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O
objectivo é declarado: "criar algum ruído no sistema educativo". Na
sua base reside um "aviso à navegação": "Atenção que os professores
estão a perder autoridade na sala de aula." Carlos Fernandes,
professor e investigador em Psicologia na Universidade do Minho,
editou com dois colegas (Paulo Nossa e Jorge Silvério) um manual
sobre "Incidentes Críticos na Sala de Aula", vulgarmente conhecidos
por indisciplina. O resultado é do menos politicamente correcto
possível, mas não se inventou nada, apenas se recorreu à Análise
Comportamental Aplicada (ACA), para desconstruir a "teoria do
coitadinho" e as "modas psicopedagógicas".
Depois de 20 anos a dar formação a professores de escola em escola,
Carlos Fernandes concluiu que se passou "de um extremo ao outro".
Dos tempos da palmatória salazarista transitou-se para "teorias
pseudocientíficas", que assentam na ideia de que o aluno deve ser
poupado, sob pena de sofrer "traumas" que o marquem para toda a
vida.
O
abismo que se cavou entre a velha guarda de professores e uma vaga
mais jovem é flagrante. Um exemplo basta para que se perceba até que
ponto. Um aluno dito problemático tornou-se o herói do dia ao deitar
o tabuleiro da comida ao chão, em plena cantina. Um grupo de
professores sugeriu que ele limpasse o que havia sujado. Um outro
grupo considerou que tal seria humilhante para o adolescente. No
final, a comida espalhada foi limpa pelo contínuo de serviço.
Ao
longo do seu trabalho, Carlos Fernandes tem-se esforçado por provar
que atitudes como esta não têm nenhuma base de sustentação
científica e que, em termos educativos, se está a fazer tudo ao
contrário do que diz a psicologia ao nível do comportamento. É certo
que um professor não pode ignorar as consequências dos contextos
sociais e familiares no aluno, mas, segundo o investigador, esses
factores não devem servir para justificar tudo. Este é um princípio
do conhecimento científico: "informar a prática de aplicação, não
justificá-la", explicita o manual editado pela Quarteto.
A
teoria do "bom selvagem" de Rousseau, que está a contagiar os
modelos educativos europeus e norte-americanos, ignora um princípio
fundamental para que se possa lidar com a indisciplina eficazmente.
"O imaginário cultural vive da ideia de que a criança é muito
ingénua e não é - a criança é do mais manipulador que existe",
declara o investigador. Esta ideia não deve servir para diabolizar
os comportamentos, é antes uma forma pragmática de ter consciência
de que "não há criatividade sem divergência, sem disparate".
"Não há crianças indisciplinadas, há incidentes críticos"
É
partindo deste pressuposto que um professor deve ir para a sala de
aula, com a certeza de que "não há crianças indisciplinadas, há
incidentes críticos". À partida, a fórmula pode parecer confusa, mas
não o é. Baseando-se na ACA, Carlos Fernandes propõe três estilos de
liderança que os professores podem utilizar, conforme as
circunstâncias. O manual aconselha que, "independentemente das
características dos elementos de uma turma, nas primeiras aulas os
agentes educativos deverão assumir uma postura autocrática".
O
estilo autocrático, em que o líder estabelece, desde logo, as regras
de conivências e impõe objectivos, bem como métodos, não pode ser
confundido com o ditatorial. Aqui reside a grande diferença entre os
anos do salazarismo e uma prática que restitua a autoridade ao
professor. "O ditatorial caracteriza-se pela arrogância, pela
irritabilidade e pela ameaça velada. O autocrático caracteriza-se
pela firmeza e pela clareza", esclarece o manual. Em fases mais
avançadas, e dependendo das turmas, os professores podem adoptar o
estilo democrático, mais aconselhável para trabalhos de grupo, em
que se pretende promover a criatividade. Em certas alturas, podem
mesmo introduzir momentos do estilo "laissez-faire, laissez-passer",
ou seja, situações em que os incidentes críticos são aproveitados
para dar algum espaço ao caos, o que também será necessário, desde
de que o líder seja sempre aceite como a fonte da autoridade.
Carlos Fernandes gostaria que os professores que saem das
universidades tivessem acesso a estes modelos, a par das
disciplinas pedagógicas e psicopedagógicas que já são
leccionadas. É que, quando são confrontados com a realidade
escolar, "sentem-se abandonados". Da mesma forma, as crianças e
adolescentes colherão os frutos desta protecção ilusória, que os
poupa a todas as pressões e que se aplica na escola, como em
casa. "Eu prefiro que o meu filho leve um apertão na escola do
que daqui a uns anos venha a ser bastonado pela polícia",
exemplifica o investigador.
Ele
Saiu Porta Fora
...
Muitas são as situações práticas e reais que o manual identifica e
às quais dá soluções. Cada caso é obviamente um caso, e por isso
mesmo uma das mensagens do livro é a de que "não há receitas, mas
sim sentido estratégico", o qual pode ajudar os professores a sair
com êxito das situações mais desesperadas.
Cristóvão foi um dos muitos professores que receberam de chofre e
sem paliativos as consequências da indisciplina das turmas
problemáticas. Aconselhou-se com um colega experiente que lhe
recomendou o "diálogo". O mesmo colega acompanhou-o a uma aula, onde
tentou pôr em prática a sua teoria. A confusão sobrepôs-se à atitude
dialogante e o professor foi obrigado a ordenar a um aluno que se
sentasse. "Não sento!" - foi a resposta. Em estado de desespero, o
professor acabou por obrigar o aluno, com um puxão de orelhas, a
sentar-se. Este saiu porta fora, não sem antes ter derrubado a
carteira.
Perante o que havia acontecido ao seu colega, Cristóvão decidiu ser
ele próprio a adoptar uma atitude diferente. "O meu ar complacente e
sorridente deu lugar a uma expressão típica de um introvertido
(efeito-surpresa). O vestuário, até aí normal, deu lugar ao fato e
gravata (inesperado). A disposição das carteiras na sala passou a
ser em U (convergências de trajectórias)." Depois, alternou os
alunos problemáticos com os mais sossegados e colocou os dois
líderes da turma junto à sua secretária. Por fim, pediu a
colaboração dos alunos para criar uma lista de regras, e todos eram
penalizados ou recompensados pelos comportamentos que tinham.
Outro caso é relatado por um dos autores do livro. O professor
viu-se perante a turma da escola alvo do maior número de
comentários, daquelas em que os alunos se vangloriam dos processos
disciplinares que têm no currículo e desafiam os professores novos a
bater os recordes de faltas. O registo é revelador: "As interrupções
eram frequentes, o início da aula era sistematicamente precedido de
berros, pontapés nas carteiras, cortinados a fingir de lianas e giz
a resvalar no quadro, tão próximo do docente quanto possível." O
professor optou por reunir a maioria dos encarregados de educação,
na sala degradada e que não fora arrumada propositadamente, para que
os pais vissem a obra dos seus rebentos, após o que acordaram num
conjunto de regras e medidas a tomar, que foram comunicadas aos
alunos.
Um
bom exemplo da desorientação dos professores perante turmas
problemáticas está registado na conversa reproduzida entre um
psicólogo e uma professora. A docente insistia numa abordagem
amigável, face aos problemas das crianças. "Estes jovens, sobretudo
os da minha escola, vêm de um meio horrível, são filhos de pais
alcoólicos e que batem nas mães. Temos que os entender e
mostrar-lhes que na escola podem encontrar o que não têm em casa",
explicava, já sem grande convicção, perante as primeiras turbulentas
aulas. Ao fim de algumas sessões e uma nova atitude, concluiu que,
"em turmas problemáticas, introduzir regras de comportamento logo
nas primeiras aulas só beneficia os alunos".
Algumas Regras da Boa Liderança
- Os elementos mais indisciplinados têm que ser diluídos por várias
turmas, em vez de agrupados numa só turma
-
É preciso que o líder fale a mesma linguagem dos alunos, porque só é
aceite formalmente se o for informalmente
-
O professor, em cada acto educativo, tem que ter engenho para
descobrir a forma mais interessante de expor os conteúdos, para
poder motivar o aluno
Fonte:
http://jornal.publico.pt
Politicamente
Incorreto?

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