TÍTULO:
POR QUE O CONSTRUTIVISMO
AUTOR:
G.
Sastre
DATA DE PUBLICAÇÃO NO {{Sapere Audare}}:
04/08/2002 |

A palavra construtivismo é uma metáfora (como a grande maioria das
palavras que utilizamos) empregada em psicologia e pedagogia, que nos
remete a uma teoria psicológica (originalmente devida a Jean Piaget).
Segundo essa teoria, o verdadeiro conhecimento - aquele que é utilizável -
é fruto de uma elaboração (construção) pessoal, resultado de um processo
interno de pensamento durante o qual o sujeito coordena diferentes noções
entre si, atribuindo-lhes um significado, organizando-as e relacionando-as
com outras anteriores. Esse processo é inalienável e intransferível:
ninguém pode realizá-lo por outra pessoa.
Além de proporcionar novos conhecimentos, uma aprendizagem desse tipo
mobiliza o funcionamento intelectual do indivíduo, facilitando-lhe o
acesso a novas aprendizagens, pois, além do conhecimento em si, ele
aprendeu determinadas estratégias intelectuais para ter acesso a ele, que
lhe serão muito úteis não só em aprendizagens futuras, mas também na
compreensão de situações novas e na proposta e invenção de soluções para
problemas que possa ter na vida, graças à sua capacidade de generalização.
No entanto, nem todas as aprendizagens são deste tipo, nem todas
desencadeiam processos com a mesma intensidade. (...)
A aprendizagem também é um caminho. Podemos abreviá-lo nas páginas de um
livro, transformá-lo em uma aventura ou em uma viagem organizada. Os
resultados serão muito diferentes, conforme o método escolhido, assim como
o nível de prazer ou tédio que experimentamos através dele.
A aprendizagem construtivista é a que mais se parece com uma aventura
intelectual. Mas necessita - pelo menos a princípio - da presença de um
guia que não seja impaciente e que permita que o pensamento de quem
aprende siga o curso imprescindível para converter os conhecimentos em
algo próprio, precisa de um guia que respeite os processos, que não se
empenhe em substituir a pessoa que está aprendendo, antecipando-lhe
resultados e respostas já conhecidos por ela, como esses amigos
bem-intencionados que sempre insistem em contar o final do filme.
Uma das falsas ilusões do ensino (...) é que os estudantes podem passar de
um estado de ignorância para um estado de conhecimento, sobre um tema
concreto, no curto intervalo de tempo de uma sessão de aula. Esta crença,
que simplifica a existência de processos inerentes a toda aprendizagem, é
uma fonte de mal-estar e frustração tanto para o professor quanto para
alunos e alunas, fundamentalmente porque não coincide com a realidade. A
negação da realidade leva facilmente ao fracasso e provoca um sentimento
pessimista de impossibilidade. (...)
Na aprendizagem, como em toda viagem, deve-se conhecer o local de partida
e saber para onde se quer ir; o processo são os passos do caminho, cada um
dos marcos que se atravessa conduz a uma mudança paulatina na qual o tempo
representa um papel importantíssimo. (...) O pensamento transforma-se com
a aprendizagem, e toda transformação pressupõe um processo que requer
determinado tempo. Se prescindirmos dele, a transformação não ocorre, e,
se o sujeito for obrigado, memoriza sem compreender; assim, a aprendizagem
não resulta operativa, pois ele não pode utilizá-la fora do contexto em
que a adquiriu, nem se beneficia das mudanças intelectuais que ocorrem nos
processos construtivos de novos conhecimentos. |
|
Extraído do livro Temas transversais em educação - bases para uma
formação integral de G. Sastre, 1997, ed. Ática. |
|

|