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Participar do curso de
aperfeiçoamento “Infância, Psicanálise e Educação”, promovido pelo Lepsi,
na Universidade de São Paulo, foi uma opção que surgiu em um momento de
minha vida profissional no qual os recursos habitualmente utilizados para
explicar/dar conta dos impasses, notadamente de fracasso escolar,
incluindo as questões de disciplina na escola, não mais eram suficientes
como haviam sido, principalmente até o final dos anos de 1980 e início dos
anos de 1990.
Envolvida com essas
questões diuturnamente na escola particular em que atuo como coordenadora,
dirigi-me avidamente a este curso, buscando as explicações da Psicanálise
para as situações vivenciadas. E, realmente, muito me estão sendo úteis
tais aprendizagens, iniciando pelo fato de que, atualmente, pode-se dizer
que os alunos substituem os neuróticos nos estudos psicanalíticos,
tornando-se o tema principal da pesquisa psicanalítica, uma vez que a
análise demonstrou que a criança continua a viver, quase inalterada, no
doente/analisando, bem como naquele que sonha e no artista.
As questões da
constituição do eu/sujeito, do corpo da criança, que antes de ser seu
próprio corpo é o da mãe, que vai mapeá-lo antes que a criança tenha
domínio desse corpo, do estádio do espelho, bem como da castração, da
interdição indispensável a ser realizada pela figura paterna, o complexo
de Édipo, entre outros, estão sendo de grande auxílio para minha
compreensão da tarefa educativa através do olhar psicanalítico. A idéia
fundamental de Freud, a partir da qual todas as outras são derivadas: a
noção de inconsciente, configura a ruptura de Freud com a epistemologia
hegemônica no início do século XX. Sobre essa pedra angular, o
inconsciente, se ergue o edifício da Psicanálise e Freud mostrou que o
aparelho psíquico é dividido e também vive em permanente estado de tensão
e conflito entre forças que se opõem: consciente e inconsciente.
Importante, também,
estudar que as forças psíquicas não estão fincadas no corpo, mas nas
palavras, e sofrem a operação do recalque, tornando-se inconscientes. O
inconsciente produz suas formações, que são os sonhos, lapsos, atos
falhos, esquecimentos, chistes, sintoma.
Todas essas formações
são discursivas, pois sem a linguagem não há sujeito; tudo que diz
respeito ao humano está recortado pela linguagem. Ou seja, para que haja a
construção do eu, a criança tem que montar/construir o sistema de
linguagem. E a única possibilidade de construí-lo é se dirigir ao outro,
manifestando suas capacidades e necessidades através da linguagem.
A criança nasce em
grande desamparo pois, sozinha, não sobreviveria, não tendo condições de
alimentar-se, agasalhar-se, proteger-se/defender-se. |
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Não tem, ainda, vida
psíquica. Tem urgência de comida e também do outro, usando o choro para
mostrar o que quer. Chora e modela sua relação com a mãe. Esta, mais que
instruir, vai marcar o desejo da criança, organizar, inserir a criança no
simbólico. O pai, sem perceber, vai interditar e, com esse ato educativo,
muito mais que instruir, vai instituindo o psiquismo.
No decorrer dos
encontros semanais, das leituras indicadas, da participação nos eventos
programados, pude escutar outros percursos de reflexão e fui dirigindo meu
interesse em estudar mais de perto a questão da disciplina na escola,
embasada pela teoria e pesquisas psicanalíticas, uma vez que este é o
problema mais apontado em meu ambiente diário de trabalho como o
responsável direto pelo mal estar dos educadores, que se sentem impotentes
frente ao desafio que muitos alunos lhes dirigem, seja diretamente,
respondendo com palavras ásperas e/ou debochadas às suas propostas de
trabalho, seja boicotando indiretamente suas explicações, na medida em que
monopolizam a atenção da maioria dos alunos da classe, impossibilitando o
trabalho eficiente do professor que, com isso, sente-se perdido, num
ambiente hostil.
E o específico da
escola, a aprendizagem da leitura e da escrita, a interpretação do mundo,
o conhecimento, está cada vez mais distante da realidade diária de nossas
escolas, e não apenas das públicas, como até há bem pouco tempo se dizia,
mas também das particulares. O conteúdo específico cada vez mais
empobrecido. O professor está numa situação bastante difícil, pois há uma
inflação de tarefas às quais se pede que ele dê conta, como alimentação,
higiene, educação sexual, orientação contra o uso de drogas e álcool,
etc., e isso não permite que ele faça todas as coisas que sabe e que é
capaz de fazer. Ensinar raiz quadrada, por exemplo, só a escola pode
fazer. Há certos conhecimentos estratégicos, os instrumentos básicos da
cultura, que são peculiares à escola e que, se ela não fizer, nenhuma
outra instituição faz, como a mediação entre a criança e o conhecimento
acumulado pela humanidade, para que o aluno saiba distinguir o que é
importante do que não é, e seja capaz de selecionar informações.
Há que se colocar,
ainda, que a Psicanálise não propõe nenhuma mudança no interior do
processo educativo; não diz o que deve ser feito, mas apenas alerta para o
que não deve ser feito. Alerta-nos sobre métodos cientificistas que
adormecem nossa intuição para trabalhar com os alunos, pois pretendem
fazer previsões e prescrições. Finalmente, chama nossa atenção sobre a
necessidade de passarmos a limpo nossa experiência como educandos; a
experiência que nos tocou experimentar nas mãos dos educadores.
Leia o Capítulo 1 |