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RELAÇÃO
PEDAGÓGICA E DISTÂNCIA CULTURAIS
Para ler e
refletir
“No grupo classe
a responsabilidade do professor é: ensinar.
Essa intenção de instruir obriga a uma estratégia
ativa; obriga a buscar a interação e a construir uma relação, o mais
positiva possível, mesmo com alunos que o
desconcertam, o decepcionam, o incomodam ou simplesmente com os
quais ele sente não ter qualquer afinidade. Por isso,
deve tentar diminuir a distância existente entre ele e algumas
crianças, uma distância provocada pelo conjunto de mal-entendidos,
das rejeições, dos juízos de valor, dos rótulos desqualificadores,
das diferenças não-aceitas que tornam a comunicação difícil, a
relação conflituosa entre o professor e seus alunos.
A essa distância estatutária (o status de professor na sala) soma-se
uma distância pessoal e cultural desigual, conforme os alunos.
De onde ela vem? Uma parcela
importante dessa distância certamente vem do fato de que o professor
tem um projeto a ser inculcado e, por conseguinte, espera do aluno
disciplina, trabalho, atenção, esforços contínuos e, em definitivo,
aprendizagens. Essas expectativas criam uma tensão potencial, que se
atualiza cada vez que o aluno resiste a elas e não as satisfaz.
A distância entre professor e o aluno irá se enraizar, então, no juízo
de menosprezo do professor sobre o valor escolar e o comportamento
de certas crianças/adolescentes. Através da avaliação formal, assim
como de vários outros indicadores, o professor revela o que pensa a
respeito das competências intelectuais de um aluno, bem como de sua
vontade, de seu desejo de aprender, de sua capacidade de organizar
seu trabalho e levá-lo a sério, de sua honestidade, de sua
criatividade, de sua habilidade.
Para uma
criança/adolescente é difícil ter uma relação positiva com alguém
que a julga soberanamente em todos esses âmbitos, sobretudo quando
seu juízo é desfavorável; alguém que sanciona seus erros e falhas,
que a expõe a recriminações, a vexames públicos, que a ameaça com um
fracasso, que se queixa aos seus pais.
Em sentido
inverso, também não é fácil para o professor ter uma atitude
positiva com relação a uma criança/adolescente que não sabe nada e
que, além disso, não se esforça para aprender e assume o papel de
mau aluno. Não há condições para se construir uma relação positiva
baseada na estima mútua e na afeição recíproca. E todos os discursos
modernos proclamam que essa é uma condição para o sucesso da ação
educativa.
Existem outras
distâncias ainda mais difíceis de superar, ou porque os interesses
vitais do professor estão em jogo, ou porque a distância é mantida
através de mecanismos pouco conscientes, em âmbitos que
aparentemente, não se referem à excelência escolar
stricto sensu, mas ao conjunto
das condutas, das maneiras de ser, dos modos de relação com o outro
que se desenvolvem na classe concebida como sistema social, rede de
relações interpessoais, lugar de trabalho, mas também de jogo, de
trocas, de poder de vida coletiva, de decisões.
Os interesses vitais de um professor estão em
jogo quando um ou vários alunos opõem-se a ele e transgridem as
regras de conduta, chegando a comprometer sua autoridade e o
funcionamento do grupo classe.
Um aluno do ensino médio pode entrar regularmente em conflito com
seu professor de biologia ou matemática, o qual ele encontra apenas
algumas horas por semana; no restante do tempo, tem relações
diferentes com outros professores.
Alguns desvios
que colocam em jogo os interesses vitais do professor, seja porque
desorganizam diretamente o funcionamento do grupo, seja porque
enfraquecem a autoridade do professor e criam precedentes:
-
Ausência
freqüente e injustificada.
-
Atrasos
reiterados.
-
Agressão,
violência física na classe ou no prédio escolar.
-
Depredações,
destruição do material.
-
Recusa em
fazer um trabalho, de obedecer a uma ordem, sobretudo quando a
recusa for evidente e representar um desafio à autoridade do
professor.
-
Uso de
palavras não autorizadas, se forem freqüentes, ruidosas, se
interromperem as atividades dos outros.
-
Grosseria
deliberada, agressão verbal violenta contra as pessoas.
-
Maledicência,
difamação, mentiras graves.
-
Trapaças
graves, falsificação de documentação ou de assinaturas.
-
Discriminação
racial, social ou sexual caracterizada.
A lista não é
limitativa. Tais transgressões são intoleráveis para a maioria dos
professores, porque os atingem pessoalmente em seus valores e
interesses, ou porque admitir esse tipo de comportamento pareceria
uma falha profissional. É claro que o limite de tolerância varia
muito e pode flutuar durante o dia ou a semana no mesmo professor em
função de seu humor, de seu cansaço e de sua atividade.
Essas
transgressões remetem a diversas normas, mas quase todas se
relacionam ao respeito pelas pessoas ou pelas coisas.
O que elas têm em comum é o fato de
provocarem repressão e uma relação conflituosa, criando uma situação
de crise a partir da qual será necessário reconstruir a comunicação
e a cooperação. Nesses casos a diferença cria o máximo
possível de distância e conflito.
A essas normas
negativas convém acrescentar uma série de condutas valorizadas, cuja
ausência não constitui propriamente um desvio, mas cuja manifestação
agrada a o professor e faz com que o aluno receba estímulos e
elogios.
·
Autonomia, capacidade de organizar seu trabalho, eficácia.
·
Coleguismo, altruísmo, disposição para servir e ajudar seus colegas.
·
Atitude ativa e participativa no trabalho, iniciativa, pesquisa
ativa das informações ou do material, contribuição pessoal de
idéias.
·
Capacidade de assumir responsabilidades e cumprir compromissos.
·
Capacidade de pedir desculpas, de restabelecer a comunicação.
·
Boa
integração ao grupo-classe, participação da dinâmica de conjunto.
·
Humor equilibrado, senso de humor, sociabilidade.
·
Aplicação, assiduidade, concentração, calma.
Não afirmo que
essas últimas expectativas estejam presentes em todos os professores
e menos ainda que sejam primordiais.
Por que dar tanta importância a um
conjunto de normas e de expectativas que não têm nenhuma relação
direta com as competências escolares propriamente ditas, aquelas que
o professor tem de desenvolver e avaliar?
Simplesmente
porque a diversidade dos alunos de uma mesma classe manifesta-se
tanto com relação a essas expectativas e normas quanto com relação
às normas de excelência escolar propriamente dita.
Em outros termos, a diferenciação das
intervenções do professor e de suas relações com os alunos talvez
possa ser explicada mais pela diversidade de suas condutas e
maneiras de ser do que pela desigualdade de suas competências
escolares e capacidades de aprendizagem.
Em suma, quando
as diferenças entre crianças/adolescentes manisfestam-se com relação
às expectativas normativas do professor em matéria de gosto, de
forma de ser e de conduta, essas diferenças provocam intervenções e
relações diferenciadas.
Aqui a ação pedagógica está longe de ser indiferenciada. Pelo
contrário, é constantemente ajustada, de maneira mais ou menos
eqüitativa, à diversidade das personalidades e dos comportamentos,
pois, a diferenciação está se dando em função de uma lógica de
manutenção da ordem e não da democratização do ensino e igualdade
das aquisições escolares. É evidente que a
diferenciação estritamente didática desempenha, na regulação do
funcionamento do
grupo-classe e da
ação do professor, um papel menos central que a diferenciação das
relações e das intervenções em resposta à diversidade das
maneiras de ser e das condutas”.
Gostaríamos que
lessem o texto para entendê-lo realmente e que refletissem sobre as
colocações do autor, principalmente nas que estão destacadas.
Concordam ou não que
diferenciamos mais pela diversidade das maneiras de ser e das
condutas (alunos preguiçosos, que não querem estudar, que atrapalham
as aulas, que desacatam o professor, não cumprem os deveres em
classe ou em casa etc.) do que em relação as desigualdades de
aprendizagens?
Como temos pautado
nossa ação até agora? O que nos perturba mais: as desigualdades de
aprendizagens na classe, os diferentes resultados obtidos pelos
alunos ou suas condutas?
Não perca tempo
dizendo à você mesmo(a) que os alunos que apresentam desigualdades
de aprendizagens são sempre aqueles que têm condutas inadequadas.
Reflitam e façam uma análise seguindo as colocações do autor.
“Nunca ande pelo caminho traçado, pois ele conduz
somente até onde os outros foram." Alexandre Graham Bell
“Não podemos aguardar que os tempos se modifiquem e
nós nos modifiquemos junto, por uma revolução que chegue e nos leve
em sua marcha. Nós mesmos somos o futuro. Nos somos a revolução”.
(Beatrice Bruteau)
Adaptação de Vera
Lúcia Camara Zacharias
Perrenoud, Philippe. A pedagogia
na escola das diferenças: fragmentos de uma sociologia do fracasso.
Porto Alegre: Artmed Editora, 2001. |