A criança e a família

 

DISCIPLINA NA ESCOLA: TAREFA E CONSTRUÇÃO DESAFIADORAS

CAPÍTULO 2 – Educando com decisão

2.2- A criança e a família

 

Introdução

Capítulo 1
O cenário da indisciplina

Capítulo  2
2.1- Escola como um lugar privilegiado
2.2 - A criança e   a família


CONCLUSÃO




Considerando que a educação se dá primordialmente no nível familiar, é na relação com a mãe ou com quem exerce a maternagem que se dá a constituição do aparelho psíquico.

É na criança que a família projeta o futuro de sua descendência. Assim, é muito importante que a família envie a criança à escola para vivenciar a tensão conhecido/desconhecido, o que produz a lapidação do aparelho psíquico.

Ao nascer, segundo a Psicanálise, a criança goza da posição de planta, de um pedaço de carne; está na posição de gozo, usufruindo as condições que lhe permitem a circunstância. Todos nascemos não falantes. Na origem do nosso aparelho psíquico há uma suposição delirante de nossas mães que nos acham maravilhosos, espertos, inteligentes, faladores, etc. Mais tarde aparecem juntos a lei e o desejo. Na medida que aparece a lei, que dá o limite, a criança deixa de ser gozante e se coloca como desejante. E isso ocorre quando ela incorpora a condição da lei.

A partir daí tem que mediar seu desejo o tempo todo pela linguagem, submetendo-se a um modo possível de realização de um desejo.

Os pais fazem isso acontecer naturalmente, pois a criança não pode ter usufruto pleno, mas subjugar-se a uma série de princípios e é o pai que transmite, com sua função de se interpor a esse imediatismo.

O que desperta o nosso desejo é o desejo materno. A tarefa das mães, mais que dar comida é inserir no simbólico. A partir do momento em que a mãe passa a investir na criança, as coisas podem se objetivar. Passa a ser mãe fálica, porque agora detém o objeto da falta. É preciso entrar uma terceira figura para acabar com a relação narcísica e incestuosa entre mãe e filho. A figura paterna representa esse corte em relação à mãe e seu filho. O que está em jogo na função paterna é a lei da proibição do incesto; lei psíquica que dá condições  ao indivíduo de  entrar numa cultura de leis, porque não há lei sem cultura, nem cultura sem lei.

Na educação familiar transmite-se um nome, uma tradição, uma neurose familiar, uma vez que cada família tem seu folclore básico para que o sujeito conquiste o campo de enunciação no universo da família. E a criança se surpreende quando entra no universo da escola porque entra no universo desconhecido, no qual é tratada de forma diferente do que o é na família. E a escola pressupõe o esquecimento da família, porque, para a criança ir bem na escola ela tem que esquecer da mãe e do pai, distanciar-se deles.

Hoje, a família não mais acredita em como a escola está lidando com a criança na parte disciplinar. Por exemplo, mãe que é chamada pela escola, vem brava e desacredita o trabalho da instituição; fala mal da escola, do professor e equipe pedagógica na frente do aluno, que piora muito, ao invés de melhorar, o que era o objetivo da conversa conjunta.

Para isso, muito contribuiu o fato de que, se antigamente, a mulher do lar fazia todo um trabalho paralelo de atendimento complementar à criança na escola: cuidava do uniforme, materiais, lanches, higiene pessoal, etc, o pai não sofria o desgaste cotidiano da autoridade. Ele era poupado. A mãe administrava o cotidiano e fazia a mediação dos conflitos.

Nos moldes do casamento de hoje, a felicidade pessoal de cada um vem em primeiro lugar e a criança é sacrificada. Há, em todos os pais uma culpa que eles procuram compensar  através de consumismo, comprando tudo para as crianças, ou “comprando as crianças” para compensar sua ausência. Essa culpa leva à falsa idéia de que felicidade é fazer o que a criança quer. Dessa forma, a vida familiar encontra-se desestruturada. Por exemplo, crianças e adolescentes dormem a hora que querem, quando e onde querem.

Assim, essa criança, na família, não é mais tratada como tal, mas como adulto, com independência. Ao mesmo tempo, a escola está tentando, nos velhos moldes, colocá-la como criança, mas coloca a criança no lugar de aluno e repete a família.

Para haver uma mudança, tem-se que saber lidar com o fato de que não é culpa da família. Não é benéfico procurar culpados, pois o problema está em todos os lugares. Os adultos, portanto, têm que sair da posição de culpados.

E a Psicanálise não se pauta em conceitos morais. O que está em causa na Psicanálise tem a ver com o desejo. Ela não traz soluções; o que fazemos é utilizar essas idéias para refletir sobre determinados problemas, considerando que o que nos faz continuar estimulados é continuar desejando.

A Psicanálise não trabalha com questão de auto-estima, mas com desejo. Para a Psicanálise, auto-estima e auto-ajuda, apenas alimentam a ilusão de que as pessoas não precisam do outro, o que não é verdade, porque o outro está sempre em nós, a começar pela figura materna ou  por quem exerce a maternagem, a partir da qual a criança vai se posicionando no mundo.

Leia a seguir a conclusão do trabalho

Monografia apresentada ao Lepsi, da Universidade de São Paulo, como trabalho de Conclusão do Curso "Infância, Psicanálise e Educação". Joana Maria Rodrigues Di Santo é Psicopedagoga experiente, com atuação significativa em Psicopedagogia Institucional, Coordenadora de Ensino Médio e Fundamental, Supervisora aposentada do Município de São Paulo, Mestre em Educação, profere palestras e assessora diversas escolas.


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atualizado/setembro/2007