direito de ser informados sobre
como a disciplina será lecionada e de receber um feedback
completo sobre seu desempenho. Em consonância com essa idéia, na
primeira aula eu distribuo:
-
um
texto contendo informações sobre o curso tais como a metodologia
de ensino, a metodologia de avaliação de aprendizagem, a
freqüência mínima, o método de controle de freqüência e o
critério de aprovação;
-
o programa de
ensino, que contém o programa da disciplina e a respectiva
bibliografia;
-
um
calendário de provas e trabalhos.
Além disso, eu também combino com os alunos como será a
entrega de material didático, que geralmente se dá por meio de
e-mail.
Um ou dois dias depois de cada aula, eu envio uma mensagem
aos alunos contendo o seguinte:
-
um relato do
que foi lecionado na aula anterior juntamente com os exercícios
feitos na aula, acompanhados dos respectivos gabaritos (para os
alunos que faltaram);
-
uma cópia do
texto e das transparências do capítulo que está em discussão;
-
o programa da
aula seguinte.
Depois de cada prova, eu envio aos alunos suas notas, o
gabarito da prova e a respectiva correção, para que eles saibam onde
erraram e por que obtiveram aquelas notas (aliás, fornecer um
explicação sobre as razões das notas fez com que os pedidos de
revisão de prova diminuíssem drasticamente). A cada prova, eu também
lhes envio o quadro geral de notas, alertando-os para os alunos que
perderam a prova e que deverão fazer a substitutiva.
A partir de um certo momento, eu também começo a
informar-lhes o nome dos alunos mais faltosos, para que fiquem
alertas e não sejam reprovados por freqüência.
17.
JUSTIÇA EM
SALA DE AULA
Na primeira aula, eu digo aos alunos o seguinte: se eles
não concordarem com alguma decisão minha e eu não quiser rever a
decisão, eles poderão apelar ao gestor do curso sem medo de
retaliação. Digo-lhes que esse é um direito deles, e que se eles
recorrerem ao gestor eu não tomarei esse gesto como algo pessoal
contra mim e, portanto, não me sentirei desafiado nem desautorizado
e não ficarei aborrecido. Explico-lhes que eu reconheço não ser
infalível e que sei que posso errar; e que se o gestor decidir que
eu devo mudar uma decisão minha eu o farei com absoluta
tranqüilidade e que isso não mudará em nada minha relação com eles.
Sinto que os alunos, em geral, não acreditam nessa preleção, pois
estão acostumados com professores autoritários. Mas neste semestre,
um deles pôde comprovar que falo sério.
Os alunos tinham que fazer a apresentação de um trabalho
perante a classe. Na aula anterior, eu lhes tinha dito que cada
grupo teria o prazo de trinta minutos para fazer a apresentação. No
início da semana, recebi uma mensagem do representante de um dos
grupos, que me pedia mais tempo para poder fazer uma boa
apresentação. Respondi negando o pedido e explicando-lhe
detalhadamente as razões da recusa. Ele não se conformou e me mandou
nova mensagem, insistindo no pedido. Novamente eu recusei e
acrescentei novos motivos para a recusa. Ao perceber, porém, pelos
termos da mensagem, que ele estava aborrecido e inconformado com
minha decisão, eu lhe disse que submeteria o caso ao gestor do
curso, o que de fato fiz. Na aula seguinte ele me procurou para se
desculpar. Percebi que ele estava receoso porque pensou que eu
remeti o assunto ao gestor por ter ficado aborrecido com seu
inconformismo. Expliquei-lhe que não fiquei absolutamente aborrecido
e, para que ele se convencesse disso, recordei-lhe meu discurso da
primeira aula.
18.
QUEM TEM MEDO
DE FEEDBACK?
Há cerca de dois anos, recebi do gestor do curso um
questionário para preencher. Era minha auto-avaliação de desempenho.
Ao mesmo tempo em que devolvia o documento preenchido, eu pensei que
aquele instrumento seria muito mais útil e revelador se fosse
respondido pelos alunos. Fiz então algumas modificações no
questionário e passei a distribuí-lo aos estudantes na última aula
do semestre.
O documento tem cerca de 30 perguntas de múltipla escolha,
das quais 80% referem-se ao desempenho do professor e os restantes
20% tentam avaliar os efeitos desse desempenho sobre os alunos. Há
também um espaço para comentários.
Tenho interesse em que os alunos façam comentários sobre
meus pontos fortes, mas tenho interesse maior em que eles expliquem
o que fiz de errado. Não é fácil, porém, conseguir informações
precisas, pois os estudantes muitas vezes são lacônicos nos
comentários ou simplesmente silenciam.
As perguntas mais importantes do questionário são três,
situadas no final do documento:
“Qual sua
avaliação geral do professor da disciplina?”
A ela já me referi no início deste artigo.
“Qual seu grau de
interesse atual pelo assunto “administração de recursos humanos”?”
Esta questão possui as seguintes alternativas: “muito menor
que no início do semestre”, “menor que no início do semestre”,
“igual ao do início do semestre”, “maior que no início do semestre”
e “muito maior que no início do semestre”. Sua importância decorre
do fato de que procura medir a atitude do aluno em relação à
disciplina lecionada. Administração de Recursos Humanos é uma
disciplina com duração de apenas um semestre. Por essa razão, o que
os estudantes adquirem é, na melhor das hipóteses, uma visão geral,
sendo importante que continuem a estudar RH para se aprofundar. Eles
só o farão, porém, se a isso se sentirem estimulados. Se os
estudantes responderem à pergunta assinalando “maior que no início
do semestre” ou “muito maior que no início do semestre”, isto
significará que o estudo de RH constituiu uma experiência agradável
e que eles tenderão a manter contato com esse campo de conhecimento.
A esse respeito, as respostas obtidas no questionário indicam que a
atitude dos alunos em relação à disciplina está relacionada com sua
avaliação sobre o professor. Isto significa que o desempenho do
professor influencia o gosto dos estudantes pelo assunto que está
sendo lecionado. Neste último período letivo, 52% dos alunos
responderam “maior que no início do semestre”, 27%, “muito maior que
no início do semestre” e 18%, “igual ao do início do semestre”. Os
restantes não responderam.
“Se esta
disciplina de Administração de Recursos Humanos fosse oferecida como
um curso separado, você recomendaria o curso a seus colegas?”
Esta pergunta representa o teste definitivo sobre como foi
a experiência do aluno com a disciplina. As alternativas são “sim”,
“não” e “talvez”. Para responder “sim”, o aluno tem que estar
convicto a respeito da qualidade do ensino que recebeu. Neste
semestre, 79% dos alunos responderam “sim”, 18%, “talvez”, e 3%,
“não”.
*Flavio Farah
é mestre em administração de empresas, professor universitário e
autor do livro “Ética na gestão de pessoas”.
E-mail: farah@flaviofarah.com
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