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Introdução Capítulo
1
O cenário da indisciplina
Capítulo 2
2.1- Escola como um lugar privilegiado
2.2 - A criança e a família
CONCLUSÃO
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Nossas escolas estão vivendo um momento crítico, principalmente na questão
da disciplina. Tal situação já persiste, e vem se agravando, há quase duas
décadas, como podemos acompanhar pelos estudos e pesquisas levados a
efeito nas mais diversas instituições acadêmicas do país.
De um lado, podemos dizer que na escola são vividos os problemas sociais:
nossa sociedade está atravessando um período de turbulência no que diz
respeito à violência, ao medo que se faz presente diuturnamente em todos
os aspectos da vida social, haja vista que os meios de comunicação, em
particular na propaganda eleitoral, anunciam que há, diariamente, 47
pessoas mortas, no país, em situações de violência, o que se traduz num
aumento excessivo da criminalidade, a ponto de o Brasil atingir o mais
alto índice do mundo no que diz respeito aos países que matam com arma de
fogo (mesma fonte). Nesse cenário, a escola procura dar conta de seu papel
de formar o aluno, preparando as novas gerações para exercer o comando da
sociedade.
Vários dispositivos legais são criados para fazer funcionar regras e leis
como garantia de uma retaguarda ao desenvolvimento da criança. No entanto,
a escola não está conseguindo dar conta dessa atribuição como deveria.
Está descaracterizada; perdeu o eixo: conhecimento, tradição. E isso está
causando um mal estar nos professores que se sentem impotentes frente a
estas demandas; têm que preparar o aluno para a vida, fornecer-lhe as
ferramentas/conhecimentos com que poderá atuar para conduzir a
civilização. Há a idealização de um futuro sem referências ao passado, sem
uma aposta na criança. E, frente à magnitude do dever e falta de
embasamento no passado, vê-se impedido de ensinar, vê-se em escolas que
não conseguem segurar o aluno dentro da sala de aula, muito menos
despertar e manter seu interesse pelos conteúdos curriculares específicos.
De outro lado, percebemos claramente que as medidas adotadas não têm
atingido o âmago da questão, agindo mais como paliativo, para acalmar os
ânimos no momento das ocorrências de indisciplina. Indisciplina que, na
atualidade, se apresenta não mais como um evento específico e esporádico,
mas como um dos mais graves e generalizados obstáculos pedagógicos ao
trabalho educativo com alunos de todas as idades.
Em seu artigo “A criança, “sua” (in)disciplina e a psicanálise”, publicado
no livro “Indisciplina na Escola – Alternativas Teóricas e Práticas”, o
professor Leandro de Lajonquière registra que “o mal da educação atual não
seria apenas um mas dois, pois acrescenta aos problemas de aprendizagem a
denominada indisciplina escolar” (1996, p.25)
Questão que se apresenta com uma série de
produtos bastante díspares que vão desde os desentendimentos mais
corriqueiros de se recusar a emprestar um simples material escolar ao
colega, ao cúmulo de destratar e ofender professores, seja com palavras,
seja com atos agressivos, como jogar bolas de papel em suas costas
enquanto o professor escreve na lousa, colocar cola ou alfinetes em sua
cadeira, acomodar a lata de lixo sobre a porta, a fim de que o conteúdo
caia sobre o professor quando este adentrar a sala para ministrar sua
aula. Destaque-se, ainda, os extremos de agressões físicas entre alunos e
alunas durante as aulas, com professores dentro da classe, a destruição de
cortinas e vidros da sala de aula, além dos armários e materiais escolares
de outras turmas que ocupam a mesma sala em outro(s) período(s). A regra
geral tem sido os alunos “não estarem nem aí” a cada aula e o professor
precisar conquistá-los numa relação franca, amistosa, cordial. Perdeu-se a
noção de que a posição mais elevada na hierarquia escolar é ocupada pelo
conhecimento e não pela simpatia do professor. E relação que flui é
impossível quando alguns perturbam a aula o tempo todo e até impedem os
outros de assistir a essas aulas. Tais alunos competem pelo lugar do
professor, impedindo os demais de prestarem atenção e serem bons alunos.
Concordamos plenamente com o professor Lajonquière quando diz, no mesmo
artigo, “que o limite entre os problemas de aprendizagem e os de
indisciplina torna-se um tanto difuso – alguns comportamentos infantis ora
são considerados sob uma rubrica, ora sob a outra (...) (afirmando que)
embora de uma forma não manifesta, há de fato no imaginário escolar um
amálgama entre aprendizagem, disciplina e maturação psicológica. Mais
ainda, lembrando a tese freudiana a propósito da eficácia do recalcado,
talvez possamos dizer que essa trilogia produz efeitos no interior do
campo pedagógico, na medida em que opera implicitamente”.(1996, p. 26)
Também causa estranheza o fato de que, quando a escola tem que justificar
a reprovação de aluno que entrou com pedido de recurso na diretoria de
ensino, a fim de anular a referida reprovação e ser promovido para a série
seguinte mesmo sem dominar os conhecimentos mínimos indispensáveis para a
continuidade de estudos, não se poder sequer citar problemas disciplinares
que prejudicaram o aproveitamento desse aluno, relacionando apenas
questões de aprendizagem, como se estas estivessem totalmente separadas
daquelas.
Nestes casos, muitas vezes, a diretoria de ensino aprova o aluno que a
escola reprovou alegando motivos irrelevantes, como o preenchimento
incompleto ou insuficiente dos diários de classe por um ou mais
professores, onde não está explícito que deram oportunidades de
recuperação àquele aluno.
Com isso, o discurso pedagógico hegemônico premia alunos que não têm
condições de acompanhar o conteúdo da série seguinte, sem perceber (será?)
que está prejudicando a construção do conhecimento desse aluno e da classe
em que ele freqüenta as aulas, bem como que está desvalorizando os
professores e a escola. Acrescente-se, ainda, que os reflexos da perda de
recurso de alunos se fazem sentir por muito tempo no trabalho docente, uma
vez que o professor, geralmente, fica inseguro e com medo de reviver a
situação constrangedora. Em conseqüência, nos anos seguintes, aprova
alunos sem condições, ou seja, que não dominam os conteúdos mínimos
indispensáveis para a série posterior.
Os educandos, por sua vez, sentem-se “amparados” pela legislação, e
reforçam as atitudes negativas de falta de estudo, de atenção, de
disciplina.
No entanto, a escola não pode abrir mão da sua responsabilidade quanto à
disciplina que, realmente, é um problema bastante complexo, pois envolve
a formação da consciência do sujeito, de seu caráter e da cidadania.
Considerando a questão da organização do trabalho coletivo em sala de aula
objetivando realizar a construção do conhecimento, podemos dizer que a
disciplina que marcou a educação até os anos de 1980 deixou de ter
sintonia em relação aos comportamentos dos tempos atuais, pois sabemos que
cada época tem sua maneira própria de manifestar seus sintomas. O que
muitos alunos de hoje fazem é desafiar os professores, provocá-los,
considerando-se vitoriosos por conseguirem que estes não dêem
adequadamente suas aulas.
Ocorrências nesse nível se dão, principalmente, em escolas que têm fama
ruim, abrigando/atendendo alunos que não se deram bem em outras
instituições. Eles já entram com uma auto-imagem negativa,
agredindo/odiando a escola que os acolhe.
E, se as regras não são aplicadas, se a escola desculpa demais os alunos,
argumenta excessivamente com eles sobre o regulamento, mas não exige seu
cumprimento, esses alunos perdem as referências, os limites, e a violência
aumenta, como algo que se retroalimenta.
Geralmente as escolas mais permissivas, que mais “escutam” os alunos,
negociam, são também as mais violentas, como se pode apreender de
pesquisas recentemente realizadas. Isso não quer dizer que os alunos não
devam ser ouvidos em sua condição de estudantes, de sujeitos em formação.
O que não dá é para seguir tudo o que dizem/reivindicam como se fossem
ordens a serem cumpridas. Ouvir é uma coisa. Seguir a direção que eles
querem impor é outra. Não se pode perder a autoridade legitimada pelo
conhecimento.
Neste ponto, é importante considerarmos que faz parte do desenvolvimento
dos alunos ir contra o professor e a escola; desafiá-los. Escola e
professores é que precisam estar cientes de que os alunos estão num
exercício de diferenciação, buscando autonomia, e agir de forma a
explicitar a situação, evitando revolta ou apatia, o que é muito
importante e revela maturidade. O oposto pode instalar revolta ou apatia
dissonantes, o que, em ambos os casos, não deixa o trabalho da escola
avançar.
O que o conjunto da sociedade, em especial dos educadores, deseja é uma
disciplina ativa e consciente, marcada pelo respeito, responsabilidade,
construção do conhecimento, interação, participação, formação do caráter e
da cidadania. E isto começa em casa, com os pais, que têm que transmitir o
saber fazer à criança. Eles são os primeiros modelos.
Se tomarmos o quadro dos últimos dez, quinze anos, muitas medidas têm sido
adotadas, como a promoção automática, salas de apoio pedagógico, aulas de
recuperação no contra-turno, encaminhamento de alunos para serviços
psicopedagógicos, etc, e nem por isso constata-se melhora no panorama
disciplinar que, ao contrário, agrava-se, pois a maioria das medidas
tomadas não está produzindo os efeitos desejados. O que ocorre é que, cada
vez mais, estamos nos afastando do eixo: conhecimento.
Há alguns anos atrás, quando se convidava/obrigava um aluno a
transferir-se da escola, os outros ficavam assustados/temerosos e a
disciplina da instituição melhorava, pelo menos por um tempo. Hoje não é
bem assim. Essa medida banalizou-se. Alunos e pais acham que têm o poder
de reverter todas as decisões da escola, pois muitas vezes conseguem
mesmo. Nesse ponto, há que se considerar que quando a escola decide qual
aluno pode ficar e qual não, está fazendo a posição da lei encarnada, da
mãe onipotente que diz: aqui essa criança não cabe. E a escola acaba
assumindo um poder grande demais.
No entanto, uma coisa é a autoridade do professor e da escola, com base no
conhecimento e na tarefa educativa, outra coisa é o autoritarismo. A
autoridade é algo da própria estrutura do encontro entre um adulto e uma
criança. Já se essa autoridade for fundada sobre bases ilegítimas, conduz
ao autoritarismo e à injustiça. Devemos considerar, no entanto, que negar
a autoridade em nome de igualdades forjadas conduz à hipocrisia nas
relações humanas. Yves de La Taille em seu artigo “Autoridade na Escola”,
publicado no livro “Autoridade e Autonomia na Escola – Alternativas
Teóricas e Práticas”, diz que os dois perigos estão no campo da educação e
que, “por exemplo, se a escola negar toda e qualquer capacidade de
discernimento e singularidade intelectuais aos alunos, ela se arvora o
direito de arbitrar indiscriminadamente sobre cada uma de suas condutas –
eis o autoritarismo – e, em caso de fracasso por parte deles, longe de
questionar suas pretensões e seus métodos, ela incrimina aqueles que
`fogem da norma`: são indisciplinados, preguiçosos, retardados – eis a
injustiça. Todavia, se a escola negar que a relação professor/aluno é, por
definição, assimétrica, uma vez que o primeiro sabe coisas que o segundo
deseja ou precisa conhecer, ela, em nome de um igualitarismo de bom tom,
paralisa-se e, por conseguinte, paralisa os jovens que a freqüentam.”
(1999, p. 9-10). Então devemos evitar o autoritarismo, combatê-lo, mas
lutar pela autoridade no processo educativo, na família e na escola.
Parece que não estão sendo tomadas as medidas adequadas, ou seja, mudam-se
regras e regimentos, enfatizando a punição, quando deveriam ser
incentivadas outras medidas, como fortalecer o corpo docente,
instrumentalizando-o através de cursos/estudos/capacitação constante e
adequada. Além de medidas legais coerentes, que não aprovem alunos sem
condições.
É preciso que a escola cumpra seu papel de formadora e disciplinadora, que
seus referenciais estimulem o jovem a não ir para a indisciplina, que ele
se sinta respeitado e apoiado para retribuir com respeito e adesão. Há que
se olhar para os casos de insucesso para se aprender com eles. Há que se
olhar para os casos clínicos, para a teoria psicanalítica e aprender com
ela, e procurar recuperar o papel da escola e a autoridade do professor,
ao invés de inventar mil programas que não dão certo, mas dão gasto do
ponto de vista econômico e produzem desgaste impressionante para e no
professorado.
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