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Tendo traçado o cenário da
indisciplina, a questão de educar com decisão e responsabilidade,
destacando questões da escola e da família, algumas considerações sobre
transferência se fazem necessárias.
Na verdade, o educador não tem total
domínio e controle do que está transmitindo. Transmite conteúdo e valores,
mas muitas coisas ele pode estar passando nas entrelinhas, que vêm do
inconsciente, como, por exemplo, um descontentamento com a profissão.
Ocorrendo uma relação transferencial entre professor e aluno, este pode
transferir para o professor afetos dirigidos ao pai. Assim, no caso de não
se relacionar bem com seu pai, não se dará bem com esse professor,
independentemente do esforço do professor para conquistar esse aluno. Isso
porque a relação transferencial é inconsciente. Da mesma forma, o
professor pode transferir uma série de questões suas, inconscientes, para
o aluno.
No que diz respeito à transferência, é
fundamental colocarmos que ela pode acontecer com professores, que ocupam
o lugar de modelos, uma vez que herdam as antigas relações que os alunos
viveram com seus pais. Portanto, professores são herdeiros da relação dos
pais com os filhos. É sobre a transferência que se assentam os trabalhos
escolares. Em decorrência, se não se estabelecer nada parecido com a
relação transferencial, não se dá a aprendizagem, pois o aluno aprende por
amor, e quando se diz que é sobre a transferência que se dá o
conhecimento, está-se referindo que o aluno transfere para o professor, e,
por causa disso, aprende.
Em suas aulas, Maria Cristina Kupfer
diz que primeiro se deve pensar na transferência do professor em relação
ao aluno: quem fala faz a transferência e põe o outro num certo lugar.
Assim como o analista arruma o sentido/rumo da fala, ao professor cabe dar
o rumo da aula.
Podemos citar um exemplo do qual
tivemos conhecimento: uma boa aluna, que respeitava e valorizava a
educadora, ressaltando todas as atividades desta, que, em contrapartida,
se sentia incomodada com a aluna, mas não sabia por que. Na análise, a
professora percebeu que, de uma certa forma, essa aluna ameaçava seu papel
de detentora do saber, o que a incomodava. A partir desse conhecimento do
que se passava em nível de inconsciente, ficou mais fácil trabalhar com a
aluna e manter o rumo que queria dar às aulas.
Outros exemplos:
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Criança que tira a
professora de seu lugar de educadora e coloca no lugar de mãe,
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Jovem que se
apaixona pelo professor: está apaixonada por tudo que transferiu para
ele,
-
Adolescente que
transfere para o professor a questão do pai biológico que é repressor.
Está em fase de testar autoridade, bater de frente, e faz isso com o
professor que não tem nenhum problema com ele.
É preciso que o educador saiba que
espera, com sua postura e objetivos, despertar o desejo de saber do aluno,
mas que esse desejo é despertado não só por questões conscientes, mas
inconscientes, que fogem do controle desse professor, que exerce seu
ofício e, por baixo, há o alvo da ação transferencial; o educador está
abalizado por esse tipo de demanda e, inconscientemente, há o ganho
narcísico; esse reconhecimento do seu eu- professor.
Em geral, quando os professores se
deparam com alunos, revivem eles mesmos quando foram alunos e tiveram boas
referências de escolas, no sentido de integrar valores e serem sujeitos do
conhecimento.
Há que se considerar, também, que
professores que mantiveram o interesse por estudos acadêmicos têm
dificuldade de entender a questão da postura do aluno atual. No entanto,
“na educação, ao mesmo tempo, circula algo da ordem do conhecimento e algo
da ordem do saber. Este saber (saber sobre o desejo, saber suposto no
professor), compõe a realidade transferencial e, portanto, não é a mesma
coisa que o pretendido relacional da Pedagogia de hoje. Isto quer dizer
que, na transmissão do conhecimento, algo excede a atitude manifesta do
professor e, por isso, os modelos malogram e, por isso, não há controle e
previsão no interior da ação educativa. Esse algo que excede, podemos
chamar de desígnios do inconsciente ou do desejo inconsciente, que impele
o sujeito para a transferência.”(Monteiro, 2000: p. 29)
Continua esclarecendo que,“sobre a
figura do professor o aluno transfere algo que lhe pertence. A figura do
professor passa a possuir um sentido atribuído pelo desejo do aluno. Que
sentido é esse? Ou, o que se transfere? Recorremos a Freud para responder
estas questões: `A natureza e a qualidade das relações da criança com as
pessoas do seu próprio sexo e do sexo oposto, já foi firmada nos primeiros
seis anos de sua vida.(...) Todos que vem a conhecer mais tarde tornam-se
figuras substitutivas desses primeiros objetos de seus sentimentos.(...).
Seus relacionamentos posteriores são assim obrigados a arcar com uma
espécie de herança emocional, defrontam-se com simpatias e antipatias para
cuja produção esses próprios relacionamentos pouco contribuíram.” (2000,
p.30). Elisabete Aparecida Monteiro diz, ainda, que “a educação se dá
naquilo que se processa no interior da ação educativa, bem como em |
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todo encontro entre duas pessoas,
naquilo a que Freud chamou de transferência.” (2000, p. 30)
O professor tem que trabalhar a questão
da onipotência. Tem que saber que existe um inconsciente entre o professor
e o aluno, além da relação consciente que ele pode controlar e que depende
da sua vontade. O aluno transfere para o professor a figura de autoridade
e bate de frente com tudo que essa figura de autoridade representa. O
professor acaba sendo o depósito das transferências desse aluno, e se
frustra.
Como a mãe tem suas expectativas em
relação ao filho, supondo que a criança é muito mais do que de fato é,
expectativas estas que a ajudam a suportar/agüentar o trabalho com a
criança, o professor precisa ter suas expectativas em relação ao aluno
para suportar/agüentar o trabalho pedagógico. Assim, um educador não pode
ser um cético, agnóstico, melancólico ou depressivo contumaz, pois, o
aluno precisa é de paixão, esperança, empolgação. Deve transmitir aos
educandos a esperança de que podem ser melhores do que são. E os alunos
vêm em busca disso.
Como diz Leandro de Lajonquière em suas
aulas: a escola fica em torno de uma suposição delirante de que todos
podem; é só querer. A escola tem que começar como uma espécie de esperança
desmedida e inflacionária!
Finalmente, procurando estudar a
questão da indisciplina, que é uma das mais graves da Pedagogia de hoje,
nos deparamos com todo um contexto de Psicanálise e Educação a ser
estudado, entendido, começando pelo fato de que todo adulto perante uma
criança depara-se, de fato, com sua própria infância recalcada. Que uma
educação torna-se possível, precisamente, à medida que o adulto desdobra a
diferença que medeia entre a criança que foi uma vez para outros e essa
criança real junto à qual deve sustentar uma palavra educadora.
Para fazer frente a esse problema, os
professores precisam estar seguros de seu papel e não ficar hesitantes
para tomar decisões. Têm que se responsabilizar por aquilo que decidem e
não temer colocar limites para as ações dos alunos e de suas famílias,
pois o ambiente escolar é diferente do familiar e na escola não é a
família que deve decidir. Há que se resgatar a autoridade docente.
Na escola, o professor somente poderá
fazer a educação transitar entre o proibir e o permitir quando não
estiver destituído da posição de autoridade, enquanto estiver sustentando
a diferença entre ele e o aluno, diferença que tem a ver, principalmente,
com o conhecimento que o professor detém.
Como a criança de hoje, geralmente, não
tem com os pais uma relação de disciplina, de diferenciação, também não a
tem com o professor. Há, então que se pensar nas colocações de Freud
acerca da impossibilidade da educação. Diz que impossível é o universal, a
educação, pois não existe a certeza universal. O que existe é uma educação
que se revela possível depois que aconteceu.
Não há uma educação livre de repressão,
já que esta é constitutiva, isto é, as restrições morais não surtiriam
efeito se não houvesse uma disposição do psiquismo a impedir toda a
satisfação. As esperanças de uma civilização feliz e mais sadia através de
uma educação menos repressora revelaram-se uma grande ilusão.
A impossibilidade da educação não está
na aprendizagem, mas na tentativa de controle do processo educativo.
Aquilo que se aprende e se elabora no ato educativo está para além da
previsão e domínio dos pedagogos, para além do pretenso ajuste psicológico
da relação, pois se encontra submetido às leis que regem o psiquismo
humano, dentre elas a transferência.
Registramos, enfim, que quem define a
indisciplina é o educador, o adulto do processo e que deve deter a
autoridade.
Assim, o dilema atual não é voltar à
escola de antes, mas reinventar a escola de hoje, que faça funcionar a
cena escolar. Para tanto, o educador não pode ignorar a tradição, senão
vai querer educar a partir do nada, e não vai conseguir. Ele precisa repor
no cenário que cada um tem que fazer a sua parte: a da criança é ser aluno
e aprender por amor, respeitando a autoridade do professor que educa por
dever. Este, decide com vistas ao conhecimento e declara como será seu
trabalho, bem como que não haverá negociação.
E isso é fundamental, principalmente na
nossa época, em que a indisciplina é de um caráter tal que as crianças não
aprendem. Assim, o professor, no ato educativo, tem que garantir a
promessa fálica de que há alguma coisa a pegar com o tempo, e a ameaça
narcísica, pela qual o aluno precisa entender que se não fizer o que o
professor está mandando/orientando, perderá o amor desse professor. E para
a escola funcionar tem que ter o enigma do aluno saber que no final será
alguém.
Encerramos dizendo que é preciso
superar o fato de que o adulto de hoje não educa em razão de um dever ser
que emana da geração anterior, mas em nome de uma certeza quase futurista.
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