O jogo para Vygotsky
Vygotsky estabelece uma relação
estreita entre o jogo e a aprendizagem, atribuindo-lhe uma grande
importância. Para que possamos melhor compreender essa importância é
necessário que recordemos alguma idéias de sua teoria do desenvolvimento
cognitivo. A principal é que o desenvolvimento cognitivo resulta da
interação entre a criança e as pessoas com quem mantém contato
regulares.
Convém lembrar também que o principal
conceito da teoria de Vygotsky é o de Zona de Desenvolvimento
Proximal, que ele define como a diferença entre o
desenvolvimento atual da criança e o nível que atinge quando resolve
problemas com auxílio, o que leva à conseqüência de que as crianças
podem fazer mais do que conseguiriam fazer por si sós.
"No desenvolvimento a imitação e o
ensino desempenham um papel de primeira importância. Põem em evidência
as qualidades especificamente humanas do cérebro e conduzem a criança a
atingir novos níveis de desenvolvimento. A criança fará amanhã sozinha
aquilo que hoje é capaz de fazer em cooperação. Por conseguinte, o único
tipo correto de pedagogia é aquele que segue em avanço relativamente ao
desenvolvimento e o guia; deve ter por objetivo não as funções maduras,
mas as funções em vias de maturação" (Vygotsky,
1979:138).
Não é o caráter de espontaneidade do jogo
que o torna uma atividade importante para o desenvolvimento da criança,
mas sim, o exercício no plano da imaginação da capacidade de planejar,
imaginar situações diversas, representar papéis e situações do
cotidiano, bem como, o caráter social das situações lúdicas, os seus
conteúdos e as regras inerentes à cada situação.
Também não é todo jogo da criança que
possibilita a criação de uma Zona de Desenvolvimento Proximal, do mesmo
modo que nem todo o ensino o consegue; porém, no jogo simbólico,
normalmente, as condições para que ela se estabeleça estão presentes,
haja vista que nesse jogo estão presentes uma situação imaginária e a
sujeição a certas regras de conduta. As regras são parte integrantes do
jogo simbólico, embora, não tenham o caráter de antecipação e
sistematização como nos jogos habitualmente "regrados".
Ao desenvolver um jogo simbólico a
criança ensaia comportamentos e papéis, projeta-se em atividades dos
adultos, ensaia atitudes, valores, hábitos e situações para os quais não
está preparada na vida real, atribuindo-lhes significados que estão
muito distantes das suas possibilidades efetivas. A atuação nesse mundo
imaginário cria uma Zona de Desenvolvimento Proximal formada por
conceitos ou processos em desenvolvimento.
Podemos sintetizar
dizendo que: a regra e a situação imaginária caracterizam o conceito de
jogo infantil para Vygotsky.
O autor também detecta no jogo outro
elemento a que atribui grande importância: o papel da imaginação que
coloca em estreita relação com a atividade criadora. (Vygotsky, 1999).
Ele afirma que os processos de criação são observáveis principalmente
nos jogos da criança, porque no jogo ela representa e produz muito mais
do que aquilo que viu.
“Todos conhecemos o grande papel que
nos jogos da criança desempenha a imitação, com muita freqüência estes
jogos são apenas um eco do que as crianças viram e escutaram aos
adultos, não obstante estes elementos da sua experiência anterior nunca
se reproduzem no jogo de forma absolutamente igual e como acontecem na
realidade. O jogo da criança não é uma recordação simples do vivido, mas
sim a transformação criadora das impressões para a formação de uma nova
realidade que responda às exigências e inclinações da própria criança”
(Vygotsky , 1999:12).
Diferenças entre Vygotsky e Piaget
Esta idéia de transformação criadora é
completamente diferente da idéia de Piaget de assimilação do real ao
eu. Tanto em Vygotsky como em Piaget se fala numa transformação do
real por exigência das necessidades da criança, mas enquanto que para
Piaget a imaginação da criança não é mais do que atividade deformante da
realidade, para Vygotsky a criança cria (desenvolve o
comportamento combinatório) a partir do que conhece, das oportunidades
do meio e em função das suas necessidades e preferências.
Como afirma Palangana (1994) as
concepções de Vigostky e Piaget quanto ao papel do jogo no
desenvolvimento cognitivo diferem radicalmente. Para Piaget (1975) no
jogo prepondera a assimilação, ou seja, a criança assimila no jogo o que
percebe da realidade às estruturas que já construiu e neste sentido o
jogo não é determinante nas modificações das estruturas. Para Vygotsky
o jogo proporciona alteração das estruturas.
De acordo com as concepções de Vygotsky,
uma prática pedagógica adequada perpassa não somente por deixar as
crianças brincarem, mas, fundamentalmente por ajudar as crianças a
brincar, por brincar com as crianças e até mesmo por ensinar as crianças
a brincar.
Bibliografia
PALANGANA, I. C. (1994) –
"Desenvolvimento & aprendizagem em Piaget e Vygotsky (a relevância do
social)" – São Paulo: Plexus.
PIAGET (1975) – A formação do símbolo
na criança . Rio de Janeiro: Zahar Editores.
VYGOTSKY, L. S.
(1999) – Imaginación y creación en la edad infantil. La Habana:
Editorial Pueblo y Educación.
Vera Lúcia Camara F. Zacharias é mestre em
educação, pedagoga, com vasta experiência
na área educacional em geral, e na assessoria e capacitação de
profissionais das mais diversas áreas.
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