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O primeiro
passo para entendermos o que é pedagogia inclui uma revisão terminológica.
Precisamos localizar o termo “pedagogia”, e ver o que cai sobre sua
delimitação e o que escapa de sua alçada. Para tal, a melhor maneira de
agir é comparar o termo “pedagogia” com outros três termos que, em geral,
são tomados – erradamente – como seus sinônimos: “filosofia da educação”,
“didática” e “educação”.
O termo “educação”, ou seja, a palavra que usamos para fazer referência ao
“ato educativo”, nada mais designa do que a prática social que
identificamos como uma situação temporal e espacial determinada na qual
ocorre a relação ensino-aprendizagem, formal ou informal.
A relação ensino-aprendizagem é guiada, sempre, por alguma teoria, mas nem
sempre tal teoria pode ser explicitada em todo o seu conjunto e detalhes
pelos que participam de tal relação – o professor e o estudante, o
educador e o educando – da mesma forma que poderia fazer um terceiro
elemento, o observador, então munido de uma ou mais teorias a respeito das
teorias educacionais. A educação, uma vez que é a prática social da
relação ensino-aprendizagem no tempo e no espaço, acaba em um ato e nunca
mais se repete. Nem mesmo os mesmos participantes podem repeti-la. Nem
podem gravá-la. Nem na memória nem por meio de máquinas. É um fenômeno
intersubjetivo de comunicação que se encerra em seu desdobrar. No caso, se
falamos de um encontro entre o professor e o estudante, falamos de um
fenômeno educacional – que é único. Quando ocorrer outro encontro do mesmo
tipo, ele nunca será o mesmo e, enfim, só superficialmente será similar ao
anterior.
O termo “didática” designa um saber especial. Muitos dizem que é um saber
técnico, porque vem de uma área onde se acumulam os saberes que nos dizem
como devemos usar da chamada “razão instrumental” para melhor
contribuirmos com a relação ensino-aprendizagem. A razão técnica ou
instrumental é aquela que faz a melhor adequação entre os meios e os fins
escolhidos. A didática é uma expressão pedagógica da razão instrumental.
Sua utilidade é imensa, pois sem ela nossos meios escolhidos poderiam,
simplesmente, não serem os melhores disponíveis para o que se ensina e se
aprende e, então, estaríamos fazendo da educação não a melhor educação
possível.
Mas a didática depende da pedagogia. Ou seja, depende da área onde os
saberes são, em última instância, normas, regras, disposições, caminhos
e/ou métodos. O termo “pedagogia”, tomado em um sentido estrito, designa a
norma em relação à educação. “Que é que devemos fazer, e que instrumentos
didáticos devemos usar, para a nossa educação?” – esta é a pergunta que
norteia toda e qualquer corrente pedagógica, o que deve estar na mente do
pedagogo.
Às vezes tomamos a palavra “pedagogia” em um sentido lato; trata-se da
pedagogia como o campo de conhecimentos que abriga o que chamamos de
“saberes da área da educação” – como a filosofia da educação, a didática,
a educação e a própria pedagogia, tomada então em sentido estrito. Mas, de
fato, é em um sentido estrito que a pedagogia nos deve interessar. Pois,
quando ampliamos a extensão do termo o que resta pouco nos ajuda a
entender o quadro no qual se dá a diferenciação dos saberes relativos ao
ensino. A pedagogia, em um sentido estrito, está ligada às suas origens na
Grécia antiga. Aqueles que os gregos antigos chamavam de “pedagogo” era o
escravo que levava a criança para o local da relação ensino-aprendizagem;
não era exclusivamente um instrutor, ao contrário, era um condutor, alguém
responsável pela melhoria da conduta geral do estudante, moral e
intelectual. Ou seja, o escravo pedagogo tinha a norma para a boa
educação; se, por acaso, precisasse de especialistas para a instrução – e
é certo que precisava –, conduzia a criança até lugares específicos, os
lugares próprios para o “ensino de idiomas, de gramática e cálculo”, de um
lado, e para a “educação corporal”, de outro.
A concepção que diz que a pedagogia é a parte normativa do conjunto de
saberes que precisamos adquirir e manter se quisermos desenvolver uma boa
educação, é mais ou menos consensual entre os autores que discutem a
temática da educação. Ela, a pedagogia, é aquela parte do saber que está
ligada à razão que não se resume à razão instrumental apenas, mas que
inclui a razão enquanto razoabilidade; a racionalidade que nos possibilita
o convívio, ou seja, a vigência da tolerância e, mesmo, do amor.
Ao falarmos, por exemplo, “não seja violento, use da razão”, queremos ser
compreendidos como dizendo, “use de métodos de comunicação que são
próprios do diálogo” – os métodos e normas da sociedade liberal (ideal). É
esse tipo de razão ou racionalidade que conduz, ou produz, a pedagogia. A
didática busca meios para que a educação aconteça e, assim, é guiada pela
razão técnica ou instrumental, enquanto que a pedagogia busca nortear a
educação, e é guiada pela razoabilidade, pela fixação de regras que só se
colocam por conta da existência de um ou vários objetivos; no caso,
objetivos educacionais, o que é posto como meta e valor em educação. Quem
estabelece tais valores?
Pedagogia, didática e educação estão ligadas. Mas a filosofia da educação
é um saber mais independente, que pode ou não ter um vínculo com os
saberes da pedagogia e da didática, ou do saber-prático (e imediato) que
faz a educação acontecer. O termo “filosofia da educação” aponta para um
tipo de saber que, de um modo amplo, é aquele acumulado na discussão sobre
o campo educacional. Faz assim ou para colocar valores e fins e
legitimá-los através de fundamentos, ou para colocar valores e fins e
legitimá-los através de justificações. Há, portanto, dois grandes tipos de
filosofia da educação: a filosofia da educação que serve como
fundamentação para a pedagogia e filosofia da educação que serve como
justificação.
A filosofia da educação não está vinculada somente à razão instrumental ou
à razão comunicativa liberal, mas tem como sua produtora a razão enquanto
elemento que escolhe fins e, portanto, que valora. Ela pode falar em
"valor de verdade" e "valor moral", pode separá-los em campos que se
excluem ou não, mas, sempre, vai falar em valor e fins. A razão, aqui, é a
razão que diz quais são os objetivos da educação e, então, que explicita
se as normas da pedagogia podem ser mantidas ou não, e que normas são
essas. Tais normais devem parecer legitimas, caso contrário, pelo menos em
princípio, elas não terão seguidores. O que as torna legítimas? Um
discurso – o discurso filosófico, a filosofia da educação ou fundacionista
ou justificadora. Se a legitimação da pedagogia se dá através de uma
metafísica que encontra um fundamento último para que a educação se
processe de uma maneira e não de outra, dizemos que a filosofia da
educação fundamenta a pedagogia e, conseqüentemente, a educação. Se a
legitimação da pedagogia se dá através de um conjunto de argumentos que
tentam justificá-la, sem requisitar um ponto arquimediano metafísico,
então dizemos que a filosofia da educação justifica a pedagogia e,
conseqüentemente, a educação.
Se nós acreditamos, por exemplo, no âmbito da filosofia da educação, que
“somos iguais porque todos nós somos filhos de Deus” ou que “somos iguais
porque somos todos seres humanos” ou que “somos iguais porque todos
possuímos, diferentemente dos animais, razão”, podemos então, no âmbito da
fixação de normas pedagógicas, dizer que nossa educação “tem como objetivo
não destruir nossa igualdade original”. A igualdade baseada na origem
divina, ou baseada na noção de ser humano ou na posse de algo que poderia
chamar “razão”, funcionam, neste caso, como fundamentos metafísicos para
uma pedagogia igualitária. Mas se alguém diz que tal crença metafísica não
é algo que podemos crer à luz de crenças mais convincentes, e se nós não
queremos abandonar a nossa pedagogia igualitária, então nos cabe ou
convencer nosso interlocutor da validade do ponto metafísico (o que
implica em refazer o sistema filosófico adotado) ou, então, argumentar de
modo a justificar que a igualdade como fim da educação vale a pena, por
exemplo, porque ela possibilitará um mundo com menos injustiça, um mundo
melhor – usamos aí um argumento pragmático, que não implica qualquer
metafísica. Assim, uma mesma pedagogia (uma pedagogia igualitária, por
exemplo), pode ter discursos legitimadores diferentes, isto é, filosofias
da educação diferentes. Quem legitima a pedagogia pode apelar para a
fundamentação ou para a justificação.
Uma tal reflexão – a de como a pedagogia se legitima - é própria da “área
da filosofia da educação”. É o trabalho próprio aos filósofos da educação.
Não raro, é uma discussão que envolve argumentos técnicos em filosofia e,
portanto, não produz um saber que possa ser de domínio imediato dos que
estão executando a relação ensino-aprendizagem, embora os professores
conheçam, ao menos, as máximas filosófico-pedagógicas que escapam do
domínio técnico e lhes caem nos ouvidos, e, assim, eles ficam satisfeitos
com suas pedagogias. Não raro, uma única máxima filosófico-pedagógica guia
uma vida inteira de trabalho de um professor.
Que não se tire daí a conclusão que os professores devem apenas saber
didática, ou, ao contrário, que vão ser “críticos” e bem mais capazes se
souberem filosofia da educação, seja esta fundacionista ou justificadora.
O saber de cada professor varia. Uns podem ter uma aptidão melhor para a
reflexão filosófica, e serem desajeitados para o trabalho que implica
forte aptidão didática, outros podem dominar os trâmites das normas da
pedagogia, e não terem gosto pela reflexão da filosofia da educação.
Outros, ainda, podem ser práticos, meramente práticos, e se saírem bem em
resultados de aproveitamento com os alunos. O importante é que, na
formação dos professores, se saiba que empregamos todos os tipos de
racionalidades que temos em nossa linguagem (a instrumental, a da
tolerância e a que fixa objetivos e valores), e que a formação deve ser
harmoniosa, pois tem tudo, em suas vestes originais, para ser harmoniosa –
pois fazer educação nos leva, sempre, para os quatro saberes acima
apontados, e para o emprego das três formas de racionalidade.
A harmonia não vem de separarmos, eqüitativamente, o que cada professor
precisa saber em filosofia da educação, pedagogia, didática e ensino
(educação). A harmonia vem, sim, da nossa capacidade de termos políticas
educacionais que cultivem as instituições de formação de professores que
protegem uma cultura onde os quatro saberes acima descritos não fiquem a
descoberto, nas mãos de leigos. Tal cultura, sem que seja preciso qualquer
reunião formal, será o fator determinante de convergência das
conversações, no interior das instituições onde se dá a formação do
professor, e ela poderá criar legiões de bons professores, em graus
diferentes de aptidões. Isso vale para qualquer instituição de ensino que
forma professores.
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