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A
nave
espacial
Terra
é movida
por
quatro
motores
associados
e, ao
mesmo
tempo,
descontrolados:
ciência,
técnica,
indústria
e
capitalismo.
A
globalização
pode
ser
vista
como
a
última
fase
de uma
planetarização
tecno-econômica.
Ao
mesmo
tempo,
ela
pode
ser
vista
como
a
emergência
caótica
e
desigual
de
um
embrião
de sociedade-mundo. Uma
sociedade
dispõe de
um
território
que
comporta
um
sistema
de
comunicações.
O
planeta
se
encontra,
hoje,
dotado de uma
textura
de
comunicações
(aviões,
telefone,
fax,
Internet)
como
nenhuma
outra
sociedade
do
passado
jamais
teve.
Uma
sociedade
inclui uma
economia.
A
economia
atual
é mundial, de
fato,
mas
lhe
faltam as
restrições
de uma
sociedade
organizada (leis,
direito,
controles).
E as
instituições
mundiais
atuais,
o FMI e outras,
são
incapazes
de
efetuar
as regulamentações necessárias.
A
sociedade
é
inseparável
da
civilização.
Existe uma
civilização
mundial,
saída
da
civilização
ocidental,
que
desenvolve o
jogo
interativo
da
ciência,
da
técnica,
da
indústria
e do
capitalismo
e
que
comporta
um
certo
número
de
valores
padronizados.
Ao
mesmo
tempo
em
que
comporta
múltiplas
culturas
em
seu
seio,
uma
sociedade
também
gera uma
cultura
própria.
Acontece
que
existem múltiplas
correntes
transculturais
que
irrigam as
culturas,
ao
mesmo
tempo
em
que
as superam, e
que
formam
algo
que
quase
chega
a
ser
uma
cultura
planetária.
Mestiçagens,
hibridizações,
personalidades
biculturais (Rushdie,
Arjun Appadura)
ou
cosmopolitas
enriquecem essa
via
transcultural de
maneira
incessante.
No
decorrer
do
século
20, as
mídias
produziram e difundiram
um
folclore
mundial a
partir
de
temas
originais
saídos
de
culturas
diferentes,
às
vezes
dotadas de
recursos
próprios,
às
vezes
sincretizadas.
É
notável
o
fato
de
que
as
máquinas
culturais
formidáveis
do
cinema,
da
canção,
do rock e da
televisão,
animadas
pelo
lucro
e organizadas numa
divisão
quase
industrial
do
trabalho,
sobretudo
em
Hollywood, tenham conseguido
produzir
algo
além
de
obras
medíocres
e conformistas. Existe e existiu
criatividade
em
todas essas
áreas.
Um
folclore
planetário
se constituiu e se enriquece
com
as
integrações
e os
encontros.
No
que
diz
respeito
à
arte,
à
música,
à
literatura
e ao
pensamento,
a
globalização
cultural
não
é homogeneizadora.
Ela
é
feita
de
grandes
ondas
transculturais
que
favorecem a
expressão
das
originalidades
nacionais
em
seu
seio.
A
mestiçagem
recriou a
diversidade,
ao
mesmo
tempo
favorecendo a
intercomunicação.
O
jazz
começou
como
híbrido
afro-americano,
produto
singular
de
Nova
Orleans,
que
se expandiu
pelos
Estados
Unidos, passando
por
diversas
mutações,
sem
que
os
novos
estilos
fizessem
desaparecer
os
estilos
anteriores.
Assim,
o
jazz
se tornou uma
música
negra
e
branca,
ouvida,
dançada e
depois
tocada
também
por
brancos,
e,
sob
todas
suas
formas,
espalhou-se
pelo
mundo,
tanto
assim
que
o
velho
estilo
de
Nova
Orleans,
aparentemente
abandonada
em
seu
local
de
origem,
renasceu
em
Saint-Germain-des-Prés, retornou aos
Estados
Unidos e se estabeleceu
em
Nova
Orleans
mais
uma
vez.
Depois
do
encontro
do "rhythm and
blues",
é na
esfera
branca
que
o rock surge
nos
Estados
Unidos,
para
em
seguida
se
espalhar
por
todo
o
mundo
e
em
todas as
línguas,
a
cada
vez
assumindo uma
identidade
nacional.
Hoje
em
dia
dança-se, festeja-se e comunica-se rock
em
Pequim,
Cantão,
Tóquio, Paris
ou
Moscou, e os
jovens
de
todos
os
países
dançam ao
mesmo
ritmo,
em
todo
o
planeta.
A
difusão
mundial do rock
também
levou ao
surgimento,
em
diversos
lugares,
de
novas
originalidades
mestiças,
como
o "raí", e,
finalmente,
com
o rock-fusion, surgiu uma
espécie
de
caldeirão
rítmico
onde
se misturam as
culturas
musicais do
mundo
inteiro.
Assim
-às
vezes
para
pior,
mas
freqüentemente
também
para
melhor,
e
sem
se perderem-, as
culturas
musicais do
mundo
inteiro
se fecundam umas às outras,
sem,
entretanto,
saber
que
estão gerando
filhos
planetários.
Por outros motivos, como em
toda a sociedade, criou-se um underground -mas, desta vez, planetário- com
sua criminalidade própria. Desde os anos 1990, existe uma máfia
intercontinental (que trabalha especialmente com o tráfico de drogas e a
prostituição). E o 11 de setembro de 2001 trouxe à tona a existência de
uma rede terrorista mundial, que, à sua própria maneira, também contribui
para o surgimento da sociedade-mundo. Querendo desintegrar a globalização,
a Al Qaeda estimula a formação de uma
sociedade-mundo que busca instituir sua polícia própria e que, melhor
ainda, poderia - aliás, deveria - instituir uma política de civilização
para o planeta.
Podemos, enfim, dizer que a
globalização da nação, que se concluiu ao final do século 20, confere ao
planeta uma característica de civilização e cultura comuns; ao mesmo
tempo, porém, o fragmenta ainda mais, e a soberania absoluta das nações
cria obstáculos, justamente, ao surgimento da sociedade-mundo.
Emancipadora e opressora, a nação torna
extremamente difícil a criação de confederações
que responderiam às necessidades vitais dos continentes e ainda mais
difícil o nascimento de uma confederação planetária.
Assim, se o planeta constitui
um território que dispõe de um sistema de comunicação, de uma economia,
uma civilização e uma cultura, também é fato que lhe falta um certo número
de dispositivos essenciais, que são a governança,
a cidadania, o controle dos poderes, sem falar na consciência comum de
fazer parte da Terra-Pátria.
Análises e fóruns
O planeta não dispõe de
organização, de direito, de instâncias de poder e de regulamentação
econômica, política, policial e da biosfera. A ONU não pode constituir-se
em autoridade supranacional, e seu sistema de veto a paralisa. Não existem
as instâncias que permitiriam a uma sociedade-mundo controlar sua
economia. A conferência de Kyoto não conseguiu
instituir uma instância de salvaguarda da biosfera. Uma sociedade-mundo
não poderia emergir se não fosse dotada de um exército e uma polícia
internacionais. Ainda não existe sociedade civil mundial, e a consciência
de que somos cidadãos da Terra-Pátria é dispersa, embrionária. Ou seja,
temos as infra-estruturas, mas não as superestruturas.
Não obstante, desde o final de
1999 podemos constatar a formação de embriões de sociedade civil e de
cidadania terrestre. A manifestação anti-Seattle,
contra a globalização tecno-econômica,
transformou-se numa manifestação a favor de uma outra globalização cuja
divisa foi "o mundo não é uma mercadoria". Foi a conscientização da
necessidade, não apenas de uma resposta mundial a um problema mundial, mas
também de uma força de pressão e de proposta em escala planetária.
Infelizmente as instâncias
internacionais que criavam uma solidariedade planetária dos trabalhadores
perderam força; as aspirações que as nutriam ressuscitaram através dos
esboços dispersos, mas significativos, que, em diversos lugares, se
configuram para que surja uma sociedade civil cuja formação seria uma
etapa importante no aparecimento da sociedade-mundo. O que falta para que
uma sociedade-mundo possa se constituir não como acabamento planetário de
um império hegemônico, mas com base numa confederação civilizadora, não é
um programa ou um projeto, mas os princípios que permitiriam que fosse
aberto um caminho. Neste ponto, passa a fazer sentido aquilo ao qual dei o
nome de antropolítica (política da humanidade
em escala planetária) e política de civilização. Isso deve nos levar,
antes de mais nada, a abrir mão do termo
"desenvolvimento", mesmo modificado ou moderado, para tornar-se um
desenvolvimento durável, sustentável ou humano.
A idéia de desenvolvimento
sempre comportou uma base técnico-econômica,
mensurável pelos indicadores de crescimento e de receita. Ela
supõe, de maneira implícita, que o desenvolvimento
tecno-econômico seja a locomotiva que
puxa atrás dela, naturalmente, um "desenvolvimento humano" cujo modelo
acabado e bem-sucedido é o dos países ditos desenvolvidos - em outras
palavras, ocidentais. Essa visão supõe que o estado atual das sociedades
ocidentais constitui o objetivo e a finalidade da história humana.
O desenvolvimento "durável" vem
apenas moderar o desenvolvimento em consideração do contexto ecológico,
mas sem questionar seus princípios. Já no "desenvolvimento humano",
a palavra "humano" é vazia de qualquer
substância, a menos que remeta ao modelo humano ocidental, que certamente
comporta traços essencialmente positivos mas que também, vale repetir,
inclui características essencialmente negativas.
Também o desenvolvimento, noção
aparentemente universalista, constitui um mito típico do
sociocentrismo ocidental, um motor de
ocidentalização forçada, um instrumento de colonização dos
"subdesenvolvidos" (o Sul) pelo Norte. O desenvolvimento, do modo como é
concebido, ignora aquilo que não é calculável nem mensurável: a vida, o
sofrimento, a alegria, o amor, e o único critério pelo qual mede a
satisfação é o crescimento (da produção, da produtividade, da receita
monetária). Definido unicamente em termos quantitativos, ele ignora as
qualidades, as qualidades de existência, as qualidades de solidariedade,
as qualidades do meio, a qualidade de vida.
Além disso, o PIB (Produto
Interno Bruto) contabiliza como positivas todas as atividades geradoras de
fluxos monetários, incluindo as catástrofes como o naufrágio do
Erika ou a tempestade de 1999, e ignora as
atividades benéficas gratuitas. Sua racionalidade
quantificadora é irracional. O desenvolvimento ignora que o
crescimento tecno-econômico produz
subdesenvolvimento moral e psíquico: a
hiperespecialização generalizada, a
compartimentalização em todas as áreas, o
hiperindividualismo e o espírito de lucro geram a perda da
solidariedade.
O desenvolvimento engendra um
conhecimento especializado que é incapaz de apreender os problemas
multidimensionais. A educação disciplinar do mundo desenvolvido traz
conhecimentos, sim, mas gera uma incapacidade intelectual de reconhecer os
problemas fundamentais e globais. A noção de desenvolvimento deveria, a
meu ver, ser substituída ao mesmo tempo pela idéia de uma política da
humanidade (antropolítica), que já venho
sugerindo há muito tempo, e pela idéia de uma política da civilização. A
política do humano teria por missão mais urgente solidarizar o planeta.
Assim, uma agência da ONU
criada especificamente para esse fim disporia de fundos próprios para
a humanidade carente, sofredora, miserável. Ela
comportaria um departamento mundial de medicamentos gratuitos para a Aids
e as doenças infecto-contagiosas, um departamento mundial de alimentação
para atender às populações carentes ou atingidas pela fome, uma ajuda
substancial às ONGs
humanitárias.
Os países ricos deveriam
proceder à mobilização maciça de seus jovens no serviço cívico planetário,
em toda parte onde fosse sentida necessidade dessa ajuda (em regiões
atingidas por secas, inundações e epidemias). O problema da pobreza é mal
avaliado, em termos de renda: é sobretudo de injustiça que sofrem os
pobres, que estão desarmados para fazer frente à desnutrição e às doenças,
assim como são carentes de respeito e consideração. O problema dos
carentes é sua impotência diante do desprezo, da ignorância e dos golpes
do destino.
A política da humanidade seria
ao mesmo tempo uma política para constituir, proteger e controlar os bens
planetários comuns. Enquanto estes, atualmente, são limitados e distantes
do centro (a Antártida, a Lua), seria preciso incluir também o controle da
água, suas retenções e seus desvios, e também o controle das jazidas
petrolíferas. A política da humanidade seria correlativamente uma política
de justiça para todos aqueles que, não ocidentais,
tivessem negados os direitos reconhecidos pelo Ocidente para ele
próprio.
A política da civilização teria
por missão desenvolver o melhor da civilização ocidental, rejeitar o pior
dela e operar uma simbiose de civilizações integrando as contribuições
fundamentais do Oriente e do Sul. Essa política de civilização seria
necessária para o próprio Ocidente. Este sofre, cada vez mais, do domínio
do cálculo, da técnica do lucro sobre todos os aspectos da vida humana, do
domínio da quantidade sobre a qualidade, da degradação da qualidade de
vida nas megalópoles e da desertificação da zona rural, utilizada pela
agricultura e a pecuária industriais que já produziram
várias catástrofes alimentares.
A nave espacial Terra é movida
por quatro motores associados e, ao mesmo tempo, descontrolados: ciência,
técnica, indústria e capitalismo (lucro). O problema está em estabelecer
um controle sobre esses motores: os poderes da ciência, da técnica e da
indústria devem ser controlados pela ética, que só pode impor seu controle
por meio da política; a economia não apenas deve ser regulamentada, como
deve tornar-se plural, incluindo associações de mutuários, cooperativas e
trocas de serviços.
Uma sociedade-mundo precisa de
governança. Uma
governança democrática mundial é algo fora de alcance neste
momento. Apesar disso, as sociedades democráticas se prepararam por meios
não democráticos, ou seja, por meio de reformas impostas. Seria desejável
que essa governança se efetuasse a partir das
Nações Unidos, que, dessa maneira, se tornariam uma confederação, criando
instâncias planetárias dotadas de poder sobre os problemas vitais e os
perigos extremos (armas nucleares e biológicas, terrorismos, ecologia,
economia, cultura).
Mas o exemplo da Europa nos
mostra a lentidão de um encaminhamento que exige um consenso de todos os
parceiros. Seria preciso ocorrer uma intensificação repentina e terrível
dos perigos, a chegada de uma catástrofe, para constituir o choque
elétrico necessário para a conscientização e a tomada de decisões.
Em outras palavras, é preciso
trabalhar no sentido de um civismo planetário, de uma emergência da
sociedade civil mundial, de uma ampliação das Nações Unidas.
Por meio de regressão,
deslocamento, caos e desastres, a Terra-Pátria poderia surgir, não
assumindo o lugar das diferentes pátrias, mas abrangendo-as. Obstáculos
enormes se opõem a essa visão. A tendência à unificação da sociedade-mundo
suscita resistências nacionais, étnicas e religiosas que conduzem
à balcanização do
planeta, e para eliminar essas resistências seria preciso impor uma
dominação implacável. Há, sobretudo, a imaturidade dos
Estados nações, dos espíritos, das consciências - ou seja,
fundamentalmente, a imaturidade da própria humanidade ainda por se
realizar.
Para chegarmos à civilização
mundial, seria preciso que fossem conquistados grandes progressos do
espírito humano, não tanto de suas capacidades técnicas e matemáticas, não
apenas no conhecimento das complexidades, mas em sua interioridade
psíquica.
Está claro a nossos olhos (e
apenas para os nossos) que uma reforma da civilização ocidental e de todas
as civilizações é necessária, que uma reforma radical de todos os sistemas
de educação é necessária, e não está menos claro que o que existe é a
inconsciência total e profunda da necessidade dessa reforma.
Paradoxalmente, o esquema de
uma política da humanidade e de uma política da civilização, que
esboçamos, apesar de corresponder a possibilidades materiais e técnicas, é
uma possibilidade real que, neste momento, é impossível. É por isso que,
seja qual for o caminho que se impuser, a humanidade ainda vai passar
muito tempo sofrendo as dores do parto - ou do aborto. |