Neste artigo,
pretendo, a partir de um relato de um tio sobre a disortografia
de um sobrinho e as grosserias que o mesmo sofre por conta dos
seus constantes erros de grafia, apresentar algumas dicas
lingüísticas e psicolingüísticas para a intervenção em casos de
crianças que apresentam dificuldades específicas de ortografia.
Quando ensinamos ortografia com fundamentação lingüística e
pedagógica, não há lugar para palmatória, para castigo ou
violência escolar.
No relato, o tio, que é educador, diz o seguinte:
“Tenho um sobrinho de nove anos e não agüento mais ver o garoto
apanhar todos os dias por escrever errado sendo a criança
inteligente e criativa”. E prossegue: “ O que acontece com esta
criança é quando ao copiar um texto ele esquece acentos e troca
algumas palavras, a mãe sem paciência bate muito no menino e por
muitas vezes faz o garoto copiar textos e textos mas não adianta”.
E me faz um apelo “ Seria muito grato se o Sr. me respondesse para
que de alguma forma eu orientasse a sua mãe de uma forma teórica e
prática para podermos sanar ou amenizar o sofrimento deste garoto”.
Comecemos, então, pelo fim, isto é, encarando a ortografia no meio
escolar numa perspectiva cognitiva e neurológica. A ortografia, já
disse em outros artigos, é a capacidade de o aluno recordar palavras
corretas ou formas lingüísticas socialmente aceitas. Quando a
criança erra, na verdade, erra quanto à ortografia, desviando-se do
modelo estabelecido pela gramática escolar ou pela comunidade
lingüística em ascensão social. A ortografia está, pois, associada à
questão de variação lingüística, às formas de determinada classe
social e, como sabemos, a escrita escorreita, é uma forma
particular de escrita da classe dominante, emergente cultural e
economicamente.
Quanto à pisa ou
castigo como estratégia de ensino, conforme relata o tio, não só
tem um caráter medieval, como pedagogicamente, deve ser descartada
do ensino da língua materna. O ensino com palmatória além de não ser
realmente eficaz, só maltrata, interdita o corpo, inibe o
aprendizado da língua e não tem nada de pedagógico ou de amor
familial.
Voltemos à questão das alterações ortográficas.
Quando as crianças erram ou nós, em fase adulta, erramos, isso, a
rigor, não é um “erro” contra a grafia, porque tal grafia, na nossa
variação escrita e pessoal, é uma possibilidade real, uma hipótese
possível, a que postularia aqui como uma espécie de homonímia
enviesada da língua escrita.
Dizendo de outro
modo: quando escrevo “caza” em vez de casa, “pretensão” por
pretensão, “exceção” por exceção e assim por diante, se notarmos bem
a escrita desviada do padrão gramatical não vai gerar ou acarretar,
a partir da escrita ortográfica produzida pelo usuário da língua ,
uma pronúncia ou produção de fonemas diferentes, uma vez que as
letras e grafemas (acentos gráficos, por exemplo) que representam os
fonemas ou sons da fala, nos casos acima, reproduzem fielmente a
maneira como articularíamos a palavra na forma ortográfica correta
no nosso dialeto. Quando a grafia errada se distancia do que
produziríamos na fala, isso ocorre porque o falante, no uso
individual da língua, isto é, na sua expressão oral, já produz uma
fala defeituosa e, apenas, na escrita, transfere a sua disortografia
(dificuldade de ortografar).
Retomando à queixa do tio, e relendo seu relato enviado para minha
apreciação docente, não descartaríamos, de logo, que a criança
apresenta déficit de memória, acarretando, assim, dificuldade de
cópia e na grafia das palavras. A escola tem levado muito em conta
que sem memória não há aprendizagem e que a aprendizagem eficaz vem
da e é assegura pela memória de longo prazo.
O fato de a criança não escrever ou transcrever corretamente da
lousa para seu caderno acentos gráficos ou sinais de nasalização,
também, tal desvio ou omissão indica outras dificuldades
lingüísticas, não apenas na grafia de palavras mas no uso ou emprego
dos sinais diacríticos (til, cedilha, agudo, circunflexo, hífen etc)
que representam os elementos fonéticos da língua, e mais do que
isso, tal esquecimento ou lapso pode ser um índice de dificuldade
específica de leitura. Há uma relação muito estreita entre
dificuldade de leitura e dificuldade de ortografia, entre dislexia e
disortografia. Mas, ao contrário do que se possa imaginar, é a
ortografia que mais ajuda na leitura.
Outro ponto a
assinalar, a partir do relato do tio, é o seguinte: em geral,
crianças com déficit de memória ou deficiente léxico ortográfico
têm dificuldade de fazer a correspondência entre grafemas (letras,
sinais diacríticos) e fonemas (vogais, consoantes e semivogais).
Seja como for, por trás das dificuldades específicas de escrita
ortográfica está a falta de consciência fonológica, isto é, o
desconhecimento do princípio alfabético regente na relação entre
grafemas-fonemas, ou de escrita-fala.
Vejam bem o que
até aqui estou postulando sobre as alterações ortográficas: se a
criança não apresenta déficit visual, ou seja, se sua acuidade
visual é boa, não tem retardo ou comprometimento neurológico ou
mesmo privação cultural ou escolar, então, por exclusão, podemos
levantar a hipótese de déficit de memória associada à disortografia
(má ortografia).
São muitos os exercícios compensatórios para amenizar ou
mesmo superar as dificuldades ortográficas por determinantes
pedagógicos ou dispedagógicos. Claro, no presente artigo, seria
impraticável um exemplário exaustivo, de modo que vamos nos limitar
aqui a algumas dicas didáticas em sala de aula regular: quando seu
filho, sobrinho ou aluno, escrever uma palavra errada, peça-lhe que
se sente à mesa ou à carteira, abra o dicionário e procure
(inicialmente com sua ajuda, professor ou pais) a palavra da forma
como a escreveu. Claro, como está errada não irá encontrar a
palavra na forma com a grafou. Em seguida, peça-lhe que capture a
palavra e quando encontrá-la a copie da forma como a encontrou no
dicionário, ou seja, corretamente, observando em que parte fez
permuta ou omitiu letras ou signos diacríticos e mais, solicite a
criança que copie também todas as palavras- irmãs (nós chamamos
essas palavras de cognatas, isto é, que têm a mesma raiz ou
significado literal) da palavra que apresentou dificuldade em grafar
corretamente.
Um novo pedido à criança será o de transcrever a série de
palavras cognatas, em coluna, da mesma forma e seqüência que aparece
no dicionário. Pode o professor, educador ou pai, sugerir, por
exemplo, para melhor fixação da memória do educando, que utilize
cores diferentes (o azul e o vermelho) para sublinhar a palavra
(vermelho) e transcrever, em azul, sua definição ou significado
literal. Se o educador quiser tornar ainda mais eficiente essa
pesquisa ortográfica, deve sugerir que o aluno faça a divisão
silábica da palavra coletada no dicionário.
Dessa maneira, indo ao dicionário para capturar a grafia
correta, vai o aluno fortalecer seu léxico ortográfico e semântico.
Copiar uma lista ou série de palavras ajuda, e muito, a criança a
estocar a forma correta. Guardamos, enfim, na memória ortográfica,
tudo que é organizado. Daí, a importância do dicionário, uma memória
cultural a e histórica da civilização.
Lapsogramas
- Na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral, onde
criei, em 2005, a disciplina “Dificuldades em Ortografia”, no Curso
de Letras, somente para estudar as dificuldades específicas em
ortografia, tenho adotado o termo lapsogramas para as
alterações ortográficas dos alunos (o neologismo é dos lingüistas
cubanos). O que denominamos erros ortográficos muitas vezes não
passam de lapsos de representação fonêmica ou lapsos de língua como
diria Freud.
Entre diversas propostas de atividades didáticas com fins de
intervenção psicolingüística, envolvendo professor ou especialista
em ortografia (revisores de textos escolares) e alunos que
apresentam alterações na grafia padrão da língua portuguesa, temos
sugerido procedimentos como:
a)
Pauta de
Autocorreção Ortográfica (PAO)
– A partir dos lapsogramas coletados nas pesquisas ortográficas, o
professor ou especialista em ortografia elabora uma Pauta de
Autocorreção Ortográfica, que consistirá em colocar um mesmo número
sob cada tipo de erro ou lapso ortográfico. Em uma folha à parte, em
forma de planilha, o professor escreve o critério de resposta
correta que explique o número colocado sob cada palavra. Por
exemplo, o professor escreve: “Revise sua escrita (ou grafia) com
base no seguinte: O número 1 corresponde à aplicação da seguinte
regra:” “A letra s representa o fonema /z/ quando é
intervocálica, como em asa, mesa, riso”. Para esta atividade,
o professor e os alunos podem se apoiar nas regras estabelecidas
pelo Formulário Ortográfico ou pelas gramáticas normativas
escolares.
b)
Elaboração de um Inventário de Lapsogramas de Uso Freqüente –O professor deve,
no seu cotidiano escolar, elaborar um inventário
progressivo, em ordem alfabética, de palavras com dificuldades
ortográficas observadas nas produções dos alunos (ou seja, lapsos
verificados em todos os trabalhos dos alunos). Em seguida, o
professor, à luz dos ensinamentos lingüísticos, deve levantar
hipóteses lingüísticas (falta de consciência fonológica, por ex) ou
psicolingüísticas (déficit de memória, por ex) para explicação das
alterações ortográficas.
c)
Realização de Jogos Ortográficos – O professor poderá
trabalhar bem com as alterações
ortográficas ao realizar jogos ortográficos a partir dos
lapsogramas obtidos na produção escrita (redações escolares) de
seus alunos.Um jogo bastante eficaz é o de Palavras cruzadas com
pelo menos 20 palavras que apresentam freqüentemente alterações
ortográficas no ditado de palavras.Uma outra atividade didática é o
de incentivar, de forma lúdica, os alunos a identificarem raízes de
palavras e a procurarem a história ou a origem das palavras que mais
apresentam alterações ortográficas no ditado de palavras. Ainda
nesta atividade, pode ser agregada a iniciativa de levar os alunos a
criarem novas palavras ou a utilizarem prefixos e sufixos com os
radicais, e a constatar seu efeito no significado dos
neologismos.
Sugestões de leitura sobre o assunto:
1.
CAGLIARI,
Luiz Carlos. Alfabetização & lingüística. 5ª ed. São
Paulo: Scipione, 1992. pp. 95-146.
2.
CARVALHO,
Marlene. Guia prático do alfabetizador. 4ª ed. São Paulo:
Ática, 1999.
3.
CRYSTAL,
David. Dicionário de lingüística e fonética.Tradução e
adaptação de Maria Carmelita Pádua Dias. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 1998.
4.
FARACO,
Carlos Alberto. Escrita e alfabetização: características
do sistema gráfico do Português. São Paulo: Contexto, 1192.
(Coleção Repensando a Língua Portuguesa)
5.
GOULANDRIS,
Nata K. Avaliação das habilidades de leitura e ortografia.
In
SNOWLING, Margaret: STACKHOUSE, Joy.
Dislexia, fala e linguagem:
um manual do profissional. Tradução de Magda França Lopes. Porto
Alegre: Artmed, 2004. pp.91-120.
6.
GUIMARÃES,
Gilda; ROAZZI, Antonio. A importância do significado na
aquisição da escrita ortográfica. In MORAIS, Artur Gomes.
(org). O aprendizado da ortografia. 3ª ed. 1ª reimp. Belo
Horizonte: Autêntica, 2003. (Linguagem e Educação, 4). pp.61-75.
7.
LEAL, Telma
Ferraz; ROAZZI, Antonio. A criança pensa...e aprende ortografia.
In MORAIS, Artur Gomes. (org). O aprendizado da
ortografia. 3ª ed. 1ª reimp. Belo Horizonte: Autêntica,
2003. (Linguagem e Educação, 4).pp.99-120.
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LEMLE, Mirim.
Guia teórico do alfabetizador. 6ª ed. São Paulo: Ática,
1991.
9.
LLOP, Mario Pujol. Análisis de errores grafemáticos en textos
libres de estudiantes de enseñanzas medias.
Disponível em
Internet:
http://www.tdx.cesca.es/TDX-0906104-115216/. Acessado
em 18/05/2005.
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letras: a escrita na alfabetização. Campinas, SP: Mercado de
Letras/ALB/Fapesp, 1999. (Coleção Leituras no Brasil)
11.
MIYARES,
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Vacuna ortográfica:
val-Cuba. Nível primario. Metodologia pra prevenir y erradicar
las faltas de ortografía. Habana: EdA, 1999.
12.
MONTEIRO Ana
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ética daquele que aprende. In MORAIS, Artur Gomes. (org).
O aprendizado da ortografia. 3ª ed. 1ª reimp. Belo
Horizonte: Autêntica, 2003. (Linguagem e Educação, 4). pp.43-60.
13.
MORAIS, Artur
Gomes de. “Por que gozado não se escreve com u no final?” – os
conhecimentos explícitos verbais da criança sobre a ortografia.
In MORAIS, Artur Gomes. (org). O aprendizado da
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2003. (Linguagem e Educação, 4).pp. 77-98.
14.
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Gomes de. Escrever como deve ser. In TEBEROSKY, Ana;
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aprendizagem fonológica, ortográfica, textual e matemática.
Tradução de Stela Oliveira. São Paulo: Ática, 1996. pp. 61-84.
15.
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Gomes de. Ortografia: este peculiar objeto de conhecimento.
In MORAIS, Artur Gomes. (org). O aprendizado da
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2003. (Linguagem e Educação, 4). pp.7-19.
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MORAIS, Artur
Gomes. (org). O aprendizado da ortografia. 3ª ed. 1ª
reimp. Bel.o Horizonte: Autêntica, 2003. (Linguagem e Educação,
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17.
MUTTER,
VALERIE. Antevendo as dificuldades de leitura e de ortografia
das crianças.
In
SNOWLING, Margaret: STACKHOUSE, Joy.
Dislexia, fala e linguagem:
um manual do profissional. Tradução de Magda França Lopes. Porto
Alegre: Artmed, 2004. pp. 43-56.
18.
REGO, Lucia
Lins Browne; BUARQUE, Lair Levi. Algumas fontes de dificuldade
na aprendizagem de regras ortográficas. In MORAIS, Artur
Gomes. (org). O aprendizado da ortografia. 3ª ed. 1ª
reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. (Linguagem e Educação,
4).pp. 21-41.
19.
SCLIAR-CABRAL, Leonor. Guia prático de alfabetização:
baseado em princípios do sistema alfabético do Português do
Brasil.São Paulo: Contexto, 2003.
20.
SCLIAR-CABRAL, Leonor. Princípios do sistema alfabético do
Português do Brasil.São Paulo: Contexto, 2003.
21.
SILVA, Cínara
Santana da; BRANDÃO, Ana Carolina Perrusi. Reflexões sobre o
ensino e a aprendizagem da pontuação. In MORAIS, Artur
Gomes. (org). O aprendizado da ortografia. 3ª ed. 1ª
reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. (Linguagem e Educação,
4). pp. 121-139.
22.
SNOWLING, Margaret: STACKHOUSE, Joy.
Dislexia,
fala e linguagem:
um manual do profissional. Tradução de Magda França Lopes. Porto
Alegre: Artmed, 2004.
23.
TEBEROSKY, Ana; TOLCHINSKY, Liliana.
(orgs.).
Além da alfabetização: a aprendizagem fonológica,
ortográfica, textual e matemática. Tradução de Stela Oliveira.
São Paulo: Ática, 1996.
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Luiz et ali. “A influência do perfil de leitor nas
habilidades ortográficas”. Disponível em Internet:
http://www.cefac.br/library/artigos/9ac5bcbbebadbc2160e2c7869d4890b7.p
df. Acessado em 18/05/2005.
25.
ZORZI, Jaime
Luiz. “As inversões de letras na escrita o "fantasma" do
espelhamento”. Disponível na
http://www.cefac.br/library/artigos/3c269d1d920ea45f9274741052c717a4.pdf.
Acessado em 18/05/2005.
26.
Zorzi, Jaime
Luiz. “As trocas surdas sonoras no contexto das alterações
ortográficas”. Disponível em Internet
http://www.cefac.br/library/artigos/84be6bc992b278e8e958a7523bb43ff1.pdf.
Acessado em 18/05/2005.
27.
ZORZI, Jaime
Luiz.
“Una secuencia de apropiacion de la ortografía del portugués”.
Disponível na Internet:
http://www.cefac.br/library/artigos/2b91dd8f0dbf2cd057e64d3405246a47.pdf.
Acessado em 18/05/2005.
28.
ZORZI, Jaime
Luiz. Aprender a escrever: a apropriação ao sistema
ortográfico. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.
29.
ZORZI, Jaime Luiz.
Aprendizagem
e distúrbios da linguagem escrita:
questões clínicas e educacionais. Porto Alegre: Artmed, 2003.
Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú
(UVA), de Sobral, Estado do Ceará. E-mail:
vicente.martins@uol.com.br. |