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A escola concebida como
um espaço
produtivo exigiria a concretização de ações em que os professores
desempenhariam a função de mediadores, articulando o
processo pedagógico
com a
investigação
científica no
intuito
de oportunizar ao aluno uma
aprendizagem qualificada. Desse modo,
o ensino como atributo da docência
ganharia nova
conceituação, deslocando-se da ação
de ensinar
para a de aprender,
relegando-se a transmissão de saberes pelos professores à condição
de mera
transmissão, propugnando-se
entre outros procedimentos, os chamados
ativos, reeditando-se em
uma nova roupagem um dos fundamentos
do escolanovismo associando-o ao
paradigma do ensino
com pesquisa.
Certamente
esta discussão, por sua atualidade,
está longe de
obter
consenso: transmite-se ou não conhecimento? É de mais
valor o que
o aluno aprende
por
si ou
o que é transmitido? Tais questões
vêm sendo tratadas por diversos pesquisadores.
Destaque-se, nesse sentido, a pesquisa empreendida por
Newton Duarte na Unicamp sobre o construtivismo e suas
vinculações a
teorias
denominadas pós-modernas. Ao criticar o construtivismo, DUARTE fundamenta-se na teoria de Vigotski e na crítica
ao reducionismo teórico que antepõe a herança
cultural às vivências discentes que
valorizam o aprender a
aprender
em detrimento
da aprendizagem conceitual sistemática e aprofundada
acerca
da ciência.
Entretanto,
reconhecemos que a aprendizagem conceitual
usualmente ocorre
em
termos de
reprodução
de saberes
escolares
transmitidos pelo
professor, o que
acaba situando a aprendizagem na devolução do recebido, de modo
irrefletido, algo
que Paulo Freire definiria como educação bancária em Pedagogia do Oprimido.
A aprendizagem conceitual, portanto,
é realizada de modo
expositivo,
em que
as formulações dos
alunos
se resumem em
reproduzir
o que foi transmitido
pelo
professor, ou,
quando muito,
a solucionar
questões
nos marcos
estritos do
ensino
livresco. Não
se confunda ensino
livresco
com ensino
das teorias. Conceituamos ensino livresco
como a prática
docente calcada somente
nos limites
do texto,
sem
correlações com
a realidade em
sua concretude, o
que
tantas vezes gera a
falsa
compreensão que
o conceito seja a
própria
realidade e não
meio de entendê-la.. O envolvimento e a
participação ficam delimitados pela lógica positivista
que situa a
teoria
antes da prática
confundindo a teoria com o real. Evidentemente, a formação
acadêmica do
pedagogo,
por exemplo,
ocorre antes do
exercício
profissional ou
se dá concomitantemente à docência. Entretanto,
os cursos de
pedagogia
supõem que os graduandos estejam
sendo preparados
para
futuramente adentrarem profissionalmente na educação, assim,
as vivências, as
experiências
relevantes do cotidiano
dos educadores-graduandos, não são refletidas no processo
de ensino-aprendizagem, ou quando muito,
esporadicamente, surgem como exemplos para as formulações dos docentes.
Além
disso, mesmo aqueles que ainda não atuem na educação,
trazem suas
experiências
escolares, o seu
currículo
discente
que constitui o
seu
modo de compreender
o que seja
prática
educativa.
Compreensão
esta que
encontra
na prática
acadêmica
inúmeros aspectos
semelhantes, notadamente,
quando se exige do graduando a
simples reprodução
do que foi
exposto
pelo docente.
Ressalve-se que a aprendizagem conceitual
é fundamental
na formação
acadêmica
e pode ser um
ponto de partida
para o exercício
da análise do
real. O
importante está em
que não
se limite a aprendizagem ao
universo
conceitual, da
idéia
pela idéia,
mas se introduza a
prática
científica da
pesquisa,
por exemplo,
como metodologia
de ensino no
processo
educativo, oportunizando a reflexão do cotidiano educacional, abrindo as portas
para a realidade dos alunos, associando-se à aprendizagem acadêmica as necessidades
de se mediar o
cotidiano
com os saberes
sistematizados, filosóficos e científicos.
É necessário
que os
professores
desçam de suas certezas absolutas. No dizer
crítico de
Cunha (apud Veiga,
1996: 121-2), “o professor,
para
ser seguro, tem de ter respostas para todas as questões
e não deve
nunca
vacilar. Aprendeu a estimular
o pensamento convergente e se
autogratifica com a
resposta
única do aluno,
aquela que
ele
considera certa...”
A reflexão, de acordo
com CUNHA,
quando
existe, ocorre nos
marcos
da resposta
única, na resposta
do professor
que sabe o que
o aluno deve
saber.
Não
se trata de desautorizar os saberes docentes
acadêmicos,
certamente, os professores
dominam um universo conceitual no qual
os alunos se introduzem.
Trata-se da postura que não favorece a criticidade, a
criatividade
e a reflexão no
aprendizado
dos graduandos.
A aprendizagem conceitual pode ser benéfica na medida
em que
se saiba
tirar
proveito dos
conceitos
aprendidos; ou seja, que sustentem o desvelamento
do real
para ações que não se resumam ao saber pelo saber,
mas
que propiciem a auto-reflexão, o
situar-se no mundo, a
disposição
em intervir
no mundo, a
vontade
de ser
protagonista, compreendendo-se
que ser
protagonista na aprendizagem significa ser protagonista na vida, em suas relações sociais.
Usualmente,
espera-se que os alunos
venham a se tornar
críticos
e reflexivos
para
além dos limites
dos cursos
acadêmicos, aplicadores
conscientes do aprendido em seus cotidianos. Ora,
novas idéias
apenas substituem velhas idéias se formas
intervenientes não forem
contempladas na
prática educacional.
Tais formas
de intervenção devem se
iniciar
com os alunos,
se objetivamos profissionais críticos, participativos,
agentes
de mudanças como
proclama
o discurso
educacional.
A ação
docente na socialização dos saberes pode ser pelos alunos
obtida por
meio
de práticas vivenciais e
experimentais que levem à construção e aplicação conceitual
no processo de
formação
acadêmica. Assim,
caminhar-se-ia para a
síntese
do real mediada
pela
teoria.
Cunha
(apud Veiga, 1996: 120-1) destaca
que a utilização
pedagógica-metodológica da pesquisa:
Valoriza a ação reflexiva e a disciplina tomada
como capacidade
de estudar, refletir
e sistematizar o conhecimento,
privilegia a intervenção no conhecimento socialmente
acumulado; estimula a análise,
a capacidade de compor e recompor dados, informações, argumentos
e idéias; valoriza a
ação, a reflexão
crítica, a curiosidade,
o questionamento
exigente, a inquietação
e a incerteza,
características
do sujeito cognoscente; valoriza o pensamento divergente:
parte da inquietação
e ou provoca
incerteza; percebe o
conhecimento de forma
interdisciplinar, propondo pontes
de relação entre eles e atribuindo significados
próprios aos
conteúdos,
em conformidade
com os objetivos
acadêmicos; valoriza a qualidade dos encontros
com os alunos
e deixa
este
tempo disponível
para o estudo
sistemático e a
investigação
orientada; concebe a pesquisa como atividade inerente ao ser humano, acessível
a todos e a
qualquer
nível de ensino,
guardadas as devidas proporções.
Ao saber
o valor da
pesquisa
no ensino, ao
procurar
a constantemente proclamada unidade indissociável
entre teoria
e prática, o professor
se
vê diante
da necessidade de
ressignificar seus saberes,
complementando-os, criticando e autocriticando-se. Se o
conhecimento
é dinâmico, mutável e
processual, não é possível
ao professor inserir
a perspectiva da pesquisa
mantendo velhas posturas como as de um exercício que apenas referende o já
sabido. Há riscos,
principalmente de
não
se permanecer
como
sempre se foi.
Concebendo-se a educação como prática social, ao professor resta apurar seus conhecimentos e responder
a si
próprio,
antes de tudo,
quais os limites
e alcances de
sua
atuação. Definir
o que se
espera
da educação significa
explicitar
os modos de se
conceber
ao saber, e ao
seu
papel no mundo
que se quer
transformar e como
transformá-lo. Em
suma,
em assumir
uma concepção de
mundo
transformadora que transcenda
o discursivo, algo
tão
freqüente na
educação.
Portanto,
a crítica não
pode se limitar ao
modo
como os
professores
atuam, inclui a crítica ao que postulam, aos fundamentos
do seu
pensamento. A prática
em si não expressa necessariamente uma
mudança
profunda se os
seus
pressupostos não estiverem consoantes com
uma concepção
crítica
de mundo, o
que
vale dizer, uma concepção que
compreenda a si
mesma
como uma mediação
com
o real e
não
o próprio real.
Se cada
objeto
percebido, observado ou elaborado pelo homem é parte
de um
todo (Kosik, 2002: 31) a
sua explicitação só se torna compreensível pela
mediação do abstrato, assim, o que se
propõe não
se trata de
vulgar
ativismo, mas
a elevação do abstrato ao concreto
A ascensão do abstrato
ao concreto
não
é uma passagem de
um
plano (sensível)
para outro plano (racional;)
é um
movimento
no pensamento e do
pensamento.
Para que o pensamento possa progredir
do abstrato ao
concreto, tem de mover-se no
seu próprio
elemento, isto
é, no plano
abstrato,
que é negação
da imediaticidade, da evidência
e da concreticidade sensível
(Kosik, 2002: 36).
A formulação de uma proposta
de ensino e
pesquisa
associados é
abstrata,
cuja concretização indica o horizonte do conhecimento
da realidade por
meio da prática
acadêmica na
formação
de educadores.
A pesquisa como método de investigação
exige conhecimentos
prévios
suficientes para
que a análise
de uma parcela do
real
seja adequadamente relacionada ao todo. Assim, abstrato
e concreto,
parte
e todo constituem uma unidade indissociável
que permitem compreender-se e
movimentar-se do fenômeno
para
a sua
essência
e desta para o fenômeno
(Idem: 37).
Em relação à prática do ensino e pesquisa,
o professor é concebido
como
um contínuo
investigador,
aquele
que não
pesquisa encontrará
dificuldades
em implementar
tal metodologia,
como aquele
que se isola. A prática
de ensino e
pesquisa
incide diretamente
sobre
o modo
como
os professores atuam, seu sucesso
está vinculado às diferentes contribuições disciplinares
que auxiliem o
aluno
no estabelecimento de correlações necessárias na produção
do conhecimento.
Em
outras palavras, a instauração de um
processo ensino-pesquisa exige o
trabalho
coletivo dos
educadores
que devem ir além de suas práticas e conteúdos
circunstanciados à disciplina que professam. Como
todo processo
educativo, a sua
dinâmica pode ser
planejada mas
não
totalmente pré-definida, o contingente pode ser
esperado, porém,
não
o que poderá
ser. É possível
definir
um horizonte
a ser atingido,
um
caminho a ser
percorrido, que de
antemão
sabemos conterá obstáculos, soluções, atalhos
e curvas
embora
não saibamos previamente como serão. Assim, o ensino-pesquisa exigirá
em
seu processo
uma constante avaliação.
Podemos resumir em dois aspectos
interligados: o professor necessita
ressignificar a sua prática,
estabelecer
a criticidade consigo mesmo para que a sua prática seja significativa.
A aprendizagem conceitual do aluno
no ensino-pesquisa se relaciona à aprendizagem
prévia
bem como no desenrolar do processo de pesquisa, associando-se tais
momentos ao necessário
desvelamento da
realidade.
Um aluno
crítico, participativo, agente da mudança,
só o será na
medida
em que
seus saberes
impliquem na visão
profunda
e capaz de
estabelecer
relações entre
as dinâmicas
sociais
e a própria
constituição
da educação.
Um projeto de pesquisa
nessa perspectiva exigirá o esforço concentrado
em estabelecer
mediações entre
seus
objetivos, procedimentos e resultados com
a necessária
interpretação
em bases
conceituais. Nesse processo, a
aprendizagem conceitual se faz associada
ao inquirir, formular soluções, planejar ações, totalizar dados e interpretá-los.
O processo
ensino-pesquisa permite o saber e
fazer
harmônicos, estabelecendo um produto – os resultados
– que concernem à
unidade
teoria/prática.
Trata-se de oportunizar aos alunos
uma dinâmica de aprendizagem estimuladora, cujos resultados
podem ser
associados
ao aprofundamento teórico, pois toda pesquisa abre uma gama
de possibilidades de abordagens
conceituais e de outras novas pesquisas.
O importante está em
que se saliente
a necessidade de se
romper
com a concepção
de que o
mundo
seja o que se concebe sem mediações e, diante
de modismos
hora
em voga,
de se conceber o
mundo
como
incognoscível,
ou desprovido
de aspectos totalizantes,
aprisionando-os a prática
educacional
à abordagem do
fenômeno
sem essência.
Destaque-se que ao se propor uma atuação de ensino-pesquisa
associados, ultima-se tornar,
entre
outras coisas, a
prática
no ensino-aprendizagem mais
estimuladora favorecendo-se, possivelmente, a
eclosão
da afetividade do
aluno
de modo
positivo
nesse processo. Se
razão
e emoção
são
inseparáveis, o envolvimento sensível do aluno
com a sua
aprendizagem permitirá um melhor aproveitamento.
O que gostamos fazemos com maior dedicação.
Entretanto, não se trata de
desencadear um
processo de iniciação
científica para
somente estimular o aluno, julgando-se porventura
que a emoção
substitua o saber. Trata-se de
buscar
o todo se concebendo que o aprender, quando se quer,
é em
si
prazeroso, que
no ato de
apreender,
produzir, ou
como queiram
alguns,
construir novos
conhecimentos, a
emoção
subjaz e, por
isso, deve ser
considerada.
O que se pretende é que o processo de formação acadêmica seja
significativo o suficiente para que o pedagogo atue de fato
criticamente em sua realidade, o que certamente compõe a nossa
realidade. Ressalve-se, em síntese, que a aprendizagem conceitual é
fundamental na formação acadêmica e pode ser um ponto de partida
para o exercício da análise do real. O importante está em que não se
limite a aprendizagem ao universo conceitual da idéia pela idéia,
mas se introduza a prática científica da pesquisa, por exemplo, como
metodologia de ensino no processo educativo, oportunizando a
reflexão do cotidiano educacional, abrindo as portas para a
realidade dos alunos, associando-se à aprendizagem acadêmica as
necessidades de se mediar o cotidiano com os saberes sistematizados,
filosóficos e científicos.
Esclareça-se, ainda, que não há uma receita
para o desencadear desse processo em que ensino e pesquisa se associam. Há
indicações
na metodologia de
pesquisa
e ensino
suficientes
para que se
busque a integração de tais elementos.
O importante é
que
se busque formas
alternativas
e combativas para o
ensino
e se critique na prática
aquilo
que,
freqüentemente,
não caminha
além do discurso.
Abstract:
The conceptual
learning, in great measure, can be gotten by means of practical
existential and experimental that leads
to the conceptual construction in the process of academic
formation. Being distinguished the scientific introduction to the
research under the supervision of professors
enters such practical associates from its disciplines.
Keywords:
Teach-research, education
Referências
bibliográficas
DUARTE, Newton. Educação
Escolar, Teoria
do Cotidiano e a
Escola
de Vigotski. 3ª ed. Campinas; Autores Associados,
2001.
________. Conhecimento Tácito
e Conhecimento
Escolar
na Formação do
Professor
(Porque Donald Schön não entendeu Luria). Educação
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Campinas, vol. 24, nº 83, p. 601-625,
agosto, 2003.
KOSIK, Karel.
Dialética
do Concreto. 7ª ed.
São
Paulo: Paz e
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VEIGA, Ilma
Alencastro (org.) Didática: o
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Campinas: Papirus, 1996. |